quarta-feira, 25 de março de 2026

Mommy (2014) de Xavier Dolan



por Jessica Sérgio Ferreiro
 
Mommy é um drama familiar e psicológico, centrado na relação “disfuncional” entre mãe (Diane ou Die) e filho (Steve), cujos mundos interiores são tão complexos como a relação entre ambos. Se no seu primeiro filme, Dolan tentava simbolicamente “matar” a mãe (Eu Matei a Minha Mãe, 2010), em Mommy a morte do pai leva Steve a tentar protegê-la. Ao procurar ocupar o lugar vago da figura paterna, a sua conduta revela um profundo complexo edipiano. Para além disso, Steve é um jovem de comportamentos erráticos, cujo lugar na sociedade parece inexistente ou interdito, empurrando-o para as margens do sistema (facto que Dolan pretende criticar com este filme).
 
Como é habitual em Dolan, as mulheres ocupam o centro da narrativa, representando um universo feminino multifacetado e elevando mulheres cujas aparências são frequentemente alvo de escrutínio e preconceito social. Diane é uma mulher resiliente que luta incansavelmente pelo bem-estar do filho e pela estabilidade material da família. Em contraste, a vizinha Kyla surge como uma mulher constrangida ou sufocada pelos seus papéis domésticos de mãe e esposa, uma personagem cuja voz (literal e metaforicamente) se solta à medida que se integra na dinâmica vibrante e caótica de Die e Steve. Ao contrário de Diane, Kyla é contida e inibida. Professora em licença sabática, ela emerge do seu isolamento, tanto físico como mental, ao assumir a educação de Steve, reencontrando a alegria no seu papel de professora. Kyla personifica a esperança e a capacidade de transformar o mundo através da empatia (ecoando o discurso final de Diane), dedicando-se a resgatar Steve das margens da sociedade para que ele alcance o futuro que ambiciona (E não será essa a missão maior do professor?).

O filme pode, ainda, ser analisado a partir da articulação entre a forma e a narrativa, ou seja, aqui a dramaturgia constrói-se também através do formato. O uso do formato de imagem 1:1 (nada convencional) funciona como um dispositivo de restrição do campo visual, concentrando a atenção do espectador nas personagens e forçando, assim, uma relação de proximidade com estas. A encenação e composição é centrada no sujeito, repleta de close-up e planos de pormenor, onde o tempo é subjectivo e o espaço deixa de ser neutro, para reflectir os estados emocionais das personagens e as condições sociais que as afectam. Este enquadramento constrangedor e asfixiante traduz, assim, a opressão sentida pelos personagens.

Quando chegamos exactamente a meio do filme, a variação do formato introduz uma ruptura no sistema visual do filme que pode ser lida como um momento de suspensão da norma narrativa, remetendo para uma ideia de cinema como experiência sensorial, em que a forma também produz significado. A expansão do ecrã não traduz apenas um estado psicológico, materializa, também, no próprio dispositivo cinematográfico, a possibilidade de abertura e projecção, existindo, assim, uma relação dialéctica entre forma e conteúdo.

Este momento pode também ser lido à luz da teoria da “imagem-afecção” de Gilles Deleuze[1], na medida em que a forma deixa de representar uma acção para se tornar expressão directa de um estado emocional. A variação do formato não é apenas um efeito estilístico, mas uma intervenção no próprio dispositivo que reorganiza a relação entre imagem, corpo e espaço. Aliás, é o próprio Steve que expande, com as mãos, a primeira sequência para o formato 1.85:1, maior que o 16:9 (acontece duas vezes no filme), quebrando, ainda, a “quarta parede”. A “quarta parede” refere-se ao momento em que uma personagem ficcional interage directamente com o dispositivo cinematográfico, rompendo com o carácter ilusório do próprio cinema (quando, por exemplo, o personagem olha directamente para a objectiva e fala com os espectadores). Em Mommy, o gesto tem significado: Steve abre o campo visual num gesto libertador, momento da história em que, finalmente, as três personagens encontram fôlego. 

O uso da música também é crucial na interrupção da narrativa linear, aproximando-se também da lógica de “imagem-afecção”, proposta por Deleuze, onde o foco recai na intensidade emocional mais do que na causalidade da acção. Estas sequências funcionam como “blocos sensoriais”, nos quais o tempo narrativo é suspenso para dar lugar a uma experiência mais imediata e subjectiva.

