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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Casa de Lava (1994) de Pedro Costa



por Carlos Melo Ferreira

MELANCOLIA

Um Leão que morre/não morre, um Leão cabo-verdiano atrás de quem vai uma Mariana, enfermeira (Inês de Medeiros), de Lisboa para as ilhas de Cabo-Verde. 

Desconhecedora das estórias locais, dos enredos tecidos entre as pessoas, brancas e negras, Mariana vai progressivamente acedendo ao conhecimento do que antes apenas entrevira da vida: fogo e cinzas. 

Este, penso, o primeiro grande mérito de Pedro Costa, nesta sua segunda longa-metragem: identificar-nos com a protagonista que, chegada a um local que desconhece, aos poucos vai entrando no meio, num percurso feito de descobertas, frequentemente dolorosas. 

No entanto, se fosse só isso, apesar de tudo, demasiado fácil, demasiado convencional. Com grande sageza, o cineasta faz com que, a partir da recuperação de Leão, tudo se volta a baralhar de novo, tornando difuso, incerto o saber de Mariana, assim devolvida ao mistério da terra e das gentes. 

Pedro Costa, que já dera muito boa conta de si no seu primeiro filme, O Sangue, de 1990, volta a surpreender-nos muito agradavelmente, de novo também ao nível da construção cinematográfica. 

Voltadas para dentro, para si mesmas, como Leão, as personagens negras e brancas de Casa de Lava, vivem uma insularidade escassamente comunicante com o exterior, de que, todavia, dependem (de onde uns chegam, para onde outros partem). 

Deste modo, assume visibilidade uma dupla referência: a do passado, a História a partir de estórias pessoais, desde o tempo da colonização Portuguesa (a memória do campo do Tarrafal), e a do Portugal distante, mito e miragem de um futuro melhor para os elementos da população local. 

Também neste aspecto Mariana serve de articulador narrativo, porque ela é, porventura juntamente com Leão, a personagem que sabe sobre Sacavém. 

O cineasta assume plenamente, em termos visuais, o fechamento e as adaptações, as mutações das personagens. Por isso transforma Casa de Lava num filme secreto e intimo sobre a memória e o tempo, a partir da ideia, sempre presente, de distância física, de terras do fim do mundo numa ilha, a do Fogo, sobre um vulcão. 

Esse trabalho sobre o tempo na narrativa encontra equivalente perfeitamente á altura no espaço sobre o espaço e o tempo em termos visuais. 

A geometria dos planos é, neste filme, sempre rigorosamente, definida, dos limites do quadro para as linhas horizontais, verticais e diagonais que atravessam o plano. Em profundidade as personagens movem-se como se sugadas por uma vertigem de espaço-tempo, que é também ela vulcânica e que os movimentos laterais no plano não anulam. 

O tempo de cada plano, que tinha sido das coisas mais surpreendentes de O Sangue, volta a surgir como tradução de uma duração interior para as personagens, que se transfere para o espectador. Os planos mais longos duram o que precisam de durar, e a transição de um plano para o outro, por contraste ou por semelhança, é feita por uma montagem estruturante que, por isso mesmo, assume a função de articulador fílmico central. 

Mas nesse espaço e nesse tempo fílmicos sente-se, para além do mais, o ser físico, carnal, como o ser interior, fantomático das personagens, o que confere ao filme uma vibração peculiar, singularmente emotiva. 

Se Pedro Costa se sai bem deste filme é também porque nele lida com muito acerto com os actores. Em especial o seu trabalho com Inês de Medeiros chega, por fulgurações sucessivas, a atingir o sublime, e, à medida que o filme se aproxima do seu termo, o rosto dela, sem deixar de ser o seu, como que reflecte ou revela rostos femininos dos que mais marcaram a História do Cinema (Anna Magnani, Ingrid Bergman, entre outras, nos filmes de Rosselini, nomeadamente – por demasiado literal, a citação chega a ser excessiva…). Mérito de Inês? Sem dúvida. Mas também, seguramente, mérito de Pedro. 

