domingo, 14 de junho de 2026

453ª sessão: dia 16 de Junho (Terça-feira), às 21h30


O Cinema, Manoel de Oliveira e João Botelho, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

No mês de junho, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta o ciclo “O Mestre e o Seu duplo”. A programação é constituída por dois documentários que incidem sobre a obra de um cineasta, seguidos pela exibição de um filme do mesmo. Nesta primeira edição foram escolhidos Yasujiro Ozu, apresentado por Wim Wenders, e Manoel de Oliveira, visto por João Botelho. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo continua com a exibição de O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu (2016), realizado por João Botelho. Concebida após o falecimento de Manoel de Oliveira, esta obra apresenta-se simultaneamente como uma profunda homenagem ao prestigiado cineasta portuense e uma reflexão ensaística sobre a sétima arte, cruzando os territórios do documentário, da ficção, da memória afectiva e do ensaio crítico.

Partindo de uma relação de amizade e aprendizagem de mais de quatro décadas, Botelho conduz o espectador pelo universo criativo de Oliveira, revisitando os seus métodos de trabalho, as suas invenções formais e a singular concepção estética que atravessou mais de um século de história. Conforme o próprio realizador assumiu, trata-se de um manifesto idealizado “contra o esquecimento”, estruturado não como uma biografia convencional, mas como uma introdução essencial à obra do mestre.

Um dos pontos altos do projeto é a recriação ficcional de A Rapariga das Luvas, uma história antiga que Oliveira muito apreciava, mas nunca filmou. Integrada sob o formato de um filme dentro do filme, esta sequência permite a Botelho dialogar com a herança do mestre, explorando a proximidade entre o registo documental e a ficção pura.

O elenco conta com Mariana Dias, António Durães, Maria João Pinho, Miguel Nunes e Ângela Marques. Destaca-se também Leonor Silveira, presença constante na filmografia de Oliveira por três décadas, que estabelece uma ponte viva entre os dois realizadores.

João Botelho é uma das figuras mais relevantes do cinema nacional na actualidaed, tendo dirigido filmes marcantes, tais como: Conversa Acabada (1982), Os Maias (2014) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (2020), pautados pela adaptação literária e experimentação formal. Os seus trabalhos acumulam seleções em festivais de prestígio, com passagens por Cannes, Veneza e Berlim.

Estreado no IndieLisboa e exibido no Festival de Locarno, na Suíça, a obra O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu conquistou o Prémio João Sampaio na Janela Internacional de Cinema do Recife, no Brasil, e garantiu uma nomeação para Melhor Documentário em Longa-Metragem nos Prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras, às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça-feira! 



quarta-feira, 10 de junho de 2026

Crepúsculo em Tóquio (1957) de Yasujiro ozu




por Laura Mendes
 
Crepúsculo em Tóquio começa por apresentar-se como um retrato que dir-se-ia difuso: a cidade ofusca uma família cujos membros vagueiam, com ou sem rumo, por entre os seus lugares e paredes, as relações entre si são ténues e o que parece ser um movimento de fuga é constante e persistente. A angústia paira sobre todos nesta família fragmentada, que tem sobre si o peso de uma qualquer solidão ainda por entender.

É a partir daqui que com Ozu partimos, e este filme não é direto na sua proposta: antes, deixa-nos acompanhar um quotidiano lacunar, à descoberta dos problemas que parecem emergir aos poucos.

Tatako, irmã mais velha, refugia-se de um casamento infeliz no cuidado da família; Akiko, irmã mais nova e vulto de uma modernidade contrastante, refugia-se de uma vida inapta e incompreendida entre bares. Ambas circulam sob a guarda de um pai alheado, também ele imbuído numa estrutura societal que privilegia o conformismo, a abjeção e a dissimulação de sentimentos e verdades próprias. 

