quinta-feira, 23 de julho de 2026

Domicílio Conjugal (1970) de François Truffaut



por Laura Mendes


 
Domicílio Conjugal dá continuidade à comédia social e de costumes que Truffaut tem vindo a explorar na série Antoine Doinel, desde Beijos Roubados, evidenciando o seu interesse pelo que existe de estranho e incomum na comicidade do quotidiano. Tomando partido do potencial satírico do casal – sem deixar de priorizar, como veremos, a paixão e sedução que se deixam antever na sequência inicial, onde seguimos as pernas de Claude Jade (Christine) – é também na profundidade dos conflitos possíveis que o cineasta nos situa, sem deixar de os aligeirar, com um toque de entretenimento.
 
Tal como ouvimos dizer um velho conhecido, música e mulheres burguesas sempre foram do agrado de Doinel: e ei-lo agora casado com Christine, violinista que já conhecemos e à qual pouco teremos a apontar, visto que a vida dos dois, numa possível primeira parte deste filme, se desenrola sem preocupações. Sempre escapando às fórmulas pelas quais todos à sua volta se parecem reger, o nosso protagonista deambula entre conversas com vizinhos e uma busca química pelo Vermelho Absoluto: sintomas tanto da sua idiossincrasia como da sua tendência para o falhanço.
 
E é exatamente após o murchar de umas flores às suas mãos que a vida do casal inicia uma viagem atribulada. O surgimento de uma mulher de outro mundo – essa quimera que se vem a revelar mais uma alucinação masculina circunstancial (como o parecem ser todas as paixões de Antoine) do que uma evidência constatável faz com que o mesmo se perca não se sabe bem em quê: fuga da convenção familiar, do aborrecimento do trabalho, apesar de afirmar, entre gestos aparatosos, que nunca se sente aborrecido? Mais do que isso, é esta uma aventura que nos fala da fortuitidade e fugacidade das aparências, como também o demonstra o misterioso Le pseudo étrangleur, que atravessa quase todo o filme, até o seu segredo ser revelado através de um programa de televisão, lembrando que tendemos a permitir que a nossa imaginação contamine o mundo real, sem nos apercebermos de que o mesmo já lá está antes de o pensarmos.
 
Antoine Doinel, sonhador implacável, cuja inocência noutros filmes, notada aqui, se dilui num escapismo inevitável e numa maturidade alheada, é incapaz de uma formação unívoca, de traçar um caminho em linha reta. Mas não nos enganemos com a sua singularidade: espreitando para o vizinho do lado, talvez encontremos nele uma versão de nós mais fiel que a nossa própria. É para isto que nos atenta o final, recuperando as palavras do homem que interpela Christine nos últimos minutos de Beijos Roubados: para a universalidade da vida, a circularidade das suas peripécias, que não se reduzem a uma só vivência.

 

Folha de Sala 

 

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