segunda-feira, 17 de junho de 2024

348ª sessão: dia 18 de Junho (Terça-Feira), às 21h30


Curta de João Campos e longa de Tarkovsky, para ver na BLCS 
 
Durante o mês de Junho, o Lucky Star – Cineclube de Braga promove um ciclo dedicado a realizadores que exercem a sua actividade no Minho e às suas escolhas. Os convidados para esta ocasião serão David Ferreira, da cidade de Guimarães, e Nuno Dias, João Campos e Inara Chayamiti de Braga. As sessões realizam-se sempre às terças-feiras às 21h30 no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. 
 
O ciclo, intitulado “A cada um, o seu cinema: 4 curtas, 4 realizadores e 4 escolhas”, continua terça-feira à noite com a exibição de Perdido na Praia de João Campos, apresentado como um trabalho sobre o prazer de estar perdido. Para acompanhar esta sua curta-metragem, João Campos escolheu O Espelho de Andrei Tarkovsky, obra vagamente auto-biográfica em que um homem de quarenta anos às portas da morte recorda o seu passado. 
 
“Enquanto criança perdia-me, constantemente, de quem me acompanhava para observar tudo o que, para mim, era novo.”, escreveu João Campos numa apresentação da sua curta, em 2023. “O medo surgia depois quando dava por mim sozinho. Agora, obrigo-me a perder-me porque sei que vou descobrir mundos desconhecidos que me encantam e que, por vezes, me ligam à Poesia, como acontece neste caso com a da Sophia de Mello Breyner Andresen e a sua ligação com o Mar.” 
 
O Espelho centra-se num homem de quarenta anos, às portas da morte, que recorda o seu passado, da infância vivida durante a Segunda Guerra Mundial às grandes mudanças na sociedade soviética do pós-guerra. Vagamente autobiográfico, incorpora cinejornais, sonhos, imagens a cores, preto e branco e sépia, além de poemas lidos pelo pai de Andrei Tarkovsky, Arseny. 
 
“Tarkovski procura a alma das coisas,” escreveu Michel Mourlet em 1978. “Daí a sua obsessão com o que se repete: rostos, destinos. A repetição é o desvelar, ao longo do tempo e das aparências, de uma realidade permanente e secreta. O tempo de O Espelho não é aquele da narração cronológica, mas o da fascinação: regressar incessantemente a certos momentos privilegiados.” 
 
As sessões do mês de Junho contarão com as presenças de David Ferreira, Nuno Dias, João Campos e Inara Chayamiti, que falarão com o público sobre o seu trabalho e as suas escolhas. 
 
As sessões do cineclube ocorrem sempre às terças-feiras, às 21h30, e a entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do Lucky Star - Cineclube de Braga têm entrada livre.

Até Terça-Feira!

sexta-feira, 14 de junho de 2024

12 Angry Men (1957) de Sidney Lumet



por Nuno Dias

Sidney Lumet começou a sua carreira em criança, como ator em peças de teatro e da Broadway em Nova Iorque, cidade onde cresceu. Anos mais tarde, estreou-se no mundo do cinema pouco antes de ter de prestar serviço militar durante a 2a Guerra Mundial. Após a guerra, regressou a Nova Iorque, onde trabalhou como professor de artes cénicas e dramáticas e, mais tarde, realizou alguns episódios de televisão para a CBS. Doze Homens em Fúria foi a sua primeira longa-metragem, que realizou em 1957, protagonizada por Henry Fonda. O filme, adaptado de uma peça televisiva de 1954, tornou-se um clássico do designado “courtroom drama,” ou “drama de tribunal,” e lançou Lumet numa longa e bem-sucedida carreira de cinema. Os seus filmes, muitos deles adaptações de peças de teatro, frequentemente tiveram pouco êxito em bilheteira, mas foram quase sempre bem recebidos pela crítica. Algumas das principais obras que se destacaram incluem Missão Suicida, O Agiota, A Colina Maldita, Serpico, Escândalo na TV, Um Dia de Cão, O Veredicto e Um Crime no Expresso do Oriente. Contudo, Doze Homens em Fúria permanece um dos títulos mais ilustres da sua carreira, e aborda vários temas que se manifestam em todo o seu percurso fílmico. 

