por Laura Mendes
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Tokyo-Ga é o registo da sua tentativa de dar continuidade às obras-documento de Ozu, nas quais Wenders identifica a força do movimento de procura, a genuinidade da perscrutação, a memória que se quer permanente, apesar da impassível passagem do tempo. Aqui, o cinema é o reflexo lúdico da humanidade, oportunidade de nos (re)vermos íntimos, complexos, vivos.
Ainda assim, o Japão que o realizador-aprendiz encontra em 1983 difere, com grande contraste, daquele que o realizador-mestre, décadas antes, lhe deu a beber, colocando em causa e avaliação o encontro entre cinema e vida – quais os limites do cinema enquanto transmissor de conhecimento do real? De que forma funciona enquanto reprodução, imaginação ou cristalização de um mundo?
Se Tokyo-Ga parte da progressiva decadência da identidade japonesa – premissa que vai procurar inspiração à obra de Ozu –, entre vestígios da globalização-americanização e práticas solitárias numa urbe avassaladora e irreconhecível, rapidamente se desenvolve em torno de um exercício de (in)compatibilidade entre cinema e realidade, que desagua na (in)capacidade do primeiro em resistir à segunda. Sobretudo, estabelece-se este exercício como incessante busca por imagens cuja verdade inerente vá de encontro àquela que o cineasta sente e procura partilhar, afastada do alheamento da contemporaneidade irrefletida – esteja essa verdade imprimida na atitude rebelde de uma criança que lembra os tempos de Ozu ou nos mistérios mais recônditos da cidade japonesa. Contamos ainda com a intervenção de Werner Herzog notando, enquanto contempla uma paisagem artificial de betão, que, talvez, a única maneira de encontrar imagens puras e verdadeiras seja fora do nosso planeta.
Significa isto que a humanidade e, por sua vez, as imagens que a representam, estão condenadas à evolução autodestrutiva? Está o cinema a par desta espiral escatológica? Ou conseguiremos nós recuperar o valor da vida humana, e das suas atribulações, projetadas no ecrã?
Wenders parece conseguir resgatar estes momentos perdidos quando filma os ritos e as lágrimas de quem trabalhou com Ozu: o seu ator predileto Chishū Ryū e o seu operador de câmara Yuharu Atsuta, em locais que lembram o idílio, são as réstias de um mundo antigo e sábio que parece já não ser lembrado, mas que importa recuperar.
Esta é a proposta de Wenders, situada algures entre o documental e o imaginado, alinhada com o trabalho criativo de quem faz cinema: uma eterna busca pela verdade própria, pelo real que parece escapar no turbilhão do mundo. Ao mesmo tempo, é uma sentida dedicatória àqueles que desafiam a linearidade da estagnação, extravasando a nossa condição dissimulada, sem nunca deixar de lado a vontade curiosa, o ímpeto da expressão.








