quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Apenas na Terra (2025) de Robin Petré



por Laura Mendes
 
Apenas na Terra parte de uma constatação que acaba por estruturar a forma como se propõe a explorar as intricadas relações entre o humano e a restante natureza que o circunda: num local devastado pelos incêndios, os animais que, rodeados pelo fogo, avistam um ser humano, preferem regressar à dureza das chamas a confiar nesta (que é a nossa) outra forma de vida. 

Estes animais são também aqueles que ocupam os espaços domésticos que vemos ser apresentados, sendo parte da paisagem quotidiana onde, de igual forma, o humano deambula entre os seus afazeres: seja a atenção em cuidar e preservar como a construção de uma artificialidade cuja enormidade depressa potencia a pequenez e a dissolução da vida mais frágil e indefesa. 

O retrato é cru e afigura-se-nos como um paradoxal díptico, contrapondo a simultânea proximidade e distância a que nos encontramos em relação à natureza: são, principalmente, as crianças quem melhor expressa o fascínio e o temor, o domínio e a espontaneidade constituintes do modo como comungamos com o ecossistema. 

As paisagens progressivamente mais apocalípticas suspendem, por momentos, a realidade, já que a transformam em composições poéticas, refletindo em torno da grandiosidade de uma natureza em decomposição, unindo sublime e grotesco. 

Ações rotineiras transformadas em atos simbólicos: o nascer de uma ovelha ou um cigarro que se fuma aquando de um turno de vigia vão compondo os sucessivos quadros que, lenta e pacientemente, deslocam o real rural da Galiza para um imaginário que tem tanto de mágico como de distópico. 

O filme opera numa dinâmica circular e de progressão. Uma possível primeira parte apenas evoca – quase misticamente – os incêndios que colapsam o horizonte, através da secura das tonalidades opacas e tristes, bem como das narrativas localizadas no seio de uma coletividade ainda (materialmente) afastada da destruição porvir. Uma outra, segunda, torna as chamas palpáveis, os incêndios conscientes e íntimos: é já a inquietação e o caos que ocupam o ecrã, enquadrados numa luta pela terra que é de todos – as chamas são parte do corpo e as faúlhas entranham-se nos olhos, envoltas num misto de impotência e necessidade de proteção. O seu final completa o círculo, regressando à (aparente) calma inicial mas destabilizando-a – pensemos no olhar da pequena ovelha – ao propor novas perspetivas em torno do desastre e da tragédia, da solenidade da regeneração e da importância do território. 

A banda sonora, priorizando os sons naturais provenientes da ambiência e, principalmente, os silêncios, adensa a atmosfera transcendente muito própria de Apenas na Terra, num tom perscrutador. 

Uma chamada de atenção para aquilo que, só podendo acontecer na terra, somente nela encontrará uma reconciliação, que terá de partir de nós. 




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

434ª sessão: dia 17 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“Apenas na Terra” de Robin Petré, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga 
 
Até ao final de fevereiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta um ciclo de cinema dedicado à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Esta terça-feira, o cineclube exibe um documentário que ainda não estreou no circuito comercial: Apenas na Terra (Only on Earth, 2025), de Robin Petré, filmado na Galiza e centrado na realidade recorrente dos incêndios florestais. María Goya Barquet, responsável pela cinematografia, traz ao olhar do espectador o contraste entre a beleza das montanhas galegas e a força destrutiva do fogo.

O filme decorre numa zona rural conhecida pela presença de cavalos selvagens que vivem em regime semi-livre nas montanhas galegas, território que, nos últimos anos, tem sido sucessivamente atingido por fogos de grande dimensão. A câmara de filmar acompanha o impacto dos incêndios na paisagem e nas comunidades locais, registando tanto a dimensão ecológica como as consequências sociais destes eventos.

