LUCKY STAR - Cineclube de Braga
terça-feira, 1 de setembro de 2026
domingo, 30 de agosto de 2026
465ª e 466 ª sessão: dia 31 de Agosto (segunda-feira), às 21h30 e 1 de Setembro (Terça-feira), às 21h30
“As Bodas de Deus” de César Monteiro e “A Morte Cansada”de Fritz Lang com o Lucky Star – Cineclube de Braga
O Lucky Star – Cineclube de Braga dedicou o mês de agosto a João César Monteiro. Figura central do cinema de autor em Portugal. Realizador, argumentista e ocasional actor, criou um universo, onde se cruzam referências históricas, literárias, populares, filosóficas e cinematográficas. As sessões deste ciclo ocorrem às segundas-feiras durante o mês de agosto, no Theatro Circo, às 21h30.
No dia 31 de agosto, encerra-se o dedicado a João César Monteiro, com As Bodas de Deus (1999), último capítulo da trilogia protagonizada por João de Deus. Neste filme, Monteiro recupera o alter ego que interpretou em Recordações da Casa Amarela (1989) e A Comédia de Deus (1995). Num parque frio e deserto, a personagem encontra um enviado divino que lhe entrega uma mala cheia de dinheiro. A partir daí, a personagem entra numa sucessão de reviravoltas que envolvem Joana, o príncipe Omar Raschid e a princesa Elena Gombrowicz. O desejo, o poder e a religião colidem e mesclam-se numa narrativa provocadora e bem-humorada.
O filme foi apresentado no Festival de Cannes de 1999, na secção Un Certain Regard, e recebeu nesse mesmo ano o Ómbu de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata. É protagonizado pelo próprio João César Monteiro, acompanhado por Rita Durão, Joana Azevedo, José Airosa, Manue-la de Freitas e Luís Miguel Cintra.
No dia seguinte, 1 de setembro, às 21h30, o ciclo “Fora de Portas”, regressa com uma sessão ao ar livre junto às portas do Cemitério de Monte d’Arcos, onde será exibido A Morte Cansada (Der müde Tod, 1921). Realizado por Fritz Lang em 1921, o filme acompanha uma jovem que procura recuperar o amado, levado pela Morte, e que aceita o desafio de encontrar uma forma de vencer o destino em três histórias situadas em diferentes épocas e lugares. A própria Morte surge como personagem, numa nar-rativa que combina o fantástico, o melodrama e elementos próximos do expressionismo alemão.
As sessões do Lucky Star ocorrem durante o mês de agosto no pequeno auditório do Theatro Circo às segundas-feiras, às 21h30. A entrada custa quatro euros para público geral e dois euros com o cartão Pentágono. Os sócios do cineclube têm entrada livre, mediante disponibilidade de lugares e reserva antecipada. O ciclo Fora de Portas tem o apoio da Câmara Municipal de Braga. As sessões ocorrem em locais emblemáticos do concelho e a entrada é gratuita.
O Lucky Star – Cineclube de Braga dedicou o mês de agosto a João César Monteiro. Figura central do cinema de autor em Portugal. Realizador, argumentista e ocasional actor, criou um universo, onde se cruzam referências históricas, literárias, populares, filosóficas e cinematográficas. As sessões deste ciclo ocorrem às segundas-feiras durante o mês de agosto, no Theatro Circo, às 21h30.
No dia 31 de agosto, encerra-se o dedicado a João César Monteiro, com As Bodas de Deus (1999), último capítulo da trilogia protagonizada por João de Deus. Neste filme, Monteiro recupera o alter ego que interpretou em Recordações da Casa Amarela (1989) e A Comédia de Deus (1995). Num parque frio e deserto, a personagem encontra um enviado divino que lhe entrega uma mala cheia de dinheiro. A partir daí, a personagem entra numa sucessão de reviravoltas que envolvem Joana, o príncipe Omar Raschid e a princesa Elena Gombrowicz. O desejo, o poder e a religião colidem e mesclam-se numa narrativa provocadora e bem-humorada.
O filme foi apresentado no Festival de Cannes de 1999, na secção Un Certain Regard, e recebeu nesse mesmo ano o Ómbu de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata. É protagonizado pelo próprio João César Monteiro, acompanhado por Rita Durão, Joana Azevedo, José Airosa, Manue-la de Freitas e Luís Miguel Cintra.
