domingo, 1 de fevereiro de 2026

432ª sessão: dia 3 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“O Anjo Azul” de Josef von Sternberg, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Em janeiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga começou o ano com uma programação dedicada ao “Expressionismo Alemão” e que termina a 3 de fevereiro. A partir do dia 10 de fevereiro, o cineclube apresenta um ciclo de cinema dedicado à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima ter\a-feira, 3 de fevereiro, o ciclo “Expressionismo Alemão” encerra com o filme “O Anjo Azul” (Der blaue Engel, 1930), de Josef von Sternberg, um dos filmes fundamentais da transição do cinema mudo para o sonoro e uma obra incontornável da história do cinema europeu.
 
Adaptado do romance Professor Unrat de Heinrich Mann, o filme acompanha a queda moral e social de um respeitado professor que se apaixona por Lola Lola, cantora de cabaré, figura livre e provocadora, interpretada por Marlene Dietrich. A relação entre ambos expõe o conflito entre a vontade individual e a imagem pública, num retrato incisivo da hipocrisia moral e da fragilidade das convenções sociais.

O Anjo Azul” assinala a consagração internacional de Marlene Dietrich, cuja presença magnética redefine a representação da feminidade no cinema. Ao mesmo tempo, o filme marca uma das interpretações mais memoráveis de Emil Jannings, actor consagrado do cinema mudo, aqui confrontado com a nova expressividade exigida pelo som.

Realizado por Josef von Sternberg, cineasta conhecido pelo uso expressivo da luz e da composição, o filme destaca-se pela forma como articula espaço, corpo e som. O contraste entre o liceu onde o professor Rath lecciona e as cenas no cabaré estrutura visualmente o filme, acompanhando a progressiva desintegração da autoridade do protagonista.

Produzido na Alemanha nos últimos anos da República de Weimar, “O Anjo Azul” antecipa o clima de volubilidade social e moral que marcaria a década seguinte. Entre melodrama, crítica social e tragédia humana, o filme permanece um retrato actual das relações entre poder, desejo e exposição pública.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

M - Matou! (1931) de Fritz Lang



Por António Cruz Mendes

Matou! foi o primeiro filme falado realizado por Fritz Lang e é, na opinião de muitos, a sua obra máxima. Tal como O Último dos Homens (ou A Última Gargalhada, na edição brasileira) parte de um episódio realista. Neste caso, uma série de casos de desaparecimento de crianças, noticiado nos jornais.

O medo espalha-se entre a população. As mães fecham as filhas em casa. Os homens entreolham-se: qualquer um pode ser o serial killer. E a polícia desdobra-se, sem êxito, em investigações e rusgas. Os mendigos, as prostitutas, os vigaristas e os ladrões acabam por sofrer as consequências da actividade policial e, por isso, o lumpenproletariat mobiliza-se também para a caça ao assassino. Recorrendo à montagem paralela, Lang mostra-nos como esses dois elementos habitualmente antagónicos vão convergir num propósito comum: a caça ao assassino.  

Entretanto, os espectadores já o conhecem. É um homem torturado, solitário, que age obedecendo a uma voz interior, que apenas se cala no momento em que consuma os seus crimes. Assobia o tema do Peer Gynt quando procura as suas vítimas e é isso que o denuncia a um cego a quem compra um balão para oferecer a Elsie.

Nunca assistimos a uma cena de assassinato. São sinais de ausência que nos informam dos crimes: a caixa de escadas do prédio onde mora Elsie, que será assassinada, vista numa perspectiva abissal pela mãe que a chama para almoçar; o seu lugar vazio à mesa, dominada pela imagem do prato, de um branco resplandecente; o balão abandonado, preso nos fios eléctricos…

Mas seguimos os passos do assassino. Vemo-lo investigando o seu rosto num espelho; examinando uma montra onde poderá comprar os presentes com que pode seduzir uma vítima; descobrindo, aterrado, num ombro a marca M, que o assinala aos olhos dos seus perseguidores; travando uma desesperada luta pela sua vida, no obscuro armazém, onde é julgado por júri implacável formado por representantes do submundo do crime.

