por António Cruz Mendes
Comecemos pelo fim. Na última sequência de imagens de Eu matei a minha mãe, vemos Hubert Minel em criança, a brincar, feliz, ao lado da sua mãe. Acham-se naquilo a que ele mais tarde chamará “o seu reino”, o paraíso perdido dos seus amores infantis, o lugar onde, mais tarde, se refugiará quando fugiu do colégio onde os pais o matricularam como aluno interno.
Antes disso, depois de violentamente agredido pelos seus colegas, vítima de uma provável manifestação homofóbica, refugia-se no seu quarto, mergulhado na penumbra. Vemo-lo despido, de costas, sentado à sua secretária. Apenas a luz ténue de um pequeno candeeiro de mesa ilumina a cena. Escreve. No que está a pensar? Numa onírica sequência de imagens, Hubert, já um jovem adulto, persegue a mãe, ainda jovem e vestida de noiva. Essas imagens, muito belas, tingidas pela cor outonal da floresta onde a cena decorre, têm uma conotação sexual bastante explícita. E é o horror que isso desperta nele que explica a relação tensa, violenta, que, na sua adolescência, ele vai desenvolver com ela.
Evidentemente, a atitude de menosprezo, muitas vezes raiando o ódio, que ele faz questão de evidenciar a propósito dos seus gostos e dos seus costumes, reflecte a diferença cultural que os separa, bem como a necessidade, própria da adolescência, de afirmação da sua própria identidade, da sua diferença. Mas, no caso de Hubert, ela funciona, antes de tudo, como o escudo com que ele se defende de um amor proibido.
Hubert está presente em quase todas as cenas. Naquelas que nos contam a sua história, nos seus monólogos interiores, filmados a preto e branco, ou nos flashback que nos remetem para a sua infância, apresentados sob a forma de filmagens, supostamente realizadas pelo seu pai, num registo muito espontâneo e despretensioso.
Todo o filme se resume ao seu drama interior. As outras personagens, inclusive a da sua mãe, para quem as fúrias de Hubert parecem ser apenas um incómodo mais ou menos difícil de suportar, se apagam diante dele. Têm uma espessura psicológica e uma relevância muito pequena. Pouco ficamos a saber do seu namorado, Antonin, ou da sua professora, Julie Coutier, com quem Hubert mantém uma relação que, também ela, está proscrita pelas convenções sociais. Menos ainda ficamos a saber algo acerca do seu pai. O filme resume-se a Hubert e à forma como se debate com a relação de amor-ódio que mantém com a sua mãe.
Eu matei a minha mãe é primeira longa-metragem de Xavier Dolan. Ele próprio encarna a personagem de Hubert e o seu filme, não sendo uma obra autobiográfica, reflecte experiências de vida do realizador. Não é por acaso que, tanto ele como a sua personagem, são homossexuais. Tal como no caso de Hubert, os pais de Xavier Dolan divorciaram-se quando ele era ainda criança e também ele manteve, depois disso, uma relação problemática com a sua mãe. E, tal como, no filme, podemos interpretar as tentativas literárias e artísticas de Hubert como uma tentativa de sublimação dos seus recalcamentos, o mesmo se poderá dizer acerca de Dolan, que ultrapassou um historial de rebeldia e de violência, que o levou a ser expulso de várias escolas, dedicando-se ao cinema.
O roteiro de Eu matei a minha mãe foi escrito quando ele tinha dezasseis anos e o filme, multipremiado premiado no festival de Cannes, realizou-o quando tinha vinte. Foi o primeiro passo da sua carreira como realizador. Uma obra ainda muito pouco conhecida em Portugal que, agora o Lucky Star – Cineclube de Braga se propõe divulgar com a realização deste ciclo de filmes de Xavier Dolan.
Antes disso, depois de violentamente agredido pelos seus colegas, vítima de uma provável manifestação homofóbica, refugia-se no seu quarto, mergulhado na penumbra. Vemo-lo despido, de costas, sentado à sua secretária. Apenas a luz ténue de um pequeno candeeiro de mesa ilumina a cena. Escreve. No que está a pensar? Numa onírica sequência de imagens, Hubert, já um jovem adulto, persegue a mãe, ainda jovem e vestida de noiva. Essas imagens, muito belas, tingidas pela cor outonal da floresta onde a cena decorre, têm uma conotação sexual bastante explícita. E é o horror que isso desperta nele que explica a relação tensa, violenta, que, na sua adolescência, ele vai desenvolver com ela.
Evidentemente, a atitude de menosprezo, muitas vezes raiando o ódio, que ele faz questão de evidenciar a propósito dos seus gostos e dos seus costumes, reflecte a diferença cultural que os separa, bem como a necessidade, própria da adolescência, de afirmação da sua própria identidade, da sua diferença. Mas, no caso de Hubert, ela funciona, antes de tudo, como o escudo com que ele se defende de um amor proibido.
Hubert está presente em quase todas as cenas. Naquelas que nos contam a sua história, nos seus monólogos interiores, filmados a preto e branco, ou nos flashback que nos remetem para a sua infância, apresentados sob a forma de filmagens, supostamente realizadas pelo seu pai, num registo muito espontâneo e despretensioso.
Todo o filme se resume ao seu drama interior. As outras personagens, inclusive a da sua mãe, para quem as fúrias de Hubert parecem ser apenas um incómodo mais ou menos difícil de suportar, se apagam diante dele. Têm uma espessura psicológica e uma relevância muito pequena. Pouco ficamos a saber do seu namorado, Antonin, ou da sua professora, Julie Coutier, com quem Hubert mantém uma relação que, também ela, está proscrita pelas convenções sociais. Menos ainda ficamos a saber algo acerca do seu pai. O filme resume-se a Hubert e à forma como se debate com a relação de amor-ódio que mantém com a sua mãe.
Eu matei a minha mãe é primeira longa-metragem de Xavier Dolan. Ele próprio encarna a personagem de Hubert e o seu filme, não sendo uma obra autobiográfica, reflecte experiências de vida do realizador. Não é por acaso que, tanto ele como a sua personagem, são homossexuais. Tal como no caso de Hubert, os pais de Xavier Dolan divorciaram-se quando ele era ainda criança e também ele manteve, depois disso, uma relação problemática com a sua mãe. E, tal como, no filme, podemos interpretar as tentativas literárias e artísticas de Hubert como uma tentativa de sublimação dos seus recalcamentos, o mesmo se poderá dizer acerca de Dolan, que ultrapassou um historial de rebeldia e de violência, que o levou a ser expulso de várias escolas, dedicando-se ao cinema.
O roteiro de Eu matei a minha mãe foi escrito quando ele tinha dezasseis anos e o filme, multipremiado premiado no festival de Cannes, realizou-o quando tinha vinte. Foi o primeiro passo da sua carreira como realizador. Uma obra ainda muito pouco conhecida em Portugal que, agora o Lucky Star – Cineclube de Braga se propõe divulgar com a realização deste ciclo de filmes de Xavier Dolan.