No dia seguinte, 1 de setembro, às 21h30, o ciclo “Fora de Portas”, regressa com uma sessão ao ar livre junto às portas do Cemitério de Monte d’Arcos, onde será exibido A Morte Cansada (Der müde Tod, 1921). Realizado por Fritz Lang em 1921, o filme acompanha uma jovem que procura recuperar o amado, levado pela Morte, e que aceita o desafio de encontrar uma forma de vencer o destino em três histórias situadas em diferentes épocas e lugares. A própria Morte surge como personagem, numa nar-rativa que combina o fantástico, o melodrama e elementos próximos do expressionismo alemão.
As sessões do Lucky Star ocorrem durante o mês de agosto no pequeno auditório do Theatro Circo às segundas-feiras, às 21h30. A entrada custa quatro euros para público geral e dois euros com o cartão Pentágono. Os sócios do cineclube têm entrada livre, mediante disponibilidade de lugares e reserva antecipada. O ciclo Fora de Portas tem o apoio da Câmara Municipal de Braga. As sessões ocorrem em locais emblemáticos do concelho e a entrada é gratuita.
Até segunda-feira!
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
O Último Mergulho (1992) de João César Monteiro
por Jessica Sérgio Ferreiro
O Último Mergulho foi realizado para a série Os Quatro Elementos
(1992), encomendada por Fernando Lopes a quatro cineasta portugueses. João
Botelho ficou com o Ar e realizou “No Dia dos Meus Anos”, João
Mário Grilo deu origem ao “O Fim do Mundo” para a Terra, Joaquim
Pinto fez “Das Tripas Coração” para o elemento Fogo e João César
Monteiro, como tantas vezes na sua carreira, escolheu a Água, elemento que dá o
nome a este ciclo As Correntes de João César Monteiro e que representa o
sentido fluido, aquático e libertário que caracteriza a filmografia do
realizador, como evidenciado por João Bénard da Costa na Revista Foco (2009).
Para O Último Mergulho, César Monteiro convocou Henrique Canto e Castro
e a francesa Fabienne Babe para os papéis principais.
Integrado na série televisiva Os Quatro Elementos,
encomendada pela RTP à produtora de Paulo Branco, foi solicitado aos cineastas
convidados que realizassem obras de média duração. É por essa razão que O
Último Mergulho surge como uma das metragens mais curtas da filmografia de
João César Monteiro. O propósito inicial da série passava por retratar
diferentes regiões de Portugal, refletindo a identidade nacional a partir das
suas especificidades locais.
Contudo, João César Monteiro, no seu habitual registo
irreverente e provocador, opta por implodir a apologia de uma identidade
nacional assente num passado histórico fantasiado ou na saudade melancólica
como traço definidor do povo, uma matriz conceptual que fora popularizada e
teorizada por Teixeira de Pascoaes. Em contraponto, o realizador desvia o olhar
para a margem: foca-se na boémia e no submundo lisboeta, operando uma mácula
deliberada sobre a imagem idealizada do povo português “humilde” e “trabalhador”.
A narrativa arranca junto ao Tejo, onde o jovem Samuel (Dinis Neto Jorge) contempla o suicídio. É ali interpelado por Elói (Canto e Castro), , um velho marinheiro reformado
que, percebendo as suas intenções, afirma não o querer demover, confessando
partilhar do mesmo desejo de pôr fim à vida. Todavia, perante a proposta de
Samuel para partilharem esse derradeiro acto, Elói sugere, em alternativa: um “último
mergulho” pela vibrante noite da cidade. Arrasta-o, assim, pelas artérias de
uma Lisboa nocturna e marginal. Ao longo de duas noites, os dois deambulam por
esse submundo, cruzando-se com Esperança, uma prostituta muda e filha de Elói, e
com as suas companheiras de ofício, Rosa Bianca e Ivone.
Nesta deriva, Monteiro prefere concentrar-se numa
população que evoca o lumpemproletariado. Recorre-se, implicitamente, à
matriz do Zé Povinho, figura criada por Rafael Bordalo Pinheiro em 1875
para personificar o subproletariado nacional. Se, no desenho satírico original,
o Zé Povinho assume uma dimensão crítica, ele surge frequentemente marcado pela
passividade: esta figura evidencia as condições sociais opressoras sem,
contudo, se constituír como agente da sua própria emancipação
político-social. Denunciam, mas raramente reivindica ou se organiza colectivamente.
