quarta-feira, 20 de maio de 2026

Bulakna (2025) de Leonor Noivo



por António Cruz Mendes
 
O nosso mundo é o resultado de grandes movimentos migratórios. As nações europeias começaram a formar-se com as chamadas “invasões bárbaras”, os actuais países da América do Norte e da América Latina resultaram da emigração de muitos povos europeus e do tráfico de escravos africanos, os novos países africanos são territórios que foram colonizados por povos europeus… Nos anos que se seguiram ao fim da 2ª Guerra Mundial, uma imensa onda de movimentos migratórios percorreu o mundo e, nos modernos tempos da globalização, os capitais, as mercadorias, as ideias e as informações circulam velozmente por todo o lado – e o mesmo se passa com as pessoas, com as suas crenças e os seus costumes. Querer impedi-lo, como alguns pretendem, é como querer tapar o sol com uma peneira.

Mas, nem todos os movimentos migratórios têm o mesmo significado. Por vezes, aqueles que migram chegam como conquistadores; outras vezes querem apenas escapar às guerras, à perseguição política ou à pobreza e, nos países que os recebem, sujeitam-se aos trabalhos mais penosos ou mais desqualificados. Os portugueses conhecem por experiência própria essas duas possíveis condições do emigrante. No filme de Leonor Noivo, ambas se encontram presentes. A primeira, na antiga história de Fernão de Magalhães, a segunda nas histórias de Norma e de Melissa, duas mulheres filipinas do nosso tempo.

As Filipinas foram uma colónia espanhola durante mais de três séculos. Bulakna, uma jovem guerreira, simboliza a resistência a essa colonização e o filme recorda-a quando nos mostra uma encenação ritual da morte de Magalhães. Em 1898, despois da derrota da Espanha na guerra Hispano-Americana, os EUA substituíram-se aos colonizadores espanhóis e esmagaram uma tentativa de independência, vencendo uma guerra que se prolongou durante três anos e se saldou pela morte de mais de 200.000 pessoas.

A sua independência foi finalmente conquistada em 1946, mas a pobreza persistiu e filme documenta-o quando nos mostra o quotidiano na aldeia piscatória donde vive Melissa, ou as imagens das ruas de Manila, coalhadas de gente e de improvisados meios de transporte. As imagens de uma procissão da Semana Santa, onde vemos um andor com um Cristo negro carregando a sua cruz, tanto podem ser um sinal da persistência da herança cultural espanhola, como a expressão simbólica da condição de vida do seu povo.

Muitos filipinos continuam a servir os seus antigos colonizadores, mas, agora, como emigrantes e a Norma e a Melissa cabe-lhes ser as empregadas domésticas que cuidam da casa e das pessoas de famílias ricas que as vêm como um mero adereço utilitário, quanto mais invisível melhor. Nestas circunstâncias, ficar ou partir é um dilema sem uma solução inquestionável. Quando se parte, deixa-se a família, os amigos, as paisagens, as comidas que continuamos a ver como “nossas”. Mas, parte-se na esperança de vir a ter uma vida melhor e também porque, assim, poderá haver dinheiro para ajudar os que ficam. Melissa quer partir e prepara-se para seguir os passos de Norma que quer voltar.

Habituados a olhar para os imigrantes na perspectiva do povo receptor, o filme de Leonor Noivo, num sóbrio registo documental, obriga-nos a colocar-nos no lugar do “outro” e, portanto, a reequacionar as nossas ideias acerca da imigração.



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