LUCKY STAR - Cineclube de Braga
sexta-feira, 29 de maio de 2026
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Sob a Chama da Candeia (2025) de André Gil Mata
Sob a Chama da Candeia (2024), de André Gil Mata, aproxima-se destes estilos ao construir um cinema assente na duração, na observação e na suspensão da acção. Ou porventura será ao contrário, são estes conceitos que nos ajudam a “ler” e a olhar o seu cinema. Neste filme, a relação entre imagem e duração d pode, também, nos remeter para o conceito de “imagem-tempo”, formulado por Gilles Deleuze em A Imagem-Tempo (1985). Para o filósofo, o cinema moderno rompe com a lógica clássica da acção e da causalidade, permitindo que o tempo deixe de estar subordinado ao movimento. A imagem passa então a revelar a espera, o peso do tempo quotidiano ou, ainda, a memória.
Explorando temas como o envelhecimento e a memória, a condição feminina e as diferenças de classe, o filme acompanha Alzira e a empregada Beatriz, duas mulheres que partilham há décadas o espaço de uma antiga casa senhorial. Interpretadas por Eva Ras e Márcia Breia, as personagens movem-se num espaço doméstico fechado. Filmado em 16mm, o filme concentra-se num só espaço (a casa), nos objetos e nos gestos quotidianos, recusando a aceleração narrativa em favor de uma experiência sensorial de um tempo cíclico: o filme inicia com o despertar de Alzira e termina com Alzira, à noite, a dormir. É também implícito nas estações do ano ou, ainda, na leitura da lição escolar pela criança, acerca dos movimentos circulares que sucedem no nosso sistema solar e lunar. O filme atravessa diferentes temporalidades dentro da mesma casa, mas que parecem apontar para um mesmo destino, também cíclico ou “hereditário”: a clausura feminina.
O filme é composto por travellings horizontais e circulares, durante os quais a câmara nos transporta por diferentes tempos “esculpidos”, memórias e cenas de carácter simbólico — um pouco como em O Espelho de Andrei Tarkovsky, “misturado” com Trás-os-Montes de Margarida Cordeiro e António Reis. Numa dessas cenas, vemos uma criança (presumivelmente neto de Alzira) a tentar libertar à força dois pássaros de uma gaiola, na cozinha da casa que nos surge em ruínas. Os pássaros, apesar dos abanões violentos, recusam sair, demasiado acostumados à sua prisão. Imagem que nos remete para a clausura das duas protagonistas, envoltas no silêncio tumular da casa.
É ainda posto em evidência a hierarquia “institucionalizada” ou “naturalizada” na casa de Alzira. Em primeiro, os pais e, depois, o marido sobrepõem-se à autoridade e liberdade de Alzira; segue-lhe apenas a empregada Beatriz que a serve na sua servitude. O tempo manifesta-se precisamente através da permanência dos espaços e da repetição dos gestos, que nos dão pistas sobre quem representa Alzira e Beatriz quando jovens. A entrada de outras personagens, como os pais, os filhos e os netos de Alzira, interrompe essa ordem automática e ajuda-nos também a reconhecer a mudança de temporalidade e de corpos que representam as protagonistas. A casa torna-se, assim, um arquivo vivo, habitado por diferentes temporalidades, onde passado e presente coexistem, cruzam-se e confundem-se, mas onde o “lugar” da mulher nos surge sempre claro.
No final, dependendo da interpretação, a decisão de Alzira em mandar a empregada embora para poder “morrer em paz”, apesar de parecer cruel à primeira vista, pode representar uma tentativa de romper o ciclo e libertar os prisioneiros da casa, incluindo a própria casa. Vontade que finalmente se consegue impor após o funeral do marido. Vemos depois Alzira à mesa com a família, aparentemente numerosa, num espaço finalmente liberto dos gestos automáticos e rígidos da mesa posta para dois (Alzira e o marido). Contudo, nada sabemos do destino de Beatriz, mas assumimos que é o mesmo de Alzira e que ambas já partilhavam na casa: a solidão da clausura que ainda não rasgaram dentro de si.