Com este Pedro e esta Inês, juntamente com outros e outras que andam por aí à solta, talvez seja mais que uma lufada de ar fresco que atravessa hoje o cinema Português. 

in «Cinema» nº 24, Agosto-Outubro de 1995

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Cavalo Dinheiro (2014) de Pedro Costa



por José Oliveira

The Shock of Each Moment of Still Being Alive

See, not enough directors recognize that when you say “roll ‘em”, this happens. [He makes an aperture shape by unclenching his fist.] That’s the lens doing this. And what it’s doing when you say “roll ‘em”, you’re opening the eyes of the children in China, Russia, South America, every time you say “roll ‘em”, you’re opening the eyes of a billion people around the world. 

Jerry Lewis, em entrevista para Chris Fujiwara 

Infelizmente os estudos cinematográficos universitários hoje, neste momento levados a cabo por sociólogos sem grande engajamento emocional com a arte, destroem-se sozinhos nos desvios teóricos, linguísticos e psicanalíticos porque eles não têm outra realidade além deles mesmos. Como a semiologia, que jamais pôde encontrar os signos, eles não sabem que dados reunir e classificar, nem mesmo sabem o que poderia constituir-se como dados, porque esses dados são poesia, não prosa - únicos, não comuns. Os estudos culturais tratam necessariamente os filmes (e as pessoas) como propaganda, escolha que aniquila a experiência necessária para validar a ciência. A vida é reduzida ao reflexo do Narcisismo. 

Tag Gallagher 

“The main thing about directing is: photograph the people’s eyes.” Há muito tempo que um filme não alcançava de modo tão expressivo e comovente a lacónica ambição de John Ford como o faz Cavalo Dinheiro, último testemunho da longa relação de Pedro Costa com Ventura e tantos outros habitantes do que eram (são) as Fontainhas. Ainda antes de todas as sombras e fantasmagorias, túneis e catacumbas, ligações subterrâneas e austeras salas carregadas de asséptico fedor a doença e morte flanquearam as eternas filiações a Jacques Tourneur ou a Fritz Lang, ao cosmos fácil do Cinema e dos raccords, o que mais peso exerce sobre o ecrã (o que se destaca pelas composições estonteantes aqui na terra que o abarca) e o que mais brilha na escuridão são os olhos que estão nos rostos dessas pessoas, logo a sua presença humana, que é o cerne deste tomo e da restante obra de Costa. Olhos húmidos, assustados, marejados de terror, prontos para um sorriso como aquele que Vitalina Varela retribui a Ventura por uma carta a ela dedicada. Sorriso que mais uma vez corta toda a treva e a sua catadura feroz. Um dia, quando se puder ver estes filmes ainda a outro nível, libertos do impressionismo e da conotação imediata, vai-se perceber que todo o empenho formal e estético apenas está ao serviço e se interessa acima de tudo pelo género humano. Género cada vez mais numeroso e abundante, família espalhada e próxima, numa propagação geral que extravasa todo o território e toda a fronteira rumo a um sentido de comunidade que utópico ou não, saudoso ou realista, se cria e desenvolve pelos mais inesperados caminhos, obstinado e natural. 

