quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ascensão (1977) de Larisa Shepitko



por Laura Mendes
 
Ascensão desloca-nos, num movimento de evasão, para a vastidão das paisagens soviéticas (ocupadas), durante a segunda guerra mundial, onde dois resistentes procuram mantimentos para o seu grupo. Dois homens unidos quase por acaso – Rybak, nomeado pela experiência e destemidez, e Sotnikov, que ao outro se junta mais pela disponibilidade do que pela excelência –, cuja missão, percebemos imediatamente, é essencial à sua sobrevivência, bem como à dos seus parceiros.

A neve amontoa-se criando um horizonte que, situado entre o sublime e o grotesco, está mais próximo deste último graças à sua transformação em campo de batalha. Não apenas o frio e a fome, mas também a planície feita labirinto dificultam a jornada dos dois homens enquanto fugitivos dos alemães que ocupam a região, evidenciando o caráter desolador desta viagem e explorando (narrativa e visualmente) o potencial destrutivo da paisagem natural.

O relento é como um campo minado: Sotnikov é baleado e inicia uma outra viagem (espiritual) marcada por uma tentativa de suicídio, a tempo travada por Rybak. No entanto, a casa onde procuram abrigo, a de uma mulher com três filhos, tampouco demonstra ser um lugar seguro, sendo aí onde os três cúmplices acabam capturados.

A partir desse momento, passamos a conhecer uma realidade mais vasta – a dos condenados. Shepitko é solene na apresentação do seu povo massacrado, incluindo-o na sua mais complexa reflexão em torno da tensão entre a permanência num mundo cruel e a ascensão. Respetivamente representadas por Rybak e Sotnikov, estas são as duas formas-limite de viver uma vida-limite: se Rybak permanece acorrentado ao instinto de sobrevivência e ao esforço material, sem dúvida alicerçados na esperança, Sotnikov incorpora a figura crística do sacrifício, da cedência e, em última instância, desistência de um caminho que sabe não ser capaz de percorrer. 

No limbo entre as duas posições, vemos pessoas comuns – com as quais os dois protagonistas partilham a cela e os seus últimos momentos – com medo e lágrimas nos olhos, impotentes face a forças maiores que os querem dizimados.
 
A última caminhada – e note-se a importância das mesmas ao longo de todo o filme, constituindo deambulações de perigo e de descoberta (interior) –, assemelhando-se a uma procissão, culmina no surgimento das forcas sob o olhar estagnado de quem irá assistir a uma execução. Olhar esse especialmente impactante quando imprimido nos rostos entrecortados de Sotnikov e de um menino que o observa, transformando o momento final num de libertação, mas de reticência quanto à vida porvir, refletindo-se no futuro incerto de uma criança, como tantas outras.

Quem resta é Rybak, e parece ser na imaginação da sua morte que encontra consolo para a confusa culpa que sente, para travar a dolorosa ponderação acerca de quem foi e é. A tentativa falhada de suicídio, motivo transversal na narrativa, é mais um elemento na construção da relação entre a morte e a vida em momentos desumanizantes, os de guerra. 

E a vista de uma porta aberta não consegue apagar o facto de a liberdade ser um engano, de a promessa não passar de uma mentira. A morte enquanto fuga é, sim, a salvação.
 
 
 

domingo, 12 de abril de 2026

442ª sessão: dia 14 de Abril (Terça-Feira), às 21h30



“Ascensão” de Larisa Shepitko, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga 
 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star – Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a hiper-normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo prossegue com o filme Ascensão (Voskhozhdeniye, 1977) da realizadora soviética Larisa Shepitko. Baseado na novela de Vasily Bykov, o filme decorre durante a Segunda Guerra Mundial, acompanhando dois partisans soviéticos em território ocupado pelas forças nazis. Interpretados por Boris Plotnikov e Vladimir Gostyukhin, os protagonistas enfrentam uma situação limite após serem capturados, num percurso centrado em escolhas morais e nas suas consequências.