É a partir da gravidez indesejada de Akiko – a par de um companheiro ausente e negligente – e do repentino (re)aparecimento de uma mãe fugida que se vão tecendo as rotas do silêncio, da repressão e do sacrifício próprio. É às escondidas do pai que Tatako e Akiko lidam com o seu sofrimento face às adversidades de uma vida incompleta, ainda que a impetuosidade da última vá desencadeando uma abertura, apesar de tudo falhada e explosiva, na comunicação no seio da família. Akiko surge como o culminar das gerações que lhe antecederam – notório no grande conflito entre a aceitação e a recusa da herança familiar –, daí a necessidade de lhe conceder uma componente trágica e disruptiva, tendo em conta a carga histórica que carrega e aquilo em que Ozu quer que atentemos: os obstáculos que brotam da intimidade ancestral do lar, e de que forma estes se podem relacionar com o presente e, acima de tudo, com o futuro. 

A figura da mãe, turva, não obstante tende a chamar mais a atenção em todo o filme. No limbo entre uma amargura arrebatadora e um desprendimento desconcertante, permanece incerta a razão pela qual abandonou a família: ainda que a (o)pressão que recai sobre as mulheres para que sejam exemplares, aguentando uma vida imposta, esteja sempre latente. Dela, restam a vergonha e o arrependimento que lhe não são exclusivos, passando a fazer parte da vida da família que deixou para trás, destacando-se na dificuldade das duas irmãs em refletir sobre o assunto, especialmente em frente ao pai, evitando um confronto potencialmente libertador e esclarecedor.

A presença dos ambientes noturnos, onde reinam o jogo e a bebida, funciona não como demonstração de uma depravação moral que se tem vindo a instituir, mas enquanto parte da perscrutação do que está por detrás dos noctívagos e das suas aventuras, nos bastidores dos refúgios que os filhos da noite encontram.

Simultaneamente um filme de compaixão e cruel realidade – onde a linguagem visual de Ozu tem um papel fundamental no adensamento das noções de distância e melancolia que nele operam –, mais do que um apelo à necessidade de preservação da unidade e estabilidade familiar a todo o custo, Crepúsculo em Tóquio explora as consequências da espiral de fechamento que ameaça, não apenas as relações entre indivíduos, mas toda uma sociedade de máscaras. O seu final, de uma imperturbabilidade excessiva, sugere isso mesmo: a ocultação da dor que persiste mas que resiste a ser expressa.
 
 
 

domingo, 7 de junho de 2026

452ª sessão: dia 9 de Junho (Terça-feira), às 21h30


Crepúsculo em Tóquio de Yasujiro Ozu, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 

No mês de junho, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta o ciclo “O Mestre e o Seu duplo”. A programação é constituída por dois documentários que incidem sobre a obra de um cineasta, seguidos pela exibição de um filme do mesmo. Nesta primeira edição foram escolhidos Yasujiro Ozu e Manoel de Oliveira. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo prossegue com Crepúsculo em Tóquio (1957), do realizador japonês Yasujiro Ozu. A narrativa centra-se em duas irmãs. A mais velha, Takako, regressa ao lar paterno para fugir de um casamento infeliz, enquanto a mais nova, Akiko, ainda lá reside. O reaparecimento inesperado da mãe, que as abandonara há vários anos, desencadeia uma série de tensões que expõem as fragilidades familiares e as dificuldades de adaptação a um Japão em rápida transformação. Situado no período do pós-guerra, o filme aborda questões como a desagregação da família tradicional, a gravidez indesejada e a distância entre gerações.

O filme integra a fase final da carreira de Ozu e apresenta os temas centrais da sua obra. Através de enquadramentos fixos e de uma encenação depurada, o realizador constrói uma reflexão sobre as transformações sociais que atravessaram o Japão. Embora tenha tido menor destaque, Crepúsculo em Tóquio foi progressivamente reavaliado pela crítica e pelos estudos de cinema, sendo hoje considerado uma obra importante para compreender a evolução temática de Ozu e a representação das mudanças sociais no Japão da década de 1950.