A um tempo extremamente romanesco - histórias e vontades e pulsões - e obcecado como que o realizador uma vez chamou de “História ligada às fontes” - a fidelidade, a implacabilidade dos factos e a conclusão - o movimento descritível vai das descidas iniciais de Ventura para constatar e enfrentar o seu estado actual, perfura para lá do seu passado que é a herança e a carga de todos nós, jamais esquece os seus filhos, as mulheres e o afecto, para terminar com uma saída que pode ser uma libertação. E é o cúmulo do classicismo como os grandes Hollywoodianos o conceberam. Numa decupagem que retira o essencial de cada evento, a máxima intensidade, detalhe e finalmente o indiscritível, o exemplo superior de toda esta arte enterrada encontra-se na apresentação dos companheiros que frente à cama de hospital juram para a vida e para a morte a protecção ao seu Pai. Um a um, esse batalhão estóico é recortado e individualizado contra o seu fundo para ser aglutinado num “um por todos e todos por um” que é uma das máximas de Cavalo Dinheiro. The Big Sky, Monkey Business e Gentlemen Prefer Blondes foram realizados de estocada por Howard Hawks e marcaram o zénite, o absoluto da arte unificadora, centrada e sintética que sempre perseguiu. Um pouco depois do habitual teve de rodear-se das pirâmides, dos túmulos e dos hieróglifos Egípcios para se abandonar em durações agónicas e achar outro reverso do tempo e dos conflitos pela estranheza do Scope. O que se passou na preparação de Land of the Pharaohs bem como a posterior convalescença nunca o contou a ninguém. Já pelo O Sangue Pedro Costa estava atormentado por tais durações, essa frontalidade aterradora que parece não cessar, difusão ancestral que o levou a atingir os confins das distensões e das miragens, das visões perpétuas e fugidias das várias faces da morte. Em Casa de Lava e chegado às Fontainhas filmou cada pessoa e cada interacção como quem filma massas humanas, para agora regressar aos caminhos que Hawks abandonou sem aviso e concentrar-se no desbravar lacónico do caminho. Em direcção a um esquecimento que agoniza ele mesmo em flashes rumo a uma cura. Para advir a vibração do par. O par. Como disse Gaston Bachelard, a necessidade dos dois. Uma nova beleza (que se perfaz à nova resolução das fotografias e das texturas pelo vídeo) que afasta as brumas que largaram do filme iniciático para apelar a um tempo e a uma nitidez futuras, medida e ambição vital deste ritmo tão procurado. Onde o plano final promete todos os duelos. 

Vozes sem corpo, corpos mudos, longos monólogos interiores, berros em suplício, sussurros ternos e precipitados. Som que não bate com a imagem, composições cheias de ecos e reverberações desequilibradas, paroxismos irracionais. E assim, desde as fotografias de Jacob Riis ligadas em panorâmica às deambulações sempre no absoluto presente de Ventura, a postura e a poética irmanam-se - tudo é figurável, do céu ao inferno, se a distância e a salvaguarda do Humano for entendida como questão capital. E a intrincada construção interna e íntima que comporta todas essas e tantas outras profusões pelos longos interstícios de uma jornada que extravasa - como todas as obras que conquistam a transfiguração - o 25 de Abril e Portugal para se instalar nas sendas da eternidade, volve-se límpida e inteira no seu desejo de âmago e emoção. Não a tradicional emoçãozinha à custa de um aproveitamento rasteiro do mais superficial, mas chegando lá por um desvelamento paciente e profundo que só pode advir e concretizar-se na revelação, vislumbre do instante da verdade. Como se as labaredas, as fragâncias e os pingos do tempo da primeira e da segunda parte que lemos em The Sound and the Fury de William Faulkner se fundissem com a luminosa terceira para uma emoção realmente nova que é a visão e congregação plena concretizada em Cavalo Dinheiro - e aqui nem o itálico auxiliador de Faulkner encarreira ou emancipa, a não ser que sejam as tais catacumbas ainda existentes a grande abstracção sobre a cronologia e a sequência. Pelos escombros de antigas fábricas onde as carnes e os ossos se gastaram, na brancura clínica da oficiosa cura ou dentro do elevador que é máquina de tempo antes de caixa-de-ressonância de cadáveres, largado à nora nas labirínticas florestas que nos jornais de hoje só servem para exaltações e texto bonito (diálogos do filme), ou naquela morna que mais do que número musical é a rima perfeita com Riis no companheirismo que redime o perigo do patamar superior do artista, cabe tudo o que deve ser captado com o maior dos empenhos, gastando todo o sangue se preciso for. 

