quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O Último Mergulho (1992) de João César Monteiro



por Jessica Sérgio Ferreiro
 
O Último Mergulho foi realizado para a série Os Quatro Elementos (1992), encomendada por Fernando Lopes a quatro cineasta portugueses. João Botelho ficou com o Ar e realizou “No Dia dos Meus Anos”, João Mário Grilo deu origem ao “O Fim do Mundo” para a Terra, Joaquim Pinto fez “Das Tripas Coração” para o elemento Fogo e João César Monteiro, como tantas vezes na sua carreira, escolheu a Água, elemento que dá o nome a este ciclo As Correntes de João César Monteiro e que representa o sentido fluido, aquático e libertário que caracteriza a filmografia do realizador, como evidenciado por João Bénard da Costa na Revista Foco (2009). Para O Último Mergulho, César Monteiro convocou Henrique Canto e Castro e a francesa Fabienne Babe para os papéis principais.
 
Integrado na série televisiva Os Quatro Elementos, encomendada pela RTP à produtora de Paulo Branco, foi solicitado aos cineastas convidados que realizassem obras de média duração. É por essa razão que O Último Mergulho surge como uma das metragens mais curtas da filmografia de João César Monteiro. O propósito inicial da série passava por retratar diferentes regiões de Portugal, refletindo a identidade nacional a partir das suas especificidades locais.
 
Contudo, João César Monteiro, no seu habitual registo irreverente e provocador, opta por implodir a apologia de uma identidade nacional assente num passado histórico fantasiado ou na saudade melancólica como traço definidor do povo, uma matriz conceptual que fora popularizada e teorizada por Teixeira de Pascoaes. Em contraponto, o realizador desvia o olhar para a margem: foca-se na boémia e no submundo lisboeta, operando uma mácula deliberada sobre a imagem idealizada do povo português “humilde” e “trabalhador”.
 
A narrativa arranca junto ao Tejo, onde o jovem Samuel (Dinis Neto Jorge) contempla o suicídio. É ali interpelado por Elói (Canto e Castro),  , um velho marinheiro reformado que, percebendo as suas intenções, afirma não o querer demover, confessando partilhar do mesmo desejo de pôr fim à vida. Todavia, perante a proposta de Samuel para partilharem esse derradeiro acto, Elói sugere, em alternativa: um “último mergulho” pela vibrante noite da cidade. Arrasta-o, assim, pelas artérias de uma Lisboa nocturna e marginal. Ao longo de duas noites, os dois deambulam por esse submundo, cruzando-se com Esperança, uma prostituta muda e filha de Elói, e com as suas companheiras de ofício, Rosa Bianca e Ivone.
 
Nesta deriva, Monteiro prefere concentrar-se numa população que evoca o lumpemproletariado. Recorre-se, implicitamente, à matriz do Zé Povinho, figura criada por Rafael Bordalo Pinheiro em 1875 para personificar o subproletariado nacional. Se, no desenho satírico original, o Zé Povinho assume uma dimensão crítica, ele surge frequentemente marcado pela passividade: esta figura evidencia as condições sociais opressoras sem, contudo, se constituír como agente da sua própria emancipação político-social. Denunciam, mas raramente reivindica ou se organiza colectivamente. Este binómio da estereotipia compreende, assim, os comportamentos socialmente censuráveis pela moral burguesa, como o alcoolismo ou o oportunismo. O resultado é uma representação deliberadamente ambivalente do povo, oscilando entre a infantilização e o primitivismo. João César Monteiro apropria-se destes estereótipos para os subverter. A primeira metade do filme apoia-se numa linguagem vulgar, numa escatologia nocturna e boémia que, subitamente, alterna com momentos de puro fulgor poético.
 
Afinal, sob a capa da marginalidade, as personagens revelam a sua profunda humanidade, marcada por percursos sofridos e aspirações legítimas. Rosa BiancaFrancesca Prandi, de origem italiana, fugiu da sua aldeia natal: a pobre e piscatória ilha de Stromboli (numa evidente alusão ao cinema de Roberto Rossellini que nos remete para o filme À Flor do Mar, exibido no dia 17 de Agosto), em busca de uma alternativa de sobrevivência. Prostituta em Lisboa, acaba por fugir com um marinheiro russo cujo navio atracara no cais – uma feliz rasteira do real, integrada no filme através de uma cena improvisada após a atracagem verídica da embarcação. Por sua vez, Ivone (Rita Blanco) encarna a portuguesa “de gema”, pragmática e de têmpera forte, enquanto Esperança (Fabienne Babe), , privada da voz, se impõe pela via da sensibilidade pura; o seu próprio nome resgata a dimensão alegórica que transporta.
 
Samuel e Elói deambulam por uma Lisboa em vias de extinção, ancorada no Cais do Sodré, na Praça de São Paulo e no Mercado da Ribeira. Percebemos de imediato que essa pretensa “autenticidade alfacinha” já se metamorfoseou. Mas não será precisamente essa “autenticidade” alardeada que Monteiro contesta? Se ela existe, o realizador sugere que a procuremos no cerne do povo esquecido e, aí, ela nunca será previsível, uniforme ou balizada por uma moral convencional.
 
Elói acaba por salvar Samuel ao apresentar-lhe Esperança. O apaixonar-se mútuo devolve ao filme a luminosidade que parecia vedada a estas existências errantes e suicidas, encontrando o seu tecto provisório na degradada Pensão 25 de Abril. É nesse espaço de liberdade de “má nota” que a intimidade se transfigura e o filme desacelera. O realismo cru do quotidiano é permanentemente invadido pelo sublime na cena do enlace erótico-romântico entre Esperança e Samuel e que César Monteiro apenas sugere sem recorrer a voyeurismos e artifícios de espectacularização do sexo. Esta irrupção lírica espelha-se, também, no hipnótico plano-sequência da dança de Salomé (femme-fatale / universo bíblico da Morte de João [de Deus] Batista) e no jogo sonoro desta cena; bem como no recurso aos textos clássicos de Friedrich Hölderlin e no desfecho idílico, onde Samuel e Esperança mergulham num campo de girassóis à procura do seu final feliz. Assim, Esperança transfigura-se na figura de Diotima, eternizada no excerto do romance Hiperíon declamado na icónica voz off de Luís Miguel Cintra sobre o ecrã negro final: “O destino impele-me para o desconhecido e eu bem o mereço”. Afinal, é o Amor que salva e devolve esperança e magia à vida. 
 
A relação intrínseca entre a água e a morte atravessa a obra desde o plano de abertura. O Tejo apresenta-se simultaneamente como lugar de tragédia e de fortuna: é dele que Samuel se aproxima para morrer, mas é precisamente a partir desse não-acontecimento que irrompe a sua odisseia urbana. O rio permanece como o horizonte físico e conceptual da narrativa até que, no final, é Elói quem regressa definitivamente à água. Neste mergulho pela vida e a morte inelutável, Monteiro pousa o sentido na fisicalidade, nos corpos humanos, nas pulsões e no desejo e nas dinâmicas relacionais que se estabelecem na noite. O Último Mergulho teia, com mestria, a alta cultura literária de Hölderlin e a erudição musical de Bach – materializada na interpretação histórica da Ária das Variações Goldberg por Glenn Gould – com a Lisboa vernacular e marginal, trauteada pela música popular doas arraiais. A arquitectura fílmica de João César Monteiro recusa-se, assim, a separar o sublime do quotidiano, provando que o sagrado e o profano habitam o mesmo cais.
 
 
 

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