domingo, 28 de junho de 2026

454ª sessão: dia 30 de Junho (Terça-feira), às 21h30


ANIKI-BÓBÓ, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

No mês de junho, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta o ciclo “O Mestre e o Seu duplo”. A programação é constituída por dois documentários que incidem sobre a obra de um cineasta, seguidos pela exibição de um filme do mesmo. Nesta primeira edição foram escolhidos Yasujiro Ozu, apresentado por Wim Wenders, e Manoel de Oliveira, visto por João Botelho. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo encerra com a exibição de Aniki-Bóbó (1942), primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, amplamente considerada uma das obras fundamentais e mais influentes da história do cinema nacional. Inspirado no conto “Os Meninos Milionários de João Rodrigues de Freitas, o filme acompanha o quotidiano de um grupo de crianças nas margens do rio Douro, no Porto. O enredo centra-se na rivalidade entre Carlitos e Eduardinho, ambos apaixonados por Teresinha. Através de brincadeiras e pequenas transgressões infantis, a obra constrói um retrato sobre a inocência e o despertar da consciência moral.

Rodado em cenários naturais do Porto e interpretado maioritariamente por actores amadores, Aniki-Bóbó rompeu com as convenções estéticas e com os estúdios da época. A atenção à realidade e a espontaneidade dos gestos conferiram-lhe uma linguagem visual inédita no país. Apesar da recepção fria aquando da sua estreia, o filme foi reavaliado por historiadores do cinema, que hoje o apontam como um precursor do neorrealismo italiano, antecipando em anos os conceitos de clássicos como Roma, Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini.

O realizador Manoel de Oliveira (1908 – 2015) consolidou-se como uma das figuras cimeiras do cinema europeu e autor português com maior projecção internacional. Numa carreira que atravessou mais de oito décadas, assinou títulos como Douro, Faina Fluvial (1931), Vale Abraão (1993) e O Estranho Caso de Angélica (2010). O seu percurso ficou marcado pela constante experimentação formal, pela forte ligação à literatura e por uma original reflexão sobre o tempo. Mais de 80 anos após o seu lançamento, Aniki-Bóbó mantém um estatuto de clássico indiscutível.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras, às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

 Até terça! 



quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu(2016) de João Botelho



por Jessica Sérgio Ferreiro
 


O filme arranca com um aforismo que funciona como paradigma estético: “Os filmes são histórias; o cinema é a maneira de as contar”. Logo de seguida, vemos a imagem de um maestro a dirigir uma orquestra, retirada de Porto da Minha Infância (2001), filme exibido pelo Lucky Star – Cineclube de Braga em outubro de 2025. A metáfora é reveladora. Para Manoel de Oliveira, recorda João Botelho, o cineasta não é um arquiteto, porque a arquitetura é estática, mas antes um jardineiro. Poderíamos acrescentar: um compositor que organiza harmonias, ritmos e dissonâncias, construindo uma sinfonia feita de imagens, sons, palavras e tempos.

À semelhança de Porto da Minha Infância, esse extraordinário auto-retrato onde Oliveira revisita a cidade, a memória e o próprio cinema, também João Botelho se torna aqui narrador da sua história. O filme é, simultaneamente, um retrato de Manoel de Oliveira e uma reflexão sobre o próprio acto de filmar. O encontro entre Manoel de Oliveira e João Botelho marcou profundamente este último. Ao longo do filme, são recordados vários conselhos do mestre, entre eles uma máxima reveladora da sua ética de trabalho: “Se não tens dinheiro para filmar a carruagem, filma apenas a roda, mas filma bem a roda". O episódio remete para as experiências técnicas de Oliveira com o movimento, nomeadamente para a forma como conseguiu filmar o avanço de uma roda, contornando o efeito produzido pelo obturador da câmara.

