quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sans Soleil (1983) de Chris Marker



por Laura Mendes
 
Em Sans Soleil, a imagem efabulada substitui a memória; o cinema, tal como Chris Marker o concebeu, toma o lugar da História. Cartas vindas de toda a parte refazem um mundo que se aproxima, mas cujas fronteiras estão ainda separadas pelo tempo, pelo esquecimento, pela tragédia. Uma subjetividade múltipla – que se nos revela tanto por intermédio de uma narradora feminina como através das imagens que capta e manipula –, entendemos Sandor Krasna como uma figura alienígena, inidentificável, que nos fala do passado com a melancolia de uma ainda fresca derrota, mas que nos deixa espreitar o futuro assente numa esperança em constante mutação, mostrando-nos possibilidades de reconfiguração do que é viver, lembrar, observar.
 
Ao mesmo tempo que surge esse presságio de um novo mundo total, onde as imagens são aliadas contra as narrativas dominantes (ocidentais), contra o marasmo pós-colonial, Krasna desvela os desconhecidos povos embrenhados no quotidiano, os pequenos ritos e olhares de vidas invisíveis e anónimas. Ritmos, expressões, dádivas do dia-a-dia – a banalidade, como lhe chama – são os pilares desta construção imaginária que submete o mundo às suas próprias ordens, procurando nas mais pequenas coisas os resquícios do que já foi, as ligações extintas que urge retraçar, re-compreender. Japão, Cabo Verde, Guiné-Bissau, aceleração tecnológica e resistência mísera, a montagem que une estes lugares revela a antítese transformada em consciência visual, a experiência transformada em mapa mental cinemático, até que surge a autonomia do olhar, a edificação de uma (contra-)identidade mundial onde o retrato do poder é transformado na reivindicação do retrato pessoal, partilhado com o coletivo, dando a conhecer a fragmentação aos dois inerente.
 
A propositada mistura que envolve esta conceção de viagem-documento acaba a refletir a condição pós-moderna de não pertença, de dúvida, dado o confronto com verdades estilhaçadas. Ainda assim, estamos perante, simultaneamente, uma utopia de libertação, neste exercício de expressão que, ao sê-lo, na sua forma e matéria, constitui já a esperança e o trabalho de luta contra a marcha veloz de uma História cada vez mais difícil de agarrar e apreender. A ferida profunda deixada pela derrota dos movimentos revolucionários dos anos 60 subjaz a este filme, porque se é verdade que o tom místico de Sans Soleil remete para uma complexidade transcendente e, por vezes, incompreensível, também o é que as causas de um mundo inflamado, dividido e opressor não são apontadas ao vazio, mas às mãos dissimuladas e implacáveis que regem o consumo, a aceleração, o crescimento desmedido.
 
As imagens experimentais, proféticas, possíveis de encontrar na Zona, e creditadas a Hayao Yamaneko, recusam a pretensa ideia de uma realidade clara, compreensível enquanto verdade, a mesma ideia que os media perpetuam e disseminam. Longos momentos são dedicados à televisão, ao fascínio luminoso que provoca e atrai, à capacidade de moldar não só tudo o que a rodeia, mas a mente de quem consome os seus frutos. O cinema, no entanto, e nomeadamente o cinema autoral, alia-se aqui ao potencial subversivo da tecnologia, à possibilidade de mistura e colagem que rejeita uma universalidade linear, antes priorizando o olhar atento, transtemporal, de exploração e desafio.
 
É, por fim, aqui que descobrimos a força ativa da memória, manipulada para ser feita palpável e alucinante, sequência de vida em imagens, em que o tempo do mundo se alinha com o tempo do cinema, início e fim indistinguíveis.

Sem comentários:

Enviar um comentário