Máximo despojamento onde planas molduras à luz vectorizam perfis à maneira expressionista de Mabuse. Máquinas de guerra, soldados embestados, possantes motorizadas que perfuram a noite, num demencial caleidoscópio sugestivo tornado extremamente físico nessa poderosa concentração do Agora. Dois seres contra o incomensurável - Ventura e Vitalina iluminados pela sua ternura mais do que pelas fugazes luzes do edifício atrás deles - e sempre o fulgor bruxuleante da intimidade e da juventude eterna - Ventura já no colo da mulher quando a câmara desce e o tremor amaina. Nesse momento ténue e absoluto podemos tocar a matéria do Cinema e a matéria do Homem como raras vezes, podemos como que tocar a massa de que somos feitos e a nossa sensibilidade a romper da escuridão para a luz e da luz para o buraco, morfologias em debate e em acordo, saindo vencedor o amor. Tocar mesmo, com os olhos, a cabeça, o estômago... Raramente tal palpabilidade e o arrepio assomaram e se centraram no meio digital para este conquistar como nunca a propulsão omnívora que a película arrebatou no século XX. Gestação, nascimento, desejo, primeira idade, pioneirismo, dores de crescimento, aurora, desbravamento, foram os extraordinários vislumbres das conquistas pós-Ossos, agora tudo já cresceu e se tornou sabido e ainda mais sedento. Amor, finalmente o que puxa o acorrentado e o condenado do mundo dos mortos para o dos vivos. O que o faz ver a luz e dos baixos o eleva à claridade. Dos túneis ao sol que ainda acolhe e rasga carreiro. Atravessar os possíveis espelhos da condição e apelar à força inelutável da verdade. Tanta dor e tanto tormento, mágoa e massacre, e não se pode deixar de constatar que Ventura e os Venturas saem vencedores. A extraordinária dignidade, altivez e firmeza com que segue em frente. A verdade superior e o único triunfo que importa. Falo outra vez da sequência derradeira e da promessa que os vencidos vencerão. O mais belo elo entre amor e violência, facas e música e coragem que o cinema nos deu. Cuspes para o chão e a sopa levada à boca do próximo. 

Cavalo Dinheiro é aquecido mais do que todos pelo sopro do vento das árvores tão desaproveitado como o interesse pelo olhar; não tendo medo de figurar as manobras da carimbada grande História (e a sua tragédia), olhando abismado o que tanto espectáculo mediático banalizou. A permanência no coração do Quarto da Vanda, e a violência do absurdo num Apocalypse Now por outros rios e que possui a mesma força catártica do conhecido. Do mesmo modo como o filme de Coppola se liberta das obrigações e do tema do Vietname para alcançar outros voos completamente abstractos, arejados, logo delirantes e em alguns momentos solitários como os desamparos dos filmes noir, também Costa não mete pelos caminhos principais das revoluções, dos seus foguetes ou do balanço, mesmo que vingue e relembre sem freios, mas vai muito mais além nos seus horizontes e nas suas linhas longínquas, rumorejantes, sem data nem lugar. O localizado com o universal, e a possibilidade de harmonia no caos, na guerra, no degredo desalmado; Sam Fuller mandou calar tudo em China Gate, inclusive o aparente realismo bélico, para pôr Nat ‘King’ Cole a cantar para um miúdo largado às bombas que insistia em não largar o seu cãozinho companheiro. E o irrealismo virava-se pungente regresso ao aconchego do berço, mundo maravilhoso da inocência, seguimento do melhor amigo, ordem natural antes da corrupção e da mancha. Neste reajustamento cósmico que força e extravasa todas as leis, a par do milagre e da serenidade do pleno curso, atingimos a mais ousada das reposições. Os Homens por esta terra e a sua perdição, essa ruína da nossa ambição. Mas jamais a desistência, e é outra das coisas que afasta completamente a obra de Costa de muitos realizadores ou artistas ou intelectuais do culto inteligente do derrotismo, do profissionalismo inútil da solidão, do minado prazer das margens ou do orgulho pela escuridão. Ventura é a estátua de tudo isto, num filme carregado desse estatuário moderno e imemorial que parece lembrar-se dos recém desaparecidos Alain Resnais ou Chris Marker. O ser estilhaçado e falho que é da mesma forma como que invencível pela persistência alicerçada numa certeza radical do seu e dos seus. A fidelidade, o que nunca fez permanecer no chão Ventura depois das quedas, o que o fez vaguear literalmente por todo o lado - das barracas aos museus - à procura de quem merece, e recordar os vestidos que ofereceu à mulher amada e fazer todo esse tempo passado regressar. 