Yasujirō Ozu é hoje reconhecido como uma das figuras fundamentais da história do cinema. Autor de obras como Primavera Tardia (1949), Início do Verão (1951), Viagem a Tóquio (1953) e Bom Dia (1959), desenvolveu uma linguagem cinematográfica singular que influenciou sucessivas gerações de cineastas.

Realizadores tão distintos como Wim Wenders, Jim Jarmusch, Aki Kaurismäki, Hou Hsiao-hsien, Hirokazu Kore-eda ou Abbas Kiarostami reconheceram a importância da sua obra, destacando a forma como Ozu transformou o quotidiano e os pequenos gestos em matéria cinematográfica.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras, às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

 Até terça!

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Tokyo-Ga (1985) de Wim Wenders



por Laura Mendes
 


Wim Wenders parte para Tóquio em busca da mesma verdade que Yasujirō Ozu tinha a capacidade de mostrar através dos seus filmes, apenas para encontrar verdades corrompidas, insuficientes, transformadas.

Tokyo-Ga é o registo da sua tentativa de dar continuidade às obras-documento de Ozu, nas quais Wenders identifica a força do movimento de procura, a genuinidade da perscrutação, a memória que se quer permanente, apesar da impassível passagem do tempo. Aqui, o cinema é o reflexo lúdico da humanidade, oportunidade de nos (re)vermos íntimos, complexos, vivos.

Ainda assim, o Japão que o realizador-aprendiz encontra em 1983 difere, com grande contraste, daquele que o realizador-mestre, décadas antes, lhe deu a beber, colocando em causa e avaliação o encontro entre cinema e vida – quais os limites do cinema enquanto transmissor de conhecimento do real? De que forma funciona enquanto reprodução, imaginação ou cristalização de um mundo?

Se Tokyo-Ga parte da progressiva decadência da identidade japonesa – premissa que vai procurar inspiração à obra de Ozu –, entre vestígios da globalização-americanização e práticas solitárias numa urbe avassaladora e irreconhecível, rapidamente se desenvolve em torno de um exercício de (in)compatibilidade entre cinema e realidade, que desagua na (in)capacidade do primeiro em resistir à segunda. Sobretudo, estabelece-se este exercício como incessante busca por imagens cuja verdade inerente vá de encontro àquela que o cineasta sente e procura partilhar, afastada do alheamento da contemporaneidade irrefletida – esteja essa verdade imprimida na atitude rebelde de uma criança que lembra os tempos de Ozu ou nos mistérios mais recônditos da cidade japonesa. Contamos ainda com a intervenção de Werner Herzog notando, enquanto contempla uma paisagem artificial de betão, que, talvez, a única maneira de encontrar imagens puras e verdadeiras seja fora do nosso planeta.

Significa isto que a humanidade e, por sua vez, as imagens que a representam, estão condenadas à evolução autodestrutiva? Está o cinema a par desta espiral escatológica? Ou conseguiremos nós recuperar o valor da vida humana, e das suas atribulações, projetadas no ecrã?

Wenders parece conseguir resgatar estes momentos perdidos quando filma os ritos e as lágrimas de quem trabalhou com Ozu: o seu ator predileto Chishū Ryū e o seu operador de câmara Yuharu Atsuta, em locais que lembram o idílio, são as réstias de um mundo antigo e sábio que parece já não ser lembrado, mas que importa recuperar.

Esta é a proposta de Wenders, situada algures entre o documental e o imaginado, alinhada com o trabalho criativo de quem faz cinema: uma eterna busca pela verdade própria, pelo real que parece escapar no turbilhão do mundo. Ao mesmo tempo, é uma sentida dedicatória àqueles que desafiam a linearidade da estagnação, extravasando a nossa condição dissimulada, sem nunca deixar de lado a vontade curiosa, o ímpeto da expressão.

 

Folha de Sala