quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ama-San (2016) de Cláudia Varejão

 


 por Laura Mendes

 Ama-San é o retrato de uma prática piscatória japonesa e das mulheres que a levam a cabo, todos os dias submergindo às profundezas da água do mar para encontrar e recolher seres e artefactos que ali habitam. Uma espécie de preâmbulo situa-nos não em Wagu, local-documento onde vivem e trabalham as Ama, mas num lugar mitológico que, remontando às origens do que é o mar e, consequentemente, de quem o ocupa e dele faz vida, se emaranha num quotidiano normal, repleto de filhos, tarefas e cuidados de subsistência.

Conhecemos, assim, estas mulheres num “dia de folga” – já que o mar, não dando tréguas, impossibilitou um dia de trabalho –, acompanhando-as na normalidade rotineira que é progressivamente desconstruída se atentarmos no transcendente que, sempre presente, as rodeia.

A sensação que o desconhecido e o intangível imprimem em nós não surge apenas do trabalho no mar e dos planos das mergulhadoras abraçadas pela imensidão do mesmo, mas também através da presença da ancestralidade, seja nos mortos que são recordados ou na palpabilidade do envelhecimento de algumas das mulheres, reflexo da longevidade do seu ofício. Apesar de tudo, não é o mistério ou o medo que dominam o imaginário, mas sim o respeito, a resiliência e a sabedoria destas existências que nunca serão suplantadas, pois importam e contribuem para o mantimento de uma tradição feminina que, entre outras coisas, desafia os estereótipos associados ao papel da mulher no seio social e doméstico.

A solenidade é um das características da prática das Ama: e Cláudia Varejão é reverente quando nos faz notar a ciclicidade dos mergulhos, a fidelidade a eles inerente, considerando todos os cuidados necessários, seja com a colocação dos fatos, as pequenas cerimónias que acompanham todo o processo, ou a beleza flutuante das mulheres submersas (que, note-se, quando regressam à superfície, zelam pela sua própria pele e corpo). São muitos (outros) os momentos do filme que evocam o rito, numa abordagem que, extravasando o material, sugere um viver dedicado e consciente.

Se a noção de comunidade (principalmente feminina) pode surgir como elemento cental de perscrutação neste filme – são várias as atividades partilhadas pelas mulheres e pelas suas famílias –, o mesmo também revela algo da solidão dos seus participantes – o barco e o mar despertam como representantes dessa solidão, refletida muitas vezes nos olhares quer do capitão que vigia a embarcação, quer das mergulhadoras, que carregam em si o peso de uma história passada e, simultaneamente, porvir. Uma dualidade que espelha as contrariedades de vidas de movimento, perigo e desolação, mas de profundo sentir e reivindicativas de um dever árduo, sério e ímpar.

Estas vidas apresentam-se-nos como fruto da necessidade de eternizar uma porção do real que porventura desconhecemos, de documentar as fórmulas ancestrais que permanecem impassíveis mesmo face a um desenvolvimento global crescente e acelerado. Reparamos na calma e paciência com que as mulheres conciliam a modernização: uma televisão na hora de adormecer ou a evocação de uma Taylor Swift distante não parecem suficientes para apelar à pretensa magnificência de uma civilização ocidental que tenta quebrar ligações genuínas com a natureza, o território e a comunidade, aqui fortalecidas a partir desta prática quase devocional.

Criaturas tão singulares quanto aquelas que pescam, as Ama são espelho da força com que enfrentam o mar e o mundo, envoltas em música que são recordação, expressão e identidade inabaláveis.


Folha de Sala

 

domingo, 10 de maio de 2026

446ª e 447ª sessão: dia 12 e 15 de Maio (Terça e Sexta), às 21h30


Cinema português na terça e cinema ao ar livre na sexta, com o Lucky Star – Cineclube de Braga

Em maio, o Lucky Star – Cineclube de Braga, promove o cinema português que, com diferentes linguagens, inquietações e estéticas, tem vindo a renovar o panorama do cinema nacional.
 
