por Laura Mendes
Crepúsculo em Tóquio começa por apresentar-se como um retrato que dir-se-ia difuso: a cidade ofusca uma família cujos membros vagueiam, com ou sem rumo, por entre os seus lugares e paredes, as relações entre si são ténues e o que parece ser um movimento de fuga é constante e persistente. A angústia paira sobre todos nesta família fragmentada, que tem sobre si o peso de uma qualquer solidão ainda por entender.
É a partir daqui que com Ozu partimos, e este filme não é direto na sua proposta: antes, deixa-nos acompanhar um quotidiano lacunar, à descoberta dos problemas que parecem emergir aos poucos.
Tatako, irmã mais velha, refugia-se de um casamento infeliz no cuidado da família; Akiko, irmã mais nova e vulto de uma modernidade contrastante, refugia-se de uma vida inapta e incompreendida entre bares. Ambas circulam sob a guarda de um pai alheado, também ele imbuído numa estrutura societal que privilegia o conformismo, a abjeção e a dissimulação de sentimentos e verdades próprias.
É a partir da gravidez indesejada de Akiko – a par de um companheiro ausente e negligente – e do repentino (re)aparecimento de uma mãe fugida que se vão tecendo as rotas do silêncio, da repressão e do sacrifício próprio. É às escondidas do pai que Tatako e Akiko lidam com o seu sofrimento face às adversidades de uma vida incompleta, ainda que a impetuosidade da última vá desencadeando uma abertura, apesar de tudo falhada e explosiva, na comunicação no seio da família. Akiko surge como o culminar das gerações que lhe antecederam – notório no grande conflito entre a aceitação e a recusa da herança familiar –, daí a necessidade de lhe conceder uma componente trágica e disruptiva, tendo em conta a carga histórica que carrega e aquilo em que Ozu quer que atentemos: os obstáculos que brotam da intimidade ancestral do lar, e de que forma estes se podem relacionar com o presente e, acima de tudo, com o futuro.
A figura da mãe, turva, não obstante tende a chamar mais a atenção em todo o filme. No limbo entre uma amargura arrebatadora e um desprendimento desconcertante, permanece incerta a razão pela qual abandonou a família: ainda que a (o)pressão que recai sobre as mulheres para que sejam exemplares, aguentando uma vida imposta, esteja sempre latente. Dela, restam a vergonha e o arrependimento que lhe não são exclusivos, passando a fazer parte da vida da família que deixou para trás, destacando-se na dificuldade das duas irmãs em refletir sobre o assunto, especialmente em frente ao pai, evitando um confronto potencialmente libertador e esclarecedor.
A presença dos ambientes noturnos, onde reinam o jogo e a bebida, funciona não como demonstração de uma depravação moral que se tem vindo a instituir, mas enquanto parte da perscrutação do que está por detrás dos noctívagos e das suas aventuras, nos bastidores dos refúgios que os filhos da noite encontram.
Simultaneamente um filme de compaixão e cruel realidade – onde a linguagem visual de Ozu tem um papel fundamental no adensamento das noções de distância e melancolia que nele operam –, mais do que um apelo à necessidade de preservação da unidade e estabilidade familiar a todo o custo, Crepúsculo em Tóquio explora as consequências da espiral de fechamento que ameaça, não apenas as relações entre indivíduos, mas toda uma sociedade de máscaras. O seu final, de uma imperturbabilidade excessiva, sugere isso mesmo: a ocultação da dor que persiste mas que resiste a ser expressa.

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