Ao inspecionar a obra de Lumet, é notório o seu interesse não só por instituições policiais e jurídicas, mas também por sistemas de poder, e como esse poder é recorrentemente abusado e corrompido por aqueles que o detêm. Contudo, a perspetiva dos seus filmes é mais profunda do que uma mera exposição da injustiça social ou política vivida nos Estados Unidos, ou o desequilíbrio na dinâmica entre classes e governo. Nos seus filmes, Lumet explora as nuances que existem em torno dessas dinâmicas, como se manifestam no quotidiano e como a corrupção presente em muitas instituições estabelecidas na sociedade norte-americana é justificada, ou mesmo aceitada pelos próprios cidadãos, para a preservação de um falso equilíbrio social. No caso de Doze Homens em Fúria, cuja narrativa decorre em torno da deliberação de doze jurados sobre um caso de homicídio que culminará em pena de morte, a acusação satírica não poderia ser mais evidente. Numa sala de doze jurados, onze dos quais estão absolutamente convictos de que o arguido, uma criança de etnia minoritária, é culpado sem ponderarem o caso detalhadamente, apenas um manifesta a sua preocupação em questionar a veracidade dos factos. No final da deliberação, a certeza inquestionável da culpabilidade do réu é seriamente contestada e retrospetivamente atribuída a negligência, preconceito e até mesmo mágoa pessoal. Assim, fora o erro emocional e individual do sistema jurídico que teria falhado o jovem arguido e perpetuado uma narrativa preconceituosa sobre uma determinada classe e fração populacional. Por conseguinte, é sugerida uma reflexão de como a justiça teria permitido tal fracasso ético não fosse pela honestidade intelectual de um único homem que denotou um tipo de corrupção que não é intencional, mas que estava embrenhada no vocabulário coletivo da sociedade norte-americana da época. O filme, deste modo, é um caso de estudo sobre como os preconceitos, a parcialidade e os interesses individuais, mesmo inconscientes, contribuem para a corrupção de uma instituição de poder. 

Lumet é conhecido também por suscitar atuações intensas e climáticas nos atores dos seus filmes, e Doze Homens em Fúria não é exceção. As suas histórias tendem a desenvolver-se em torno de um único incidente central, cujas ramificações narrativas nunca se afastam muito do tronco principal. Tal como Sonny e Sal em Um Dia de Cão, forçados a permanecer no banco que tentaram assaltar rapidamente, ou Poirot e restantes passageiros em Um Crime no Expresso do Oriente, presos no comboio com um assassino entre eles, também os jurados em Doze Homens em Fúria se vêem confinados a uma pequena sala de tribunal até chegarem a uma decisão unânime sobre o caso. Uma sensação de claustrofobia instala- se no enredo, ainda mais agravada pelas condições físicas do espaço, o crescente calor, a impaciência, e a animosidade entre os membros do júri. Durante todo o filme, o espectador está confinado à mesma sala que os personagens, obrigado a desvendar o caso em conjunto com eles. Esta é uma caraterística muito proeminente do filme, e cria uma tensão natural que aumenta gradualmente com o tempo, até culminar num êxtase emocional com a concordância entre os jurados. Ao total, o enredo parece decorrer numa única cena de longa duração, que nunca perde o seu passo graças à excelente interpretação dos atores, à escrita cativante e à realização expressiva de Lumet, diversa e dinâmica em escalas e movimentos de planos.



Rapariga com Um Espelho (2022) de Nuno Dias



por José Amaro

O Nuno Dias começou a aparecer nas sessões do Lucky Star em 2022, ano em que se fez sócio. Vinha com razoável regularidade, sempre com aquele ar tímido de quem pede desculpa por estar ali. Por estar onde faz todo o sentido que esteja. 