Produzido pelo estúdio Mosfilm, Ascensão foi rodado em condições exigentes, com filmagens em ambientes naturais de inverno, evidenciando uma abordagem formal contida e um uso expressivo da paisagem. Esta opção reforça o foco no conflito interior das personagens, em articulação com o contexto histórico, explorando a experiência da guerra a partir de uma perspetiva centrada no indivíduo e nas suas decisões.

Formada no VGIK, Larisa Shepitko destacou-se num contexto em que a realização cinematográfica era ainda maioritariamente dominada por homens. Embora inserida num contexto como o da União Soviética, que promovia formalmente a participação das mulheres em várias áreas profissionais, o seu reco-nhecimento, dentro e fora do país, destacou-a como uma das poucas cineastas da sua geração a alcançar projeção internacional, consolidando um percurso autoral singular no panorama do cinema soviético e contribuindo, ainda, para a visibilidade de realizadoras no cinema do século XX. Ascensão é frequentemente apontado como o seu filme mais relevante, tendo sido distinguido com o Urso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 1977.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-¡ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Ovo da Serpente (1977) de Ingmar Bergman



por António Cruz Mendes
 
O Ovo da Serpente é um filme sombrio. Desde logo, no sentido literal do termo. A maioria das sequências são nocturnas e, mesmo quando é dia, nunca a luz do sol as ilumina. Mas, é-o sobretudo num sentido metafórico. Decorre no ano de 1923, quando na Alemanha reinava a híper-inflacção e toda a gente lutava pela sua sobrevivência sem esperar dias melhores. “Não há futuro. As pessoas perderam o futuro”, diz-nos a dada altura Manuela. Mesmo os momentos de diversão ou os encontros amorosos são patéticos. Caricaturas grotescas do que pode ser a alegria e o amor. E é neste contexto que, como uma sombra que se vai alongando, vai ganhando forma a ameaça nazi.

Enquanto a câmara segue os passos de Abel pelas ruas sujas e enevoadas de Munique, o narrador dá-nos conta desta situação: “3ª Feira, 6 de Novembro. Os jornais estão repletos de medo, ameaças e rumores. Um confronto sangrento entre os partidos extremistas parece inevitável. Apesar de tudo, as pessoas vão trabalhar. A chuva nunca pára e o medo surge, como o vapor, das pedras da rua. Pode ser sentido como um cheiro pungente. Todo o mundo o suporta como um envenenamento interno, como um envenenamento lento sentido apenas como um pulsar, mais rápido, mais lento, ou como um espasmo de náusea”.

As personagens centrais do filme são Abel Rosenberg e a sua cunhada Manuela, ambos antigos artistas de circo. Também eles vivem desesperadamente à sombra da pobreza e do remorso. Manuela culpabiliza-se pelo suicídio de Max, o seu marido, e Abel tem uma vida sem propósito que apenas suporta quando se embebeda. Deus é uma figura ausente, como nos diz o padre a quem Manuela confessa a sua culpa. “Precisamos de nos ajudar uns aos outros, dar uns aos outros o perdão que um Deus distante nos nega”. Abel é a testemunha silenciosa que nos vai conduzir dos bas-fonds da cidade de Munique aos espaços labirínticos da clínica do Doutor Vergerus.

No mundo deliquescente da Alemanha do pós-guerra, duas personagens contraditórias procuram oferecer-lhe uma ordem. Uma “nova ordem”, na perspectiva de Hans Vergerus, um cientista que, usando cobaias humanas, realiza experiências que têm como propósito manipular as emoções dos seus pacientes. Trata-se de explorar os seus limites até às últimas consequências, com a finalidade de os conhecer para poder remover as fragilidades do comportamento humano em prol de uma superior eficiência. Apesar do seu menosprezo pela figura de Hitler, sua clínica prefigura numa dimensão laboratorial a sociedade de controlo totalitário que o nazismo tentará fundar. Ao Inspector Bauer, pelo contrário, cumpre-lhe dar o seu pequeno contributo para restabelecer alguma ordem na República de Weimar, descobrindo o responsável pela misteriosa série de mortes que têm ocorrido em Munique.