Este binómio da estereotipia compreende, assim, os comportamentos socialmente
censuráveis pela moral burguesa, como o alcoolismo ou o oportunismo. O
resultado é uma representação deliberadamente ambivalente do povo, oscilando
entre a infantilização e o primitivismo. João César Monteiro apropria-se destes
estereótipos para os subverter. A primeira metade do filme apoia-se numa
linguagem vulgar, numa escatologia nocturna e boémia que, subitamente, alterna
com momentos de puro fulgor poético.
Afinal, sob a capa da marginalidade, as personagens
revelam a sua profunda humanidade, marcada por percursos sofridos e aspirações
legítimas. Rosa BiancaFrancesca Prandi, de origem italiana, fugiu da sua aldeia natal: a pobre
e piscatória ilha de Stromboli (numa evidente alusão ao cinema de Roberto
Rossellini que nos remete para o filme À Flor do Mar, exibido no dia 17
de Agosto), em busca de uma alternativa de sobrevivência. Prostituta em Lisboa,
acaba por fugir com um marinheiro russo cujo navio atracara no cais – uma feliz
rasteira do real, integrada no filme através de uma cena improvisada após a
atracagem verídica da embarcação. Por sua vez, Ivone (Rita Blanco) encarna a portuguesa “de
gema”, pragmática e de têmpera forte, enquanto Esperança (Fabienne Babe), , privada da voz, se
impõe pela via da sensibilidade pura; o seu próprio nome resgata a dimensão
alegórica que transporta.
Samuel e Elói deambulam por uma Lisboa em vias de
extinção, ancorada no Cais do Sodré, na Praça de São Paulo e no Mercado da
Ribeira. Percebemos de imediato que essa pretensa “autenticidade alfacinha” já
se metamorfoseou. Mas não será precisamente essa “autenticidade” alardeada que
Monteiro contesta? Se ela existe, o realizador sugere que a procuremos no cerne
do povo esquecido e, aí, ela nunca será previsível, uniforme ou balizada por
uma moral convencional.
Elói acaba por salvar Samuel ao apresentar-lhe Esperança.
O apaixonar-se mútuo devolve ao filme a luminosidade que parecia vedada a estas
existências errantes e suicidas, encontrando o seu tecto provisório na
degradada Pensão 25 de Abril. É nesse espaço de liberdade de “má nota” que a
intimidade se transfigura e o filme desacelera. O realismo cru do quotidiano é invadido pelo sublime durante a cena do enlace erótico-romântico
entre Esperança e Samuel e que César Monteiro apenas sugere sem recorrer a
voyeurismos e artifícios de espectacularização do sexo. Esta irrupção lírica
espelha-se, também, no hipnótico plano-sequência da dança de Salomé
(femme-fatale / universo bíblico da Morte de João [de Deus] Batista) e no jogo sonoro desta cena; bem como no recurso
aos textos clássicos de Friedrich Hölderlin e no desfecho idílico, onde Samuel
e Esperança mergulham num campo de girassóis à procura do seu final feliz. Assim,
Esperança transfigura-se na figura de Diotima, eternizada no excerto do
romance Hiperíon declamado na icónica voz off de Luís Miguel
Cintra sobre o ecrã negro final: “O destino impele-me para o desconhecido e eu
bem o mereço”. Afinal, é o Amor que salva e devolve esperança e magia à vida.
A relação intrínseca entre a água e a morte atravessa a
obra desde o plano de abertura. O Tejo apresenta-se simultaneamente como lugar de tragédia e de fortuna: é dele que Samuel se aproxima para morrer, mas é
precisamente a partir desse não-acontecimento que irrompe a sua odisseia
urbana. O rio permanece como o horizonte físico e conceptual da narrativa até
que, no final, é Elói quem regressa definitivamente à água. Neste mergulho pela
vida e a morte inelutável, Monteiro pousa o sentido na fisicalidade, nos corpos
humanos, nas pulsões e no desejo e nas dinâmicas relacionais que se estabelecem
na noite. O Último Mergulho teia, com mestria, a alta cultura literária
de Hölderlin e a erudição musical de Bach – materializada na interpretação
histórica da Ária das Variações Goldberg por Glenn Gould – com a Lisboa
vernacular e marginal, trauteada pela música popular doas arraiais. A arquitectura
fílmica de João César Monteiro recusa-se, assim, a separar o sublime do
quotidiano, provando que o sagrado e o profano habitam o mesmo cais.