Obras assim raras colocam tudo em causa e confortam-nos pela sua generosidade. Se não estão ao alcance de muitos - nem da indústria que varre tudo o mais rapidamente possível com a maior das indiferenças; nem dos valentes amadores que se vão apressando nos afazeres obrigatórios do quotidiano; para não desenvolver sobre o vácuo da filosofia, da pretensão ou da alta temática que este delicado labor raramente consentiu - é porque tudo parece feito de uma forma completa, em que como Yasujiro Ozu e Robert Bresson, nem uma brecha denuncia qualquer tipo de desleixo ou de aleatório anedótico. Sempre a reinvenção, sempre a fidelidade. Anos e anos de encontros e de registos, trabalho e modulação, anos de amparo e carinho na montagem, lado a lado já fora do cinema, toda a dedicação. Cavalo Dinheiro não é o cúmulo de Pedro Costa pois é mais um capítulo na longa caminhada encetada algures. Jamais o mestre que pensou na obra-prima genial, muito menos o rebelde underground que põe em causa porque sim. Estamos antes perante um sistema a que se pode ir buscar muitas coisas de maneira precisa e que tem a especificidade e o resguardo das relações que importam. E cinema, finalmente, puramente popular, que liberto das amarras teóricas fora dele será entendido por todo o mundo, por cada um com cada idade. A Presença Humana, no princípio como no fim. Quem não perceber que as passagens clandestinas (sonhos, pesadelos ou vigílias) são tão reais como a bruteza do tormento ou as casas queimadas da memória e que não saem da nação exclusiva e maravilhosa do Cinema, dificilmente perceberá que matéria e os seus fantasmas são uma e a mesma coisa. O espanto diante do real. No princípio como no fim. 

in «Foco – Revista de Cinema», Dezembro 2014 - Janeiro 2015

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Juventude em Marcha (2006) de Pedro Costa



por João Mário Grilo

SUBLIME DISTÂNCIA 

Depois de No Quarto da Vanda e do seu cinema extremo, ninguém sabia muito bem para onde iria a obra de Pedro Costa. A surpresa foi grande (tão grande que o projecto acabaria por chumbar três vezes às mãos dos doutos juízes do ICAM) quando se soube que não ia para parte alguma. Que ficava por ali mesmo, nas Fontainhas, para onde Ossos a tinha levado. E que continuaria a contar a história dos habitantes do bairro, que tinha entrado, entretanto, num processo irreversível de transformação, com o seu deslocamento do dédalo arcaico das Fontainhas (entretanto, arrasado pelas máquinas da câmara) para a brancura surrealista da urbanização do Casal da Boba. Dos catrapilas do final de No Quarto da Vanda aos móveis arremessados por Clotilde da janela da casa de Ventura, a ligação é assim directa, como se se tratasse, quase, do mesmo filme. Com a diferença que a própria mudança do bairro conduz Pedro Costa a um interesse mais preciso sobre a origem daquele mundo, pelo seu momento, digamo-lo, “abraâmico”.

Ora, o Abraão de Juventude em Marcha chama-se Ventura. É ele quem guia o cineasta por uma paisagem mental infinita povoada pelos seus filhos reais e imaginários. Em certo sentido, Juventude em Marcha é a projecção fantasmática do mundo interior de Ventura, ao mesmo nível que o era já a América do jovem Lincoln, de John Ford. O que vemos, então, neste filme, nas suas brutais dialécticas de luz e trevas, de paralelas e oblíquas e de passado e presente é o retrato de um homem ou, mais exactamente, a projecção exterior do seu retrato interior. 

Neste movimento de “purificação cinematográfica”, Juventude em Marcha vem lembrar-nos algumas coisas essenciais: por exemplo, a imensa distância que opõe um “cinema de personagens”, mais os seus planos médios e as suas receitazinhas dramatúrgicas, a um cinema de heróis, inteiramente nascido de uma relação original entre a palavra, o corpo, o espaço e o destino épico das criaturas que o habitam; vem também lembrar-nos como o cinema opera sobre a realidade, inscrevendo-a num outro plano e, sobretudo, numa outra (e própria) racionalidade histórica, essencialmente “projectiva”. 