A interpretação de Peter Lorre é excepcional, mas será necessário regressar ao cinema mudo para encontrarmos os mais característicos exemplos de interpretações expressionistas: uma representação não naturalista, mas sustentada por gestos e expressões patéticas e exageradas, e em movimentos súbitos e irregulares. Lotte Eisner compara a deformação expressionista dos gestos à dos objectos e cita Rudolf Kurtz que afirma ser “preciso (…) que as fórmulas estabelecidas pelo artista expressionista para a composição do espaço sejam igualmente válidas para as evoluções do corpo humano: deve exprimir-se o passional de uma situação com uma mobilidade intensa e inventar movimentos que ultrapassem a realidade”.

Em O Último dos Homens, vimos como o cinema mudo evoluiu permitindo contar uma história recorrendo apenas a imagens, dispensando os intertítulos ainda presentes em O Gabinete do Dr. Caligari e Nosferatu. Por outro lado, o sonoro introduz uma nova gama de possibilidades expressivas que Fritz Lang explora magistralmente. Por exemplo, nos gritos da mãe que ecoam, chamando por Elsie sem obter qualquer resposta. Afinal, é um cego quem identifica o assassino apenas por que reconhece a música que ele trauteia antes de cometer os seus crimes. 

Como vimos, o argumento inspira-se em acontecimentos noticiados pelos jornais. Mas, como nos diz Sigfried Kracauer (De Hitler a Caligari. Uma interpretação psicológica do cinema alemão), Fritz Lang amplifica-o, dando-lhe uma ressonância maior. O filme esteve para se chamar Os Assassinos Estão entre Nós e este título só foi abandonado porque se temeram represálias dos nazis que, em 1931, se preparavam já para tomar o poder. O produtor foi confrontado com a proibição de utilizar os estúdios Staaken para as filmagens e Lang foi pessoalmente ameaçado por um activista nazi. Nessa altura, diz-nos ele, “alcancei a minha maturidade política”. 

Matou!, questionando-nos sobre as razões da personagem interpretada por Peter Lorre, regressa, afinal, a um tema que já conhecemos de O Gabinete do Dr. Caligari ou de Nosferatu e, de facto, de muitos outros filmes expressionistas alemães: o da pulsão irracional, o desejo de matar que faz dos homens lobos dos homens. Por que é que esse tema é recorrente no cinema alemão da época da República de Weimar? Um eco da matança ocorrida nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial ou uma visão premonitória daquela que virá com a vitória do nazismo?


 
Na substituição da imagem do homem pela da sua sombra, revela-se o lado negro da sua alma. 
 
 

 Lotte Heisner (A Tela demoníaca. As influências de Max Reinhardt e do expressionismo) chama-nos a atenção para a obsessão do cinema expressionista por escadas e ruas esconsas, estreitas e tortuosas… Em Matou!, a mãe de Elsie chama-a de uma escada que parece conduzir a um abismo.
 
 
 
O assassino de M examina-se ao espelho: Quem és tu? O tema do duplo é recorrente no cinema expressionista. Beckert, gordo e algo efeminado, parece-nos incapaz de cometer qualquer crime. Uma vizinha descreve-o à polícia como uma pessoa tranquila e correcta. Mas, tal como a Cesare, o sonâmbulo de O Gabinete do Dr. Caligari, uma força irresistível compele-o ao assassínio.
 
 

 É no reflexo de um vidro que o protagonista de M descobre a marca que o denuncia como o “vampiro de Dusseldorf”.
 
 

 Esmagado pelo plano picado, o assassino luta pela sua vida, apresentando-se como uma vítima de uma vontade que o transcende e subjuga.
 