domingo, 23 de agosto de 2026
464ª sessão: dia 24 de Agosto (segunda-feira), às 21h30
“O Último Mergulho” de João César Monteiro, esta segunda com o Lucky Star – Cineclube de Braga no Theatro Circo
O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de agosto a João César Monteiro”. Figura central do cinema de autor em Portugal com uma obra marcada pela provocação e por um humor mordaz. Realizador, argumentista e ocasional actor, criou um universo onde se cruzam referências históricas, literárias, populares, filosóficas e cinematográficas. As sessões deste ciclo ocorrem às segundas-feiras durante o mês de agosto, no Theatro Circo, às 21h30.
Esta segunda-feira, o ciclo continua com O Último Mergulho (1992), de João César Monteiro. Dedicado ao ele-mento água, o filme foi realizado no âmbito da série televisiva "Os Quatro Elementos". Produzido por Paulo Branco, em co-produção entre a Madragoa Filmes, a RTP e a francesa La Sept Cinéma, o filme foi rodado em Lisboa e tem fotografia de Dominique Chapuis.
A história começa junto ao Tejo, onde Samuel, um jovem que contempla o suicídio, é abordado por Elói, um velho marinheiro reformado. Quando Samuel lhe propõe que partilhem aquele que seria o seu “último mergulho”, Elói impede-o de saltar e leva-o consigo pelas ruas de Lisboa. Durante duas noites, entre as festas de Santo António, os dois percorrem uma cidade nocturna e marginal, até encontrarem Esperança, uma prostituta muda e as suas companheiras Rosa Bianca e Ivone.
O elenco reúne Henrique Canto e Castro, no papel de Elói, Dinis Neto Jorge, como Samuel, Fabienne Babe, como Esperança, Francesca Prandi, como Rosa Bianca, e Rita Blanco, como Ivone. O filme inclui ainda a participação de Catarina Lourenço como bailarina e a voz de Luís Miguel Cintra, que lê excertos de “Hyperion”, de Friedrich Hölderlin.
O Último Mergulho teve estreia mundial no Festival de Veneza de 1992, onde integrou a selecção oficial e recebeu o Prémio da Crítica Italiana (Filmcritica). Foi posteriormente apresentado no Festival Internacional de Cinema de Roterdão e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, entre outros eventos. Em Portugal, teve ante-estreia na Cinemateca Portuguesa e estreia comercial no Cinema King, em Lisboa, em Setembro de 1992.
As sessões do Lucky Star ocorrem durante o mês de agosto no pequeno auditório do Theatro Circo às segundas-feiras, às 21h30. A entrada custa quatro euros para público geral e dois euros com o cartão quadrilátero. Os sócios do cineclube têm entrada livre, mediante disponibilidade de lugares e reserva antecipada.
O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de agosto a João César Monteiro”. Figura central do cinema de autor em Portugal com uma obra marcada pela provocação e por um humor mordaz. Realizador, argumentista e ocasional actor, criou um universo onde se cruzam referências históricas, literárias, populares, filosóficas e cinematográficas. As sessões deste ciclo ocorrem às segundas-feiras durante o mês de agosto, no Theatro Circo, às 21h30.
Esta segunda-feira, o ciclo continua com O Último Mergulho (1992), de João César Monteiro. Dedicado ao ele-mento água, o filme foi realizado no âmbito da série televisiva "Os Quatro Elementos". Produzido por Paulo Branco, em co-produção entre a Madragoa Filmes, a RTP e a francesa La Sept Cinéma, o filme foi rodado em Lisboa e tem fotografia de Dominique Chapuis.
A história começa junto ao Tejo, onde Samuel, um jovem que contempla o suicídio, é abordado por Elói, um velho marinheiro reformado. Quando Samuel lhe propõe que partilhem aquele que seria o seu “último mergulho”, Elói impede-o de saltar e leva-o consigo pelas ruas de Lisboa. Durante duas noites, entre as festas de Santo António, os dois percorrem uma cidade nocturna e marginal, até encontrarem Esperança, uma prostituta muda e as suas companheiras Rosa Bianca e Ivone.
