por António Cruz Mendes
O Ovo da Serpente é um filme sombrio. Desde logo, no sentido literal do termo. A maioria das sequências são nocturnas e, mesmo quando é dia, nunca a luz do sol as ilumina. Mas, é-o sobretudo num sentido metafórico. Decorre no ano de 1923, quando na Alemanha reinava a híper-inflacção e toda a gente lutava pela sua sobrevivência sem esperar dias melhores. “Não há futuro. As pessoas perderam o futuro”, diz-nos a dada altura Manuela. Mesmo os momentos de diversão ou os encontros amorosos são patéticos. Caricaturas grotescas do que pode ser a alegria e o amor. E é neste contexto que, como uma sombra que se vai alongando, vai ganhando forma a ameaça nazi.
Enquanto a câmara segue os passos de Abel pelas ruas sujas e enevoadas de Munique, o narrador dá-nos conta desta situação: “3ª Feira, 6 de Novembro. Os jornais estão repletos de medo, ameaças e rumores. Um confronto sangrento entre os partidos extremistas parece inevitável. Apesar de tudo, as pessoas vão trabalhar. A chuva nunca pára e o medo surge, como o vapor, das pedras da rua. Pode ser sentido como um cheiro pungente. Todo o mundo o suporta como um envenenamento interno, como um envenenamento lento sentido apenas como um pulsar, mais rápido, mais lento, ou como um espasmo de náusea”.
As personagens centrais do filme são Abel Rosenberg e a sua cunhada Manuela, ambos antigos artistas de circo. Também eles vivem desesperadamente à sombra da pobreza e do remorso. Manuela culpabiliza-se pelo suicídio de Max, o seu marido, e Abel tem uma vida sem propósito que apenas suporta quando se embebeda. Deus é uma figura ausente, como nos diz o padre a quem Manuela confessa a sua culpa. “Precisamos de nos ajudar uns aos outros, dar uns aos outros o perdão que um Deus distante nos nega”. Abel é a testemunha silenciosa que nos vai conduzir dos bas-fonds da cidade de Munique aos espaços labirínticos da clínica do Doutor Vergerus.
No mundo deliquescente da Alemanha do pós-guerra, duas personagens contraditórias procuram oferecer-lhe uma ordem. Uma “nova ordem”, na perspectiva de Hans Vergerus, um cientista que, usando cobaias humanas, realiza experiências que têm como propósito manipular as emoções dos seus pacientes. Trata-se de explorar os seus limites até às últimas consequências, com a finalidade de os conhecer para poder remover as fragilidades do comportamento humano em prol de uma superior eficiência. Apesar do seu menosprezo pela figura de Hitler, sua clínica prefigura numa dimensão laboratorial a sociedade de controlo totalitário que o nazismo tentará fundar. Ao Inspector Bauer, pelo contrário, cumpre-lhe dar o seu pequeno contributo para restabelecer alguma ordem na República de Weimar, descobrindo o responsável pela misteriosa série de mortes que têm ocorrido em Munique.
Aparentemente, Bauer é o vencedor. Os seus polícias invadem a clínica e Vergerus suicida-se. Entretanto, chegam as notícias de que fracassou o golpe que Hitler preparava em Munique. Porém, como diz Vergerus a Abel, “qualquer um que faça o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como o ovo da serpente. Através da membrana fina pode-se distinguir claramente o réptil já perfeitamente formado”.
Enquanto a câmara segue os passos de Abel pelas ruas sujas e enevoadas de Munique, o narrador dá-nos conta desta situação: “3ª Feira, 6 de Novembro. Os jornais estão repletos de medo, ameaças e rumores. Um confronto sangrento entre os partidos extremistas parece inevitável. Apesar de tudo, as pessoas vão trabalhar. A chuva nunca pára e o medo surge, como o vapor, das pedras da rua. Pode ser sentido como um cheiro pungente. Todo o mundo o suporta como um envenenamento interno, como um envenenamento lento sentido apenas como um pulsar, mais rápido, mais lento, ou como um espasmo de náusea”.
As personagens centrais do filme são Abel Rosenberg e a sua cunhada Manuela, ambos antigos artistas de circo. Também eles vivem desesperadamente à sombra da pobreza e do remorso. Manuela culpabiliza-se pelo suicídio de Max, o seu marido, e Abel tem uma vida sem propósito que apenas suporta quando se embebeda. Deus é uma figura ausente, como nos diz o padre a quem Manuela confessa a sua culpa. “Precisamos de nos ajudar uns aos outros, dar uns aos outros o perdão que um Deus distante nos nega”. Abel é a testemunha silenciosa que nos vai conduzir dos bas-fonds da cidade de Munique aos espaços labirínticos da clínica do Doutor Vergerus.
No mundo deliquescente da Alemanha do pós-guerra, duas personagens contraditórias procuram oferecer-lhe uma ordem. Uma “nova ordem”, na perspectiva de Hans Vergerus, um cientista que, usando cobaias humanas, realiza experiências que têm como propósito manipular as emoções dos seus pacientes. Trata-se de explorar os seus limites até às últimas consequências, com a finalidade de os conhecer para poder remover as fragilidades do comportamento humano em prol de uma superior eficiência. Apesar do seu menosprezo pela figura de Hitler, sua clínica prefigura numa dimensão laboratorial a sociedade de controlo totalitário que o nazismo tentará fundar. Ao Inspector Bauer, pelo contrário, cumpre-lhe dar o seu pequeno contributo para restabelecer alguma ordem na República de Weimar, descobrindo o responsável pela misteriosa série de mortes que têm ocorrido em Munique.
Aparentemente, Bauer é o vencedor. Os seus polícias invadem a clínica e Vergerus suicida-se. Entretanto, chegam as notícias de que fracassou o golpe que Hitler preparava em Munique. Porém, como diz Vergerus a Abel, “qualquer um que faça o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como o ovo da serpente. Através da membrana fina pode-se distinguir claramente o réptil já perfeitamente formado”.

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