Por outro lado, a relação entre Diane e Steve inscreve-se numa tensão entre esfera privada e regulação social e institucional. A referência à lei fictícia S-14, que permite a institucionalização de jovens considerados “problemáticos” e cuja tutela passa exclusivamente a ser do estado ou da instituição, sugere uma leitura do filme a partir do conceito de biopolítica[2]  (gestão e controlo/adestramento dos corpos), tal como discutidos por Michel Foucault, e cuja crítica aos mecanismos de exclusão social, sabemos ter sido, também, intenção do realizador. Neste contexto, o espaço doméstico surge simultaneamente como lugar de protecção e de conflito, evidenciando os limites das estruturas familiares (e das relações Humanas reais) face a sistemas normativos mais amplos e excludentes. Assim, Mommy pode ser pensado como um objecto que articula forma e política: a estilização não funciona como ornamento, mas como modo de produzir sentido, colocandfo o espectador perante uma experiência que é simultaneamente emocional, estética e crítica.

O filme estreou no Festival de Cannes de 2014, onde recebeu o Prémio do Júri, partilhado com Adieu au langage de Jean-Luc Godard. Ao longo do circuito internacional, Mommy foi amplamente distinguido, incluindo o Prémio César e Melhor Filme Estrangeiro, e representou o Canadá na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional. A obra integrou ainda a programação de diversos festivais e consolidou o reconhecimento de Xavier Dolan a nível internacional.
 
[1]  Ver: Deleuze, G. (1985). A imagem-tempo. Editora Brasiliense
[2]  Ver Foulcault, M. (2003 [1997]): Society must be defended: Lectures at the Collège de France, 1975-76. New York: Picador.
 
 
 

domingo, 22 de março de 2026

439ª sessão: dia 24 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Mommy”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Na próxima terça-feira, exibe-se Mommy (2014), de Xavier Dolan, uma das obras mais reconhecidas do realizador canadiano e um momento central do seu percurso cinematográfico. 
 
O filme acompanha Diane, uma mãe viúva que assume a guarda do filho adolescente, Steve, um jovem impulsivo e com comportamen-tos instáveis. A relação entre ambos, marcada por afecto e conflito, ganha um novo equilíbrio com a entrada de Kyla, uma vizinha que estabelece uma ligação próxima com a família. A partir deste núcleo, o filme desenvolve um retrato das dinâmicas familiares, da fragilidade emocional e das dificuldades de integração social.

Interpretado por Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon e Suzanne Clément, o filme assenta na intensida-de das interpretações e na proximidade entre câmara e personagens. Do ponto de vista formal, Mommy destaca-se pelo uso de um formato de imagem quadrado (1:1), que limita o campo visual e reforça a sensação de confinamento das personagens. Este dispositivo é pontualmente interrompido, criando momentos de expansão que acompanham o estado emocional das figuras em cena. A realização mantém ainda elementos recorrentes no cinema de Dolan, como o uso expressivo da música e a construção visual estilizada.

O filme estreou no Festival de Cannes de 2014, onde recebeu o Prémio do Júri, partilhado com Adieu au langage de Jean-Luc Godard. Ao longo do circuito internacional, Mommy foi amplamente distinguido, incluindo o Prémio César e Melhor Filme Estrangeiro, e representou o Canadá na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional. A obra integrou ainda a programação de diversos festivais e consolidou o reconhecimento de Xavier Dolan a nível internacional.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!
 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Laurence para Sempre (2012) de Xavier Dolan



por Laura Mendes
 
Dando continuidade ao repto lançado em Amores Imaginários – ainda que tomando outros contornos –, Dolan adentra-se, novamente, nas tensões entre o real e o imaginado, a obrigação e o sonho. Num registo monumental – e bem mais sério –, o filme desenrola-se no tempo de uma conversa, estendido para o tempo em que se escuta e se vê acontecer a história de uma (meia) vida, em tom confessional, sempre emancipatório. 

Laurence e Fred vivem à margem, inconformados com as exigências do mundo, mas ainda assim alinhando-se com a heteronormatividade que os mantém em consonância com a “normalidade” esperada. É a revelação de Laurence como mulher trans que incita a uma verdadeira disrupção, espoletando o questionamento acerca do que é que realmente sustenta uma vivência (conjunta) numa sociedade opressiva. A imaginação já não consegue, com os seus artifícios, sobrepor-se ao real, tornando-o suportável. A imaginação sucumbe, já não nos surge como libertação, mas como doloroso confronto com o desabar da linearidade e simplicidade aparentes.

