sábado, 8 de março de 2025

387ª sessão: dia 11 de Março (Terça-Feira), às 21h30


Anjos Caídos de Wong Kar-Wai na próxima terça-feira
 
Encerrado o ciclo de fevereiro dedicado ao cinema japonês, o Lucky Star – Cineclube de Braga preparou um novo ciclo focado no cinema asiático. Para o mês de março de 2025 foi programado um conjunto de filmes do realizador chinês Wong Kar-Wai. Assim, escolheram-se quatro filmes para constituir uma pequena retrospectiva deste emblemático realizador. Como habitualmente as sessões ocorrerão às terças-feiras no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.

Esta terça-feira, 11 de Março, o ciclo prossegue com o filme Anjos Caídos de 1995. Com uma estética visual arrojada, com a habitual cinematografia de Christopher Doyle, e uma narrativa não linear, o filme captura a essência da solidão urbana e o anseio universal pela conexão humana

Inicialmente, a estória pensada para Anjos Caídos iria ser parte integrante do filme Chungking Express (1994). Filme, o qual, foi exibido na semana passada. Contudo, o desenvolvimento e expansão do enredo de Anjos Caídos favoreceu a produção de um segundo filme que lhe seria inteiramente dedicado, tornando-se uma referência importante na filmografia de Wong Kar-Wai.

Em Anjos Caídos, um assassino profissional, atraído pela sua parceira durante o seu último serviço, questiona-se sobre um possível envolvimento amoroso com esta. Durante esta jornada introspectiva, pelas ruas de Hong Kong, encontra um jovem ladrão, He Zhiwu, que ficou mudo depois de ter ingerido ananás enlatado fora de validade. He Zhiwu é também uma referência ao filme Chungking Express, sendo também uma das personagens do filme. Com o mesmo nome e interpretada pelo mesmo actor, a personagem é igualmente obcecada pela validade das latas de ananás, as quais acabaria por ingerir depois de uma desilusão amorosa.  No entanto, em Chungking Express, He Zhiwu é um detective e em “Anjos Caídos”, é um criminoso.

Anjos Caídos, dirigido por Wong Kar-Wai, mergulha nas vidas solitárias e marginais das ruas de Hong Kong, explorando as jornadas emocionais de personagens que vagueiam pelas sombras da cidade. No meio do caos e a beleza das ruas, o filme Anjos Caídos oferece uma visão cativante e poética da condição humana e seus dilemas.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira !
 


quarta-feira, 5 de março de 2025

Chungking Express (1994) de Wong Kar-Wai






 Por Rute Castro

Wong Kar-Wai, nascido em 1958, consagra-se como um dos realizadores mais originais e admirados do cinema contemporâneo, destacando-se pela sua abordagem intimista e sensorial que rompe com as convenções narrativas lineares. Em Chungking Express, o diretor transforma a realidade urbana de Hong Kong num mosaico visual onde o efémero se converte em poesia.

Importa sublinhar que o título original, que serve como metáfora para descrever Hong Kong como uma “selva de concreto”, enfatiza o paradoxo de uma metrópole densamente povoada, onde, apesar da proximidade física, muitos vivem isolados em mundos interiores particulares.

O estilo de Wong Kar-Wai é marcado pela fusão do rigor formal com uma liberdade expressiva singular. O seu uso inovador das cores, dos enquadramentos e da montagem cria composições que transcendem o tempo e o espaço, convidando o espectador a uma experiência quase meditativa. O realizador explora de forma brilhante a dualidade entre o caos urbano e a solidão pessoal, transformando cada cena num manifesto visual que reflete as contradições da modernidade.

Em Chungking Express, a fragmentação da narrativa é empregue como um recurso para intensificar a subjetividade das emoções, permitindo que a narrativa se construa através de momentos, gestos e olhares, mais do que através de diálogos ou enredos tradicionais. Esta abordagem desafia o espectador a interpretar e a completar a história com base nas sensações evocadas por cada imagem, o que confere ao filme um caráter profundamente pessoal e intimista.

A importância deste filme no panorama mundial deve-se, em grande parte, à capacidade de Wong Kar-Wai de reinventar a linguagem cinematográfica. A sua visão estética, aliada a uma sensibilidade única, revolucionou a forma de contar histórias no cinema, posicionando-o como referência incontornável entre os realizadores contemporâneos. A influência de Chungking Express estende-se para além dos limites do cinema asiático, tendo impactado gerações de cineastas e contribuído para a difusão de novas tendências narrativas e visuais. Este filme não só redefiniu os parâmetros do cinema urbano, mas também se inscreveu como um estudo profundo sobre a natureza efémera das relações humanas e sobre a constante busca de significado num mundo moderno e acelerado.

