François Truffaut é um dos
expoentes da Nouvelle Vague, surgida
nos finais dos anos 50. Enquanto crítico dos “Cahiers du Cinema”, execrava os
filmes do “cinema de qualidade” francês (Delanoy, Cayatte, etc.), que
considerava literário e rotineiro, e apreciava os filmes americanos da série B,
realizados com baixos orçamentos. Como realizador, vai dispensar as filmagens
em estúdio para filmar “na rua”, com câmaras portáteis, o pulsar de uma cidade,
o dia-a-dia de pessoas comuns. Tal como os outros realizadores que deram corpo
a esse movimento, Truffaut recusa sujeitar-se a convenções e faz questão de
afirmar a sua particular marca autoral.
Como é que estes propósitos
se revelam na série de filmes que acompanham durante 20 anos a vida de Antoine
Doinel? Aquilo que distingue o seu “realismo”, é a elegância com que neles se
entretece a comédia e a tragédia, a forma como a tristeza se insinua entre
peripécias aparentemente cómicas, a feição muito “tchekoviana” como as dores de
crescimento de Antoine Doinel, as suas angústias existenciais, nos vão sendo
reveladas em sotto voce.
Na sequência final de Os quatrocentos golpes, a câmara, num
longo travelling, acompanha a fuga de Antoine Doinel do instituto correcional.
Segue-o na sua corrida ofegante e acaba por se fixar num grande plano do seu rosto, que se volta para a
câmara e nos encara. É o rosto de uma criança crescida que procura, sem o
encontrar, o seu lugar no mundo. Essa busca continua em Os beijos roubados.
A acção decorre nos tempos
conturbados do Maio de 68. Em Paris, erguem-se barricadas, as universidades
estão encerradas e as fábricas em greve, mas nada disso se vê neste filme.
Apenas nos diálogos há breves alusões àquilo que então fazia as manchetes dos
noticiários. Em vez disso, o trabalho de Antoine Doinel numa agência de
detectives introduz-nos no mundo dos pequenos dramas quotidianos e o filme
aparenta ser uma comédia ligeira que encontra os seus temas numa crónica de
acontecimentos banais, na vida comum com as suas rotinas e anedotas.
Antoine Doinel não é de forma
alguma um enragé, mas um jovem gentil
e mesmo (e de uma forma um tanto cómica) muito sério e cerimonioso. Contudo, na
sua inquietude, no seu espírito sonhador, na sua dificuldade em ajustar-se às
convenções e práticas sociais, o “espírito de 68” não deixa de estar presente.
Em Os quatrocentos golpes, tinha 13 anos, agora terá mais uns sete. Em
Antoine e Colette, Antoine Doinel,
então com 17, vive uma primeira paixão, mas o seu amor não é correspondido. Em Os beijos roubados, conhece Christine.
Os seus modos delicados e o seu ar um pouco perdido suscitam a atitude
protectora dos pais da namorada. Depois de um percurso de abandono, incertezas
e fracassos, Antoine anseia pela segurança de um lar burguês. Christine, que
simpatiza com ele, seria a porta de entrada nesse porto seguro. Mas, eis que
entra em cena a deslumbrante Mme. Tabard…
A amizade ou a paixão? A
simplicidade ou o glamour? A
segurança ou a aventura? Christine ou Fabienne? O dilema de Antoine Doinel é
explicitado na cena trágico-cómica diante do espelho. Um tubo pneumático
transportará através dos subterrâneos de Paris a sua decisão. Depois, Mme.
Tabart mostrar-lhe-á como se pode resolver a quadratura do círculo. O seu
casamento com Christine será o tema do próximo filme. Mas, em Os beijos roubados, quem lhe faz uma
promessa de amor eterno não é Antoine Doinel, mas um louco.