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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei (2014) de Manuel Mozos



por Alexandra Barros
 
“(...) ao que venho é a guiar-vos para imagens e memórias cá de mim, puxadas de onde tiver que ser para onde me apetecer que seja. Terei por companheiros os que já tiverem os apetecimentos ou os que os passarem a ter porque apeteceram o que lhes dei a provar.” João Bénard da Costa 
 
Assim abre este filme, e esta declaração de intenções, que não foi obviamente escrita para o filme (uma homenagem póstuma a João Bénard da Costa), é extraordinariamente ajustada. O filme é um duplo gesto de amor do realizador: amor pelo companheiro João Bénard da Costa e amor pelas coisas que João Bénard da Costa amou. Por causa desse duplo amor, Manuel Mozos toma como seu o desígnio de nos dar a provar as coisas que JBC[1] amou. Para que elas nos venham a apetecer como a eles apeteceram. Para que também nós nos tornemos companheiros. E quem melhor, para nos dar a provar o que a João Bénard da Costa apeteceu, do que o próprio?
 
“Maior do que a fé, era o amor.”[2] E é assim que, pelo amor, a morte dá lugar à vida e temos João Bénard da Costa ressuscitado, a guiar-nos, através da palavra, pelos seus lugares, filmes, livros, revistas, pinturas, pessoas, memórias, pensamentos. E tão engenhosamente urdida é esta obra que cremos que as palavras ditas foram destinadas a este filme, que JBC as escreveu para ele. Um milagre concedido pelo cinema, que evoca um outro filme de palavras filmadas[3] e de ressurreição através da palavra e do amor: precisamente A Palavra, de Carl Dreyer (1955), um dos filmes mais queridos de João Bénard da Costa.
 
Esse filme, centrado em questões tão fundamentais para JBC como a crença, os mistérios e o poder do amor, tem presença medular na tessitura de Outros Amarão as Coisas Que Eu Amei. Forte presença tem também Johnny Guitar, de Nicholas Ray (1954), filme que JBC viu dezenas de vezes (“68 vezes, entre 1957 e 1988” ) e acerca do qual disse só ser “capaz de falar delirando”[4]. Mas muitos outros filmes se entrecruzam nesta homenagem que, sendo dedicada a um homem apaixonado pelo cinema, acaba por ser também, naturalmente, uma homenagem ao cinema e à cinefilia. João Bénard da Costa teve a sua “vida organizada em torno de filmes” . Foi director da Cinemateca Portuguesa de 1991 a 2009, e antes, durante e depois foi pensador, crítico, cronista, ensaísta, programador, professor, actor.
 
“[...] cedo aprendi que ‘isso’ existia, ‘isso’, a cinefilia, essa vida organizada em torno de filmes. A palavra ‘cinefilia’, nesses tempos, incessantemente pronunciada, designa em boa verdade um amor e uma prática irremediavelmente ultrapassados. Porque o cinema precisa que se fale dele. As palavras que o nomeiam, as histórias que o contam, as discussões que o fazem reviver, modelam-lhe a verdadeira existência. A tela em que se projecta, a primeira e única que conta, é a tela mental. Está na cabeça dos que o vêem para, depois, o sonharem, lhe partilharem as emoções; cultivarem-lhe a memória, a discussão e a escrita. Ir ao cinema ver filmes não faz sentido sem o desejo de prolongar essa experiência pela palavra, pela conversa, pela escrita. Cada uma dessas rememorações dá ao filme o seu verdadeiro valor.”[5]
 
Talvez afinal essa prática (cinefilia) não esteja assim tão irremediavelmente ultrapassada. Os cineclubes resistem. Ainda dão a ver. Ainda nos guiam. Ainda nos dão a provar. A cinefilia adquiriu, entretanto, outras formas, além dessa. Há hoje outros modos complementares de praticar a cinefilia (blogs especializados, comunidades cinéfilas digitais, …). Para quem ama o cinema, a possibilidade de terminar o dia com o visionamento de um grande filme, mesmo que no (actualmente já não tão) pequeno ecrã caseiro, tornou-se vital para nos resgatar dos dias maus. No entanto, ver um filme numa sala de cinema, num grande ecrã, é por um lado, uma experiência de maior entrega, e por outro, tem um lado ritualístico e de comunhão, que a ampliam. Ver um filme nas dimensões e condições para o qual foi pensado é uma experiência muito mais grandiosa. Mais intensa no encantamento estético, na provocação, no mergulho, na compreensão.
 