Laurence Para Sempre não é, como já o disse o próprio Dolan, um drama em torno da transexualidade, do duro processo de mudança de sexo, mas sim sobre duas pessoas presas uma à outra – atentando nas maldições dessa prisão –, que se pertencem mutuamente porque se sentem e percebem, sobre os desafios sociais que têm de ultrapassar, os obstáculos moralistas, os binómios demarcados. 

Apesar da (declarada) superficialidade em torno da jornada trans, é notável o respeito por estas pessoas e, sobretudo, pelo ser-se mulher. A mulher parceira, a mulher porvir, as mulheres de feminilidade excêntrica, desafiadora: Laurence, Fred, Mamy e Baby Rose. Nelas, sempre presente a necessidade de libertação face a um mundo opressivo e injusto - nervos, sentimentos e aflições à flor da pele, transpostos para sequências abaladoras, quadros marginais maravilhosos, envoltos em boémia, languidez, sobretudo refúgios para ser-se triste, decadente, face à insaciabilidade de um mundo demasiado limpo e exigente. Utilizando o contexto histórico a seu favor – o filme passa-se no intervalo entre 1989 e 2000 –, Dolan representa a ainda frágil consciência queer, funcionando esta abordagem como um comentário para o espectador contemporâneo – será que mudou muita coisa desde então?

É a partir de oscilações que o filme é construído, localizando a reflexão na relação metamórfica de Laurence e Fred. Opondo-se uma à outra, se Laurence sonha com uma nova vida em conjunto, Fred encontra-se no limbo entre fazer ou não parte, confrontando-se tanto com a opressão da família comum, como com o mundo desonesto e corrompido das aparências, perdendo-se na violência que brota das palavras de revolta que não são ditas. Gritos de raiva que são dirigidos tanto aos receosos que olham furtivamente – aqueles que vemos na sequência inicial –, como à lembrança, à saudade, ao arrependimento e frustração que envolvem uma relação que se vê falhada, mas eternamente querida. 

Esta não é uma jornada individual, mas relacional – falamos do amor estrutural, mas irrealizável, aquele que, repudiado pelas regras sociais, é como quimera encantada que resistirá na capacidade de sonhá-lo e recordá-lo.

O falso final feliz, recuperando uma ciclicidade importante para esta história de amor, é tão angustiante como libertador, sabendo nós que a felicidade que se fez no passado diverge daquela que se pode construir no futuro.

Dolan atravessa – e faz-nos atravessar – um mar de amarguras, fazendo-nos pensar acerca do poder da realidade, de como o vai exercendo sobre a maneira como nos conformamos (ou não) com quem somos, como nos construímos nas e das pessoas, acabando por nos ensinar que o destino não é uma entidade omnipotente, antes brutalmente contaminada pelos fatores sociais e políticos que acompanham os amores (im)possíveis.
 
 
 
 

domingo, 15 de março de 2026

438ª sessão: dia 17 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Laurence para Sempre”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, será exibido Laurence para Sempre (2012), terceira longa-metragem de Xavier Dolan. Após o reconhecimento obtido com Eu Matei a Minha Mãe (2009) e Amores Imaginários (2010), Dolan regressa com uma obra de maior escala narrativa, centrada numa história de amor.

O filme acompanha Laurence, professor de literatura que, no início da década de 1990, revela à companheira Fred o desejo de viver plenamente a sua identidade como mulher. A partir desse momento, a relação entre ambos é colocada à prova pelas dificuldades da transição, pelas reacções do meio social e pelas tensões que atravessam a vida quotidiana. Ao longo de quase uma década, o filme acompanha o percurso de Laurence e Fred, explorando os limites do relacionamento e da liberdade individual.

O elenco é liderado por Melvil Poupaud, no papel de Laurence, e Suzanne Clément, cuja interpretação de Fred foi destacada pela crítica. Participam ainda Nathalie Baye e Monia Chokri, colaboradora habitual do realizador. Rodado em Montreal, o filme evidencia o estilo visual característico de Dolan, marcado por sequências em câmara lenta e uma banda sonora que atravessa diferentes épocas, reforçando a dimensão emocional da história.

