quinta-feira, 16 de julho de 2026

Antoine e Colette (1962) de François Truffaut



por Laura Mendes


 
Entramos, de novo, nos murmúrios de uma cidade em ebulição, onde a rua é protagonista e a música está por todo o lado, companheira fiel do agora mais crescido Antoine Doinel. Trabalhador da Phillips, é na sua independência que descobre o rumo que ficou pendente em Os Quatrocentos Golpes: a circulação nos espaços culturais e cafés, os concertos e os discos que o ocupam diariamente, juventude feita de sonho mas também de observação. 
 
Antoine e Colette é um filme que não só vive da busca, mas também da recordação e, por isso, vai recuperando alguns dos momentos e peripécias do passado da nossa personagem, atentando no movimento dialético entre memória e presente, continuidade e transformação, que caracteriza esta série de filmes.
 
Neste sentido, devido a um sarilho amoroso, Doinel é devolvido a um lar – já mais distante do seu, desta vez burguês, pomposo, mas ainda assim acolhedor – ao qual se vê preso, na tentativa de conquistar o amor de Colette. Ainda que, à superfície, as diferenças entres estes novos pais e os seus sejam claras – note-se a permanência da figura do padrasto –, vamos neles descobrir a mesma distância e frustração, que no final são inquestionáveis: entre fumo de cigarro e a apatia da televisão, é este mais um final desencantado para Antoine Doinel, onde a espera e a esperança se misturam na sua desadequação, na imprevisibilidade de acontecimentos futuros.
 
Mais experimental e transgressivo do que a anterior longa da série, permanece a abordagem lacunar para nos mostrar que a vida – e o amor –, apesar de tudo, avançam em todas as suas contrariedades, sem deixar que se reduzam um rosto, uma expressão ou uma ação a uma categórica e linear explicação
 

 

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