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Como é que estes propósitos se revelam na série de filmes que acompanham durante 20 anos a vida de Antoine Doinel? Aquilo que distingue o seu “realismo”, é a elegância com que neles se entretece a comédia e a tragédia, a forma como a tristeza se insinua entre peripécias aparentemente cómicas, a feição muito “tchekoviana” como as dores de crescimento de Antoine Doinel, as suas angústias existenciais, nos vão sendo reveladas em sotto voce.
Na sequência final de Os quatrocentos golpes, a câmara, num longo travelling, acompanha a fuga de Antoine Doinel do instituto correcional. Segue-o na sua corrida ofegante e acaba por se fixar num grande plano do seu rosto, que se volta para a câmara e nos encara. É o rosto de uma criança crescida que procura, sem o encontrar, o seu lugar no mundo. Essa busca continua em Os beijos roubados.
A acção decorre nos tempos conturbados do Maio de 68. Em Paris, erguem-se barricadas, as universidades estão encerradas e as fábricas em greve, mas nada disso se vê neste filme. Apenas nos diálogos há breves alusões àquilo que então fazia as manchetes dos noticiários. Em vez disso, o trabalho de Antoine Doinel numa agência de detectives introduz-nos no mundo dos pequenos dramas quotidianos e o filme aparenta ser uma comédia ligeira que encontra os seus temas numa crónica de acontecimentos banais, na vida comum com as suas rotinas e anedotas.
Antoine Doinel não é de forma alguma um enragé, mas um jovem gentil e mesmo (e de uma forma um tanto cómica) muito sério e cerimonioso. Contudo, na sua inquietude, no seu espírito sonhador, na sua dificuldade em ajustar-se às convenções e práticas sociais, o “espírito de 68” não deixa de estar presente.
Em Os quatrocentos golpes, tinha 13 anos, agora terá mais uns sete. Em Antoine e Colette, Antoine Doinel, então com 17, vive uma primeira paixão, mas o seu amor não é correspondido. Em Os beijos roubados, conhece Christine. Os seus modos delicados e o seu ar um pouco perdido suscitam a atitude protectora dos pais da namorada. Depois de um percurso de abandono, incertezas e fracassos, Antoine anseia pela segurança de um lar burguês. Christine, que simpatiza com ele, seria a porta de entrada nesse porto seguro. Mas, eis que entra em cena a deslumbrante Mme. Tabard…
A amizade ou a paixão? A simplicidade ou o glamour? A segurança ou a aventura? Christine ou Fabienne? O dilema de Antoine Doinel é explicitado na cena trágico-cómica diante do espelho. Um tubo pneumático transportará através dos subterrâneos de Paris a sua decisão. Depois, Mme. Tabart mostrar-lhe-á como se pode resolver a quadratura do círculo. O seu casamento com Christine será o tema do próximo filme. Mas, em Os beijos roubados, quem lhe faz uma promessa de amor eterno não é Antoine Doinel, mas um louco.
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