por Laura Mendes
Que caminho tortuoso
até à graçaé este, traçado por
João de Deus? O cosmo, que ao início vemos, parece anunciar apaz eordem divinas– ou será antes o caosprimitivoa estabelecer-se? Talvez ambos. Num frenético
e satírico conto de acaso e redenção,ou quase,a linearidade dá lugar ao imprevisto, ao jogo
do mundo cujas variáveis testam os limites da fé e da vontade dohomem.
Vagabundo, deambulador, pateticamente infantil nos modos, depravado nas ideias, reencontramos João de Deus no seu habitat natural:
a rua. Iniciamos o ciclo de milagres e maldições que irá atormentar
os dias do nosso protagonista, revelando profundas contradições e ironias nas relações
humanas de um quotidiano efabulado mas não distante de nós, bem como nos ritos religiosos
que deste fazem parte.
Um mensageiro de
deus interceta João com uma mala cheia de dólares, num acordo misterioso que faz
do seu recetor profeta – que razão haverá
para esta tão generosa dádiva? Esta questão surgirá mais vezes ainda – a par do vínculo entre deus e capital, espírito e matéria –, já que as relações causa-efeito raramente remetem para um sentido final e unívoco,
uma explicação concreta: afinal de contas, trata-se de diligência divina, inquestionável
e inacessível, aqui feita tão abstrata quanto absurda
e risível. Quase em simultâneo, João apressa-se a salvar uma jovem
aflita na água, qual
chamamento, mais uma vez nos surgindo este elemento multiforme, que perpassa todos os filmes deste ciclo, aqui enquanto significante intimamente
ligado à mulher, entre perigo e bonança, pecado e purgação, sedução e amor.
A relação obsessiva
que João de Deus mantém com as mulheres que a vida se lhe apresenta, já a conhecemos.
Desta vez, porém, Joana é entregue às freiras, sem, no entanto, deixar de lado a provocação de um banquete farto deixado intocado, de uma irmã exalando fumo de tabaco e proferindo blasfémias. As boas ações não se distinguem tão facilmente das más, e se de um lado espreita deus, do outro estará certamente o diabo à espera da sua vez.
Feito Barão – pois não será por se tratar de dinheiro divino
que deverá ser enclausurado religiosamente –, a personagem de João César Monteiro é então visitada na sua propriedade por um casal ilustre, seus convidados, dos quais uma mulher que será por ele conquistada a fim de se tornar sua noiva,
bela Elena, reminiscente da mitologia grega. Mais do que isso, é ela prémio de jogo de cartas, o que não só adensa a sugestão da invencibilidade e inevitabilidade da justiça de deus, independentemente da sua forma, como precisamente esta se manifesta no seu contexto mais mundano – o vício –, num golpe satírico que ataca a fragilidade da dicotomia sagrado-profano.
Tudo parecia correr
bem, porém, os embrulhos desta femme fatale posta a descoberto colocarão João de Deus, uma vez mais, à mercê
do infortúnio. Derrotado por conspirações políticas (fruto dos surreais acontecimentos da brilhante
cena no Teatro de São Carlos), tanques de guerra camuflados e um
regresso à casa amarela, a lei e
o poder acabam por encarregar-se
de encaminhar João de Deus para um final decrépito, para uma condição desconhecida que
se revela a sua grande tragédia.
O reencontro final
com Joana, após a prisão, em tom de recompensa, não participa, contudo, de um merecido final feliz após uma viagem
de aprendizagem. Tanto herói como vilão, nem vítima nem culpado,
sem arrependimentos ou reconsiderações pois, tal como nos disse no começo do filme, esta não é propriamente uma comédia penitenciária, não é do bem e do mal que João se ocupa, mas antes de um desvelamento
dos impulsos humanos, da imprevisibilidade que neles mora, ao mesmo tempo quebrando
tradições e convenções sociais: do amor, preserva-se a abordagem perversa e abjeta que já tem vindo a ser desenvolvida nesta
trilogia; do casamento, o desencantamento; da religião, os paradoxos.
Contracenando a blasfémia
e o sacrilégio com a reflexão filosófica, o testemunho atento, e até romântico, de uma vida que, sem dúvida, é também exercício experimental
autobiográfico, João César
Monteiro refaz a redenção aos olhos do absurdo. Reivindicando para si a proposta
de Pickpocket, de Robert Bresson – a última frase d´As Bodas para este remete –, dá à jornada de crescimento espiritual construída
pelo cineasta francês uma camada satírica, com a recusa de ação, o abraço da negação, transformando não só o mundo, mas o cinema, à sua imagem. Porque é sempre essa uma sua preocupação: pensar o cinema, (re)escrevendo Portugal nessa história.






