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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Deuses de Pedra (2025) de Iván Castiñeiras Gallego



por Jessica Ferreiro
 
O cineclube encerra o ciclo de cinema galego, em parceria com o Festival Convergências, com mais um documentário que ainda não estreou no circuito comercial: Deuses de Pedra (2025), de Iván Castiñeiras Gallego, que se construiu ao longo de 15 anos de filmagens entre a Galiza e Portugal. O filme observa o quotidiano e as transformações de uma comunidade rural da “raia seca”, uma das fronteiras mais antigas da Europa, e cujo tracejado é, também, uma linha imaginária que incorpora memórias antigas e planos futuros.

Rodado em Trás-os-Montes, com foco na aldeia de Moimenta da Raia (Vinhais) e na zona de Manzalvos, na Galiza, estende-se ainda a outras localidades fronteiriças como Ousilhão, Vila Boa de Ousilhão, Carvalhas, Casares e Mofreita. O documentário regista práticas e rituais locais, incluindo os a matança do porco ou, ainda, os caretos de Ousilhão.

A preto e branco, as práticas ancestrais, a cultura material, tal como as ferramentas de trabalho e outros utensílios do dia-à-dia, são exibidas como relíquias. As práticas e partilhas, tal como a da merenda tradicional nas montanhas, que tanto podem ser portuguesas como galegas, romanas, celtas e mouras, o relato das histórias comuns em torno do contrabando que transpõem a fronteira vigiada e de “arame farpado”, mas também as mãos que descascam o fruto plantado e colhido da terra ou, ainda, os movimentos que moldam o pão, representam cada gesto que desenham uma paisagem geográfica marcada pela sua história e cultura. Homens e mulheres, um dia ancestrais, atravessam estes lugares, deixando os seus passos como vestígios ou rochas antigas, tornando-se Deuses de Pedra, indeléveis.

As filmagens a preto e branco dão lugar às imagens a cores que nos remetem para o tempo presente e para as mudanças inevitáveis que transformaram a aldeia ao longo de 15 anos: a desertificação, resultado da emigração, o encerramento da escola, bem como as prática e gostos partilhados pelos mais jovens, reflectidos na música ou na dança. Contudo, não existe perda, alguns pretendem voltar, outros escrevem cartas aos seus entes queridos que estão emigrados e muitos regressam para as festas de verão, sem nunca sentirem que perderam as suas raízes. Mariana, que se vê crescer ao longo do filme, dos 3/4 aos 18 anos, decide, no final, deixar a aldeia e emigrar, provavelmente juntar-se ao seu irmão em Valência (Espanha). Apesar da tristeza sentida em deixar a sua terra e a sua mãe, sabemo-la ciente de que a vida é “uma aventura” e que é feita de idas e voltas. Os “Deuses de Pedra” retornam sempre ou talvez nunca se ausentem do seu templo, como as grandes e antigas pedras que compõem a paisagem e testemunham as histórias dos homens que acolhe.

Assim, através do registo documental e de um olhar etnográfico, Deuses de Pedra convida o espectador a reflectir sobre a maneira como a história e a geografia moldam a vida das pessoas, explorando a fronteira não como barreira, mas como espaço vivo de memórias, escolhas e continuidades.

Coproduzido por Espanha, França e Portugal, o filme foi rodado em formato 16 mm e envolveu colaborações de equipas técnicas portuguesas, espanholas e francesas, incluindo o design de som e música de Miguel Moraes Cabral e a edição de Antonio Trullén Funcia. A obra estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdão (IFFR) 2025, na secção Bright Future, e passou por diversos festivais internacionais, como o Thessaloniki International Documentary Festival e o Porto/Post/Doc 2025. No festival Play-Doc (Tui), recebeu uma distinção na competição galega por retratar a transformação de um território e as suas gentes. 
 
 
 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Apenas na Terra (2025) de Robin Petré



por Laura Mendes
 
Apenas na Terra parte de uma constatação que acaba por estruturar a forma como se propõe a explorar as intricadas relações entre o humano e a restante natureza que o circunda: num local devastado pelos incêndios, os animais que, rodeados pelo fogo, avistam um ser humano, preferem regressar à dureza das chamas a confiar nesta (que é a nossa) outra forma de vida. 

Estes animais são também aqueles que ocupam os espaços domésticos que vemos ser apresentados, sendo parte da paisagem quotidiana onde, de igual forma, o humano deambula entre os seus afazeres: seja a atenção em cuidar e preservar como a construção de uma artificialidade cuja enormidade depressa potencia a pequenez e a dissolução da vida mais frágil e indefesa. 

O retrato é cru e afigura-se-nos como um paradoxal díptico, contrapondo a simultânea proximidade e distância a que nos encontramos em relação à natureza: são, principalmente, as crianças quem melhor expressa o fascínio e o temor, o domínio e a espontaneidade constituintes do modo como comungamos com o ecossistema. 

As paisagens progressivamente mais apocalípticas suspendem, por momentos, a realidade, já que a transformam em composições poéticas, refletindo em torno da grandiosidade de uma natureza em decomposição, unindo sublime e grotesco. 

Ações rotineiras transformadas em atos simbólicos: o nascer de uma ovelha ou um cigarro que se fuma aquando de um turno de vigia vão compondo os sucessivos quadros que, lenta e pacientemente, deslocam o real rural da Galiza para um imaginário que tem tanto de mágico como de distópico. 

O filme opera numa dinâmica circular e de progressão. Uma possível primeira parte apenas evoca – quase misticamente – os incêndios que colapsam o horizonte, através da secura das tonalidades opacas e tristes, bem como das narrativas localizadas no seio de uma coletividade ainda (materialmente) afastada da destruição porvir. Uma outra, segunda, torna as chamas palpáveis, os incêndios conscientes e íntimos: é já a inquietação e o caos que ocupam o ecrã, enquadrados numa luta pela terra que é de todos – as chamas são parte do corpo e as faúlhas entranham-se nos olhos, envoltas num misto de impotência e necessidade de proteção. O seu final completa o círculo, regressando à (aparente) calma inicial mas destabilizando-a – pensemos no olhar da pequena ovelha – ao propor novas perspetivas em torno do desastre e da tragédia, da solenidade da regeneração e da importância do território. 

A banda sonora, priorizando os sons naturais provenientes da ambiência e, principalmente, os silêncios, adensa a atmosfera transcendente muito própria de Apenas na Terra, num tom perscrutador. 

Uma chamada de atenção para aquilo que, só podendo acontecer na terra, somente nela encontrará uma reconciliação, que terá de partir de nós.