Ao longo da obra, Botelho recorda alguns dos cineastas que marcaram Oliveira. Entre eles encontra-se Carl Theodor Dreyer, particularmente através de A Paixão de Joana d'Arc (1928), cuja frontalidade e intensidade dramática representada nos planos fixos admirava, a par dos de John Ford, de quem Oliveira terá herdado o gosto pelo plano fixo e pela economia do movimento de câmara. Esta valorização da imagem estática, por Oliveira, fundamenta um cinema que reserva o movimento apenas para os momentos em que este se torna verdadeiramente necessário.

Certos elementos atravessam toda a filmografia oliveiriana e adquirem uma dimensão quase simbólica, tornando-se arquétipos do cinema, tal como o comboio, remetendo inevitavelmente para A Chegada do Comboio à Estação de La Ciotat (1985) dos irmãos Lumière; o Douro; a árvore; a rosa; a paisagem portuguesa; ou ainda o próprio rio enquanto “imagem-tempo” que se tornariam marcas do cinema de Oliveira.

É impossível não reconhecer a mestria de Manoel de Oliveira enquanto artista e artesão. Como o próprio filme sublinha, era simultaneamente um inventor e um visionário, alguém que atravessou praticamente toda a história do cinema, experimentando linguagens muito distintas. Em Douro, Faina Fluvial (1931), encontramos ecos do construtivismo e da montagem dialéctica soviética. Em Aniki-Bóbó (1942), Oliveira antecipa formas de realismo poético e social que precedem o neorrealismo de Roberto Rossellini, em Roma Cidade Aberta (1945), ou de Vittorio De Sica, em Ladrões de Bicicletas (1948). Não obstante, a inovação formal nunca significou o abandono de uma posição ética. Ao longo da sua obra, Oliveira abordou desigualdades sociais, conflitos de classe e a condição humana. Alguns dos seus filmes sofreram a censura do Estado Novo, como aconteceu com A Caça (1963), onde recorre à crueldade animal para retratar a crueldade humana e cujo final original apenas seria restaurado após o fim da ditadura.

Uma das ideias mais estimulantes recuperadas por João Botelho é a concepção oliveiriana do cinema enquanto artifício: “O cinema não existe; é teatro fixado por meios técnicos ou meios audiovisuais”, afirmava o realizador. E acrescentava, em síntese, uma ideia fundamental da sua estética: quanto mais visível for o artifício, mais próximo se pode chegar da verdade. Por isso, terá rompido frequentemente com convenções estabelecidas, recusando, por exemplo, a lógica clássica do campo/contracampo. Em filmes como Benilde ou a Virgem Mãe (1975), mantém o texto e a encenação inalterado entre planos em campo/campo, tornando evidente a artificialidade da representação e convidando o espectador a reflectir sobre aquilo que vê. Joao Botelho destaca ainda Vale Abraão (1993), adaptação do argumento de Agustina Bessa-Luís, inspirado em Madame Bovary (1857) de Flaubert, ilustrando a importância da literatura no cinema de Manoel de Oliveira. Uma herança que marcaria igualmente João Botelho, autor de uma das filmografias mais consistentes do cinema português no campo da adaptação literária.

Conhecedor e herdeiro simultâneo de Lumière e Méliès, Oliveira soube cruzar realismo e fantasia, documento e ficção. Em Non, ou a Vã Glória de Mandar (1990), teve a coragem de reflectir sobre as derrotas e os mitos do império português; em O Estranho Caso de Angélica (2010), fez literalmente voar os amantes, demonstrando que o maravilhoso e o quotidiano podiam coexistir no mesmo plano.

Na terceira parte do filme, João Botelho inclui A Rapariga das Luvas (cujo título final decidido por Manoel de Oliveira substitui o original “A Prostituição ou A rapariga a Passar”, denotando-se a o sentido de dignidade humana no cinema de Oliveira), argumento que o Oliveira escreveu, mas nunca chegou a filmar. Ao decidir realizá-lo no interior de O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, João Botelho concretiza um projecto que permaneceu inacabado, transformando este acto num gesto de continuidade do cinema, dedicando-o a Manoel de Oliveira.