Neste sentido, existe uma articulação profunda, primordial, entre o cinema de Pedro Costa e o mundo do qual ele próprio (o seu cinema) acabou por fazer parte. Filmes como Casa de Lava, Ossos, No Quarto da Vanda ou Juventude em Marcha são etapas de uma grande epopeia fundacional (porque, como o título o lembra, é mesmo do “nascimento de uma nação” que aqui se trata), que partilhando, cinematograficamente, a desmesura de Griffith e, sobretudo, de Ford, reconduz-nos, através dela, à matriz homérica da História. 

Daí que pareça profundamente estranho, ridículo (e, também, esclarecedor) que, numa apresentação televisiva de Juventude em Marcha, a jornalista - animada, decerto, das melhores intenções, isto é, procurando ilustrar “até que ponto o filme falava verdade” - tenha utilizado, pelo meio de um excerto do filme, os seus planinhos de reportagem. Fazer isto é passar ao lado da realidade que Juventude em Marcha nos conta, a qual, parecendo ser, fisicamente, a mesma, está colocada, de facto, num outro plano e, sobretudo, a uma outra (sublime) distância. O que fazendo toda a diferença, faz também, ao mesmo tempo, a única diferença que realmente importa. 

in blog « Sempre em Marcha »

sábado, 14 de julho de 2018

No Quarto da Vanda (2000) de Pedro Costa



por João Mário Grilo

O ECLIPSE 

Há um momento particularmente revelador em No Quarto da Vanda, o último filme de Pedro Costa, quando Zita e a mãe estão na rua a olhar os últimos momentos do eclipse lunar de há dois anos. A situação não têm nada de especial que a distinga do resto do filme, a não ser o facto de No Quarto da Vanda poder ser tomada, todo ele, como um formidável mergulho na vida de uma humanidade eclipsada, esses mais de 80% de homens e mulheres do mundo, cuja existência é mantida, religiosamente, no cone de sombra do cinema, da televisão e de todos os media em geral. 

É por isso que o Bairro das Fontainhas de No Quarto da Vanda é uma avassaladora metonímia de quase todo o Hemisfério Sul e de uma boa parte do Hemisfério Norte. É por isso também que este filme (filmado com uma câmara digital e com um rudimentar sistema de reflectores) a luz é tão exigente e intransigente, visando uma autêntica sincronia cromática com o mundo que, através dela, se reflecte. 

O gesto de Pedro Costa é – percebe-se – um gesto gigantesco, titânico, mas a que não corresponde – como talvez as boas consciências o quisessem e pensassem – qualquer tipo de «franciscanismo».

Muito pelo contrário, No Quarto da Vanda é um filme impiedoso, um puro objecto de combate aberto em múltiplas frentes e, em primeiro lugar, contra aquilo em que o cinema se foi transformando: num miserável «universo de ficções», forçado a disputar quotidianamente as suas «audiências» à televisão e ao qual vai já faltando a consciência de uma autentica diferença e um motivo de existência. 

UM GRANDE FILME TEMERÁRIO 

Finalmente, No Quarto da Vanda é muito menos um manifesto em defesa dos «excluídos», do que um filme contra o próprio principio de exclusão, assumindo, nesse radical volte-face, um olhar em contracampo sobre todo o cinema, onde é virtualmente impossível não sentir que os verdadeiros excluídos somos nós, forçados que estamos a viver um movimento que praticamente todo o resto da humanidade não vive (nem pode viver) e dopados por uma série de hipóteses romanescas hoje cristalizadas no mundo da televisão e na sua incompatível fotogenia com a realidade. 