O elenco reúne Henrique Canto e Castro, no papel de Elói, Dinis Neto Jorge, como Samuel, Fabienne Babe, como Esperança, Francesca Prandi, como Rosa Bianca, e Rita Blanco, como Ivone. O filme inclui ainda a participação de Catarina Lourenço como bailarina e a voz de Luís Miguel Cintra, que lê excertos de “Hyperion”, de Friedrich Hölderlin.
O Último Mergulho teve estreia mundial no Festival de Veneza de 1992, onde integrou a selecção oficial e recebeu o Prémio da Crítica Italiana (Filmcritica). Foi posteriormente apresentado no Festival Internacional de Cinema de Roterdão e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, entre outros eventos. Em Portugal, teve ante-estreia na Cinemateca Portuguesa e estreia comercial no Cinema King, em Lisboa, em Setembro de 1992.
As sessões do Lucky Star ocorrem durante o mês de agosto no pequeno auditório do Theatro Circo às segundas-feiras, às 21h30. A entrada custa quatro euros para público geral e dois euros com o cartão quadrilátero. Os sócios do cineclube têm entrada livre, mediante disponibilidade de lugares e reserva antecipada.
Até segunda-feira!
terça-feira, 18 de agosto de 2026
À Flor do Mar (1986) de João César Monteiro
por Jessica Sérgio Ferreiro
Em Veredas e Silvestre,
exibidos nas duas primeiras semanas de agosto, João César Monteiro dedica-se ao
“interior” (geografia) e ao “anterior” (tempo), como João Bénard da Costa já
tinha identificado na sua análise para a Revista Foco. Se, nestes dois
primeiros filmes do ciclo, encontramos narrativas que mesclam fábulas, lendas e
textos clássicos, contendo pontuações subversivas e interjeições “proto-feministas”
(cujos diálogos contaram com a mão de Maria Velho da Costa) num contexto do
passado histórico conservador, em À Flor do Mar o cenário muda. Aqui, o
espaço de acção deixa de ser masculino para se tornar feminino, num cenário
contemporâneo de uma Algarve soalheiro e já turístico.
A protagonista, a bela
e jovem viúva italiana Laura Rossellini (Laura Morante), passa o verão na casa
de férias da família, no Algarve, com os filhos pequenos e as cunhadas, Sara
(Manuela de Freitas) e Rosa (Teresa Villaverde), esta última ainda com traços
de adolescente. A quietude daquela paisagem familiar, envolvida pelo calor
dourado e pelo azul-claro que emolduram a vivenda alva, é perturbada quando
Laura decide acolher um misterioso náufrago ferido: Robert Jordan (Philip
Spinelli), um agente americano cujo nome remete directamente para a personagem
de Hemingway em Por Quem os Sinos Dobram (1940). Em simultâneo, a
agitação instala-se na região através das notícias da rádio, que relatam o
assassinato do dirigente da Organização de Libertação da Palestina, Issam
Sartawi – evento verídico ocorrido num hotel de Albufeira, em 1983. Assim, o
espaço idílico e protegido do reduto familiar acaba por ser conspurcado por
esta dupla ameaça externa.
O apelido da
protagonista, Laura Rossellini, remete-nos directamente para o realizador
italiano Roberto Rossellini – associação reforçada pelo facto de o seu filho se
chamar Roberto. Torna-se, assim, inevitável referir o cineasta e o seu célebre Viagem
em Itália (1954) e estabelecer uma relação directa com esta obra de João
César Monteiro. Naquele filme, acompanhamos o confronto do tédio e da alienação
de um casal da alta burguesia, protegido pelo seu privilégio, com a realidade popular,
pulsante e crua do mundo exterior. Em À Flor do Mar, deparamo-nos exactamente
com a mesma bolha burguesa aborrecida e estival: um isolamento dourado que
tenta ignorar o Algarve envolvente e, acima de tudo, o estado violento da
política global, materializado no homicídio verídico do líder palestiniano. É a
figura do “estrangeiro”, o náufrago ferido, quem vem furar essa bolha, rasgar a
aparente intransponibilidade desse refúgio familiar. Já no último terço do
filme, esta “filiação cinéfila” é explicitada durante o jantar que junta o
agente americano, Sara e Laura. Quando Sara recorre ao provérbio “todos os
caminhos vão dar a Roma”, Laura responde prontamente: “Roma, cidade aberta”,
uma alusão directa à obra-prima, de 1945, de Rossellini. O paralelismo
conceptual é implacável: tal como a Roma da Segunda Guerra Mundial, após
declarar o seu estatuto de “cidade aberta”, se encontrava na realidade ainda invadida
e ocupada pelos nazis, também aquela moradia descobre que a sua insularidade é frágil
e permeável. A casa desarmou-se; tornou-se ela própria uma cidade aberta,
vulnerável e totalmente exposta à realidade do mundo exterior (explícita na
cena em que entram abruptamente na casa de férias homens armados, em plena luz
do dia).
