domingo, 25 de outubro de 2026

476ª sessão: dia 27 de Outubro (terça-feira), às 21h30


Cinema de Apichatpong Weerasethakul, esta terça com o Lucky Star – Cineclube de Braga

O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de outubro ao tema lançado pelos Encontros da Ima-gem. Intitulado “Territórios do Real e do Imaginário: O Cinema como Comunidade Imaginada”, o ciclo contempla oito filmes, cujas exibições acontecem às terças-feiras, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
O tema deste ano foca-se na “comunidade imaginada”, mas sob uma perspectiva não antropocêntrica, abraçando outras cosmologias culturais e alargando-se a outros seres sencientes e não sencientes.

Hoje, o ciclo encerra com o filme “O Tio Boonmee, Que Se Lembra das Suas Vidas Anteriores” (2010), do realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul.
 
Diagnosticado com insuficiência renal progressiva, Boonmee retira-se para uma casa de campo para viver os seus últimos dias junto dos que ama. É nesse cenário bucólico que o quotidiano é interrompido pelo sobrenatural: o fantasma da mulher falecida manifesta-se e o filho desaparecido regressa sob a forma de um espírito da floresta. Face à iminência do fim, a família inicia uma jornada mística através da selva em direcção a uma gruta primordial, o berço da primeira encarnação de Boonmee. Sustentado pela cosmologia budista e pela pre-missa da transmigração da alma, Weerasethakul tece uma obra-prima sensorial onde as barreiras entre o visível e o invisível, o humano e o animal, se dissolvem por completo.

Nascido em Banguecoque, em 1970, Apichatpong Weerasethakul é uma das figuras de referência do cinema contemporâneo tailandês. A sua obra destaca-se pelas narrativas e imagética não convencio-nais, cruzando a memória histórica e a política com a espiritualidade e a natureza. Entre os seus filmes mais marcantes estão “Syndromes and a Century” (2006), “Cemetery of Splendour” (2015) e “Tropical Malady” (2004), este último distinguido com o Prémio do Júri no Festival de Cannes. Em 2010, fez história ao vencer a Palma de Ouro com “O Tio Boonmee, Que Se Lembra das Suas Vidas Anteriores”. Mais tarde, “Memória” (2021), protagonizado por Tilda Swinton, garantiu-lhe novamente o Prémio do Júri em Cannes

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!
 


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

As Quatro Voltas (2010) de Michelangelo Frammartino



por Laura Mendes
 
São várias as vidas que se desenrolam perante nós: as da natureza pura e soberana, do qual fazem parte o céu, as montanhas imensas; e as dos seus habitantes, os humanos que reorganizam o território, nele criando os seus próprios rituais e rotinas, com a ajuda de outros animais. Vidas complementares mas ainda assim distintas, separadas pela sua própria evolução, separação essa que não será eterna, tampouco brutal ou decisiva. O pastor guia o seu rebanho, o cão segue o seu pastor, individuais mas coletivos, juntam-se na necessidade de ser.
 
Partindo da ideia pitagórica da transmigração, movimento de almas entre corpos num quadro de quatro reinos (humano, animal, vegetal, mineral), Frammartino elabora uma história de confluência e continuidade em quatro tempos, feitos um, principalmente através do uso da montagem. A morte deixa de ser um encerramento, abrindo espaço para o surgimento de outras camadas existenciais. A fragilidade do pequeno animal acabado de nascer é a mesma da do velho que treme nos seus momentos finais, assim como a árvore que cai e é queimada é aquela que, mais tarde, se divide para aquecer as casas desta aldeia em Calábria.
 
Os ciclos de decomposição não estão impregnados de uma seriedade derrotista ou desanimada, mas de uma fluidez encantada, mas onde o avanço da natureza selvagem sobre tudo se faz sentir – lembremos a ocupação da casa pelo rebanho, em que a imagem de uma cabra em cima da mesa nos fica na memória.
 
A densidade das imagens é enaltecida pela do som sem palavras. A palavra humana é substituída pelas necessidades do dia, pelo diálogo com a vida não-humana. Teremos de encontrar na vastidão das imagens os pormenores de cada lugar, de cada gesto, de cada movimento.
 