Wong Kar-Wai demonstra, com este trabalho, a sua maestria em transformar o ordinário em extraordinário. A sua capacidade de capturar momentos fugazes e de imbuí-los de uma beleza melancólica e reflexiva, distinguindo-o como um dos melhores realizadores do mundo contemporâneo. O seu trabalho evidencia uma constante experimentação e uma ousadia estética que o fazem sobressair, sendo Chungking Express um marco irreverente que continua a influenciar e a inspirar o cinema global.

A banda sonora de Chungking Express é tão emblemática como o próprio filme. Na primeira história, a música principal é “Things in Life”, de Dennis Brown, que cria uma atmosfera nostálgica e melancólica. A canção “Baroque”, de Michael Galasso, aparece em momentos chave, complementada por outras faixas instrumentais – “Fornication in Space”, “Heartbreak” e “Sweet Farewell” – que reforçam a sensação de efemeridade e introspeção. Na segunda história, “California Dreamin’”, dos The Mamas & the Papas, assume um papel central, sublinhando os conflitos internos da personagem Faye Wong, que ainda interpreta uma versão de “Dreams” dos The Cranberries, usada também nos créditos finais. Este conjunto musical teve um papel decisivo na introdução do dream pop no mercado de Hong Kong, influenciando não só o panorama musical local, mas também a evolução do Canto-pop.

Resposta crítica e legado: O impacto de Chungking Express na crítica e no público tem sido profundo. O conceituado crítico Roger Ebert classificou o filme com três de quatro estrelas, assinalando que a obra se revela sobretudo para os verdadeiros amantes do cinema, que se deixam envolver pelo estilo singular de Wong Kar-Wai, mesmo que a narrativa não seja convencional. Por outro lado, Janet Maslin, do The New York Times, criticou a energia quase “MTV” do filme, argumentando que o excêntrico comportamento dos personagens, por vezes, beira o exagero. Contudo, tais críticas apenas sublinham a natureza cerebral e desafiante da obra, que, através da sua estética inovadora, convida o espectador a uma reflexão profunda sobre a essência da sétima arte. A influência de Chungking Express estende-se, ainda, aos rankings internacionais – desde uma posição de destaque em sondagens realizadas pelo British Film Institute até à inclusão na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos da revista Time –, confirmando o seu legado duradouro e a sua importância crucial para o cinema mundial

 

 Folha de Sala

domingo, 2 de março de 2025

386ª sessão: dia 4 de Março (Terça-Feira), às 21h30


Viagem alucinante com Chungking Express de Wong Kar-Wai na próxima terça-feira
 
Encerrado o ciclo de fevereiro dedicado ao cinema japonês, o Lucky Star – Cineclube de Braga preparou um novo ciclo focado no cinema asiático. Para o mês de março de 2025 foi programado um conjunto de filmes do realizador chinês Wong Kar-Wai. Assim, escolheram-se quatro filmes para constituir uma pequena retrospectiva deste emblemático realizador. Como habitualmente as sessões ocorrerão às terças-feiras no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.
 
Esta terça-feira, 4 de Março, o ciclo arranca com o filme “Chungking Express” (1994). Esta obra-prima de Wong Kar-wai, é uma imersão emocional nas intrincadas camadas da vida urbana de Hong Kong.
 
Este filme apresenta duas histórias entrelaçadas de amor, solidão e autodescoberta, ambientadas nas agitadas ruas da cidade. Com personagens complexas e uma trilha sonora evocativa, "Chungking Express" convida-nos a refletir sobre a natureza efémera da vida e as nuances emocionais que permeiam as nossas experiências quotidianas.

Wong Kar-Wai, nascido em Xangai, cresceu em Hong-Kong onde realizou a maior parte dos seus filmes, inspirando-se nas ruas movimentadas da vida urbana para criar uma estética única. “Chungking Express” foi produzido de forma bastante improvisada, o realizador escrevia as cenas no dia anterior ou na manhã das filmagens.
 
O filme originalmente pretendia representar três histórias separadas que tinham as ruas de Hong-Kong como cenário comum, mas uma delas acabou por ganhar vida própria. O realizador optou por retirar a história de “Chungking Express” para a usar na obra seguinte “Anjos Caídos” (1995). Filme, o qual, será exibido no dia 11 de março.

Chungking Express foi produzido em apenas três meses, apesar das várias improvisações e regravações de última hora durante a pós-produção do filme. Filme, o qual, foi finalizado e lançado no mesmo ano que “Cinzas do Passado”, em 1994.

