por Laura Mendes
Ascensão desloca-nos, num movimento de evasão, para a vastidão das paisagens soviéticas (ocupadas), durante a segunda guerra mundial, onde dois resistentes procuram mantimentos para o seu grupo. Dois homens unidos quase por acaso – Rybak, nomeado pela experiência e destemidez, e Sotnikov, que ao outro se junta mais pela disponibilidade do que pela excelência –, cuja missão, percebemos imediatamente, é essencial à sua sobrevivência, bem como à dos seus parceiros.
A neve amontoa-se criando um horizonte que, situado entre o sublime e o grotesco, está mais próximo deste último graças à sua transformação em campo de batalha. Não apenas o frio e a fome, mas também a planície feita labirinto dificultam a jornada dos dois homens enquanto fugitivos dos alemães que ocupam a região, evidenciando o caráter desolador desta viagem e explorando (narrativa e visualmente) o potencial destrutivo da paisagem natural.
O relento é como um campo minado: Sotnikov é baleado e inicia uma outra viagem (espiritual) marcada por uma tentativa de suicídio, a tempo travada por Rybak. No entanto, a casa onde procuram abrigo, a de uma mulher com três filhos, tampouco demonstra ser um lugar seguro, sendo aí onde os três cúmplices acabam capturados.
A partir desse momento, passamos a conhecer uma realidade mais vasta – a dos condenados. Shepitko é solene na apresentação do seu povo massacrado, incluindo-o na sua mais complexa reflexão em torno da tensão entre a permanência num mundo cruel e a ascensão. Respetivamente representadas por Rybak e Sotnikov, estas são as duas formas-limite de viver uma vida-limite: se Rybak permanece acorrentado ao instinto de sobrevivência e ao esforço material, sem dúvida alicerçados na esperança, Sotnikov incorpora a figura crística do sacrifício, da cedência e, em última instância, desistência de um caminho que sabe não ser capaz de percorrer.
No limbo entre as duas posições, vemos pessoas comuns – com as quais os dois protagonistas partilham a cela e os seus últimos momentos – com medo e lágrimas nos olhos, impotentes face a forças maiores que os querem dizimados.
A última caminhada – e note-se a importância das mesmas ao longo de todo o filme, constituindo deambulações de perigo e de descoberta (interior) –, assemelhando-se a uma procissão, culmina no surgimento das forcas sob o olhar estagnado de quem irá assistir a uma execução. Olhar esse especialmente impactante quando imprimido nos rostos entrecortados de Sotnikov e de um menino que o observa, transformando o momento final num de libertação, mas de reticência quanto à vida porvir, refletindo-se no futuro incerto de uma criança, como tantas outras.
Quem resta é Rybak, e parece ser na imaginação da sua morte que encontra consolo para a confusa culpa que sente, para travar a dolorosa ponderação acerca de quem foi e é. A tentativa falhada de suicídio, motivo transversal na narrativa, é mais um elemento na construção da relação entre a morte e a vida em momentos desumanizantes, os de guerra.
E a vista de uma porta aberta não consegue apagar o facto de a liberdade ser um engano, de a promessa não passar de uma mentira. A morte enquanto fuga é, sim, a salvação.
A neve amontoa-se criando um horizonte que, situado entre o sublime e o grotesco, está mais próximo deste último graças à sua transformação em campo de batalha. Não apenas o frio e a fome, mas também a planície feita labirinto dificultam a jornada dos dois homens enquanto fugitivos dos alemães que ocupam a região, evidenciando o caráter desolador desta viagem e explorando (narrativa e visualmente) o potencial destrutivo da paisagem natural.
O relento é como um campo minado: Sotnikov é baleado e inicia uma outra viagem (espiritual) marcada por uma tentativa de suicídio, a tempo travada por Rybak. No entanto, a casa onde procuram abrigo, a de uma mulher com três filhos, tampouco demonstra ser um lugar seguro, sendo aí onde os três cúmplices acabam capturados.
A partir desse momento, passamos a conhecer uma realidade mais vasta – a dos condenados. Shepitko é solene na apresentação do seu povo massacrado, incluindo-o na sua mais complexa reflexão em torno da tensão entre a permanência num mundo cruel e a ascensão. Respetivamente representadas por Rybak e Sotnikov, estas são as duas formas-limite de viver uma vida-limite: se Rybak permanece acorrentado ao instinto de sobrevivência e ao esforço material, sem dúvida alicerçados na esperança, Sotnikov incorpora a figura crística do sacrifício, da cedência e, em última instância, desistência de um caminho que sabe não ser capaz de percorrer.
No limbo entre as duas posições, vemos pessoas comuns – com as quais os dois protagonistas partilham a cela e os seus últimos momentos – com medo e lágrimas nos olhos, impotentes face a forças maiores que os querem dizimados.
A última caminhada – e note-se a importância das mesmas ao longo de todo o filme, constituindo deambulações de perigo e de descoberta (interior) –, assemelhando-se a uma procissão, culmina no surgimento das forcas sob o olhar estagnado de quem irá assistir a uma execução. Olhar esse especialmente impactante quando imprimido nos rostos entrecortados de Sotnikov e de um menino que o observa, transformando o momento final num de libertação, mas de reticência quanto à vida porvir, refletindo-se no futuro incerto de uma criança, como tantas outras.
Quem resta é Rybak, e parece ser na imaginação da sua morte que encontra consolo para a confusa culpa que sente, para travar a dolorosa ponderação acerca de quem foi e é. A tentativa falhada de suicídio, motivo transversal na narrativa, é mais um elemento na construção da relação entre a morte e a vida em momentos desumanizantes, os de guerra.
E a vista de uma porta aberta não consegue apagar o facto de a liberdade ser um engano, de a promessa não passar de uma mentira. A morte enquanto fuga é, sim, a salvação.