As quatro voltas são os caminhos que se percorrem numa vida em comunidade e em comunhão com outros seres, com a possibilidade de nos habitarmos uns aos outros, uns nos outros.
 
 
 


O Que Brotou (2025) de Bruno D'Azar



por António Cruz Mendes
 
As primeiras grandes cidades surgiram no 3.º milénio a.C., mas, até ao século XIX, a grande maioria da população mundial vivia em zonas rurais e dedicava-se à agricultura. Com a Revolução Industrial, intensificou-se o êxodo rural, que levou milhões de pessoas a abandonar o campo para se instalarem nas cidades. Actualmente, a população urbana ultrapassa a população rural e, por todo o mundo, multiplicaram-se enormes cidades, habitadas por milhões de pessoas. Perante esta crescente urbanização, questiona-se frequentemente se a relação do ser humano com a natureza não estará a enfraquecer-se nestas verdadeiras «selvas de cimento».
 
Não me parece arriscado afirmar que a grande maioria dos cidadãos reconhece que a qualidade de vida numa cidade passa pela existência de uma relação equilibrada entre espaços construídos e espaços verdes. Nomeadamente, pela criação de grandes parques urbanos onde as pessoas possam refugiar-se, pelo menos durante algumas horas, do movimento e do ruído, do ritmo da vida nas grandes metrópoles.
 
O que brotou fala-nos de um exemplo singular de intervenção cívica no espaço urbano. Não se trata de decidir sobre as grandes opções urbanísticas que, em última análise são da responsabilidade dos poderes públicos. Evidentemente, estes devem ouvir as populações e apoiar-se na competência de geógrafos, urbanistas e arquitectos. Mas, o filme de Bruno D’Azar documenta antes aquilo que alguém designou já como uma “jardinagem de guerrilha”. Ou seja, numa intervenção sobre os pequenos espaços verdes, entalados entre prédios e ruas, tantas vezes descurados pelos municípios, e pela sua recuperação por grupos de voluntários que tomam a iniciativa de os limparem e aí plantarem todo o tipo de plantas. Nuno Prates, um jardineiro amador, desde muito novo fascinado pela vida das plantas é o protagonista do filme e o principal dinamizador dessas acções. Dir-se-ia tratar-se de uma intervenção “selvagem”, pois opta por ignorar os morosos processos burocráticos por que passaria a sua autorização e realiza-se na ausência de um plano. Cada um traz as plantas que tem e de que gosta.
 
Com o apoio dos vizinhos – no filme, há apenas uma voz discordante – brotam assim pequenas selvas vegetais nos interstícios das novas “selvas de cimento”
 
 


 

domingo, 18 de outubro de 2026

475ª sessão: dia 20 de Outubro (terça-feira), às 21h30


Sessão dupla de cinema com presença do realizador e protagonista, esta semana com o Lucky Star – Cineclube de Braga

O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de outubro ao tema lançado pelos Encontros da Ima-gem. Intitulado “Territórios do Real e do Imaginário: O Cinema como Comunidade Imaginada”; o ciclo contempla oito filmes, cujas exibições acontecem às terças-feiras, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30. O tema deste ano foca-se na “comunidade imaginada”, mas sob uma perspectiva não antropocêntrica, abraçando outras cosmologias culturais e alargando-se a outros seres sencientes e não sencientes.

Na próxima terça-feira, o ciclo prossegue com uma curta e uma longa-metragem. A sessão abre com “O Que Brotou” (2025), de Bruno D’Azar, que retrata a criação de “territórios encantados” por cidadãos comuns em jardins abandonados de Lisboa, seguindo-se o clássico “Le Quattro Volte” (2010), de Michelangelo Frammartino. 

No filme “O que Brotou” (2025), um jardineiro em Lisboa, insatisfeito com a negligência nos espaços públicos, junta uma comunidade de cidadãos preocupados para intervir directamente e plantar, dando uma vida nova e mais verde à cidade. Devolvendo os espaços verdes e de comunhão aos cidadãos da polis, o Demos põe em prática o Kratos que detém por direito, ensaiando uma micro-política de “democracia radical” que vai além da representatividade legislativa. O jardineiro Nuno Prates e o realiza-dor Bruno D’Azar estarão presentes na sessão para uma conversa com o público.