Com o título: “Novíssimo Cinema Português”, o ciclo junta filmes diversos que, através da experimentação, do documentário contemplativo ou da ficção, revelam o presente do nosso cinema. Como é habitual, o ciclo regular decorre às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Ainda em maio, o Cineclube de Braga regressa com o ciclo “Fora de Portas”, com a primeira sessão na próxima sexta-feira, 15 de maio, no jardim do Museu dos Biscainhos.

Na próxima terça-feira, será exibido Ama-San (2017), de Cláudia Varejão. Rodado ao longo de vários meses na península de Shima, no Japão, o filme acompanha de forma próxima o quotidiano das mergulhadoras Ama, que recolhem marisco e pérolas sem o uso de equipamento de oxigénio. Sem recorrer à narração explicativa e privilegiando a observação dos gestos, das rotinas e das conversas do dia-à-dia, Ama-San centra-se na relação destas mulheres com o mar e na continuidade de uma prática milenar, transmitida entre gerações.

Cláudia Varejão tem desenvolvido um percurso entre o documentário e a ficção, centrado na identidade, no corpo e nas relações humanas. Da sua filmografia destacam-se No Escuro do Cinema Descalço os Sapatos (2016), Amor Fati (2020), Lobo e Cão (2022) e Kora (2023). Ama-San estreou no Visions du Réel e passou por festivais internacionais onde recebeu vários prémios, incluindo uma Menção Especial em Karlovy Vary, o Prémio Íngreme no Doclisboa, o Grande Prémio do Play-Doc e o Green Dox no Dokufest.

Na sexta-feira 15 de maio, às 21h30, realiza-se a primeira sessão do “Fora de Portas”, projecto de cinema ao ar livre, que decorrerá nos jardins do Museu dos Biscainhos e onde será exibido O Jardim Secreto (1993) de Agnieszka Holland. Ideal para toda a família, o filme acompanha uma jovem órfã na descoberta de um jardim abandonado, retratando a infância, a imaginação e o crescimento interior. A entrada é gratuita, mas sujeita à lotação máxima por ordem de chegada.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Bons filmes!
 


quarta-feira, 6 de maio de 2026

ASTRAKAN 79 (2023) de Catarina Mourão



por Jessica Sérgio Ferreiro

No mês de maio, o ciclo “Novíssimo Cinema Português” dá palco a uma geração de realizadores portugueses que, com diferentes linguagens, inquietações e estéticas, tem vindo a renovar o panorama do cinema nacional. Através da experimentação, do documentário contemplativo ou da ficção, estes filmes revelam o presente do nosso cinema. Maio torna-se, assim, um convite à descoberta de olhares frescos que desafiam tradições e abrem novos caminhos. Programámos para este ciclo quatro obras de cineastas contemporâneos que são já referências incontornáveis do nosso cinema (Catarina Mourão, Cláudia Varejão, Leonor Noivo e André Gil Mata, entre muitos outros que não pudemos incluir neste ciclo).

O filme Astrakan 79 (2023) é a mais recente obra de Catarina Mourão, cujo percurso se tem afirmado no campo do documentário, com trabalhos amplamente exibidos e distinguidos em festivais nacionais e internacionais. Da sua filmografia destacam-se títulos como O Mar Enrola na Areia (2019), A Toca do Lobo (2015), Pelas Sombras (2010), A Minha Aldeia Já Não Mora Aqui (2006), Malmequer (2004) e Desassossego (2002).

Astrakan 79 pode ser encaixado em diferentes categorias de cinemas. Pode ser considerado um documentário híbrido, uma docuficção ou, ainda um filme coming of age, devido à sua temática. Catarina Mourão mistura vários elementos que dificulta a categorização única desta obra. O filme é um trabalho de memória que parte do arquivo e da sua “encenação”: performing the archive. Este conceito e prática é já comum no cinema documental e nas artes, permitindo através da activação da memória e da sua performance trazer o passado para o presente. Em Astrakan 79, o filme abre com um conjunto de fotografias e postais expostas na parede, vemos Martim (no presente, com 58 anos) a encará-la e sabemos que estamos perante um mapa mental (e emocional) que lhe permitirá recordar, ressignificar e posicionar as suas experiências passadas no presente.