a mim se dou
meu peito e meu convento
em troca de mais nada
(…)
Me davam por freira
conformada
no hábito que habito
ou habitava
Me têm por lei presa
tão bem posta em dádiva
pois me libertei
(…)
Me sobram porém hoje os dias
que perdi
e a clausura então que não rasguei
que aleada andava
tão aleada andava.
domingo, 24 de maio de 2026
449ª sessão: dia 26 de Maio (Terça-feira), às 21h30
Sob a Chama da Candeia de André Gil Mata, esta terça-feira no Lucky Star – Cineclube de Braga
Em maio, o Lucky Star – Cineclube de Braga, promove o cinema português que, com diferentes linguagens, inquietações e estéticas, tem vindo a renovar o panorama do cinema nacional.
Na próxima terça-feira, o ciclo encerra com Sob a Chama da Candeia (2024), de André Gil Mata, que estará presente na sessão. Ambientado no Norte de Portugal, o filme acompanha Alzira e Beatriz, duas mulheres que partilham há décadas o espaço de uma antiga casa senhorial marcada pela passagem do tempo e pelas memórias. Interpretadas por Eva Ras e Márcia Breia, as personagens movem-se num espaço doméstico fechado, onde os gestos quotidianos, os objectos e a rotina assumem um papel central na construção narrativa.
Filmado em 16mm, Sob a Chama da Candeia privilegia planos longos e uma mise-en-scène centrada na duração, no silêncio e na observação do espaço. O filme atravessa diferentes temporalidades dentro da mesma casa, explorando temas como a memória, o envelhecimento, a condição feminina e as rela-ções de classe. Foi parcialmente inspirado nas memórias familiares do realizador.
O filme estreou no FIDMarseille, integrando a competição Ciné+, e passou posteriormente pelo Festival de Cinema de Sevilha. A crítica destacou particularmente o trabalho de fotografia de Frederico Lobo, a montagem de Claire Atherton (colaboradora regular de Chantal Akerman) e o modo como o filme articula espaço e tempo, através da encenação.
André Gil Mata tem desenvolvido uma obra marcada pela atenção ao tempo, à materialidade dos espa-ços e à dimensão sensorial da imagem. Formado na Film Factory de Béla Tarr, em Sarajevo, o realizador é também autor de filmes como Cativeiro (2012), Como Me Apaixonei por Eva Ras (2016) e A Árvore (2018). O realizador integra, ainda, a Rua Escura Filmes, cooperativa de produção cinema-tográfica independente fundada em 2020, no Porto.
As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras, às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Bulakna (2025) de Leonor Noivo
Mas, nem todos os movimentos migratórios têm o mesmo significado. Por vezes, aqueles que migram chegam como conquistadores; outras vezes querem apenas escapar às guerras, à perseguição política ou à pobreza e, nos países que os recebem, sujeitam-se aos trabalhos mais penosos ou mais desqualificados. Os portugueses conhecem por experiência própria essas duas possíveis condições do emigrante. No filme de Leonor Noivo, ambas se encontram presentes. A primeira, na antiga história de Fernão de Magalhães, a segunda nas histórias de Norma e de Melissa, duas mulheres filipinas do nosso tempo.
As Filipinas foram uma colónia espanhola durante mais de três séculos. Bulakna, uma jovem guerreira, simboliza a resistência a essa colonização e o filme recorda-a quando nos mostra uma encenação ritual da morte de Magalhães. Em 1898, despois da derrota da Espanha na guerra Hispano-Americana, os EUA substituíram-se aos colonizadores espanhóis e esmagaram uma tentativa de independência, vencendo uma guerra que se prolongou durante três anos e se saldou pela morte de mais de 200.000 pessoas.
A sua independência foi finalmente conquistada em 1946, mas a pobreza persistiu e filme documenta-o quando nos mostra o quotidiano na aldeia piscatória donde vive Melissa, ou as imagens das ruas de Manila, coalhadas de gente e de improvisados meios de transporte. As imagens de uma procissão da Semana Santa, onde vemos um andor com um Cristo negro carregando a sua cruz, tanto podem ser um sinal da persistência da herança cultural espanhola, como a expressão simbólica da condição de vida do seu povo.