Laurence Anyways
estreou no Festival de Cannes de 2012, na secção Un Certain Regard, onde Suzanne Clément recebeu o prémio de Melhor Atriz e o filme foi distinguido com a Queer Palm. A obra viria ainda a receber o prémio de Melhor Filme Canadiano no Toronto International Film Festival, além de integrar a programação de diversos festivais internacionais, entre os quais o BFI London Film Festival e o AFI Fest, consolidando a projecção internacional do realizador.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!
 


quarta-feira, 11 de março de 2026

Amores Imaginários (2010) de Xavier Dolan




por Laura Mendes
 
Amores Imaginários é uma ode às fantasias da juventude - aquelas onde nos entregamos aos amores não correspondidos, incapazes de os largar, mantendo-os sempre apetecíveis e fascinantes. Uma ode que desvela o que subjaz aos desamores e às ilusões que nos acometem e desvariam: os loucos ideais pelos quais somos tentados, o conceito do ser(-se) amado que ultrapassa a pessoa que pode ser amada - como o dizem no próprio filme -, colocando a falha como elemento imprescindível nas relações que mantemos com os outros, na maneira como crescemos. 

Um filme que explora a complexidade do fenómeno da atração, o seu funcionamento enquanto ponto de partida para uma série de desavenças que colocam frente a frente (res)sentimento, paixão e desilusão, trabalhando o amor romântico ora como uma quimera íntima, ora como um duelo de onde sairá um vencedor e um vencido, até mesmo como um acontecimento tanto impossível como inimaginável.

Repleto de metáforas e devaneios visuais - as escondidas na montanha, o saborear dos marshmallows - evidencia a beleza inerente aos jogos entre Marie, Francis e Nicolas: os dois primeiros, impotentes face aos encantos do último, um Adónis de carne e osso, recusam expressar desejos indizíveis sempre latentes, que ocupam o seu quotidiano, preferindo uma luta lenta e inquietante, mas cativante, necessária à conquista daquele coração.

As tensões entre hetero e homossexualidade, entre amores frustrados e bem-sucedidos, surgem-nos clarificadas e racionalizadas nas sequências intervalares e confessionais, enquanto se materializam de forma brutal e carnal nas dinâmicas do triângulo amoroso, criando um díptico que confronta não só reflexão e ação, mas também realidade e ilusão.

A narrativa, de simplicidade primitiva, ganha contornos mais interessantes com os pormenores que evocam o onírico e o utópico, a transcendência - pensemos nas sequências onde a câmara lenta nos guia em fabulosas danças de cores, ídolos do cinema, paixões irrevogáveis -, unindo-se, num abraço delicioso, à forma que adota através da via do olhar encantado, rendido. 

Queremos que a fantasia se perpetue. É, no entanto, com a destruição do lugar idílico onde o amor poderia florescer sem impedimentos que o filme penetra nas dificuldades do sonho. Rivalidade e desejo, fantasmas de amores passados e futuros compõem uma viagem de frustração que demonstra a força do amor e da sexualidade, mas também o seu lado mais negro e profundo, adensado pela revelação das dores dos corpos queer, dos ciclos de rejeição, da revolta contra uma solidão aparentemente inescapável.

Com a criatividade e a sensualidade de sempre, Dolan reinventa o derrotismo, transformando-o numa reivindicação de amizade, num propulsor de excitação, de novos começos, de vida a acontecer.




domingo, 8 de março de 2026

437ª sessão: dia 10 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Amores Imaginários”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma intensidade e profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, exibe-se Amores Imaginários (2010), segunda longa-metragem de Xavier Dolan que confirma o talento precoce do cineasta que se revelara no ano anterior com Eu Matei a Minha Mãe (2009), exibido na semana passada. Neste segundo filme, o realizador retrata as inseguranças da juventude, o amor não correspondido e a obsessão amorosa.

A história acompanha Francis e Marie, dois amigos inseparáveis que vivem em Montreal, cuja relação se altera quando conhecem Nicolas, um jovem que rapidamente desperta o fascínio de ambos. Convencidos de que são o verdadeiro objecto de desejo dele, instala-se uma rivalidade entre Francis e Marie. Através deste triângulo amoroso, Dolan explora as projecções românticas e a forma como o amor, ou a ideia que fazemos do amor ou o idealizamos, pode distorcer a percepção da realidade.

Tal como no seu filme de estreia, o realizador assume múltiplas funções: escreve o argumento, realiza e interpreta uma das personagens principais, Francis. A seu lado surge Monia Chokri, que dá vida a Marie, e Niels Schneider, no papel de Nicolas, cuja ambiguidade alimenta a tensão emocional do trio. O elenco é ainda pontuado por pequenas participações e testemunhos que surgem como comentários irónicos sobre experiências amorosas, reforçando o tom simultaneamente romântico e mordaz do filme.