Contudo, a narrativa
desenrola-se, maioritariamente, de forma subtil, no compasso vagaroso e
contemplativo do idílio burguês. O estrangeiro é tido como uma figura atraente
e exótica, exercendo sobre Laura Rossellini uma sedução latente, “à flor da
pele”. Com enorme contenção, a protagonista resiste a esse impulso,
sacrificando o seu desejo para preservar a paz e a aparente pureza da casa
familiar. Esta atmosfera de candura e melancolia é esteticamente sublimada pela
cadência meditativa da música de Bach e, sobretudo, pela direcção de fotografia
de Acácio de Almeida, cujo trabalho luminoso e poético evoca a textura de
quadros vivos, estabelecendo uma ponte directa com o falecido marido de Laura,
que era pintor. Além da poesia cinematográfica, a música complementa a
narrativa, como, por exemplo, o trecho de Così fan tutte, de Mozart, que
aponta para o cinismo moral e o fracasso perante a tentação, antecipando o
colapso iminente desta cidadela. Instala-se, no final, a ironia trágica que
amarra a narrativa à ópera Norma de Vincenzo Bellini, referência
explícita feita no início do filme. Poder-se-ia deduzir que Sara (Manuela
de Freitas) é Norma, devido à sua postura
estoica, protectora e severa, assumindo o papel da sacerdotisa vestal, aludido na
cena em que esta irrompe na sala de jantar vestida como Maria Callas no papel
de Norma. Tal como na ópera, o amante desvia o seu interesse para a jovem
noviça, também em À Flor do Mar o náufrago Robert Jordan acaba por
consumar o clímax dramático-erótico ao desviar o seu foco para Rosa (Teresa Villaverde),
a cunhada jovem e cândida[1].
Ao oferecer-se e ser tomada pelo estrangeiro, rompe-se em definitivo o cerco
protector e a alvura que aquela casa reflectia na sua superfície. A ilusão do
refúgio cerrado e intocável naufraga e desmorona-se por dentro (se bem que já
estivesse em ruínas e em luto), “liberta-se” nas suas camadas profundas, é uma
“cidade aberta”: a imunidade burguesa foi corrompida (ou já o era) e exposta,
restando às personagens aprender a habitar a melancólica felicidade que lhes
sobra, como sentenciado no final do filme.
Por fim, o título da obra de João César Monteiro revela
subliminarmente a trama: remete para a célebre nau quinhentista Flor do Mar,
a majestosa embarcação que naufragou em 1511, submersa nas profundezas do mar
insondável, juntamente com o maior tesouro do império português e procurados ao
longo de séculos. Como aquele barco soçobrado, a moradia algarvia converte-se
no espelho contemporâneo desse mesmo destino marítimo: uma redoma dourada que afunda
e desaparece face à incontornável violência da realidade.
[1] A análise cinematográfica estabelece frequentemente uma relaçao directa entre a intrusão deste náufrago e o filme Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini. Em ambas as obras, um estrangeiro enigmático infiltra-se num microcosmo burguês, seduzindo os seus membros e provocando o colapso irreversível das suas estruturas morais e familiares. Contudo, a crítica tende a sublinhar que João César Monteiro opera uma variação mais positiva e poética do que o realizador italiano.
domingo, 16 de agosto de 2026
463ª sessão: dia 17 de Agosto (segunda-feira), às 21h30
“À Flor do Mar” de João César Monteiro, esta segunda com o Lucky Star – Cineclube de Braga no Theatro Circo
O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de agosto a João César Monteiro. Figura central do cinema de autor em Portugal com uma obra marcada pela provocação e por um humor mordaz. Realizador, argumentista e ocasional actor, criou um universo, onde se cruzam referências históricas, literárias, populares, filosóficas e cinematográficas. As sessões deste ciclo ocorrem às segundas-feiras durante o mês de agosto, no Theatro Circo, às 21h30.