Há uns meses atrás, creio que em outubro, o Nuno Dias veio, insisto, timidamente, propor-nos que exibíssemos uma curta metragem sua. Tratou-se de uma sessão muito intimista, não pública porque aquela curta ainda não tinha sido estreada e estava em fase de candidatura a festivais. 

Foi um prazer ver aquele trabalho sobre o qual continuamos a não poder falar mas que, a seu tempo, será exibido numa das nossas sessões. Quando pensámos no Ciclo deste mês de junho “A cada um o seu Cinema - 4 curtas, 4 Realizadores e 4 Escolhas” o Nuno surgiu-nos, imediatamente, como um dos realizadores a convidar, convite que aceitou prontamente. 

A curta que nos traz, é a que hoje exibimos, Rapariga Com Um Espelho, produzida no âmbito da sua Licenciatura em Cinema na Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior. Trata-se de um filme já premiado. Em 2021, recebeu o “Cardinal Audience Choice Award”, no CineMapúa International Student Short Film Festival e, em 2022, um galardão no Festival de Cinema de Avanca, com o Prémio <30, destinado a realizadores com menos de 30 anos. 

Rapariga com Um Espelho ficciona a frustração crescente de Victória, uma jovem modelo, ao posar para Eduardo, o pintor que escolheu e espera que venha a imortalizar a sua beleza. É assim que vamos percebendo como a vaidade de Victória a atormenta e frusta ao deparar-se com a relutância de Eduardo em mostrar-lhe a evolução do quadro. É para o que a câmara do Nuno nos encaminha, através dos grandes detalhes da jovem modelo ao captar-lhe expressões faciais que conseguem trazer-nos as suas emoções. Ou mesmo com o espelho, afinal um elemento de importância substancial na introspeção de Victória. 

Toda a ambiência do filme e falamos das cores, dos cenários, da luz, da própria música e mesmo dos silêncios e da lentidão de todo o seu ritmo da câmara, a própria forma contida como os personagens se expressam, são elementos fundamentais, meticulosamente trabalhados para nos fazer compreender a psicologia da Rapariga com (ou sem) um espelho.



domingo, 9 de junho de 2024

347ª sessão: dia 11 de Junho (Terça-Feira), às 21h30


Curta de Nuno Dias e longa de Lumet, para ver na BLCS 
 
Durante o mês de Junho, o Lucky Star – Cineclube de Braga promove um ciclo dedicado a realizadores que exercem a sua actividade no Minho e às suas escolhas. Os convidados para esta ocasião serão David Ferreira, da cidade de Guimarães, e Nuno Dias, João Campos e Inara Chayamiti de Braga. As sessões realizam-se sempre às terças-feiras às 21h30 no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. 
 
O ciclo, intitulado “A cada um, o seu cinema: 4 curtas, 4 realizadores e 4 escolhas”, continua terça-feira à noite com a exibição de Rapariga com um Espelho de Nuno Dias. Realizada há três anos em contexto curricular, a curta-metragem é sobre uma modelo, Victoria, que contrata um artista, Eduardo, para lhe pintar um retrato. Para a acompanhar, Nuno Dias escolheu a primeira longa-metragem para cinema de Sidney Lumet, Doze Homens em Fúria. 
 
O ano passado, esta curta de Nuno Dias foi premiada no CineMapúa International Student Short Film Festival com o Cardinal Audience Choice Award, recebendo ainda o Prémio <30, destinado a realizadores com menos de 30 anos, no Festival de Cinema Avanca de 2022. 
 
Doze Homens em Fúria, de 1957, contada como a primeira longa-metragem de Sidney Lumet pela história oficial do cinema, que nunca tem em conta a vasta obra que o americano realizou para a televisão, descreve a deliberação de doze jurados num caso de homicídio e as tensões que se criam entre eles durante o processo. É baseada num argumento de Reginald Rose, escrito originalmente para a série “Studio One”. O programa foi realizado por Franklin J. Schaffner e interpretado ao vivo em 20 de Setembro de 1954, na CBS. 
 