Sem recurso a narração explicativa, a realizadora constrói o documentário através da observação direc-ta, evitando, contudo, o formato de reportagem, preferindo dar voz e o “olhar” tanto aos humanos (ve-terinária Eva, bombeiro San, o jovem Pedro) como aos próprios animais. As suas vozes estruturam o filme e oferecem diferentes perspectivas sobre prevenção, risco e permanência no território.

Apenas na Terra estreou mundialmente no Berlinale 2025, e foi exibido em diversos festivais inter-nacionais, entre os quais o Sydney Film Festival, o Thessaloniki International Documentary Festival, o DocsBarcelona, o Verzió International Human Rights Documentary Film Festival e o Porto/Post/Doc 2025. A circulação em diferentes contextos reforça o enquadramento do filme no debate contemporâ-neo sobre as alterações climáticas.

Com esta sessão, o cineclube propõe um olhar atento sobre uma realidade geograficamente próxima, que também é experienciada em Portugal, colocando em debate a relação entre território, comunidade e responsabilidade colectiva perante os desafios ambientais actuais.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O Corno do Centeio (2023) de Jaione Camborda



Por António Cruz Mendes
 
 
O Corno do Centeio é um filme feito por mulheres sobre mulheres. Pela realizadora, pela Jaione Camborda, e também pela actriz, Janet Novás, com uma interpretação soberba da personagem principal do filme. As personagens masculinas têm um papel bastante irrelevante na sua narrativa. É de mulheres, do seu corpo, da sua condição, dos laços de solidariedade que entre elas se entretecem, aquilo de que o filme trata.
 
A acção decorre em 1971 e o seu contexto é o de uma comunidade piscatória na ilha de Arousa, na Galiza. A sequência inicial dá-nos as imagens e os sons de um parto. Grandes planos da mulher que vai dar à luz, do seu rosto contorcido pela dor, do seu corpo suado e dos gestos de conforto da parteira que a assiste. A sequência final é também a do nascimento de uma criança. Nas últimas imagens do filme, vemos Maria encostando ao seu rosto, emocionada, a cabeça do seu filho recém-nascido. Desta forma, e num sentido metafórico, o filme apresenta-se como uma celebração da vida e do papel da mulher na sua criação.
 
As sequências que vemos depois do parto inicial mostram-nos momentos de festa. Há música, danças, alegria. E é ainda do desejo e da vida que nos falam as imagens da mão de Maria, os seus dedos agarrando a terra, no clímax de uma relação sexual.
 
Mas, neste filme de luzes e sombras, no cerne da narrativa, está a morte de uma adolescente, presumivelmente ocorrida na sequência de um aborto. Entre o momento do aborto e o da sua morte, há um lapso temporal que o filme não documenta, mas todos sabemos que, antes da legalização da IVG, eram muito frequentes os casos de morte devidos a abortos praticados sem condições sanitárias. Luísa apela à parteira que a ajude a abortar, de outra forma fá-lo-á sozinha. Numa sequência belíssima (nunca será de mais encarecer a qualidade da luz e da fotografia de Rui Poças), vemos Maria, uma pequena mancha vermelha, perdida no vasto mar amarelo de um campo de centeio. Mais tarde, oferecerá a Luísa a beberagem que lhe provocará o aborto. Sabe-se que do corno ou esporão-do-centeio, um fungo que parasita cereais, se pode extrair uma substância que provoca contracções musculares e afecta o útero. Sabe-se também que o seu uso pode ser muito perigoso para a saúde. Assim, o corno do centeio, que dá o título ao filme de Jaione Camborda tem também, neste contexto, uma dimensão simbólica: nele se concretiza o tempo em que uma legislação conservadora, suportada por convicções de ordem religiosa que nem todos partilham, obrigava muitas mulheres a escolherem entre uma gravidez indesejada e o risco de morte.
 
Perseguida pela Justiça franquista, Maria atravessará uma fronteira percorrendo as passagens que são cenários do contrabando de mercearias com que se combate a pobreza. Também ela transporta consigo uma nova vida, que crescerá em lugares diferentes daqueles onde se encontravam as suas raízes.
 
