domingo, 21 de maio de 2017

61ª sessão: dia 23 de Maio (Terça-Feira), às 21h30


John Milius, argumentista e cineasta da geração dos movie brats, comparsa de Francis Ford Coppola (foi pedra angular no mítico Apocalipse Now que ainda veremos), colaborador de Steven Spielberg (1941, entre alguns outros nem creditados) ou Don Siegel (Dirty Harry, também na sombra), tem uma longa e diversa carreira a que prestamos homenagem com Rough Riders, a sua última realização. 

Poderíamos e deveríamos ter mostrado o lancinante hino à amizade que é Big Wednesday ou mesmo Conan the Barbarian - Arnold Schwarzenegger perto dos Deuses e das estrelas - mas esta obra de 1997 produzida para a televisão mostra bem da mão e do poder de Milius em espelhar através das grandes batalhas do passado o panorama de hoje. E, obviamente, o seu saber na encenação e no storytelling que torna lamentável o longo silêncio posterior. 

Para o apresentar, Mário Fernandes, companheiro de armas do nosso Cineclube, admirador de Milius e de Theodore Roosevelt, figura central no filme a ver.

Numa entrevista a Ken Plume, em que Milius fala aberta e pormenorizadamente sobre toda a sua carreira, o realizador detém-se sobre Rough Riders, dizendo que "Eles tinham um guião sobre os Rough Riders e perguntaram-me se o podia fazer. Disseram, "Podias fazê-lo se re-escreveres o guião e o puseres bom em três semanas." Portanto trabalhei noite e dia e escrevi um guião de 180 páginas. Adoro mesmo aquele filme.

"(...) Estiquei-me até ao limite, mas em alguns aspectos é o meu melhor trabalho como General. Por outras palavras, tive pouco tempo de preparação como para mais nada que tenha feito, mas é mesmo, mesmo eficiente. É o melhor uso de tácticas e logísticas que já fiz. 

"(...) Bom, o que eu gostava em The Wind and the Lion é que aborda Roosevelt obliquamente, e a história não é mesmo sobre Roosevelt, porque Roosevelt é como Alexandre o Grande. Quero dizer, não o podemos abordar mesmo de frente ou ele cega-nos. A única maneira de o abordar de frente... não podemos quando ele é presidente, não o podemos abordar nos seus primeiros anos. Mesmo em Rough Riders, ele não é abordado de frente. Não é sobre o T.R. É sobre os Rough Riders; é sobre a gente à volta dele."

Matheus Cartaxo, que em Outubro passado nos apresentou Thunderbolt and Lightfoot, escreveu em artigo para a Foco que "Rough Riders nos fala do sentimento de omnipotência da juventude, da ambição de conquistar o mundo até ao ponto onde se percebe que ele não está para brincadeiras. Chegará o momento em que o que se tem a fazer é revirar as fotografias que restaram - como no começo do filme faz um senhor, ex-combatente - e espantar-se: “Meu Deus! Como éramos jovens!”. Uma trama de lembranças começa a desenrolar-se. 

"Assim como a montagem de fotografias dos créditos puxam o novelo da memória, a própria visão de um filme parece-me o momento em que os sentimentos que foram comprimidos ao longo da duração do seu material adquirem a sua real dimensão. Astruc escreveu sobre a possibilidade de um espectador ver filmes como quem consulta um arquivo à procura de “críticas literárias, romances, ensaios da matemática, história, variedades”. Para ele, a expressão do pensamento é o problema fundamental do cinema. 

"Seria possível que víssemos filmes com o intuito de revisitar sentimentos que vivemos, como os de estar apaixonado, ter filhos, visitar o Grand Canyon ou ter oitenta anos? O que é ter dez anos? Serge Daney responderia: O Tesouro do Barba Ruiva. O que é sair da casa dos pais rumo ao desconhecido? A resposta poderia ser: Rough Riders, filme cuja energia é própria do atrito entre o homem e o mundo."

Tag Gallagher, que tão belo vídeo nos fez para White Dog de Samuel Fuller, escreveu que "Alguns homens não têm escolha; a guerra vem até eles. No entanto, Roosevelt e os seus “Rough Riders” vão à guerra - inventam inclusive uma guerra para a qual ir - argumentando que “nunca conhecer a honra e nunca conhecer a coragem” não é uma alternativa. O cenário da praia em Três Amigos tem até um rito de passagem, um portal templário pelo qual Matt precisa de atravessar sem a ajuda de mais ninguém além de si. Não se pode evitar surfar a grande onda da vida. 

"Por outro lado, talvez os heróis sejam as grandes ondas e os seus ideais grandiosos apenas uma massa de ar quente. Havia, por exemplo, grandiosas razões cubanas (como, por exemplo, centenas de milhares de cubanos assassinados) para que os E.U.A resgatassem a ilha dos espanhóis. Mas em Rough Riders, Milius nunca menciona as razões de Cuba. Ele mal mostra um rosto cubano. Em vez disso, ele mostra o motivo americano: retaliação pela explosão do Maine, uma das mentiras mais infames da história americana, conhecida como tal até mesmo por crianças em idade escolar, ao mesmo nível de L.B.J. inventar o “incidente” do Golfo de Tokin para envolver os E.U.A contra o Vietname (e que Milius mostra em Intruder: Missão de Alto Risco), ou Truman a anunciar que a nossa nova bomba atómica tinha “caído em Hiroshima, uma base militar” (em Adeus ao Rei). Milius retrata as três mentiras todas sem refutação. Nós e os personagens sabemos que são apenas desculpas para ondas. (Ou melhor, sabemos isso se nos preocupamos em questionar a mentira, primeiro, e se nos perguntarmos se o próprio Milius está a ser ingénuo ou gatuno, depois. Ver um filme de Milius requer um bocado de argumentação.) 

"'A América deseja a batalha!' resume Roosevelt. Diferente dos soldados de John Ford, que marcharam fatigados para a guerra, arrasados por terem sido separados das suas famílias, angustiados por dispararem as suas armas, abominando o seu dever, desprezando os seus políticos, os soldados de Hawks e Milius vão à guerra pela escaramuça e pela folia. Pelas “virtudes da luta”, como Roosevelt lhes chama. Quão inspiradora é a exuberância de William Randolph Hearst a ler a manchete “GUERRA” - uma guerra que o magnata dos jornais tinha essencialmente criado - e quão gloriosamente cavalga Hearst em direcção ao sol no final do filme, esguio, bravo e verdadeiro. Liderado por homens como Hearst e Roosevelt, os Estados Unidos acabariam por tomar posse de Porto Rico, Guam e das Filipinas, e flexionariam o seu poder à volta do mundo, abatendo centenas de milhares. Milius foca-se num momento na história americana em que os fascistas triunfaram sobre os democratas. Os heróis posam eternamente para exibirem o seu desafio viril à morte, como pinturas espanholas. O Capitão O’Neil (Sam Elliott), o líder mais inspirador, morre inclusive pela valentia, desafiando desnecessariamente as balas do inimigo a acertá-lo. “Todos os grandes povos dominadores foram povos lutadores,” proclama Roosevelt."

Até Terça!

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