Com Henry Fonda no papel principal, o filme conta ainda com as interpretações de Martin Balsam, John Fiedler, Lee J. Cobb, E.G. Marshall, Jack Klugman, Edward Binns, Jack Warden, Joseph Sweeney, Ed Begley, George Voskovec e Robert Webber nos papéis dos restantes jurados. Foi nomeado para os prémios de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado na trigésima edição dos Óscares da Academia. 
 
As sessões do mês de Junho contarão com as presenças de David Ferreira, Nuno Dias, João Campos e Inara Chayamiti, que falarão com o público sobre o seu trabalho e as suas escolhas. 
 
As sessões do cineclube ocorrem sempre às terças-feiras, às 21h30, e a entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do Lucky Star - Cineclube de Braga têm entrada livre.

Até Terça!

sábado, 8 de junho de 2024

The Last Picture Show (1971) de Peter Bogdanovich



por David Ferreira

The Last Picture Show retrata a vida numa pequena cidade do Texas no início dos anos 1950. A partir do local e da era, e da forma como o filme é dirigido e fotografado, sentimos de forma melancólica a busca de identidade e propósito nesta passagem da adolescência para a idade adulta. 

Bogdanovich filma com a mestria dos seus heróis (Ford, Hawks) a transição para a vida adulta com uma honestidade brutal, sem cair em sentimentalismos fáceis. A complexidade da feminidade e a sexualidade neste retrato é tratada de forma franca e, por vezes, controversa, 50s à la 70s, sem as 7 saias mas com mamas. As relações humanas refletem a busca desesperada dos personagens por conexão e significado, no deserto daquela cidade decadente e enfadonha. 

E nesse deserto, o cinema seria um dos locais de escape e diversão; já para o fim, Ms. Mooney lamenta tê-lo perdido para o futebol e a televisão. 

Este fim metaforiza com o fim daquela era (que terminaria no fim da década). Este fim do cinema já se preconiza há muito. Talvez hoje vivamos o maior estado de indefinição desta nossa arte - para onde se caminha entre os super heróis e a ideologia e para onde se caminha como linguagem na relação com um publico que flutua (afoga) num oceano de imagem precocemente "ejaculada"(?). 

 Eu não sei.



Lixo e Companhia Ltd (2012) de David Ferreira



por João Palhares

Dir-nos-ão que é normal e que se deve aceitar esperar pelo menos um ano para submeter um projecto entre centenas de outros projectos para a avaliação de um júri idóneo e isento, que tendo a sorte de se ser seleccionado e acabar com um filme nas mãos também se deve depois então passar outro ano a preencher dezenas e dezenas de formulários de inscrição para os festivais do mundo inteiro e ceder-lhes o exclusivo da estreia internacional, europeia ou nacional e esperar que seja premiado para conseguir que circule nas salas algures no ano seguinte; três ou quatro anos depois, descontando o tempo que se levou a pensar, escrever, re-escrever, procurar um produtor, escolher actores, ensaiar com eles, planear, tentar equilibrar o que é pensado com a frescura do imponderável, filmar, montar, fazer os ajustes de pós-produção, dar entrevistas e esperar que algum jornal contrarie as modas e fale sobre ele e sobre outros circuitos de exibição, e até sendo premiado, pode passar apenas uma semana numa só sala em Lisboa e começar depois a procurar o seu lugar num horário tardio na televisão portuguesa. 