O Corno do Centeio recebeu a Concha de Ouro atribuída ao melhor filme do Festival do prestigiado festival de San Sebastián. Depois das suas 71 edições, Jaione Camborda foi a primeira realizadora espanhola a receber esse prémio.
 
 
 

No grande plano do olhar inocente e suplicante de Luísa
  
 
 
 
 
 
e no plano de geral do campo de centeio onde Maria procura o corno, condensa-se o drama das mulheres que arriscam a vida para interromper uma gravidez indesejada. 
 
 
 
 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

433ª sessão: dia 10 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“O Corno do Centeio”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 
Em fevereiro, findado o ciclo de cinema dedicado ao “Expressionismo Alemão”, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta, a partir do dia 10 de fevereiro, uma programação de cinema dedicada à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

O ciclo arranca na terça-feira, 10 de fevereiro, com “O Corno do Centeio” (2023), a mais recente longa-metragem de Jaione Camborda, uma coprodução entre Espanha, Portugal e Bélgica que tem sido aclamada internacionalmente. 
 
Ambientado em 1971, na ilha de Arousa, na Galiza, o filme segue María, uma mulher galega que vive da apanha de marisco e é reconhecida na sua comunidade pelo trabalho de parteira que desempenha com dedicação. Um acontecimento imprevisto obriga-a a abandonar o lugar onde sempre viveu e a atravessar a fronteira por uma rota de contrabando em direção a Portugal, desencadeando uma jornada difícil de luta pela sobrevivência e liberdade.

Protagonizado por Janet Novás, em estreia no cinema, e contando com Siobhan Fernandes, Carla Rivas e Daniela Hernán Marchán no elenco principal, “O Corno do Centeio” constrói-se como um drama humano que explora temas como a sororidade, a emancipação feminina e os laços entre mulheres frente a desafios sociais e pessoais.

A realizadora basca Jaione Camborda estudou cinema nas prestigiadas escolas de Praga e Munique e vive e trabalha na Galiza. O filme “O Corno do Centeio” é a sua segunda longa-metragem, teve estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF) em 2023 e foi vencedor da Concha de Ouro no 71.º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, sendo, assim, um marco importante para o cinema contemporâneo hispânico e para a própria realizadora.
 
Esta obra confirma o percurso de Jaione Camborda, que já se havia destacado com o filme “Arima” (2019), e inscreve-se num cinema europeu contemporâneo atento às experiências femininas e às geografias periféricas.

O Corno do Centeio” é um filme que articula uma narrativa de deslocação, centrada em relações de solidariedade e em formas de resistência transfronteiriça.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O Anjo Azul (1930) de Josef von Sternberg



por Laura Mendes
 
Neste último filme do ciclo Expressionismo Alemão, recuperam-se os cenários angulares e os jogos de sombras de O Gabinete do Dr. Caligari, juntando-os ao retrato quase realista de vidas banais, já explorado em O Último dos Homens

O ídolo é identificado, de imediato, nas cenas iniciais: Lola exuberante no cartaz matinal, inspirando até a senhora que o limpa; Lola fascinante em pequenos postais que circulam, de mão em mão, entre colegas de escola, na sala de aula.

O ambiente desta última é rígido, habitado por masculinidades que simultaneamente oprimem e são oprimidas, refletidas nos alunos e no ilustre professor Immanuel, cético e crítico das imagens de Lola que vê habitar, não só nas brincadeiras, mas nas mentes daqueles que tenta educar.  É aqui que O Anjo Azul surge especialmente interessante, sobretudo pela exploração dos desejos escondidos e pela consequente destruição de hierarquias que nos dividem, demonstrando a transversalidade das fragilidades de cada um.