 

Mas ladrões, assassinos e vigaristas formam um júri implacável. A lâmpada que ilumina a cena está suspensa numa estrutura em forma de forca.
 
 
 
 Só a intervenção, à última hora da polícia, impedirá o julgamento popular. 
 
 
 

domingo, 25 de janeiro de 2026

431ª sessão: dia 27 de Janeiro (Terça-Feira), às 21h30



“M Matou” de Fritz Lang, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Durante o mês de janeiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga começa o ano de 2026 com um programa dedicado ao cinema mudo. Neste mês, o ciclo Expressionismo Alemão apresenta clássicos do cinema alemão dos anos 20 e 30 do século passado. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira será exibido o filme M – Matou (M, 1931), de Fritz Lang, uma das obras fundamentais do cinema sonoro e um retrato perturbador da violência e do medo colectivo.
 
O filme acompanha a perseguição a um assassino de crianças na cidade de Berlim, fenómeno que provoca o pânico na metrópole alemã. Interpretado por Peter Lorre, no seu primeiro grande papel no cinema, o criminoso torna-se o centro de uma narrativa que explora não somente o indivíduo, mas também a reacção da sociedade perante o crime. À medida que a polícia intensifica a vigilância, também o submundo criminal se organiza, revelando um sistema paralelo de controlo e justiça.

M – Matou distingue-se pelo uso inovador do som, num período em que o cinema falado ainda dava os seus primeiros passos. Fritz Lang utiliza o silêncio, os ruídos urbanos e o célebre assobio do assassino, baseado em um motivo de Peer Gynt de Edvard Grieg, como elementos narrativos e psicológicos, conferindo ao filme tensão e suspense (curiosamente, Peter Lorre não sabia assobiar, pelo que a célebre melodia foi assobiada pelo próprio Fritz Lang). O som não é usado como simples acompanhamento da imagem, assume um papel estrutural na dramaturgia do filme, reforçando a sua dimensão de thriller. 

Visualmente, o filme herda elementos do expressionismo alemão, nomeadamente no uso de sombras, enquadramentos oblíquos e espaços urbanos opressivos, mas afasta-se da estilização excessiva, aproximando-se de um realismo que perturba e destabiliza. A cidade surge como um organismo vivo, onde o medo se propaga e a fronteira entre justiça e vingança se torna cada vez mais difusa.

Mais do que um filme policial, M – Matou é uma reflexão sobre a responsabilidade colectiva e os mecanismos de exclusão social. A célebre sequência do “julgamento” final confronta o espectador com questões morais que permanecem actuais, tornando o filme numa obra incontornável da história do cinema.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 
 
 
Até terça! 
 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O ÚLTIMO DOS HOMENS (1924) de F. W. Murnau



Por António Cruz Mendes
 
Realizado poucos anos depois de O Gabinete do Dr. Caligari e de Nosferatu, O Último dos Homens, exemplifica uma nova vertente do expressionismo alemão. Em vez de acontecimentos fantásticos como aqueles que são narrados naqueles dois filmes, este filme de Murnau baseia-se num vulgar fait-divers: um porteiro de um hotel é destituído das suas funções. Além disso, o filme dispensa os intertítulos a que se recorreu nos filmes citados para sustentar a narrativa. Agora, são suficientes as imagens captadas por uma câmara que não está fixa, mas que se move permitindo aos espectador observar a acção de vários ângulos, proporcionando-lhe uma sensação de ubiquidade.

Entre as personagens do filme não encontramos assassinos demoníacos, mas apenas gente comum. Não vamos sequer chegar a saber o nome das pessoas que protagonizam esta história. Os espaços onde decorre a acção resumem-se à entrada e ao átrio dum hotel, aos seus lavabos e às ruas que conduzem ao bairro onde mora o porteiro. E, no entanto, Murnau encontra num pequeno facto, a perda do uniforme, motivo para a abordagem de um terrível drama humano. Um drama pessoal que, aliás, pode assumir uma dimensão política se o quisermos interpretar como uma metáfora da situação da orgulhosa Alemanha vencida na Guerra. Afinal, o porteiro, com o seu uniforme, assemelha-se a um General.

