por António Cruz Mendes
Em Veredas, seguindo os passos de
um casal, que, a pé, percorre caminhos que vão de Trás-os-Montes até ao
litoral, João César Monteiro deu-nos a conhecer lendas e contos tradicionais
que fazem parte do imaginário popular. Em Silvestre,
prossegue esse projecto cujo objectivo será o de tentar responder a uma questão
primacial: “o que é ser português?”
Para isso, regressa a
um passado mítico, fabulosamente medieval. As personagens dão corpo a figuras
arquetípicas. O registo cinematográfico é poético e assumidamente
não-naturalista. O ritmo é lento, as falas são declamadas e os enquadramentos
cenográficos remetem-nos para um espaço teatral. As imagens da cena onde Sílvia
nos surge com o dragão e o cavaleiro citam o quadro de Paolo Uccello, São Jorge e o Dragão.
A narrativa inspira-se
em dois contos tradicionais. Em “A Mão do Finado”, três jovens, deixadas
sozinhas em casa pelo seu pai, um mercador, são assediadas por uma quadrilha de
ladrões. A mais velha deixa-se enganar por um deles, disfarçado de fidalgo, mas
a mais nova desmascarara-o e tranca-lhe as portas da casa. Em “A Donzela vai à
guerra”, um fidalgo vê-se impedido de corresponder ao pedido de ajuda militar
do seu Rei por não ter nenhum filho varão. Mas uma das suas filhas, disfarçada
de homem, apresta-se a defender a honra da família. João César Monteiro conjuga
as duas histórias e oferece-lhes um pano de fundo onde, mais uma vez, se fundem
o mito e os costumes populares.
Obediência e rebeldia
são aquilo que está em questão. Numa sociedade patriarcal, Sílvia obedece
cegamente à vontade do pai, que pretende casá-la com um lavrador rico, mas
boçal. Porém, desobedece-lhe quando franqueia as portas da sua casa a um
peregrino, desencadeando com isso uma cadeia de terríveis consequências.
Redime-se quando, ultrapassando as limitações impostas pela sua condição
feminina, assume a personalidade de Silvestre e se incorpora no exército do
rei.
O apelo do sexo e a
condição feminina estão sempre presentes. Na violação de Susana pelo peregrino,
nas conversas dos soldados, até mesmo na cena onde Silvestre se vê constrangido
a escolher uma mulher como amante. A submissão da mulher ao homem pode parecer
inquestionável, mas a história de Sílvia mostra que não tem de ser assim.
Afinal, é uma mulher emancipada aquela que expulsa da sua casa o peregrino
violador, que foge da casa do cavaleiro que deveria ter como marido e que,
finalmente, pode ter descoberto o amor com o alferes do exército onde se
incorporou.
Contudo, as cenas
finais do filme não permitem uma conclusão simplista, uma mera vitória do Bem
sobre o Mal. As últimas palavras do Fidalgo, última figuração do Peregrino e do
Cavaleiro, a quem Susana se refere como uma encarnação do Demo, dirigem-se a Sílvia:
“Meu amor”. Qual seria, afinal, a razão da sua incansável perseguição?
E quando, morto o
Peregrino / Cavaleiro / Fidalgo, Susana convida Sílvia para festejar a sua
vingança (“Estou a comer. Vem, vem ver a mão, a cara os olhos. Se tardas só
achas as ossadas”), esta replica: “Deixa-me. Agora estou sozinha dentro das
estrelas”. Silvestre é a vegetação bravia, que nasce sem ser semeada. As
experiências por que passou não lhe permitem regressar simplesmente à antiga
ordem das coisas.
O filme termina ao som do
trio de Schubert. Sílvia retira-se da mesa onde se reuniam o Rei e os seus
convidados e a sua imagem funde-se com uma visão do céu estrelado.