Muitos filipinos continuam a servir os seus antigos colonizadores, mas, agora, como emigrantes e a Norma e a Melissa cabe-lhes ser as empregadas domésticas que cuidam da casa e das pessoas de famílias ricas que as vêm como um mero adereço utilitário, quanto mais invisível melhor. Nestas circunstâncias, ficar ou partir é um dilema sem uma solução inquestionável. Quando se parte, deixa-se a família, os amigos, as paisagens, as comidas que continuamos a ver como “nossas”. Mas, parte-se na esperança de vir a ter uma vida melhor e também porque, assim, poderá haver dinheiro para ajudar os que ficam. Melissa quer partir e prepara-se para seguir os passos de Norma que quer voltar.
Habituados a olhar para os imigrantes na perspectiva do povo receptor, o filme de Leonor Noivo, num sóbrio registo documental, obriga-nos a colocar-nos no lugar do “outro” e, portanto, a reequacionar as nossas ideias acerca da imigração.
domingo, 17 de maio de 2026
448ª sessão: dia 19 de Maio (Terça-feira), às 21h30
Em maio, o Lucky Star – Cineclube de Braga, promove o cinema português que, com diferentes linguagens, inquietações e estéticas, tem vindo a renovar o panorama do cinema nacional.
Hoje, será exibido o documentário Bulakna (2025), primeira longa-metragem de Leonor Noivo. O filme acompanha mulheres filipinas que enfrentam uma nova forma de colonização: a migração forçada pelo trabalho. Empregadas domésticas e cuidadoras em países estrangeiros, vivem divididas entre o sustento económico e a distância das suas famílias, expondo as desigualdades de um sistema global assente na circulação do trabalho e do cuidado. O título recupera o nome de uma antiga guerreira filipina que resistiu à invasão colonial, estabelecendo um paralelo entre passado e presente.
Filmado entre paisagens costeiras e espaços quotidianos das Filipinas, Bulakna combina a observação documental com momentos encenados, cruzando diferentes registos narrativos. O filme segue con-versas, rotinas e memórias de mulheres marcadas pela experiência da ausência e da deslocação, cons-ruindo um retrato sobre trabalho, desigualdade e pertença.
Leonor Noivo tem desenvolvido trabalho nas áreas do documentário, da escrita e da produção cinema-tográfica, sendo cofundadora da Terratreme Filmes. Antes de Bulakna, realizou filmes como Raposa (2019) e Madrugada (2021), além de colaborar regularmente em projectos ligados ao cinema português contemporâneo.
Apresentado em vários festivais internacionais, Bulakna estreou no FIDMarseille, onde recebeu o Prix Renaud Victor. O filme integrou posteriormente festivais como o Doclisboa, SEMINCI - Valladolid International Film Week, Porto/Post/Doc, Caminhos do Cinema Português e o CPH:DOX, tendo vencido também o Prémio Alchemies no SEMINCI.
As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras, às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Ama-San (2016) de Cláudia Varejão
por Laura Mendes
Ama-San é o retrato de uma prática piscatória japonesa e das mulheres que a levam a cabo, todos os dias submergindo às profundezas da água do mar para encontrar e recolher seres e artefactos que ali habitam. Uma espécie de preâmbulo situa-nos não em Wagu, local-documento onde vivem e trabalham as Ama, mas num lugar mitológico que, remontando às origens do que é o mar e, consequentemente, de quem o ocupa e dele faz vida, se emaranha num quotidiano normal, repleto de filhos, tarefas e cuidados de subsistência.
Conhecemos, assim, estas mulheres num “dia de folga” – já que o mar, não dando tréguas, impossibilitou um dia de trabalho –, acompanhando-as na normalidade rotineira que é progressivamente desconstruída se atentarmos no transcendente que, sempre presente, as rodeia.
A sensação que o desconhecido e o intangível imprimem em nós não surge apenas do trabalho no mar e dos planos das mergulhadoras abraçadas pela imensidão do mesmo, mas também através da presença da ancestralidade, seja nos mortos que são recordados ou na palpabilidade do envelhecimento de algumas das mulheres, reflexo da longevidade do seu ofício. Apesar de tudo, não é o mistério ou o medo que dominam o imaginário, mas sim o respeito, a resiliência e a sabedoria destas existências que nunca serão suplantadas, pois importam e contribuem para o mantimento de uma tradição feminina que, entre outras coisas, desafia os estereótipos associados ao papel da mulher no seio social e doméstico.