Na próxima segunda, o ciclo prossegue com À Flor do Mar (1986). A história decorre no Algarve. Laura Rossellini, uma italiana que vive em Tavira após a morte do marido, encontra na praia um homem ferido, Robert Jordan, e decide acolhê-lo em casa. Ao mesmo tempo, a rádio noticia o assassinato de um dirigente palestiniano da OLP, acontecimento ocorrido em 1983 num hotel de Albufeira e que serve de pano de fundo à narrativa.
Rodado quase inteiramente no Algarve, nomeadamente em Cabanas de Tavira, Vilamoura, Lagos e Olhão, o filme foi produzido pela Monteiro & Gil, com produção executiva de João César Monteiro e Margarida Gil. A fotografia é de Acácio de Almeida, que estará presente nesta sessão para uma conversa com o público.
No elenco destacam-se Laura Morante, como Laura, Philip Spinelli, como Robert Jordan, e Manuela de Freitas, no papel de Sara. Participam ainda Teresa Villaverde, Georges Claisse e Sérgio Antunes. O próprio João César Monteiro surge no filme como Stavroguine, numa das suas primeiras aparições co-mo actor na sua própria obra.
À Flor do Mar teve a sua ante-estreia na Cinemateca Portuguesa em 1986 e foi posteriormente apresen-tado no Festival de Cinema de Salsomaggiore, em Itália, onde recebeu, em 1987, o Prémio Especial do Júri. No mesmo ano integrou o 16.º Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz. O filme teve ainda circulação internacional, nomeadamente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival de Cinema de Turim.
A produção conheceu também uma particularidade: existiu uma primeira versão, de maior duração, posteriormente remontada por Monteiro. A versão actualmente conhecida resulta desse processo de montagem, evidenciando a importância que o realizador atribuía à construção final do filme.
As sessões do Lucky Star ocorrem durante o mês de agosto no pequeno auditório do Theatro Circo às segundas-feiras, às 21h30. A entrada custa quatro euros para público geral e dois euros com o cartão quadrilátero. Os sócios do cineclube têm entrada livre, mediante disponibilidade de lugares e reserva antecipada.
O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de agosto a João César Monteiro. Figura central do cinema de autor em Portugal com uma obra marcada pela provocação e por um humor mordaz. Realizador, argumentista e ocasional actor, criou um universo, onde se cruzam referências históricas, literárias, populares, filosóficas e cinematográficas. As sessões deste ciclo ocorrem às segundas-feiras durante o mês de agosto, no Theatro Circo, às 21h30.
Na próxima segunda, o ciclo prossegue com À Flor do Mar (1986). A história decorre no Algarve. Laura Rossellini, uma italiana que vive em Tavira após a morte do marido, encontra na praia um homem ferido, Robert Jordan, e decide acolhê-lo em casa. Ao mesmo tempo, a rádio noticia o assassinato de um dirigente palestiniano da OLP, acontecimento ocorrido em 1983 num hotel de Albufeira e que serve de pano de fundo à narrativa.
Rodado quase inteiramente no Algarve, nomeadamente em Cabanas de Tavira, Vilamoura, Lagos e Olhão, o filme foi produzido pela Monteiro & Gil, com produção executiva de João César Monteiro e Margarida Gil. A fotografia é de Acácio de Almeida, que estará presente nesta sessão para uma conversa com o público.
No elenco destacam-se Laura Morante, como Laura, Philip Spinelli, como Robert Jordan, e Manuela de Freitas, no papel de Sara. Participam ainda Teresa Villaverde, Georges Claisse e Sérgio Antunes. O próprio João César Monteiro surge no filme como Stavroguine, numa das suas primeiras aparições co-mo actor na sua própria obra.
À Flor do Mar teve a sua ante-estreia na Cinemateca Portuguesa em 1986 e foi posteriormente apresen-tado no Festival de Cinema de Salsomaggiore, em Itália, onde recebeu, em 1987, o Prémio Especial do Júri. No mesmo ano integrou o 16.º Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz. O filme teve ainda circulação internacional, nomeadamente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival de Cinema de Turim.