Graças ao filme “Chungking Express”, Wong Kar-Wai obteve reconhecimento internacional na Europa e nos Estados Unidos. O filme obteve algumas premiações, inclusive do “Hong-Kong Film Awards”, nomeadamente o de melhor cinematografia, melhor realizador e melhor ator.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até Terça!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O Monge Apostador (1963) de Shôgorô Nishimura



 Por António Cruz Mendes

É bem conhecida a aposta de Pascal: Deus existe ou não? Não existem provas indesmentíveis da sua existência, mas temos que decidir a nossa vida em função da resposta que dermos a essa pergunta. Ora, se apostarmos na sua existência e ela se revelar verdadeira, teremos um ganho infinito – podemos alcançar uma vida de eterna felicidade. Por outro lado, se ele não existir, a nossas perdas serão finitas, de importância relativamente pequena. Então, por que não apostar na existência de Deus? 

Aquilo que está em questão, para Shundô Harumichi, não tem a mesma transcendência, mas ele confronta-se com um dilema semelhante: Se o templo de Hojûin, o negócio que sustenta a sua família, está arruinado, se a sua reputação é deplorável, se lhe é impossível angariar os donativos necessários à sua reabilitação, então por que não apostar o seu pecúlio nas corridas de bicicletas? 

O argumento de Pascal foi rejeitado por muitos teólogos porque, partindo de uma posição agnóstica, se resolvia num cálculo de perdas e ganhos excessivamente semelhante ao dos homens dos negócios. Mas, no caso de Harumichi, esse problema não se coloca. Afinal, como ele próprio diz, realizar cerimónias fúnebres pode ser um dever de um monge, “mas quando se pede dinheiro em troca, já não se trata de religião. É um negócio”. 

Aliás, um negócio que ele nunca quis assumir. Obrigou-o a isso a morte do irmão e a pressão paterna e a sua aposta não deu os resultados esperados. Pelo contrário, conduziram-no, numa vertigem suicida, a uma sucessão de perdas que o conduziram ao álcool e à miséria. As tragédias acarretadas pelo vício do jogo têm sido um tema tratado por muitos autores. Na literatura, recordo O Jogador, de Dostoievki, ou 24 Horas da Vida de uma Mulher, de Stefen Zweig. Este último foi adaptado para o cinema por Robert Land, em 1931, e muitos outros filmes debruçaram-se sobre o assunto. Como nestas obras, em O Monge Apostador podemos seguir o processo de degradação moral a que o vício de jogo conduz a sua vítima. No entanto, o tema é aqui tratado de uma forma singular, entretecido com uma história de família que lentamente se vai desvendando e com uma outra história que decorre em paralelo, a história de Sokito, uma jovem violada pelo padrasto e explorada por uma proxeneta que procura protecção junto de Harumichi, o seu antigo professor. Curiosamente, um pretendente de Sokito, é o filho da velha alcoviteira, talvez atrasado mental, que passa o seu tempo a “filmar” com um brinquedo aquilo que se vai passando à sua volta… 

Neste cruzamento de várias histórias, o filme acaba por nos oferecer uma perspectiva do Japão do pós-guerra, uma sociedade onde a pobreza ainda persiste, sendo ela, como nos diz um colega de Haramuchi, “uma aflição que atravessa o cérebro” e que faz com que “os homens fiquem psicóticos” e percam “o seu raciocínio”. 

A dada altura, parece que o filme vai decidir-se num banal happy end... Mas, Nishimura contraria essa expectativa na sua cena final, de uma divertida ironia, onde vemos Harumishi assumir um novo papel, que lhe permite finalmente conciliar muito pragmaticamente a pregação dos ensinamentos budistas e os seus conhecimentos do mundo das apostas nas corridas de ciclismo. Enfim, um “monge apostador”.


sábado, 22 de fevereiro de 2025

385ª sessão: dia 25 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30



Mestre Shôgorô Nishimura na útlima sessão de fevereiro do Lucky Star – Cineclube de Braga

Para o mês de fevereiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga preparou dois ciclos de cinema com um total de onze filmes, os quais foram exibidos às segundas e terças.
 
O ciclo regular do cineclube, com as habituais sessões às terças-feiras, dedicado aos filmes de “Mestres Japoneses Desconhecidos” termina hoje.
 
O segundo ciclo resultou da parceria com o XI Festival Convergências e foi reservado ao cinema português e galego. Este ciclo procurou diluir fronteiras e promover o encontro através dos vários pontos de convergência históricos e socioculturais representados no cinema de ambos os lados da raia. As sessões deste ciclo ocorreram às segundas-feiras, nas três primeiras semanas do mês, também, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.

Nesta terça-feira, 25 de fevereiro, exibir-se-á o filme “O Monge Apostador”, de 1963, do mestre Shôgorô Nishimura. e será a última sessão do ciclo “Mestres Japoneses Desconhecidos”, cujos filmes foram realizados entre os meados dos anos 50 e inícios da década de 60, abrangendo, assim, a “Era Dourada” do cinema japonês, bem como a “nova vaga” que imediatamente lhe seguiu.