Rodado em Montreal (Canadá), Amores Imaginários apresenta uma estética marcada pela câmara lenta, pelo guarda-roupa meticulosamente escolhido e por uma banda sonora ecléctica que cruza pop com referências retro — traços que se tornariam característicos do cinema de Xavier Dolan. O filme estreou no Festival de Cannes de 2010, na secção Un Certain Regard.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!


quinta-feira, 5 de março de 2026

Eu Matei a Minha Mãe (2009) de Xavier Dolan



por António Cruz Mendes
 
Comecemos pelo fim. Na última sequência de imagens de Eu matei a minha mãe, vemos Hubert Minel em criança, a brincar, feliz, ao lado da sua mãe. Acham-se naquilo a que ele mais tarde chamará “o seu reino”, o paraíso perdido dos seus amores infantis, o lugar onde, mais tarde, se refugiará quando fugiu do colégio onde os pais o matricularam como aluno interno.

Antes disso, depois de violentamente agredido pelos seus colegas, vítima de uma provável manifestação homofóbica, refugia-se no seu quarto, mergulhado na penumbra. Vemo-lo despido, de costas, sentado à sua secretária. Apenas a luz ténue de um pequeno candeeiro de mesa ilumina a cena. Escreve. No que está a pensar? Numa onírica sequência de imagens, Hubert, já um jovem adulto, persegue a mãe, ainda jovem e vestida de noiva. Essas imagens, muito belas, tingidas pela cor outonal da floresta onde a cena decorre, têm uma conotação sexual bastante explícita. E é o horror que isso desperta nele que explica a relação tensa, violenta, que, na sua adolescência, ele vai desenvolver com ela.

Evidentemente, a atitude de menosprezo, muitas vezes raiando o ódio, que ele faz questão de evidenciar a propósito dos seus gostos e dos seus costumes, reflecte a diferença cultural que os separa, bem como a necessidade, própria da adolescência, de afirmação da sua própria identidade, da sua diferença. Mas, no caso de Hubert, ela funciona, antes de tudo, como o escudo com que ele se defende de um amor proibido.

Hubert está presente em quase todas as cenas. Naquelas que nos contam a sua história, nos seus monólogos interiores, filmados a preto e branco, ou nos flashback que nos remetem para a sua infância, apresentados sob a forma de filmagens, supostamente realizadas pelo seu pai, num registo muito espontâneo e despretensioso. 

Todo o filme se resume ao seu drama interior. As outras personagens, inclusive a da sua mãe, para quem as fúrias de Hubert parecem ser apenas um incómodo mais ou menos difícil de suportar, se apagam diante dele. Têm uma espessura psicológica e uma relevância muito pequena. Pouco ficamos a saber do seu namorado, Antonin, ou da sua professora, Julie Coutier, com quem Hubert mantém uma relação que, também ela, está proscrita pelas convenções sociais. Menos ainda ficamos a saber algo acerca do seu pai. O filme resume-se a Hubert e à forma como se debate com a relação de amor-ódio que mantém com a sua mãe.

Eu matei a minha mãe é primeira longa-metragem de Xavier Dolan. Ele próprio encarna a personagem de Hubert e o seu filme, não sendo uma obra autobiográfica, reflecte experiências de vida do realizador. Não é por acaso que, tanto ele como a sua personagem, são homossexuais. Tal como no caso de Hubert, os pais de Xavier Dolan divorciaram-se quando ele era ainda criança e também ele manteve, depois disso, uma relação problemática com a sua mãe. E, tal como, no filme, podemos interpretar as tentativas literárias e artísticas de Hubert como uma tentativa de sublimação dos seus recalcamentos, o mesmo se poderá dizer acerca de Dolan, que ultrapassou um historial de rebeldia e de violência, que o levou a ser expulso de várias escolas, dedicando-se ao cinema.

O roteiro de Eu matei a minha mãe foi escrito quando ele tinha dezasseis anos e o filme, multipremiado premiado no festival de Cannes, realizou-o quando tinha vinte. Foi o primeiro passo da sua carreira como realizador. Uma obra ainda muito pouco conhecida em Portugal que, agora o Lucky Star – Cineclube de Braga se propõe divulgar com a realização deste ciclo de filmes de Xavier Dolan.
 


A presença recorrente da imagem de Hubert em grande plano sublinha o facto do filme se centrar quase exclusivamente numa reflexão sobre o seu drama interior.