O filme “As Quatro Voltas” (2010), do realizador italiano Michelangelo Frammartino, é já um clássico do cinema, que nos transporta até uma isolada aldeia montanhosa na Calábria. A narrativa acompanha os últimos dias de um velho pastor local, inserido num ecossistema onde a Natureza anula qualquer hierarquia biológica. Baseado na ideia de que cada elemento partilha uma ligação espiritual contínua, o enredo ilustra a transmigração da alma ao longo de quatro ciclos existenciais distintos, ou em “quatro voltas”, promovendo uma união poética entre o homem, os animais e a própria flora local. O filme estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, em 2010, onde recebeu o prémio Europa Cinemas para Melhor Filme Europeu.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça-feira!
 


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

AMOR FATI (2020) de Cláudia Varejão



por António Cruz Mendes
 
A filosofia estoica, tal como é desenvolvida nas obras de Epicteto, Séneca e Marco Aurélio, particularmente influente no mundo romano, assenta numa concepção do universo marcada por um forte determinismo: todos os acontecimentos se integram numa ordem causal necessária e a felicidade depende da nossa capacidade de distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não podemos controlar, aceitando este último sem perturbação. Esta ideia encontra um paralelo no conceito nietzschiano de amor fati, ou «amor ao destino», desenvolvido em A Gaia Ciência. Para Nietzsche, importa afirmar a vida na sua totalidade, com tudo aquilo que ela comporta, das alegrias às tristezas, da beleza à fealdade, sem ressentimento perante o passado, sem permitir que ela seja envenenada pelo desejo de que a existência possa ocorrer de outra forma. O amor fati não significa considerar a realidade perfeita ou renunciar à acção, mas aprender a afirmar a existência tal como ela é, incluindo os seus aspectos mais dolorosos e contraditórios.
 
No filme de Cláudia Varejão, essa ideia de aceitação da vida na sua plenitude está presente na diversidade das relações amorosas retratadas. Relações que enlaçam irmãs, casais, famílias ou que se estabelecem entre os animais e os seus donos. Nesse mundo tão variado, há pessoas que partilham hábitos, gostos, interesses, e que, de tão próximas que são, acabam por se parecerem. Amor Fati inicia-se com uma legenda onde se refere a passagem de O Banquete, de Platão, onde Aristófanes afirma a existência de um ser andrógino primordial que os deuses dividiram em duas metades: “Cada um de nós não passa de uma face da moeda, divididos, como estamos, em metades. E é a sua própria metade que cada um infatigavelmente procura. Sempre que um amante encontra essa mesma metade que lhe pertence, eis que de súbito o assalta uma estranha impressão de amizade, de parentesco, de amor, a tal ponto que já não aceita separar-se dela um instante que seja”.
 
O filme de Cláudia Varejão resulta de uma pesquisa que teve início nas redes sociais e que levou a realizadora a percorrer diferentes pontos do país, ao encontro de pares unidos por vínculos profundos, tão semelhantes entre si e, ao mesmo tempo, tão diferentes uns dos outros.
 
As sequências finais – em que uma mulher idosa se despede da irmã falecida, que a acompanhou ao longo de toda a vida, enquanto outra mulher dá à luz uma criança – remetem-nos para a ideia nietzschiana do eterno retorno. Uma vida chega ao fim e, simultaneamente, uma nova vida começa. Como reagiríamos, então, se um demónio nos condenasse a reviver, eternamente, todas as experiências da nossa existência?
 
Só podíamos ficar-lhe gratos. O amor fati implica a aceitação e a afirmação da vida na sua diversidade e totalidade. Talvez seja esse o desafio que o filme nos deixa: aprender a amar a vida não apesar de tudo o que nela acontece, mas também por tudo aquilo que a constitui.
 
 
 

domingo, 11 de outubro de 2026

473 e 474ª sessão: dia 13 e 17 de Outubro (terça-feira e sábado), às 21h30


Amor Fati e Undine, esta semana com o Lucky Star – Cineclube de Braga


O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de outubro ao tema lançado pelos Encontros da Imagem. Intitulado “Territórios do Real e do Imaginário: O Cinema como Comunidade Imaginada”; o ciclo contempla oito filmes, cujas exibições acontecem às terças-feiras, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30. O tema deste ano foca-se na “comunidade imaginada”, mas sob uma perspectiva não antropocêntrica, abraçando outras cosmologias culturais e alargando-se a outros seres sencientes e não sencientes. O Ciclo “Fora de Portas” também continua em outubro.
 