Catarina Mourão combina, assim, o arquivo pessoal de Martim (fotografias, postais e cartas que enviou para Portugal, recortes de jornais e da antiga revista Vida Soviética, indumentária e outros objectos que o protagonista trouxe da URSS) com a performance, ou seja, com a encenação do arquivo e das histórias que lhe estão associadas. Através da reconstituição ficcional, interpretada por Masari, e do uso da voz-off (narração), revisitamos as aventuras e desventuras de Martim Santa Rita, quando partiu para a União soviética com apenas 15 anos, em 1979. O arquivo é, assim, “performado” através do corpo de um actor. O arquivo desempenha um papel central na rememoração da vivência de Martim na União Soviética, permitindo imaginá-la e gravá-la em 16mm (cenas reconstituídas na Estónia). E não é o cinema uma forma de preservar a memória também?
 
Em Astrakan 79, o arquivo não é um mero documento com valor histórico, mas um elemento activo e condutor da narrativa que nos dá a conhecer a sua estadia em Astracã, para onde viajou ao abrigo de uma bolsa destinada a estudantes estrangeiros, com o objetivo de frequentar um curso técnico. A experiência é marcada pelas tensões próprias da adolescência, pelo confronto com novas responsabilidades e pela descoberta do primeiro amor, das primeiras relações afectivas e da sexualidade, evidenciando as consequências e as expectativas diferenciadas colocadas sobre rapazes e raparigas (inscrevendo-se, desta forma, também no género fílmico coming of age). 

Estes aspectos da experiência individual, subjectiva e emocional entram, ainda, em confronto directo com papel do homem na História, pressuposto do materialismo histórico, na qual o indivíduo se integra num “todo” orientado para o progresso social. Em Astracã, essa expectativa confronta-se com a experiência vivida: escassez, isolamento e um quotidiano marcado pelo cinzentismo, onde o “todo” e o indivíduo surgem apartados. A história pessoal de Martim é também a história do fracasso da utopia comunista, onde a beleza da vida e da esperança coexistem com a impreparação do mundo e dos homens para tal missão. Este sentimento e nostalgia são notáveis em Martim quando afirma, de forma irónica, no final do filme: “Entrei na União Soviética com fervor revolucionário e saí com um ícone religioso” (ícone que lhe foi oferecido pela namorada russa antes do seu regresso a Portugal).

Através da recuperação de cartas e postais, das fotografias e do testemunho (que nos rementem para uma História Oral), Catarina Mourão liberta, assim, a dimensão emocional que a própria escrita da História tende a apagar. O medo, a solidão e o deslumbramento de um adolescente não cabem na narrativa histórica dominante, muitas vezes construída a partir de fontes e discursos que privilegiam o colectivo e uma leitura uniforme do passado, apesar de constituírem o núcleo da experiência humana. O filme sugere, assim, que o individual permanece como resíduo da História, sobretudo quando a promessa colectiva colapsa.

A meio do filme, o segredo — ou tabu — de Martim é abordado no presente numa conversa com o filho, Mateus, que o entrevista, convocando um registo mais próximo do documentário convencional com recurso ao talking head. Este momento introduz uma dimensão de diálogo intergeracional, em que a memória se constrói através da relação entre pai e filho. O acto de ler as cartas em voz alta ou de as mostrar ao filho é uma performance de resgate e de transmissão da história e memória familiar (pós-memória). 

A dimensão emocional e subjectiva é também resgatada neste momento entre Martim e o filho, permitindo reinscrever essa experiência na memória familiar. Da mesma forma, ao narrar o passado e a sua experiência ao filho, através do cinema, Martim torna-se parte do processo histórico, assumindo, ao mesmo tempo, a sua própria voz e individualidade, evidenciando que a História é também a soma de vivências, silêncios e fragmentos que escapam aos discursos dominantes.