Como toda a grande arte, o cinema proporciona-nos as mais poderosas emoções e os mais profundos entendimentos e, por isso, é uma das mais belas formas de nos salvarmos. Este filme é também, ou talvez sobretudo, sobre isto. 
 

[1] JBC = João Bénard da Costa

[2] Frase atribuída a S. Paulo por JBC, na apresentação do filme A Palavra, de Carl Dreyer, para a série "No Meu Cinema", da RTP (nos anos 90).

[3] “(Carl Theodor) Dreyer pressentiu o cinema futuro, pois teve a força de filmar a palavra.” Manuel de Oliveira, a propósito do filme A Palavra.

[4] Os Filmes da Minha Vida - Os Meus Filmes da Vida, João Bénard da Costa, Assírio e Alvim, 2003

[5] Antoine de Baecque, citado por João Bénard da Costa, na crónica Confusão de narizes, no Público, 10/12/20024, disponível em: https://www.publico.pt/2004/12/10/jornal/confusao-de-narizes-196055


Folha de Sala


sábado, 14 de março de 2020

Xavier (1991-2002) de Manuel Mozos



por João Palhares

Ainda bem que vimos a cópia de trabalho de Xavier em Novembro do ano passado, com as suas cruzes brancas em fundo negro, falhas sonoras e “bips” fugazes, como em sessão de meia-noite. Iluminou-nos em relação ao trabalho épico e hercúleo que Manuel Mozos teve, mesmo que apadrinhado por Paulo Rocha, para poder estrear o seu filme na versão que hoje vamos ver, “ripada” de uma passagem discreta mas muito importante na RTP 2, ainda com o logo em pontinhos brancos (2004-2007), cópia pirata e riscada que viajou de mão em mão até chegar até nós. As rugas são a pintura da sabedoria. Voltamos às trocas de cassetes e mix-tapes entre amigos no ciclo ou no secundário, às recomendações em carne viva seladas com passagens de cópias ou de originais. Voltamos aos anos 90, velados por um filme dessa década mas que só estreou na seguinte, numa cidade em que não foi exibido até quase duas décadas depois disso. O tempo funciona assim, nunca é tarde demais, não há oportunidades perdidas. X Nunca é tarde demais para rever material de uma ponta a outra, esquecer o guião, esquecer a rodagem, e vislumbrar consequências dramáticas inauditas num corte ou numa elipse milagrosos. Nunca é tarde demais para acordar para a vida depois de meses a penar pelas ruas de Lisboa, aprendendo com os erros trágicos dos outros e descobrindo que não se vive enredado em si mesmo ou que não se tem de carregar o peso do mundo às costas. Nunca é tarde demais para ouvir um “Eh pá, não leves a vida tão a sério!” ou ver a campa do zarolho De Toth, que nos interpela ainda em desafio e com um olhar penetrante e imponente do outro lado da vida, “DON'T BE CAREFUL, HAVE FUN. I DID.” Nunca é tarde demais para aprender que “a relação humana tem também a sua importância: em cinema nunca se trabalha sozinho, trabalha-se em equipas, mais pequenas, maiores, e tem que haver uma relação honesta e concertada com as pessoas que estão envolvidas no que se pretende filmar, e que posteriormente resultará num filme.” E nunca é tarde demais para pedir uma mão aos amigos e ver se as coisas se resolvem, que isto tarda mas vem, até as estreias tardam mas vêm, os resultados tardam mas vêm. Num ano, em seis ou em onze, mas vêm. X Nos anos 80 e 90, mesmo depois disso, os miúdos também se fechavam em quartos no sétimo céu como o Chico de Charles Farrell, que diz à Diane de Janet Gaynor que “I work in the sewer – but I live near the stars!” Alguns desses se calhar viram o Xavier. Diz Manuel Mozos: “acho que para as pessoas mais novas a vida está complicada. Não que isso seja