A produção conheceu também uma particularidade: existiu uma primeira versão, de maior duração, posteriormente remontada por Monteiro. A versão actualmente conhecida resulta desse processo de montagem, evidenciando a importância que o realizador atribuía à construção final do filme.
As sessões do Lucky Star ocorrem durante o mês de agosto no pequeno auditório do Theatro Circo às segundas-feiras, às 21h30. A entrada custa quatro euros para público geral e dois euros com o cartão quadrilátero. Os sócios do cineclube têm entrada livre, mediante disponibilidade de lugares e reserva antecipada.
Até segunda!
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Silvestre (1981) de João César Monteiro
por António Cruz Mendes
Em Veredas, seguindo os passos de
um casal, que, a pé, percorre caminhos que vão de Trás-os-Montes até ao
litoral, João César Monteiro deu-nos a conhecer lendas e contos tradicionais
que fazem parte do imaginário popular. Em Silvestre,
prossegue esse projecto cujo objectivo será o de tentar responder a uma questão
primacial: “o que é ser português?”
Para isso, regressa a
um passado mítico, fabulosamente medieval. As personagens dão corpo a figuras
arquetípicas. O registo cinematográfico é poético e assumidamente
não-naturalista. O ritmo é lento, as falas são declamadas e os enquadramentos
cenográficos remetem-nos para um espaço teatral. As imagens da cena onde Sílvia
nos surge com o dragão e o cavaleiro citam o quadro de Paolo Uccello, São Jorge e o Dragão.
A narrativa inspira-se
em dois contos tradicionais. Em “A Mão do Finado”, três jovens, deixadas
sozinhas em casa pelo seu pai, um mercador, são assediadas por uma quadrilha de
ladrões. A mais velha deixa-se enganar por um deles, disfarçado de fidalgo, mas
a mais nova desmascarara-o e tranca-lhe as portas da casa. Em “A Donzela vai à
guerra”, um fidalgo vê-se impedido de corresponder ao pedido de ajuda militar
do seu Rei por não ter nenhum filho varão. Mas uma das suas filhas, disfarçada
de homem, apresta-se a defender a honra da família. João César Monteiro conjuga
as duas histórias e oferece-lhes um pano de fundo onde, mais uma vez, se fundem
o mito e os costumes populares.
Obediência e rebeldia
são aquilo que está em questão. Numa sociedade patriarcal, Sílvia obedece
cegamente à vontade do pai, que pretende casá-la com um lavrador rico, mas
boçal. Porém, desobedece-lhe quando franqueia as portas da sua casa a um
peregrino, desencadeando com isso uma cadeia de terríveis consequências.
Redime-se quando, ultrapassando as limitações impostas pela sua condição
feminina, assume a personalidade de Silvestre e se incorpora no exército do
rei.
O apelo do sexo e a
condição feminina estão sempre presentes. Na violação de Susana pelo peregrino,
nas conversas dos soldados, até mesmo na cena onde Silvestre se vê constrangido
a escolher uma mulher como amante. A submissão da mulher ao homem pode parecer
inquestionável, mas a história de Sílvia mostra que não tem de ser assim.
Afinal, é uma mulher emancipada aquela que expulsa da sua casa o peregrino
violador, que foge da casa do cavaleiro que deveria ter como marido e que,
finalmente, pode ter descoberto o amor com o alferes do exército onde se
incorporou.
Contudo, as cenas
finais do filme não permitem uma conclusão simplista, uma mera vitória do Bem
sobre o Mal. As últimas palavras do Fidalgo, última figuração do Peregrino e do
Cavaleiro, a quem Susana se refere como uma encarnação do Demo, dirigem-se a Sílvia:
“Meu amor”. Qual seria, afinal, a razão da sua incansável perseguição?
E quando, morto o
Peregrino / Cavaleiro / Fidalgo, Susana convida Sílvia para festejar a sua
vingança (“Estou a comer. Vem, vem ver a mão, a cara os olhos. Se tardas só
achas as ossadas”), esta replica: “Deixa-me. Agora estou sozinha dentro das
estrelas”. Silvestre é a vegetação bravia, que nasce sem ser semeada. As
experiências por que passou não lhe permitem regressar simplesmente à antiga
ordem das coisas.
O filme termina ao som do
trio de Schubert. Sílvia retira-se da mesa onde se reuniam o Rei e os seus
convidados e a sua imagem funde-se com uma visão do céu estrelado.
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