por Laura Mendes
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Domicílio Conjugal dá continuidade à comédia
social e de costumes que Truffaut tem vindo a explorar na série Antoine Doinel,
desde Beijos Roubados, evidenciando o seu interesse pelo que
existe de estranho e incomum na comicidade do quotidiano. Tomando partido do
potencial satírico do casal – sem deixar de priorizar, como veremos, a
paixão e sedução que se deixam antever na sequência inicial, onde seguimos as
pernas de Claude Jade (Christine) – é também na profundidade dos conflitos
possíveis que o cineasta nos situa, sem deixar de os aligeirar, com um toque de
entretenimento.
Tal como ouvimos dizer um velho
conhecido, música e mulheres burguesas sempre foram do agrado de Doinel: e
ei-lo agora casado com Christine, violinista que já conhecemos e à qual pouco
teremos a apontar, visto que a vida dos dois, numa possível primeira parte
deste filme, se desenrola sem preocupações. Sempre escapando às fórmulas pelas
quais todos à sua volta se parecem reger, o nosso protagonista deambula entre
conversas com vizinhos e uma busca química pelo Vermelho Absoluto: sintomas
tanto da sua idiossincrasia como da sua tendência para o falhanço.
E é exatamente após o murchar de umas
flores às suas mãos que a vida do casal inicia uma viagem atribulada. O
surgimento de uma mulher de outro mundo – essa quimera que se vem a
revelar mais uma alucinação masculina circunstancial (como o parecem ser todas
as paixões de Antoine) do que uma evidência constatável – faz com que o
mesmo se perca não se sabe bem em quê: fuga da convenção familiar, do
aborrecimento do trabalho, apesar de afirmar, entre gestos aparatosos, que
nunca se sente aborrecido? Mais do que isso, é esta uma aventura que nos fala
da fortuitidade e fugacidade das aparências, como também o demonstra o
misterioso Le pseudo étrangleur, que atravessa quase todo o filme, até o
seu segredo ser revelado através de um programa de televisão, lembrando que tendemos
a permitir que a nossa imaginação contamine o mundo real, sem nos apercebermos de
que o mesmo já lá está antes de o pensarmos.
Antoine Doinel, sonhador implacável,
cuja inocência noutros filmes, notada aqui, se dilui num escapismo inevitável e
numa maturidade alheada, é incapaz de uma formação unívoca, de traçar um
caminho em linha reta. Mas não nos enganemos com a sua singularidade:
espreitando para o vizinho do lado, talvez encontremos nele uma versão de nós
mais fiel que a nossa própria. É para isto que nos atenta o final, recuperando
as palavras do homem que interpela Christine nos últimos minutos de Beijos
Roubados: para a universalidade da vida, a circularidade das suas
peripécias, que não se reduzem a uma só vivência.

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