João Botelho afirma ainda que, no cinema de Manoel de Oliveira, venceu sempre o cinema-tempo sobre o cinema-movimento. A observação remete inevitavelmente para a reflexão de Gilles Deleuze sobre a imagem-tempo. Se o cinema clássico organiza as imagens em função da ação e da causalidade, Oliveira interessa-se sobretudo pela duração, pela palavra, pela memória e pela presença dos corpos no plano de imagem. O tempo deixa de ser subordinado ao movimento e torna-se matéria visível do próprio filme. Os seus planos convidam-nos menos a seguir uma acção do que a “habitar” um momento.

Talvez por isto tudo, João César Monteiro tenha afirmado, a propósito de Oliveira, que “ou encolhem o cineasta ou alargam o país”. A frase permanece uma das mais justas descrições da sua importância e mestria. Manoel de Oliveira foi simultaneamente um homem do Porto e um cineasta universal; um experimentador incansável e um profundo conhecedor da tradição; um inventor de formas e um poeta das imagens. Os seus filmes permanecem como prova viva de que o cinema pode ser pensamento e arte. Em suma: o Cinema (com letra grande) é poesia visual.

 

Folha de Sala

 

domingo, 14 de junho de 2026

453ª sessão: dia 16 de Junho (Terça-feira), às 21h30


O Cinema, Manoel de Oliveira e João Botelho, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

No mês de junho, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta o ciclo “O Mestre e o Seu duplo”. A programação é constituída por dois documentários que incidem sobre a obra de um cineasta, seguidos pela exibição de um filme do mesmo. Nesta primeira edição foram escolhidos Yasujiro Ozu, apresentado por Wim Wenders, e Manoel de Oliveira, visto por João Botelho. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo continua com a exibição de O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu (2016), realizado por João Botelho. Concebida após o falecimento de Manoel de Oliveira, esta obra apresenta-se simultaneamente como uma profunda homenagem ao prestigiado cineasta portuense e uma reflexão ensaística sobre a sétima arte, cruzando os territórios do documentário, da ficção, da memória afectiva e do ensaio crítico.

Partindo de uma relação de amizade e aprendizagem de mais de quatro décadas, Botelho conduz o espectador pelo universo criativo de Oliveira, revisitando os seus métodos de trabalho, as suas invenções formais e a singular concepção estética que atravessou mais de um século de história. Conforme o próprio realizador assumiu, trata-se de um manifesto idealizado “contra o esquecimento”, estruturado não como uma biografia convencional, mas como uma introdução essencial à obra do mestre.

Um dos pontos altos do projeto é a recriação ficcional de A Rapariga das Luvas, uma história antiga que Oliveira muito apreciava, mas nunca filmou. Integrada sob o formato de um filme dentro do filme, esta sequência permite a Botelho dialogar com a herança do mestre, explorando a proximidade entre o registo documental e a ficção pura.

O elenco conta com Mariana Dias, António Durães, Maria João Pinho, Miguel Nunes e Ângela Marques. Destaca-se também Leonor Silveira, presença constante na filmografia de Oliveira por três décadas, que estabelece uma ponte viva entre os dois realizadores.

João Botelho é uma das figuras mais relevantes do cinema nacional na actualidaed, tendo dirigido filmes marcantes, tais como: Conversa Acabada (1982), Os Maias (2014) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (2020), pautados pela adaptação literária e experimentação formal. Os seus trabalhos acumulam seleções em festivais de prestígio, com passagens por Cannes, Veneza e Berlim.

Estreado no IndieLisboa e exibido no Festival de Locarno, na Suíça, a obra O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu conquistou o Prémio João Sampaio na Janela Internacional de Cinema do Recife, no Brasil, e garantiu uma nomeação para Melhor Documentário em Longa-Metragem nos Prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras, às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça-feira!