Assim vai a vida para um jovem realizador em Portugal. E como se tem de pagar contas, mesmo que não se desista, que também acontece, há muito quem arranje outros empregos, relacionados ou não com cinema, como há quem se vire para a publicidade e para os casamentos, a televisão e o vídeo institucional, enfim, são as sequelas mais práticas e mais imediatas do esquema de produção por terras portuguesas. Há outras, porque por vezes uma ideia e um projecto podem perder algo de importante e genuíno com todas as filtragens burocráticas e diplomáticas que se lhe arremetem pelo caminho, no que se escreve quando se apresenta o projecto, no que se cede a produtores e equipas técnicas, no que se projecta em termos de recepção e aceitação em festivais e televisões... “Perdemo-nos nas coisas quando contámos o nosso filme,” disse Pedro Costa em entrevista este ano. “Perdemo-nos no nosso próprio discurso, no nosso próprio fascínio. É mau, e o filme devia ser um segredo entre nós e muito poucas pessoas, ou entre nós e o espaço, sabem, é aquela floresta, é aquela rapariga, é aquele homem, devia ficar entre nós, e é muito íntimo, e é parte do segredo. A ideia do pitching, o método ou a política do pitching está a matar uma data de coisas para esses projectos; é óbvio, e depois entra-se num sistema que é a forma normal, convencional, comercial e capitalista de fazer um filme. Financiar e pensar através do discurso à volta destas coisas. Eu nunca pensei que iria chegar a isto, a este lugar horrível a que se chegou. Perguntam-nos quais são as nossas metas para este filme. Quando eu era novo, nunca pensei em metas, e quando eles dizem metas, tem de se concorrer a dinheiro para o filme. Tem de se escrever um texto não só sobre como se planeia financiar o filme mas também sobre a quem o filme se dirige, quantos países, para quantos, que tipo de mercado, etc. Portanto a palavra mercado está lá quase no princípio da vida de um jovem cineasta, e não devia estar.”[1] 

“É uma coisa terrível isto de fazer um filme com tantos técnicos à nossa volta,” disse Arthur Penn em 1967 a Jean-Louis Comolli e André S. Labarthe, “tanta gente muito qualificada e muito hábil: se temos uma ideia, ela vê-se imediatamente filtrada como o fumo pelo filtro de um cigarro. Cada um dos que nos rodeia sabe exactamente como é que a nossa ideia deve ser realizada, e aquilo que acaba por sair de todos esses esforços precisos, não é a nossa ideia, mas o arquétipo da ideia hollywoodiana, o lugar comum, o banal.”[2] Tudo isto são obstáculos evidentes para quem começa e continua o seu trabalho em cinema, em Portugal ou noutro sítio, e há quem crie as suas defesas e os seus mecanismos para os superar. Uma solução, é fazer filmes com poucas pessoas e com poucos meios, tentando aprender as lições dos artesãos da Poverty Row americana, como Edgar G. Ulmer, Phil Karlson, Joseph H. Lewis ou Budd Boetticher, do engenhoso e criativo Roger Corman que tinha como credo e posição na indústria produzir dez filmes de um milhão de dólares em vez de um filme de dez milhões de dólares, ou de uma vasta gama de artistas que vão do cinema experimental aos cinemas novos e recusaram os esquemas tradicionais de financiamento, produção e exibição como se convencionaram dos anos oitenta a esta parte. 

Enfim, o ideal é criar o tempo e os meios necessários para que o trabalho não se apresse, para que a visualização e a discussão desse trabalho também não se apressem, para que o acto de mostrar os próprios filmes não seja assim tão diferente de ter uma conversa calma e cândida sobre um tema sério, sem que o rebuliço dos horários e das próximas sessões e dos almoços e dos jantares e das viagens façam perder o fim em vista. Sem que haja multidões instigadas maliciosamente a não perder a próxima atracção, “mais um filme a não perder”, “o próximo Coppola”, quase 24 horas por dia. Assim, é possível escrever sobre um filme do século passado neste século ou falar de uma curta-metragem de 2012 em 2024. 