Medonho e admirável, No Quarto da Vanda é um grande filme temerário onde, provavelmente, vai desembocar uma boa parte da melhor cinematografia portuguesa depois de 74. Será, talvez desgraçadamente, o filme que fecha todo esse grande ciclo; se o for, pelo menos que tenhamos a certeza de que é um ciclo que termina em grande, num objecto que soube fazer a luz da escuridão, que soube fazer nascer as personagens das pessoas, o drama da realidade, mas que é já, em tudo isto, um grande filme solitário, feito por um homem que um dia viu o verdadeiro eclipse (não o solar e astronómico, mas o humano e terreno) e que simplesmente o quis mostrar a toda a gente. A ver com urgência, se possível nos mesmos dias em que as televisões portuguesas exibem, nos reality-shows que tanto as orgulham, as perseguições policiais nas Fontainhas ou na pedreira dos Húngaros). 

in blog « Sempre em Marcha » (exclusivo)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O Nosso Homem (2011) de Pedro Costa



por José Oliveira

Para a abertura do nosso Cineclube O nosso Homem, que fecha mais uma fase bastante especial da obra de Pedro Costa, composta por várias curtas-metragens em remontagem de sentidos, depois das durações, amplitudes e respirações largas de No Quarto da Vanda (2002) e Juventude em Marcha (2006), e preparando Cavalo Dinheiro (2014), imenso fresco estilhaçado pelas memórias cada vez mais longínquas dos seus protagonistas, calibrado num ritmo seco e duro que tem muito a ver, por exemplo, com o filme de Charles Chaplin escolhido para fazer par nesta sessão, Monsieur Verdoux. Pedro Costa, que estará pela primeira vez na cidade de Braga, começou na realização em 1989, com O Sangue, conto de irmãos largados ao mundo, onde as questões eternas do Pai, do amor e da descoberta nascem de novo num preto e branco lancinante, que acentua os horrores e o lado fantástico dessa demanda iniciática entre sonos convulsos e vigílias fundas, "longa noite da infância que abraça tantos filmes e tantos livros americanos", nas palavras do próprio. 

Pagas as dívidas sentimentais da juventude Pedro Costa partiu alguns anos depois para Cabo Verde, no intuito de lá forjar uma espécie de remake de I Walked with a Zombie, demencial pesadelo de Jacques Tourneur passado nos venenosos trópicos, a remeter para Jane Eyre de Charlotte Brontë. Nesse Ilha do fogo que irrompe a um tempo sufocante, desmesurada e fechada em si, o argumento e a planificação típica deixaram de fazer sentido, as grandes equipas técnicas também, e o que se filmou foram grandes-planos de mulheres e deambulações, sussurros e uma paisagem impossível de domar. Ou seja, Pedro Costa perdeu-se para se reencontrar, pois tudo o que fará depois começou em Casa de Lava

Regressado a Portugal o realizador viu-se em mãos com um sem número de cartas e de produtos naturais da terra, confiados a si para entrega aos familiares de Lisboa. Encontrou um universo humano e estético em bruto e riquíssimo do qual nunca mais quis sair. Cheiros, cores e sensações inebriantes, dessas a que o cinema costuma fugir. Ossos (1997) marca então a sua instalação num território, as Fontainhas e os seus bairros circundantes, habitados pela comunidade Cabo-verdiana aí sobrevivente. Se Costa ainda começou por jogar à defesa, utilizando por exemplo o grande director de fotografia que o acompanhou na aventura anterior, Emmanuel Machuel, bem como uma aparatosa aparelhagem luminosa, logo se apercebeu do choque e do contra-senso imoral entre o que se filma e como se filma. Ossos foi no seu processo de "aprendizagem" tomado por uma escuridão, um poder de sugestão e um despojamento que escavou a revolução que se seguiria. Com No Quarto da Vanda dispensou-se definitivamente as grandes equipas e meios do cinema dito industrial, para com os recentes e leves apetrechos digitais se chegar realmente junto das pessoas, estando com elas todo o tempo necessário. Desse tempo, dessa disponibilidade incondicional para escutar as histórias de vida únicas e o quotidiano de um bairro, aboliu-se qualquer tipo de género ou fronteira cinematográfica, registando-se pessoas em vez de personagens, o seu movimento e por consequência o movimento do seu mundo, nunca deixando de lado um romanesco fortíssimo que brota da lembrança e do coração de cada um desses seres que vivem e habitam intensamente. 