Este drama exprime-se através de um contraste de luz e sombra: as luzes brilhantes que iluminam o átrio do luxuoso hotel e a triste penumbra que envolve a pobreza das casas do bairro onde mora o porteiro. No entanto, aí ele é um senhor, porque o rico uniforme que ostenta aproxima-o, aos olhos das pobres gentes, da condição da classe dominante e conferem-lhe uma autoridade que todos respeitam. Quando perde o estatuto que a sua farda lhe confere, torna-se igual aos demais e é vítima do escárnio de todos. As trevas descem, então, sobre a sua vida e nessa vitória das sombras sobre a luz está tudo: um sentimento de perda, de decadência, da velhice, uma antevisão da morte.

 
 

A personagem central de O Último dos Homens é um porteiro de um grande hotel, cujo prestígio e dignidade se revela na magnífica farda que exibe.


 

A porta giratória oferece um jogo de espelhos que lhe permite rever-se no exercício da autoridade.com que recebe os mais ilustres hóspedes. Mas a porta giratória é também “a roda da vida”, símbolo das incertezas que marcam a condição humana. Será ela quem está no centro da cena fulcral onde assistimos à substituição do velho pelo novo porteiro do hotel.

 
 

Um dia, o porteiro, envelhecido, teve dificuldade em carregar uma mala mais pesada. É destituído das suas funções e remetido para a limpeza dos lavabos. Na imagem, vemo-lo, amesquinhado, diminuído, deslocado para uma zona marginal e obscura do enquadramento. A superfície luminosa do espelho reflecte, agora, a imagem da sua degradação.

 
 

Escarnecido pelos seus vizinhos…
 

 

… resta-lhe sonhar, embriagado, com a grandeza perdida.

 
 

Provavelmente por pressão dos produtores, a versão original termina com um Happy End. O porteiro recebe uma herança de um antigo cliente, milionário, e vamos encontrá-lo a jantar lautamente à mesa do restaurante do hotel.
 

Diz-nos José Manuel Costa em Cem Dias, Cem Filmes (catálogo de Lisboa 94 – Capital da Cultura), que, em cópias restauradas, esse final foi abandonado. O filme acaba como, talvez, Murnau, gostaria que ele acabasse, com a decadência do velho porteiro. No entanto, no filme que hoje apresentamos, respeita-se o argumento de Carl Mayer e incluem-se aquelas sequências finais.


 

domingo, 18 de janeiro de 2026

430ª sessão: dia 20 de Janeiro (Terça-Feira), às 21h30


“O Último dos Homens” de F.W. Murnau, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 
Durante o mês de janeiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga começa o ano de 2026 com um programa dedicado ao cinema mudo. Neste mês, o ciclo “Expressionismo Alemão” apresenta clássicos do cinema alemão dos anos 20 e 30 do século passado. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Esta terça, o ciclo prossegue com o filme O Último dos Homens (Der letzte Mann, 1924), de F. W. Murnau, uma das obras mais inovadoras do cinema mudo e um marco decisivo na evolução da linguagem cinematográfica.
 
O filme acompanha a história de um porteiro de hotel, interpretado por Emil Jannings, cuja identidade e posição social estão profundamente ligadas ao uniforme que enverga. Quando é despromovido para uma função subalterna, o impacto psicológico dessa queda social torna-se o verdadeiro centro da narrativa. Privado quase totalmente de intertítulos, o filme constrói o seu sentido através da imagem e do movimento.