A solenidade é um das características da prática das Ama: e Cláudia Varejão é reverente quando nos faz notar a ciclicidade dos mergulhos, a fidelidade a eles inerente, considerando todos os cuidados necessários, seja com a colocação dos fatos, as pequenas cerimónias que acompanham todo o processo, ou a beleza flutuante das mulheres submersas (que, note-se, quando regressam à superfície, zelam pela sua própria pele e corpo). São muitos (outros) os momentos do filme que evocam o rito, numa abordagem que, extravasando o material, sugere um viver dedicado e consciente.
Se a noção de comunidade (principalmente feminina) pode surgir como elemento cental de perscrutação neste filme – são várias as atividades partilhadas pelas mulheres e pelas suas famílias –, o mesmo também revela algo da solidão dos seus participantes – o barco e o mar despertam como representantes dessa solidão, refletida muitas vezes nos olhares quer do capitão que vigia a embarcação, quer das mergulhadoras, que carregam em si o peso de uma história passada e, simultaneamente, porvir. Uma dualidade que espelha as contrariedades de vidas de movimento, perigo e desolação, mas de profundo sentir e reivindicativas de um dever árduo, sério e ímpar.
Estas vidas apresentam-se-nos como fruto da necessidade de eternizar uma porção do real que porventura desconhecemos, de documentar as fórmulas ancestrais que permanecem impassíveis mesmo face a um desenvolvimento global crescente e acelerado. Reparamos na calma e paciência com que as mulheres conciliam a modernização: uma televisão na hora de adormecer ou a evocação de uma Taylor Swift distante não parecem suficientes para apelar à pretensa magnificência de uma civilização ocidental que tenta quebrar ligações genuínas com a natureza, o território e a comunidade, aqui fortalecidas a partir desta prática quase devocional.
Criaturas tão singulares quanto aquelas que pescam, as Ama são espelho da força com que enfrentam o mar e o mundo, envoltas em música que são recordação, expressão e identidade inabaláveis.
domingo, 10 de maio de 2026
446ª e 447ª sessão: dia 12 e 15 de Maio (Terça e Sexta), às 21h30
Em maio, o Lucky Star – Cineclube de Braga, promove o cinema português que, com diferentes linguagens, inquietações e estéticas, tem vindo a renovar o panorama do cinema nacional.
Na próxima terça-feira, será exibido Ama-San (2017), de Cláudia Varejão. Rodado ao longo de vários meses na península de Shima, no Japão, o filme acompanha de forma próxima o quotidiano das mergulhadoras Ama, que recolhem marisco e pérolas sem o uso de equipamento de oxigénio. Sem recorrer à narração explicativa e privilegiando a observação dos gestos, das rotinas e das conversas do dia-à-dia, Ama-San centra-se na relação destas mulheres com o mar e na continuidade de uma prática milenar, transmitida entre gerações.
Cláudia Varejão tem desenvolvido um percurso entre o documentário e a ficção, centrado na identidade, no corpo e nas relações humanas. Da sua filmografia destacam-se No Escuro do Cinema Descalço os Sapatos (2016), Amor Fati (2020), Lobo e Cão (2022) e Kora (2023). Ama-San estreou no Visions du Réel e passou por festivais internacionais onde recebeu vários prémios, incluindo uma Menção Especial em Karlovy Vary, o Prémio Íngreme no Doclisboa, o Grande Prémio do Play-Doc e o Green Dox no Dokufest.
Na sexta-feira 15 de maio, às 21h30, realiza-se a primeira sessão do “Fora de Portas”, projecto de cinema ao ar livre, que decorrerá nos jardins do Museu dos Biscainhos e onde será exibido O Jardim Secreto (1993) de Agnieszka Holland. Ideal para toda a família, o filme acompanha uma jovem órfã na descoberta de um jardim abandonado, retratando a infância, a imaginação e o crescimento interior. A entrada é gratuita, mas sujeita à lotação máxima por ordem de chegada.
As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.








