por Laura Mendes
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Entramos, de novo, nos murmúrios de uma cidade
em ebulição, onde a rua é protagonista e a música está por todo o lado,
companheira fiel do agora mais crescido Antoine Doinel. Trabalhador da
Phillips, é na sua independência que descobre o rumo que ficou pendente em Os Quatrocentos Golpes: a circulação nos espaços culturais
e cafés, os concertos e os discos que o ocupam diariamente, juventude feita de
sonho mas também de observação.
Antoine e Colette é um filme que não só vive da busca,
mas também da recordação e, por isso, vai recuperando alguns dos momentos e
peripécias do passado da nossa personagem, atentando no movimento dialético
entre memória e presente, continuidade e transformação, que caracteriza esta
série de filmes.
Neste sentido, devido a um sarilho amoroso,
Doinel é devolvido a um lar – já mais distante do seu, desta vez burguês,
pomposo, mas ainda assim acolhedor – ao qual se vê preso, na tentativa de
conquistar o amor de Colette. Ainda que, à superfície, as diferenças entres
estes novos pais e os seus sejam claras – note-se a permanência da figura do
padrasto –, vamos neles descobrir a mesma distância e frustração, que no final
são inquestionáveis: entre fumo de cigarro e a apatia da televisão, é este mais
um final desencantado para Antoine Doinel, onde a espera e a esperança se
misturam na sua desadequação, na imprevisibilidade de acontecimentos futuros.
Mais experimental e transgressivo do que a
anterior longa da série, permanece a abordagem lacunar para nos mostrar que a
vida – e o amor –, apesar de tudo, avançam em todas as suas contrariedades, sem
deixar que se reduzam um rosto, uma expressão ou uma ação a uma categórica e
linear explicação

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