É em O Último dos Homens que Murnau, em colaboração com o diretor de fotografia Karl Freund, introduz de forma sistemática a chamada “câmara desacorrentada” (entfesselte Kamera), libertando a câmara do tripé e explorando movimentos até então inéditos. Este uso expressivo da câmara, aliado a enquadramentos subjectivos e a uma montagem precisa, permite traduzir visualmente o estado emocional da personagem, tornando a forma inseparável do conteúdo narrativo.

Produzido pela UFA, o filme é frequentemente associado ao expressionismo alemão, embora se afaste da estilização extrema dos cenários pintados, optando por espaços reais e uma encenação centrada na experiência interior e psicológica da personagem, inspirado, também, pelo teatro. A abordagem visual de Murnau influenciou decisivamente o “cinema narrativo” das décadas seguintes, antecipando soluções formais que se tornariam comuns no cinema moderno.

Apesar do final imposto pelo estúdio, que introduz uma resolução mais optimista, O Último dos Homens permanece uma obra essencial pela forma como articula imagem, movimento e psicologia, afirmando o cinema como arte visual com uma linguagem autónoma, capaz de narrar sem palavras.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 
 
Até terça-feira! 



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

NOSFERATU (1922) de F. W. Murnau




por Alexandra Barros
 
O Nosferatu de Murnau é um dos mais icónicos filmes do movimento artístico do Expressionismo Alemão e do Cinema de Terror. Foi a primeira das várias adaptações para o cinema da obra “Drácula”, do escritor irlandês Bram Stoker, publicada em 1897. Ao longo das décadas seguintes, surgiram muitas outras adaptações, entre as quais: Drácula de Tod Browning (1931), Drácula de Terence Fisher (1958), Nosferatu: o Vampiro da Noite de Werner Herzog (1979) e Drácula de Bram Stoker de Francis Ford Coppola (1992).
 
Porque é que o filme de Murnau foi tão inspirador e ocupa um lugar tão relevante na História do Cinema? Nosferatu evoca questões que, desde tempos imemoriais, intrigam, fascinam ou aterrorizam o Homem e que - tal como os vampiros - continuam a atravessar os tempos: as poderosas forças da Natureza, o sobrenatural e o inexplicável, o destino, o pecado, o acaso, o instinto, o mal, o desejo, o amor. Existem forças naturais (ou sobrenaturais), não compreendidas pela razão humana, que tecem subterraneamente o destino dos homens? O mal existe? O sofrimento é uma consequência do pecado? O que é capaz de perder o Homem? O que é capaz de o salvar? Nenhuma destas questões é levantada de forma explícita. Murnau convoca estes temas através do poder simbólico do cruzamento ou recorrência de imagens, de ambientes que evocam as paisagens interiores das personagens, de uma linguagem visual expressiva.
 
O prólogo anuncia que vamos assistir a uma crónica do Grande Morticínio ocorrido em Wisborg em 1838. As primeiras imagens mostram um jovem casal apaixonado, Hutter e Ellen. Hutter colhe flores no jardim para oferecer a Ellen, mas esta repreende-o ternamente por ter matado umas flores tão bonitas. A bem-aventurança, no entanto, está prestes a terminar. Hutter coloca em marcha os acontecimentos que conduzirão a uma imensa tragédia, atraído pela ideia de ganhar muito dinheiro. Knock, o seu estranho patrão, pede-lhe que vá aos Montes Cárpatos vender, ao conde Orlok[1], a casa defronte da que o próprio Hutter e Ellen habitam. Ao informar Ellen que está de partida para a terra dos fantasmas, Ellen pressente o perigo que envolve a viagem. É com Ellen num estado de grande consternação que Hutter parte. Perto do destino, os habitantes locais tentam demovê-lo de se aproximar do castelo do conde, mas Hutter ignora os avisos. Ridiculariza as crenças dos populares e, num acto da mais absoluta soberba, atira ao chão um livro sobre vampiros, cujo subtítulo é “Fantasmas Terríveis e os Sete Pecados Mortais”. Depois de passar a ponte que os populares se recusam a atravessar, os acontecimentos insólitos começam a suceder-se. Uma carruagem que se desloca a uma velocidade sobrenatural oferece transporte a Hutter.
 