o principal no filme... No entanto, para mim ou para os meus amigos naquela altura, a realidade é que não sabíamos a que nos agarrar. O futuro era nebuloso. "No future". A maioria avança para qualquer lado, havia uma grande indecisão. Depois trabalhávamos em coisas como tirar fotocópias, descarregar caixas de bagaço, ser paquete de escritórios de advogados. Ou tirar cursos de inglês e de computadores. Mas estávamos motivados para escrever poesia ou fazer música...” Então Xavier, Hipólito, Rosa, Luísa, a irmã Luz e a dança da vida. Podiam ser outros, podem ser de carne e osso. O trabalho, as antenas, o dinheiro, as contas, as multas, os esquemas, a polícia e a choldra. Podem descomprimir disso tudo à noite gritando “TU GOSTAS É DE LEVAR NA PEIDA” ou “BRING ME THE HEAD OF ALFREDO GARCIA” aos golpes de karaté pelos parques de Lisboa, para pôr um sorriso na cara da Luísa de Sandra Faleiro. X Nos últimos meses vimos muita, muita coisa. Vimos mesmo de tudo, filmes e ainda outras coisas, que não são filmes (“Isso não é um filme,” responde Mozos a Miguel Gomes na entrevista publicada no catálogo do Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira, «Manuel Mozos – Um Ponto de Vista»), da ficção ao documentário, da colagem de arquivo como puzzle ou como poema, cinema, televisão, videoclips, definição e ruído, estática, saltos, quebras, imagens arrastadas, ondas e vulcões, mares e ruínas, montanhas e becos, cinema falado e cinema mudo, voluntária ou involuntariamente que a projecção e as colunas também falharam, fez tudo parte da experiência, como num concerto antológico a que foram cinco ou seis pessoas e falhou tudo menos o ânimo, a resiliência e a paixão (“este Mozos é fabuloso, pá!” – Carlos Fontes, 2019), vimos parte substancial da obra completa de um cineasta que não teve receio algum das páginas brancas e abraçou a imprevisibilidade da vida e do trabalho, na vida e no trabalho, como um contratado muito inspirado e muito modesto da Poverty Row, Manuel Augusto Fernandez de los Mozos: Um Passo, Outro Passo e Depois... (1989, 60'); Xavier (1991-2002, 101'); Lisboa no Cinema – Um Ponto de Vista (1994, 55'); Solitarium (1996, 4'40''); Cinema Português ? (1996, 58'); José Cardoso Pires – Diário de Bordo (1998, 57'); Os Tristes Anos: 1945-1960 (1998, 59'); ...Quando Troveja (1999, 89'); Cinema – Alguns Cortes: Censura (1999, 70'); Crescei e Multiplicai-vos (2000, 15'); Erupção (2001, 28'); António Pinho Vargas – Notas de um Compositor (2002, 52'); Sobre o Mar (2003, 27'); Olhar o Cinema Português 1896-2006 (2006, 54'); Diva: Simplesmente uma Homenagem (2007, 48'); 4 Copas (2008, 104'); Aldina Duarte – Princesa Prometida (2009, 60'); Ruínas (2009, 60'); Tóbis Portuguesa (2010, co-realizado com Pedro Efe, 45'); Angelitos Negros (2010, 15'); Imagens do Bairro de Alvalade (2013, 27'); Cinema – Alguns Cortes: Censura II (2014, 39'); Cinema – Alguns Cortes: Censura III (2014, 46'); João Bénard da Costa – Outros Amarão as Coisas que eu Amei (2014, 75'); Cinzas e Brasas (2015, 21'); A Glória de Fazer Cinema em Portugal (2015, 16'); Ramiro (2017, 99'); Sophia, na Primeira Pessoa (2019).

terça-feira, 10 de março de 2020

Sophia, na Primeira Pessoa (2019) de Manuel Mozos



por Joana Emídio Marques

A libertação de Sophia num documentário de Manuel Mozos 

Na reta final das comemorações do centenário da poeta surge o melhor e mais vivo objeto que esta maratona produziu: chama-se "Sophia, na Primeira Pessoa" e é um documentário de Manuel Mozos. 