Por fim, num registo observacional, típico do documentário, vemos Martim e o seu filho Mateus no tempo presente, ambos dedicados às suas artes. Martim dedica-se à olaria, actividade que permitiu o recolhimento desejado da vida social e política. Por sua vez, Mateus dedica-se à música clássica e ao transformismo (une passado e presente/futuro), sendo esta última prática marcada por uma exposição que revela um posicionamento assumido e “subversivo”, em oposição ao recato do pai. À semelhança da arte performativa do transformismo, Astrakan 79 transforma um esquecido espólio pessoal numa história sobre pai e filho, sobre a História e o devir do humano.



domingo, 3 de maio de 2026

445ª sessão: dia 5 de Maio (Terça-Feira), às 21h30


“Astrakan 79” de Catarina Mourão esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 
No mês de maio, o Lucky Star – Cineclube de Braga, promove o cinema contemporâneo feito por realizadores portugueses que, com diferentes linguagens, inquietações e estéticas, tem vindo a renovar o panorama do cinema nacional.
 
Com o título: “Novíssimo Cinema Português”, o ciclo junta filmes diversos que, através da experimentação, do documentário contemplativo ou da ficção, revelam o presente do nosso cinema. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo abre com Astrakan 79 (2023), da realizadora portuguesa Catarina Mourão. Partindo de materiais de arquivo e do testemunho, Astrakan 79 revisita a experiência coletiva, cruzando memória individual e contexto histórico, num trabalho centrado na reconstrução e interpretação do passado. A narrativa centra-se em Martim que recorda, aos 58 anos, a estadia de um ano e meio na União Soviética, em 1979, quando ainda era adolescente. Quarenta anos depois, Martim conta, pela primeira vez neste filme, esta história ao seu filho, a qual foi sempre um tabu de família.

Cineasta e investigadora, Catarina Mourão tem desenvolvido um percurso consistente no documentário português, explorando temas como a memória, o arquivo e a autobiografia. Formada em Direito e em Cinema no Reino Unido, é ainda fundadora da Apordoc e da produtora Laranja Azul. A sua filmografia inclui obras como A Toca do Lobo (2015), apresentada no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, Pelas Sombras (2010), A Minha Aldeia Já Não Mora Aqui (2006), Malmequer (2004) e Desassossego (2002), títulos que têm sido exibidos em diversos festivais internacionais.

Apresentado em circuitos de cinema documental, Astrakan 79 tem sido destacado pela forma como utiliza o arquivo como elemento narrativo, articulando diferentes tempos e perspectivas numa reflexão sobre a memória colectiva e os modos da sua representação. Astrakan 79 foi seleccionado para o Visions du Réel, o IndieLisboa, o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço e o FIDBA, entre outros. O filme foi distinguido com o prémio de Melhor Realização no IndieLisboa e com o Prémio Jean-Loup Passek para Melhor Documentário Português no MDOC, tendo ainda recebido uma menção honrosa no FID Rio.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!
 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Zona de Interesse (2023) de Jonathan Glazer




por Laura Mendes
 
Zona de Interesse é, porventura, o filme deste ciclo que se propõe mais intensamente a discorrer em torno da banalidade do mal, materializando esta ideia de forma quase literal, onde a narrativa deixa de ser prioridade em favor de uma ambiência sensível que requer o nosso olhar atento e crítico. 

Um início aterrador, onde a escuridão é apenas acompanhada de sonoridades premonitórias. A este, sucede uma paisagem idílica, deixando já antever a promiscuidade da felicidade e tranquilidade. Uma estrada na montanha alonga-se pela noite dentro. Finalmente, chegamos a uma casa onde se prolongam as atividades familiares aparentemente banais. 

Timidamente, a casa onde vive esta família alemã – que não é uma qualquer, veremos – vai-se revelando como o lugar que verdadeiramente é: uma casa contígua a um campo de concentração, habitada por vidas contíguas a mortes pelas primeiras premeditadas. 