Os claros e os escuros invertem-se[2] suscitando a sensação de que o mundo se “avariou”. A porta do castelo abre-se sozinha. Orlok desliza de um ponto para outro do espaço instantaneamente. Se o amor é cego, a ganância também parece ser pois nenhum destes inauditos factos impede Hutter de tentar levar a cabo a sua missão. Ao apresentar ao conde a planta da casa que é suposto vender-lhe, Hutter deixa deslizar, inadvertidamente, para junto dos documentos, uma fotografia de Ellen. O acaso acaba por escancarar a caixa de Pandora que a visita de Hutter entreabrira. “A sua esposa tem um pescoço adorável.” De imediato o conde decide comprar a casa proposta. Entre o conde e Ellen estabelece-se um elo insondável, semelhante ao misterioso “spooky action at a distance”[3] de Einstein. O casal perfeito, Hutter e Ellen, transforma-se num enigmático triângulo amoroso. Quando a sombra predadora de Orlok se projecta sobre Hutter, Ellen pressente o ataque e chama Hutter. No entanto, é Orlok quem se vira “para ela”, parecendo responder ao chamamento. Orlok embarca num navio para ir ao encontro de Ellen, acompanhado por caixões carregados de terra (e ratos), justificando com propósitos científicos a estranha “bagagem”. Hutter, por seu lado, regressa a Wisborg por terra, cavalgando ao longo de rios, atravessando florestas e ribeiros. Nos portos onde atraca, o navio que transporta Orlok deixa a peste e a morte. No próprio navio também. Imagens do rebentar violento das ondas do mar reforçam a ideia do combate entre forças desiguais que decorre a bordo. Entretanto, em Wisborg, o professor Bulwer, que estuda os segredos da natureza e os seus princípios unificadores, dá uma aula sobre relações bióticas, particularmente, a predação. Uma planta carnívora atrai um insecto para o seu interior, de onde já não sairá, “abraçado” pelas folhas da planta, que se fecham lentamente sobre ele. Um pólipo aquático transparente e quase etéreo atrai para a sua “mão” aberta um organismo. Este é imediatamente envolvido pelos “dedos” tentaculares do pólipo, o qual se fecha num novelo onde atacante e vítima se tornam indistinguíveis. Numa cela da prisão, onde Knock enlouquecido foi encarcerado, o comportamento de uma aranha na sua teia assemelha-se ao pólipo do professor. Apesar dos seus métodos “vampíricos”, estes seres vivos não personificam o mal. Apenas a luta pela sobrevivência.
 
Quando o navio está prestes a atracar em Wisborg, Knock sente a presença de Nosferatu: “O mestre está próximo”. Na mesma altura, Ellen em transe, lança os braços para a frente para receber o seu amor: “Ele está a chegar. Tenho que ir ter com ele.” Não sabemos se os braços se estendem para Hutter ou Orlok.
 