Na próxima terça-feira, o ciclo continua com “Amor Fati” (2020), de Cláudia Varejão. A realizadora portuguesa cruza documentário, ficção e artes visuais. O filme centra-se nas semelhanças físicas, gestos e hábitos que aproximam casais, amigos, família e animais. Inspirado também no mito das metades, narrado por Aristófanes no Banquete, de Platão, “Amor Fati” reflecte sobre a intimidade, a identidade e o desejo de união. Em 2020, recebeu três prémios nos Caminhos do Cinema Português: Imprensa CISION, Melhor Montagem e Melhor Som.


No sábado, 17 de outubro, às 21h30, o Fora de Portas regressa, desta vez na Praça das Fontaínhas, junto à Fonte do Mundo, com “Undine” (2020), do realizador alemão Christian Petzold. “Undine” transporta o mito da mulher das águas para a Berlim contemporânea. Protagonizado por Paula Beer e Franz Rogowski, acompanha uma historiadora que, após ser abandonada pelo companheiro, se vê confronta-da com uma antiga lenda segundo a qual a mulher das águas tem de matar o homem que a trai. O encontro com Christoph, um mergulhador industrial, faz emergir a dimensão sobrenatural da história.

Christian Petzold é uma das figuras centrais da chamada Escola de Berlim, movimento que se distingue pela atenção à realidade social e política. Entre os seus filmes destacam-se “Barbara” (2012) e “Phoenix” (2014). Apresentado na competição oficial do Festival de Berlim de 2020, “Undine” valeu a Paula Beer o Urso de Prata para Melhor Actriz e recebeu o prémio FIPRESCI da crítica internacional.


 
 
As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. O Fora de Portas tem o apoio da Câmara Municipal de Braga e da Faz Cultura. As sessões ocorrem às 21h30 em locais emblemáticos do concelho e a entrada é livre.
 
 
Até terça e sábado!
 





quinta-feira, 8 de outubro de 2026

FORDLÂNDIA PANACEA (2025) de Susana Sousa Dias e CANTOS DA METAMORFOSE (2024) de Ainá Xisto


por Jessica Sérgio Ferreiro
 
Depois de explorarmos os “corpos perdidos” esculpidos nos objectos de arte do Benim, viajamos até Fordlândia Panacea (2025), de Susana Sousa Dias, obra onde o cinema torna visíveis dimensões silenciadas da História. O filme revela, através da imagem de arquivo e imagens aéreas e travellings horizontais, captadas pela realizadora, uma continuidade indelével entre passado e presente, num território onde, como descreve a sua premissa, “a espectralidade e a vida se entrelaçam”. Se no filme Dahomey, de Mati Diop, testemunhamos as fracturas do colonialismo museológico, aqui confrontamo-nos com a arqueologia colonial, capitalista e extractivista, patente nas ruínas da cidade idealizada por Henry Ford na selva da Amazónia. Dando continuidade às reflexões sobre o passado, a memória e o apagamento – iniciadas na edição de 2024 dos Encontros da Imagem com a exibição da sua prequela, Fordlândia Malaise (2019) –, este novo filme destrói o mito ocidental da “cidade-fantasma”. A obra rompe a narrativa colonial para revelar um território habitado, onde a força indomável da selva resistiu ao extractivismo (praga destruiu a plantação de seringueiras) e onde uma comunidade viva e activa, de cerca de de 1.200 habitantes, resgata esse espaço, transformando as ruínas da história no seu próprio presente, alertando-nos, contudo, que o neocolonialismo prossegue.
 