O quotidiano filmado é impassível como o tempo, e os dias da família Höss sucedem velozmente, entre refeições e histórias para adormecer. Ainda que à primeira vista diluídos uns nos outros, há uma clara demarcação entre os elementos que pertencem aos quadros rotineiros e os que estão à sua margem – se a família parece surgir em primeiro plano, os judeus ocupam, de igual forma, o espaço da mesma, embora sem constituírem uma materialidade própria, sendo os seus corpos como sombras às quais podemos aceder furtivamente, principalmente através das tarefas que realizam. Assim, todas as sequências são transformadas em desafios a nós lançados em torno do saber observar, da capacidade de tomada do olhar sobre tudo o que fica para lá da aparência. A casa mostra-se como espaço privilegiado de construção de identidade, de demonstração de hipocrisia, com laivos de esconderijo impune e desumanizante, subvertendo o ideal do lar enquanto conforto, antes edificando-o como espaço de continuação e questionamento de uma vida exterior e social.

A impercetibilidade da verdade da situação, bem como a normalidade com que os acontecimentos se desenrolam, são apenas suspensas pelos momentos de terror artisticamente formulados, talvez os mais significativos do filme, para nos dar a entender o que não é visível – onde as noites (em branco) adquirem um papel especialmente preponderante, enquanto espaço-tempo de pesadelos, emergindo a consciência como ser vivo e destrutivo.

Vivências aproximadas às nossas, para que nos identifiquemos com a família, sendo o seu o lugar que ocupamos: o filme leva-nos a considerar o que é viver, cabendo-nos decifrar nos gestos e nas palavras as consequências do conformismo quotidiano, o mal que se encerra nos artifícios mundanos.

Sem que vejamos uma única morte ou abuso – porque de que forma, se é que de todo, podem os mesmos ser encenados –, Zona de Interesse causa o maior dos horrores na sua evocação, na personificação da crueldade a eles inerente. A questão da abjeção é assim resolvida, filmando, nunca mostrando, os terrores do holocausto com recurso ao poder da abordagem tanto sugestiva – fazendo um uso devastador do som – como cínica e provocatória.

Transferindo toda a reflexão para o agora e para a relação que mantemos com uma das maiores tragédias da humanidade, Jonathan Glazer aponta-nos diretamente o dedo com a mestria de um olhar frio e perscrutador, deixando-nos desolados perante um retrato íntimo do pior que em nós vive.




domingo, 26 de abril de 2026

444ª sessão: dia 28 de Abril (Terça-Feira), às 21h30


“Zona de Ineteresse” de Jonathan Glazer esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga
 
 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star –Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Na próxima terça-feira, o ciclo encerra com o filme “Zona de Interesse” (2023), do realizador britânico Jonathan Glazer. Baseado no romance de Martin Amis, o filme centra-se na vida quotidiana da família de Rudolf Höss, comandante do campo de concentração de Auschwitz, que vive com a mulher e os filhos numa casa contígua ao campo. O casal é interpretado por Christian Friedel e Sandra Hüller, protagonistas de um elenco que inclui ainda Ralph Herforth, Max Beck e Imogen Kogge.
 
A narrativa e a abordagem visual do filme distinguem-se pela recusa de representação directa da violência, privilegiando antes o fora de campo e o desenho sonoro como elementos centrais. Esta opção constrói uma relação entre o quotidiano e o horror, sublinhando a banalização da violência e a dissociação moral das personagens.
 
Zona de Interesse” estreou no Festival de Cannes, onde conquistou o prestigiado Grande Prémio do Júri. Na 96.ª edição dos Óscares, o filme obteve um total de cinco nomeações, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento Adaptado, tendo vencido nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som. A obra foi igualmente consagrada pela crítica britânica, vencendo o BAFTA de Melhor Filme Britânico, elevando assim o seu estatuto como um dos títulos mais impactantes do cinema contemporâneo.
 
Jonathan Glazer, conhecido por uma filmografia reduzida, mas marcada por um estilo próprio, é também autor de filmes como “Sexy Beast” (2000), com Ray Winstone no papel principal, “Birth” (2004), protagonizado por Nicole Kidman e “Under the Skin”(2013) com Scarlett Johansson como protagonista, nos quais explora arranjos narrativos e visuais pouco convencionais.
 
As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 
 
Até terça-feira!