Immanuel vai cedendo progressivamente ao imaginário burlesco protagonizado pela encantadora Lola – audaz e imperdoável, remetendo para figuras femininas suas sucessoras, nomeadamente Sally Bowles em Cabaret, de Bob Fosse –, ciente de que o mesmo é sintomático de uma palpável decadência social. Ainda assim, acaba incontrolavelmente atraído pelo caráter espontâneo e inebriante de Lola, provando as incongruências da atração e o desespero de um homem que não havia, até então, encontrado um rumo suficientemente satisfatório. 

O repentino abandono dos velhos costumes para abrir portas à frivolidade do cabaré é uma premissa inteligentemente proposta, podendo ser pensada como desconstrução de estruturas disciplinares inflexíveis: estas, relacionadas com as patriarcais, estão evidentes na necessidade sentida por Immanuel de exercer um poder controlador e violento no seio da sua vida íntima, acabando vítima do seu próprio comportamento. As repercussões deste último na vida individual e coletiva pintam o quadro de uma sociedade do espetáculo, fascinada pelo torpor que faz esquecer, aliviando efemeramente a carga de uma vida miserável. 

Ainda que a representação estereotipada da mulher sugira o seu papel enquanto pecado material que conduz o homem à desgraça, o filme não parece louvar nenhuma das posições, inicialmente antagónicas, do par protagonista – tanto Immanuel como Lola se deixam encantar pelas aparências de uma vida repleta de dinheiro e sensualidade, que acaba por se revela uma quimera inatingível, transformada em frieza e solidão. 

O fim de Immanuel é fruto de uma sociedade que implode para ver outrem desabar; do ímpeto, em última instância narcisístico, de consumo e entretenimento desenfreados, onde aquilo que, nos outros, aparente e honradamente desprezamos, é, na verdade, o que em nós mais tentamos camuflar e conter. 
Uma chamada de atenção que reverbera na atualidade: e não deixemos que surja como presságio, à imagem do velho palhaço triste que espreita durante todo o filme, esperando o seu futuro companheiro de palco. 




domingo, 1 de fevereiro de 2026

432ª sessão: dia 3 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“O Anjo Azul” de Josef von Sternberg, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Em janeiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga começou o ano com uma programação dedicada ao “Expressionismo Alemão” e que termina a 3 de fevereiro. A partir do dia 10 de fevereiro, o cineclube apresenta um ciclo de cinema dedicado à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima ter\a-feira, 3 de fevereiro, o ciclo “Expressionismo Alemão” encerra com o filme “O Anjo Azul” (Der blaue Engel, 1930), de Josef von Sternberg, um dos filmes fundamentais da transição do cinema mudo para o sonoro e uma obra incontornável da história do cinema europeu.
 
Adaptado do romance Professor Unrat de Heinrich Mann, o filme acompanha a queda moral e social de um respeitado professor que se apaixona por Lola Lola, cantora de cabaré, figura livre e provocadora, interpretada por Marlene Dietrich. A relação entre ambos expõe o conflito entre a vontade individual e a imagem pública, num retrato incisivo da hipocrisia moral e da fragilidade das convenções sociais.

O Anjo Azul” assinala a consagração internacional de Marlene Dietrich, cuja presença magnética redefine a representação da feminidade no cinema. Ao mesmo tempo, o filme marca uma das interpretações mais memoráveis de Emil Jannings, actor consagrado do cinema mudo, aqui confrontado com a nova expressividade exigida pelo som.

Realizado por Josef von Sternberg, cineasta conhecido pelo uso expressivo da luz e da composição, o filme destaca-se pela forma como articula espaço, corpo e som. O contraste entre o liceu onde o professor Rath lecciona e as cenas no cabaré estrutura visualmente o filme, acompanhando a progressiva desintegração da autoridade do protagonista.

Produzido na Alemanha nos últimos anos da República de Weimar, “O Anjo Azul” antecipa o clima de volubilidade social e moral que marcaria a década seguinte. Entre melodrama, crítica social e tragédia humana, o filme permanece um retrato actual das relações entre poder, desejo e exposição pública.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!