Orlok instala-se na propriedade que comprou e vigia Ellen da sua janela. Murnau, que em diversas alturas, utiliza o ambiente para reflectir o estado interior das personagens, mostra Orlok enquadrado por um enxadrezado de grades. Orlok, preso nas grades da paixão e do desejo, mais do que um predador, torna-se presa. Ellen, por sua vez, assiste a partir da sua janela, ao desfile ininterrupto de caixões de concidadãos dizimados pela peste que o navio-fantasma espalhou. Para salvar Hutter e a cidade, Ellen oferece-se sacrificialmente. Abre a janela e estende os braços para a casa que tem atraído de forma obsessiva o seu olhar. Orlok responde ao chamamento. A narrativa visual do encontro de Ellen e Nosferatu, com o seu fabuloso uso de sombras, é lendária. É a sombra de Nosferatu, com garras alongadíssimas, que vemos subir as escadas, em direção ao quarto de Ellen. Sentindo a sua presença, Ellen leva a mão ao coração e cai sobre a cama. Onde esteve a mão de Ellen, vemos agora a sombra negra dos dedos longos de Nosferatu enleando o seu coração. Só o cantar do galo quebra o encantamento em que o sangue de Ellen mergulha Nosferatu. Os primeiros raios de sol, porém, entram já pela janela e desferem o golpe fatal. É Nosferatu quem, agora, espelhando o gesto de Ellen, leva a mão ao próprio coração, após o que se desfaz numa nuvem de fumo. Com Nosferatu, extingue-se também a peste, mas não o sofrimento. O amor e altruísmo de Ellen salvam Hutter e a cidade, mas ela morre nos braços do marido, acrescentando à colossal tragédia, a que os actos dele (ou do destino?) conduziram, um terrível golpe final.
 
 
[1] Nesta adaptação não autorizada da obra de Bram Stoker, Drácula chama-se Orlok.
[2] O negativo do filme é usado para obter esta inversão entre luz e escuridão, criando uma atmosfera irreal. 
[3] Em português, a tradução mais comum da expressão usada por Einstein para caracterizar o entrelaçamento quântico é “ação fantasmagórica à distância”.
 
 
 
 

domingo, 11 de janeiro de 2026

429ª sessão: dia 13 de Janeiro (Terça-Feira), às 21h30


Nosferatu de F.W. Murnau, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Durante o mês de janeiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga começa o Ano Novo com um programa dedicado ao cinema mudo. Neste mês, o ciclo “Expressionismo Alemão” apresenta clássicos do cinema alemão dos anos 20 e 30 do passado século. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Esta terça, o ciclo continua com o filme Nosferatu (1922), de F. W. Murnau, cuja trama começa com a viagem do jovem agente imobiliário Hutter à Transilvânia, onde conhece o conde Orlok, uma figura sombria e misteriosa, interpretada por Max Schreck, que levará a morte e a peste à cidade de Wisborg. A actriz Greta Schröder, como Ellen, assume um papel central na resolução da narrativa. 

Ao contrário do expressionismo mais estilizado de O Gabinete do Dr. Caligari, Murnau privilegia o uso de paisagens naturais e contrastes de luz e sombra. A encenação assenta sobretudo em planos fixos e composições geométricas que, a par da montagem, constroem um paralelismo psicológico, conferin-do ao filme uma atmosfera poética e fúnebre, onde o terror emerge tanto da figura do monstro como do espaço que o circunda.

Os temas do filme têm sido amplamente debatidos pela historiografia do cinema. Leituras que associ-am Nosferatu a ansiedades do pós-Primeira Guerra Mundial, à experiência da peste ou a medos projectados sobre o “estrangeiro” coexistem com interpretações mais específicas, incluindo alegorias do antissemitismo ou da pandemia de gripe espanhola. Esta pluralidade de leituras confirma a complexi-dade simbólica do filme e do contexto do qual emergiu.

Produzido pela Prana-Film, Nosferatu inspirou-se em Drácula, de Bram Stoker, sem autorização dos herdeiros do escritor, motivando um processo judicial que quase levou à destruição de todas as cópias do filme, mas que sobreviveu graças à circulação clandestina.
 
Embora não seja a primeira utilização não autorizada da figura de Drácula no cinema, é a mais antiga adaptação do romance. A mais antiga conhecida é o filme perdido Drakula halála (1921) ou a Morte de Drácula, realizado pelo húngaro Károly Lajthay, restando apenas vestígios do filme nos registos fotográficos conservados. O filme Nosferatu (1922) de Murnau, hoje, restaurado e amplamente reconhecido, permanece uma referência essencial na história do cinema e uma obra incontornável do imaginário gótico.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!