Embora o projecto do plantio massivo de seringueiras para a produção de borracha de Henry Ford tenha falhado no século passado (1928-1945), a região, localizada nas margens do Rio Tapajós, continua a ser palco de um intenso ciclo de extractivismo predatório global. O garimpo de ouro e a extracção de minerais em grande escala (muitas vezes ilegal) recorre ao uso massivo de mercúrio, o que altera a cor das águas e contamina o rio e o peixe que alimenta a população local. Este ouro é exportado e refinado para bancos e indústrias em países como a Suíça e os Estados Unidos. A exploração de gesso abastece a construção civil nacional, enquanto as extensas plantações de soja avançam sobre a floresta amazónica, utilizando agrotóxicos que poluem a bacia hidrográfica. A soja é exportada através de grandes portos multinacionais (como a Cargill, na vizinha Santarém) para servir de ração animal na China e na Europa.
 
Este ciclo moderno evoca a ironia do título do filme (Panacea): a riqueza da terra é extraída para abastecer o capitalismo internacional, mas não traz progresso nem infraestruturas à cidade, como nos é narrado repetidamente por um habitante da cidade. O capitaloceno segue destruindo a vida. No filme são-nos, ainda, revelados vestígios arqueológicos milenares de civilizações indígenas que estavam escondidos sob as ruínas da fábrica e que Ford construiu estrategicamente para ocultar uma cultura anterior e evitar a protecção do território cobiçado. Hoje, povos nativos da bacia do Tapajós, como os Munduruku e outros grupos locais de Aveiro, continuam a viver na região e lideram a luta contra a destruição ambiental do seu território ancestral. Por fim, o antigo cemitério local, com as suas cruzes de cimento desgastadas pelo rio, serve como memorial visual deste custo humano, abrigando os corpos de milhares de operários brasileiros, caboclos e indígenas que adoeceram e morreram ao tentar erguer a utopia industrial americana.
 
Cantos da Metamorfose Ou Aquela Vez Em Que Eu Encarnei Como Boto (2024) de Ainá Xisto, é um filme experimental e poético que relaciona a experiência da realizadora com a memória ancestral de violência sistémica e arquissecular contra as mulheres, jovens e crianças, transfigurada na imagem folclórica do “boto”. Tradicionalmente associada a histórias de sedução e usada para encobrir ou suavizar relatos de abuso sexual, incestos e gravidezes indesejadas, a figura encantada do boto-cor-de-rosa (parecido com o golfinho) surge aqui despida de romantismo, revelando uma realidade violenta através da narrativa mítica que a realizadora redirecciona para desvelar o trauma. O filme associa o folclore à memória do trauma, à doença (corpo e mente) e à dificuldade de gerar vida, propondo, através da relação com o rio, a natureza e a medicina ancestral indígena, processos de cura e de transformação que se alinham com as cosmologias de coabitação mais-que-humanas.
 
Ao inverter esta narrativa, o Boto deixa de ser o agressor e passa a ser um "portal" para a memória colectiva das meninas e mulheres da Amazónia. A narradora funde-se com a criatura mítica e com a água para digerir a herança violenta do trauma em torno do abuso sexual. Essa dor psicológica manifesta-se fisicamente no corpo da própria realizadora através de uma fístula perianal, um bloqueio físico próximo dos órgãos reprodutores que a impedia de engravidar. A cura proposta no filme ultrapassa os limites da medicina ocidental. Embora a cirurgia física aconteça sob anestesia, funcionando como uma “morte” clínica e uma viagem "abissal" (como um afogamento), a verdadeira regeneração é espiritual, possível através de outra cosmologia cultural. É o curandeiro indígena Pajé Natto Tupinambá quem trata a raiz do problema ao diagnosticar um “útero assustado”, órgão que guardava o medo e o peso histórico de gerações de mulheres. Ao recorrer à medicina tradicional e xamânica para acalmar o útero e reconectar a realizadora com a matéria primordial da terra e da natureza, o ciclo de violência é finalmente quebrado, restabelecendo o seu fluxo vital e criativo. O filme recorre à narração e a uma conversa passada entre a realizadora e avó, através das quais o abuso sexual sofrido é revelado, bem como a sua a relação com a lenda do Boto. Em suma, o cinema surge como o meio através do qual a realizadora processa o seu trauma. Ao libertar-se, convida, no final, os espectadores a quebrarem o silêncio e a procurarem nos outros/as o apoio necessário.
 
Em ambos os filmes, a natureza é retratada não apenas como um território violentado, mas também como uma fonte inesgotável de força, resistência e amor.