por Laura Mendes
Ama-San é o retrato de uma prática piscatória japonesa e das mulheres que a levam a cabo, todos os dias submergindo às profundezas da água do mar para encontrar e recolher seres e artefactos que ali habitam. Uma espécie de preâmbulo situa-nos não em Wagu, local-documento onde vivem e trabalham as Ama, mas num lugar mitológico que, remontando às origens do que é o mar e, consequentemente, de quem o ocupa e dele faz vida, se emaranha num quotidiano normal, repleto de filhos, tarefas e cuidados de subsistência.
Conhecemos, assim, estas mulheres num “dia de folga” – já que o mar, não dando tréguas, impossibilitou um dia de trabalho –, acompanhando-as na normalidade rotineira que é progressivamente desconstruída se atentarmos no transcendente que, sempre presente, as rodeia.
A sensação que o desconhecido e o intangível imprimem em nós não surge apenas do trabalho no mar e dos planos das mergulhadoras abraçadas pela imensidão do mesmo, mas também através da presença da ancestralidade, seja nos mortos que são recordados ou na palpabilidade do envelhecimento de algumas das mulheres, reflexo da longevidade do seu ofício. Apesar de tudo, não é o mistério ou o medo que dominam o imaginário, mas sim o respeito, a resiliência e a sabedoria destas existências que nunca serão suplantadas, pois importam e contribuem para o mantimento de uma tradição feminina que, entre outras coisas, desafia os estereótipos associados ao papel da mulher no seio social e doméstico.
A solenidade é um das características da prática das Ama: e Cláudia Varejão é reverente quando nos faz notar a ciclicidade dos mergulhos, a fidelidade a eles inerente, considerando todos os cuidados necessários, seja com a colocação dos fatos, as pequenas cerimónias que acompanham todo o processo, ou a beleza flutuante das mulheres submersas (que, note-se, quando regressam à superfície, zelam pela sua própria pele e corpo). São muitos (outros) os momentos do filme que evocam o rito, numa abordagem que, extravasando o material, sugere um viver dedicado e consciente.
Se a noção de comunidade (principalmente feminina) pode surgir como elemento cental de perscrutação neste filme – são várias as atividades partilhadas pelas mulheres e pelas suas famílias –, o mesmo também revela algo da solidão dos seus participantes – o barco e o mar despertam como representantes dessa solidão, refletida muitas vezes nos olhares quer do capitão que vigia a embarcação, quer das mergulhadoras, que carregam em si o peso de uma história passada e, simultaneamente, porvir. Uma dualidade que espelha as contrariedades de vidas de movimento, perigo e desolação, mas de profundo sentir e reivindicativas de um dever árduo, sério e ímpar.
Estas vidas apresentam-se-nos como fruto da necessidade de eternizar uma porção do real que porventura desconhecemos, de documentar as fórmulas ancestrais que permanecem impassíveis mesmo face a um desenvolvimento global crescente e acelerado. Reparamos na calma e paciência com que as mulheres conciliam a modernização: uma televisão na hora de adormecer ou a evocação de uma Taylor Swift distante não parecem suficientes para apelar à pretensa magnificência de uma civilização ocidental que tenta quebrar ligações genuínas com a natureza, o território e a comunidade, aqui fortalecidas a partir desta prática quase devocional.
Criaturas tão singulares quanto aquelas que pescam, as Ama são espelho da força com que enfrentam o mar e o mundo, envoltas em música que são recordação, expressão e identidade inabaláveis.