Findada a ocupação e controlo americano no Japão, inclusive na produção cinematográfica, a partir de 1952, as obras fílmicas realizadas asseveraram o estatuto do cinema japonês no Mundo, olhando para o seu próprio contexto de forma crítica e ocupando-se de temas histórico-políticos e socioculturais de maneira, por vezes, provocadora, enquadrados numa estrutura formal e estética que distingue o cinema japonês de outros cinemas.

Em “O Monge Apostador” (1963), Harumichi, um professor de ensino médio, regressa para substituir o sacerdote do Templo Hojûin após o seu falecimento. Contudo, deparado com dificuldades financeiras do templo que depende de doações, desmoraliza-se e acaba por se refugiar no jogo. Apesar dos seus esforços para manter uma vida equilibrada, torna-se prisioneiro do vício. O filme é um retrato satírico da sociedade japonesa de então.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30, segundas-feiras. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.
 
Até terça-feira!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A Tragédia de Bushidō (1960) de Eitarō Morikawa





Por Catarina Bernardo

Considerado uma obra de arte por ser o único filme do realizador, A Tragédia de Bushidô (1960) transporta-nos para um Japão onde fortificava um sistema baseado no código samurai, no qual, sempre que um senhor feudal morria, um samurai era escolhido para ser executado, permitindo-lhe assim acompanhar o seu mestre na morte e preservar a honra do clã. Com uma narrativa repleta de tragédia e crítica social, Eitaro Morikawa explora o conflito entre o tradicional e o moderno, e revela a impiedade de um sistema fundamentado na lealdade absoluta, que, no final, beneficia apenas aqueles que estão no topo da hierarquia social.

A história passa-se no Japão feudal e acompanha Iori, um jovem samurai de 16 anos, que recebe a ordem de cometer seppuku (suicídio ritual) para seguir o seu senhor na morte, um costume tradicional para preservar a honra do clã. Criado por sua cunhada Oko, esposa de seu irmão mais velho, Iori encontra nela uma figura materna e, ao mesmo tempo, uma presença ambígua dentro do código moral da época. Diante da iminente execução do jovem, Oko faz um pedido ao marido: passar a última noite com Iori para lhe ensinar os prazeres da vida antes que ele morra. Essa decisão gera um intenso conflito emocional e moral, acentuando as contradições do samurai.

Na manhã seguinte, no entanto, um decreto inesperado chega à família: a ordem de suicídio de Iori foi revocada por proibição do seppuku. O jovem, que até então havia aceitado o seu destino como inevitável, agora vê-se perdido diante de uma vida que já havia aceitado abandonar. A narrativa desenrola-se em torno da desconstrução da obediência cega à tradição e do impacto psicológico desse sistema, mostra como a honra e a obediência absoluta podem resultar em consequências trágicas.

O filme questiona se a honra imposta pelo samurai realmente glorifica os seus seguidores ou se apenas perpetua um ciclo de sofrimento e obediência irracional. A história de Iori torna-se, assim, uma metáfora sobre a brutalidade de um sistema que valoriza o sacrifício acima da vida.

A Tragédia de Bushidô é uma obra visualmente rigorosa que revoluciona a estética tradicional do jidai-geki e abandona a grandiosidade épica a favor de uma mise-en-scène intimista e opressiva. O filme utiliza enquadramentos geométricos e uma iluminação contrastada para enfatizar a rigidez do código de honra samurai e transforma o espaço fílmico numa prisão visual para os personagens.

O uso da luz e da sombra remete ao expressionismo, criando um ambiente de clausura. Os interiores são filmados com profundidade dramática, onde portas deslizantes e biombos não apenas dividem os personagens, mas também simbolizam barreiras morais e psicológicas intransponíveis. Os cortes secos e a montagem económica reforçam a rigidez da narrativa, sem excessos melodramáticos, apenas a dureza do destino e das tradições.

O movimento de câmara é contido, refletindo o peso das decisões impostas pelo samurai. No entanto, quando há deslocamentos são milimetricamente calculados e podem sugerir a tensão interna dos personagens. As cenas do pôr-do-sol, especialmente as que envolvem Oko e Iori, são carregadas de uma sensualidade reprimida, com sombras projetadas sobre os corpos num jogo de iluminação que sugere tanto desejo quanto inevitabilidade.

No fim, A Tragédia do Bushidô é uma experiência estética que ultrapassa o seu enredo, utiliza cada enquadramento, cada sombra e cada composição para reforçar a tensão entre a tradição e o desejo, ordem e desobediência. O filme é uma pintura fílmica da repressão, onde a beleza das imagens contrasta com a brutalidade do destino de seus personagens.

 

 Folha de Sala