O mar com que entramos nesta espécie de biografia poética de Sophia não é azul. É negro, largo e traz promessas sombrias. A luz será sempre filtrada por arestas de rochedos, árvores, nuvens. O Douro é negro também e de uma fonte decrépita corre apenas um fio de água. Atravessando as imagens, as eras e todo o cortejo de mortos ouve-se a voz da poeta: “em todos os jardins hei-de flor”. É promessa, mas também afirmação. Até nos lugares mais desérticos, mais inférteis ela há-de ter a sua voz, a sua palavra, ela há-de ser aquilo que nenhum discurso académico, teórico, museológico, grandiloquente poderá apreender ou determinar. Sobre si mesma, a ultima palavra será sempre a dela.

É assim, imensamente livre, viva, inteligente mas sombria e solitária que Sophia de Mello Breyner nos aparece neste documentário de Manuel Mozos todo feito com materiais de arquivo (fotos, cartas, velhas gravações de rádio e televisão, restos de outros filmes guardados no Anime) e que, neste ano de comemorações, o primeiro (talvez o único) gesto poético digno de uma poeta que nunca se cansou de falar de liberdade. Sophia, na Primeira Pessoa, teve estreia esta sexta-feira no DocLisboa, numa sessão apenas para escolas. Volta a passar um única vez no domingo, 27 de outubro, no cinema São Jorge, pelas, 16 horas. 

“Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real, um poema sempre foi um círculo traçado à roda de uma coisa. Um círculo dentro do qual o pássaro do real fica preso”, ouve-se explicar a poeta. A sua voz, as suas palavras; as recordações da criada Laura que lhe ensinou a Nau Catrineta, do avô que lhe lia sonetos de Camões e Antero, das muitas casas onde habitou, da asfixia da cidade, da sua relação com Homero, da poesia, dos segredos do mar que só os pescadores lhe ensinaram… A voz humana, a sonoridade de uma língua trabalhada para esticar para o infinito os seus limites, trabalhada para designar o que ainda não tem nome eis a grande linha de força deste filme que é também um gesto de liberdade e um exercício crítico prenhe e instigante de Manuel Mozos. 

Este documentário de escassos 56 minutos não se deixa levar pelo caudal de discursos académicos, oficiais que foram sendo proferidos ao longo deste ano e dos quais pouco ou nada ficará para a história. 
“Não queria fazer uma coisa definitiva mas dar pistas, criar no público o interesse em descobrir mais sobre a poeta, a mulher, a pessoa de causas. Por mim, o que fui lendo levou- me a perceber que esse lado solar de que tanto falam não corresponde à verdade, porque havia nela e naquilo que ela escrevia um lado de violência, de fantasmagoria, de pesadelo. Por muito cheia que fosse a sua vida há nela um lado sombrio, uma grande solidão que estão presentes nos seus poemas. Era uma pessoa muito contraditória e foram essas contradições que me interessou explorar”, diz o realizador, em conversa com o Observador. 
“Um dia mortos e gastos voltaremos a ser livres como os animais”, diz-nos o poema que ela recita com uma entoação que nos causa estranheza porque é declamatória. Mas é também um prodígio da articulação limpa das palavras, das sílabas. Como se Sophia quisesse chegar à mais ínfima tonalidade dos fonemas. Cada palavra é gerada para ser dita e é nessa musica efémera das palavras faladas e não escritas que se engendra a poesia. E aí, novamente Manuel Mozos releva uma grande sensibilidade ao deixar que seja a palavra falada a dominar o filme. Podemos esquecer-nos que um dia ela fixou tudo isto em livros e os livros parecem-nos, vistos daqui, apenas cemitérios mudos. 