Aparentemente, Bauer é o vencedor. Os seus polícias invadem a clínica e Vergerus suicida-se. Entretanto, chegam as notícias de que fracassou o golpe que Hitler preparava em Munique. Porém, como diz Vergerus a Abel, “qualquer um que faça o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como o ovo da serpente. Através da membrana fina pode-se distinguir claramente o réptil já perfeitamente formado”.


 

domingo, 5 de abril de 2026

441ª sessão: dia 7 de Abril (Terça-Feira), às 21h30


“O Ovo da Serpente” de Bergman, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga
 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star – Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a hiper-normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo abre com o filme O Ovo da Serpente (1977) de Ingmar Bergman. Produzido durante o período em que o realizador se encontrava fora da Suécia, o filme decorre na Berlim de 1923, num contexto de crise económica e instabilidade política. Através da figura de Abel Rosenberg, um judeu estrangeiro progressivamente isolado, o filme evidencia um contexto de crise, desagregação social e vulnerabilidade que antecipa formas de exclusão e desumanização mais tarde institucionalizadas pelo regime Nazi.

A narrativa centra-se em Abel Rosenberg, interpretado por David Carradine, um artista judeu-americano que permanece na cidade após a morte do irmão. A personagem estabelece uma relação com Manuela, interpretada por Liv Ullmann, num enredo que acompanha a progressiva deterioração das suas condições de vida. Desesperado por sobreviver na cidade ainda devastada pela guerra, Abel aceita um emprego na clínica do professor Veregus. Aí, descobre a terrível verdade por detrás do trabalho do professor, estranhamente benevolente, e desvenda o mistério arrepiante que levou o seu irmão ao suicídio. 

O elenco inclui ainda Gert Fröbe e Heinz Bennent. Rodado em língua inglesa e com financiamento internacional, distingue-se no conjunto da obra de Bergman pelo contexto de produção e pela aborda-gem histórica directa. O Ovo da Serpente integrou a seleção oficial em competição no Festival de Cannes, em 1977. A receção crítica à época foi desigual, tendo o filme vindo a ser posteriormente reavaliado no contexto da filmografia do realizador.


As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!
 


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Matthias & Maxime (2019) de Xavier Dolan



por Estela Cosme

Matthias e Maxime é um filme que nos causa bastante estranheza e bastante familiaridade simultaneamente. Ao mesmo tempo que é uma história sobre amizade e amor juvenil, é também um retrato de jovens adultos que se encaixam numa vida ainda em construção, onde cada episódio é monumental e banal ao mesmo tempo. Onde tudo parece efémero, mas profundamente marcante, e sabemos perfeitamente que o que acontece irá moldar as personagens de forma irreversível. É por isso um filme de contradições, mas também do que existe entre elas e por causa delas.


A história gira à volta de um grupo de amigos de infância que agora são jovens adultos, obrigados a definir o seu presente pelas suas ambições profissionais. No entanto, as suas amizades deixam-nos prendidos à sua adolescência e à forma grosseira e reactiva de viver e de agir a que estão tão habituados, sendo o grupo o único elemento familiar num mundo caótico e temível, a sua única rede de segurança. 


Mas este é um grupo de homens concentrados em si próprios, onde existe uma masculinidade não só dominante, mas também agressiva. Tudo o que ousa "furar" esta bolha é retratado de forma negativa, e as personagens femininas não escapam às críticas e ao desdém das personagens principais. Vemos a irmã de Rivette a ser gozada e repetidamente desvalorizada como artista. A mãe de Maxime é apenas violenta e manipuladora, um dos vários motivos que leva Maxime a querer sair do país (vemos outra relação de mãe e filho turbulenta noutro filme de Xavier Dolan, Eu Matei a Minha Mãe). Até Matthias encara a mãe de forma negativa, apesar de como espectadores não nos serem apresentados motivos. E é no meio desta virilidade bem marcante e do caos que ela traz que descobrimos que existe uma espécie de história de amor, e essa história não é perfeita, tal como as suas personagens. 