Em Juventude em Marcha aparece Ventura, figura capital e representativa de todo um povo e da sua condição, do passado e de uma altivez inerente, tão imenso como antes Vanda tinha sido íntima e resistente, construindo-se o todo numa grandeza que se explanou para lá dos quartos e do pequeno bairro em destruição, numa batalha épica entre o negrume das ruínas e o branco cegante de um novo mundo, em choques imprevisíveis pelo ecrã. No plano final convivem em equilíbrio cósmico o velho e sabido Ventura com a criança nova, numa suspensão que as curtas-metragens seguintes esclareceriam pelos interstícios dos mais cerrados segredos. 

O nosso Homem partilha então vários planos e mesmo sequências de Tarrafal e de Caça ao Coelho com pau, os seus antecessores. Abre com um quadro de conjunto que ocupa uma boa parte dos seus vinte e cinco minutos, imóvel, duro e no escuro como o que é dito, onde uma Mãe e um filho, aglutinando as promessas da infância e a desilusão adulta, vislumbram um passado na sua terra natal, fazem uma cartografia familiar e afectiva, um estado das coisas político e uma denúncia feroz que na sua extrema crueza e realidade ostenta laivos feéricos. "Não há luz que ilumine tamanha escuridão", diz a Mãe ambiguamente, pois tal escuridão já está lá e cá, de onde fugiram e onde fogem. Composição e fundo que reenvia directamente para Casa de Lava

A partir daí andaremos com Ventura e com Alfredo por becos e baldios, vãos de escada e saídas de emergência, contando o segundo ao primeiro a sua derrocada, ainda pasmado e não percebendo como lhe aconteceu. Da sopa clandestina aos coelhos caçados com pau, a narrativa do velho torna-se a narrativa prometida a José Alberto Tavares Silva, o filho da abertura, tal como a história contada da refeição não paga e das consequências trágicas faz parte de Alfredo e de Ventura, os dois já mortos vezes demais por entidades tão abstractas como brutalmente corpóreas. Entidades que à semelhança do coelho nunca veremos, e que vão ostentando dimensões do mal em forma absoluta e fantasmática, imemorial e contemporânea, máquina fria e inimigo sem rosto responsável por todas as perseguições, misérias e genocídios a uma raça que como tantas outras corre o risco de ficar sem pátria, futuro ou dignidade. Mal que surge inteiro na rememoração comum. Para o punhal e a expulsão final fazerem ainda mais sentido agora, depois de Cavalo Dinheiro terminar com facas, cantos e promessas de justiça, pacificado e grave, avisando agora Ventura e todos os seus da mesma maneira como antes foram avisados e agredidos. 

O nosso Homem fala em muitos que são um só e só fala das coisas da nossa actualidade informativa, ou seja, de desemprego, de dinheiro, de medo ou de gente sem rei nem roque fugida de casa, mas ao invés de preferir a denúncia pela denúncia prefere trabalhar isso em correspondência formal, apelando a toda a luz da beleza e a todo o resguardado humanismo, longe do audiovisual pueril ou das parangonas demagógicas construídas pelo poder mascarado. O poder das formas cinematográficas e a força irredutível do amor, para lá do caos que nos incutem à força. Poder, força e amor, que no percurso de Pedro Costa podemos ainda encontrar em Onde Jaz o Teu Sorriso? (2001), numa partilha e reforçar de convicções com Danièle Huillet e Jean-Marie Straub; ou em Ne change rien (2009), carta de amizade e protecção a Jeanne Balibar. 

Algo que o Lucky Star - Cineclube da Toca trará em sessões seguintes, nomeadamente quando chegarmos a John Ford, a bíblia do cinema americano que redescobriremos todos juntos. A monumentalidade das escalas e a sua justeza, o cinzelamento pictórico ou a modelação geral (palavras, gestos, silêncios) a colocar os homens e as mulheres em rotação com o meio e com o infinito. É a nossa proposta para os próximos tempos. Sejam bem-vindos.