O David Ferreira é alguém que, desde os tempos do curso na Covilhã, revelou sempre uma aptidão pouco comum para pensar as coisas em termos de imagens, hierarquias nos enquadramentos, posições de câmara e trajectórias de luz em movimento, quando o esperado e maioritariamente realizado era o demasiado escrito, o delineado em tramas, diálogos e temas em voga, o imaginado pela mente delirante dos jovens criadores. Tem um fascínio salutar pelas pessoas da sua terra, de que tenta dar testemunho em tudo o que vai fazendo e quando o consegue fazer. É possível ver isto nesta sua curta-metragem, em que as personagens de António Parra e Valdemar Santos são olhadas com uma certa reverência, com a câmara posicionada dentro do camião que os transporta (pormenor que terá certamente as suas explicações técnicas, mas que não deixa de ter o seu quê de intrigante e revelador, uma tentativa inocente de aproximação do realizador ao pequeno mundo que o atrai e que decide filmar), e a esgalhar belos apontamentos deles a olhar para a estrada que os embala ou de uma ambulância imprevista a desestabilizar a noite. Também nos gestos da personagem de Santos, certamente modelados a partir de alguém que os fez à sua frente vezes sem conta. Possivelmente faltam silêncios, talvez faltem pistas para o conhecimento mútuo destes dois homens, a noite parece pequena demais para o que quer abarcar, mas é preciso aprender trabalhando, ensaiar e cometer erros, e o David tirou com certeza as suas ilações desta experiência pois fez o Campos Belos o ano passado. 


[1] in «Interview with Pedro Costa», por Enes Serenli, Mert Mustafa Babacan, Matthias Kyska, Othon Cinema, 4 de Abril de 2024.
[2] in «Cahiers du Cinéma», nº 196, Dezembro de 1967.



domingo, 2 de junho de 2024

346ª sessão: dia 4 de Junho (Terça-Feira), às 21h30


Curta de David Ferreira e longa de Bogdanovich, para ver na BLCS 
 
Durante o mês de Junho, o Lucky Star – Cineclube de Braga promove um ciclo dedicado a realizadores que exercem a sua actividade no Minho e às suas escolhas. Os quatro convidados para esta ocasião serão David Ferreira, da cidade de Guimarães, e Nuno Dias, João Campos e Inara Chayamiti de Braga. As sessões realizam-se sempre às terças-feiras às 21h30 no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. 
 
O ciclo, intitulado “A cada um, o seu cinema: 4 curtas, 4 realizadores e 4 escolhas”, terá início terça-feira à noite com a exibição de Lixo & Companhia Ltd de David Ferreira. A curta-metragem de 2012 centra-se em dois homens, um bastante jovem e o outro mais velho, que iniciam mais uma noite de trabalho a recolher o lixo pela cidade. Para a acompanhar, David Ferreira escolheu a terceira longa-metragem de Peter Bogdanovich, A Última Sessão. 
 
Produzida em 2011 no contexto da Guimarães Capital Europeia da Cultura, ao abrigo do projecto Curtas Novais Teixeira, a curta-metragem foi um dos oito projectos seleccionados entre cerca de quarenta candidaturas. "Há apenas duas personagens,” disse David Ferreira à Lusa nesse mesmo ano. “Dois varredores de lixo, um com 40 anos e o outro, um recém-licenciado, que não arranjou mais nada para fazer. Vão atirando as frustrações que sentem um para cima do outro.” 
 
A Última Sessão, de Peter Bogdanovich, acompanha um grupo de jovens texanos que estão a acabar o liceu em 1951. Baseado num romance de Larry McMurtry, que escreveu o guião do filme com Bogdanovich, o filme foi nomeado para oito Óscares da Academia, vencendo os de Melhor Actor Secundário, para Ben Johnson, e Melhor Actriz Secundária, para Ellen Burstyn. 
 
Em 1971, o jornalista e poeta texano Grover Lewis, amigo de McMurtry, acompanhou a rodagem do filme em Archer City para a revista Rolling Stone, publicando aquela que será certamente uma das melhores reportagens já escritas sobre cinema, “Splendor in the Short Grass”. Foi convidado ainda a aparecer no filme, no papel de Sr. Crawford. 
 
As sessões do mês de Junho contarão com as presenças de David Ferreira, Nuno Dias, João Campos e Inara Chayamiti, que falarão com o público sobre o seu trabalho e as suas escolhas. 
 
As sessões do cineclube ocorrem sempre às terças-feiras, às 21h30, e a entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do Lucky Star - Cineclube de Braga têm entrada livre.

Até Terça-Feira!