Matthias e Maxime conhecem-se desde a infância mas há algo entre eles que os une de uma forma que não une os outros amigos. Quando são emboscados para aparecer numa curta-metragem da irmã de Rivette, eles descobrem que têm que se beijar em frente à câmara, levando o grupo de amigos a relembrar que isso já tinha acontecido na secundária. Um lapso devido ao efeito de drogas, segundo Matthias. Mas ao longo do filme descobrimos que a verdade é bem mais complexa, e apesar de viverem as suas vidas como homens heterossexuais, há uma paixão silenciosa por explorar entre ambos. O beijo entre eles causa uma grave crise existencial, que mexe profundamente com os dois, e que põe em causa não só a sua amizade, mas também o grupo de amigos, as suas respectivas relações amorosas, e a eventual partida de Maxime para a Austrália. 

Para as personagens principais, chegou o momento de lidar com o que já não podem mais adiar. O inevitável surge no pior momento, exacerbado pelo sofrimento das mudanças, o caos do dia-a-dia e a pressão da despedida. A repressão da sua homossexualidade tem consequências nefastas, como é óbvio, e o amor que existe entre os dois nem é saudável nem é minimamente tangível. O que vemos neste amor tem pouco de carinho e de lealdade, é o amor de uma amizade agridoce que se foi azedando com o tempo, com sentimentos por definir e uma atração mal interpretada por ambas as partes. Não sabem o porquê desse puxão magnético que os une, o que os leva a afastar-se cada vez mais. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, agora há uma contagem decrescente até ao momento em que se devem separar de vez. O amor entre eles tem então os dias contados, e tudo o que se diga e se faz conta muito, para o bem e para o mal. E como vemos ao longo do filme, é sobretudo para o mal. 


Mas o filme não só lida com a frustração de um amor por realizar. Lida também com a esperança de que ele eventualmente seja realizado e correspondido. Mas se esse é um amor pelo qual devemos nutrir, isso já fica a cargo de cada espectador. Para muitos, talvez a aridez da Austrália pareça bem mais acolhedora.



domingo, 29 de março de 2026

440ª sessão: dia 31 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Matthias & Maxime”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga
 
Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, encerra-se a retrospectiva dedicada a Xavier Dolan com a exibição de Matthias & Maxime (2019), um filme centrado nas relações de amizade e nos processos de redefinição afectiva na vida adulta.
 
A narrativa acompanha Matthias e Maxime, amigos de longa data que integram um grupo próximo e coeso. A dinâmica entre ambos altera-se quando aceitam participar num filme estudantil, no qual partilham um beijo em cena. Este episódio desencadeia uma série de questionamentos que irão afectar a forma como cada um se relaciona consigo próprio e com o outro, colocando em causa equilíbrios até então estabelecidos.

Interpretado por Gabriel D'Almeida Freitas e pelo próprio Xavier Dolan, o filme conta ainda com a participação de Anne Dorval, colaboradora habitual do realizador. O elenco contribui para a construção de um registo próximo do quotidiano, assente em diálogos naturais e numa atenção particular aos gestos e às hesitações das personagens. Rodado maioritariamente no Quebeque, Matthias & Maxime apresenta uma abordagem formal mais contida em comparação com obras anteriores de Dolan, privilegiando a observação das interações entre personagens e a construção progressiva de tensão emocional. 

O filme estreou no Festival de Cannes de 2019, integrando a competição oficial, e marcou o regresso de Xavier Dolan a um registo mais centrado nas relações interpessoais. A obra foi também exibida em diversos festivais internacionais. Com Matthias & Maxime, Xavier Dolan propõe um retrato das am-biguidades do desejo e da dificuldade em nomear os afectos, explorando os momentos de transição em que a amizade e o amor deixam de ser categorias estáveis.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!