Depois da morte da poeta em 2004, foram sendo produzidas dezenas de trabalhos, debitadas centenas de palavras, de opiniões, comentários, encómios. Criou-se uma outra Sophia cada vez mais distorcida e distante daquela que um dia viveu, escreveu e pensou. Torna-se e retorna-se aos lugares comuns: a Grécia, o sol, o mar, o branco e o azul. Há uma espécie de acordo tácito em fazer de Sophia uma poeta pueril e fácil. Mas, na verdade, Homero nunca designou a cor azul, porque os gregos não tinham nome para esta tonalidade. O mar de Homero é sempre negro ou cor de vinho. O mundo grego é terrível e cruel, a musa ensina-lhe o canto que, no final, lhe “corta a garganta”. 

O grande espanto que nos causa este documentário é vermos como de entre congressos e panteões, tudo o que fazia falta a Sophia era que alguém a libertasse, lhe devolvesse a voz. O documentário de Mozos não recorre a nenhuma outra voz que não a da artista. Não há comentadores, especialistas, filhos, amigos. Não há ninguém a não ser ela: “Quem procura uma relação justa com o homem (…) é necessariamente levado a buscar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo”, ouvimo-la dizer, enquanto as praias do Algarve, onde ela tanto nadou, não são um bilhete postal, mas um lugar de faina, onde homens de rosto duro e curtido pelo sol se lançam ao trabalho. 

O filme que resultou de uma encomenda da RTP e da Comissão das Comemorações do Centenário de Sophia teve um orçamento limitado, como nos explica o realizador, mas esses limites foram usados para potenciar o trabalho. Assim, conta-nos Mozos: 
“Não fui filmar à Grécia, nem sequer ao Algarve, recorri a imagens que havia em arquivo, imagens não usadas de outros filmes que os realizadores gentilmente me cederam e dei-lhes uma nova vida”. 
O arquivismo é uma das fontes recorrentes de Mozos que, além de cineasta é arquivista no ANIM (Arquivo Nacional de Imagens em Movimento). ” No arquivo há coisas que têm uma vida obscura, coisas que não foram conhecidas ou foram esquecidas, apagadas, e eu gosto de trazê-las à luz”, afirma. Uma das preciosidades que encontrou no ANIM foi uma longa entrevista a Sophia feita pelo também poeta Fernando Assis Pacheco. Essa conversa nunca antes divulgada acaba por servir como fio condutor do filme. A escritora fala da sua infância e de sentir que “foi a poesia” que a criou. Vemos desfilar rostos antigos, quase todos de mortos, postais, cartas, bilhetes tudo grafado manualmente. O arquivo faz retornar esse passado que é tudo o que temos, fá-lo encontrar-se com o nosso presente para reclamar uma vida própria. Sem ele, sem aquilo que sobra da experiência dos dias, nada seria possível de criar. 

“Nada me consolará que Jorge de Sena tenha passado estes últimos anos longe de Portugal…” confessa Sophia, com uma voz já endurecida pelo tempo. Com esta frase, Manuel Mozos faz duas coisas: uma homenagem simples e subtil a Jorge de Sena, cujo centenário também se assinala este ano, e o facto de que esta data tem passado ao lado e ao longe dos discursos oficiais. 

“Hesitei em colocar este excerto” diz o realizador, “mas entre outras coisas houve uma grande amizade entre eles e eu queria também prestar uma pequena homenagem a Sena”. De facto, Sena continua a não habitar em Portugal, não obstante a sua obra poética, ficcional e estatística e poucos parecem reconhecê-lo como Sophia o reconheceu. De resto, o país é sempre uma fonte de desapontamento para a poeta. O documentário que nos dá a ver as várias idades da mulher e da poeta também nos deixa ver a sua progressiva desilusão com aquilo que ela chama de “manipulação, oportunismo e demagogia” dos partidos políticos que tomaram conta de Portugal depois do 25 de Abril. Quem não se cansa de repetir o poema sobre o “dia inicial e limpo” deveria ouvir o que ela dirá anos mais tarde. 

Há uma melancolia, uma perda irreversível que atravessam os filmes de Manuel Mozos e este não é exceção. Digamos que são duas melancolias que se encontram sob a luz velada das tílias (de que a poeta tanto gostava) e do tempo dentro e fora das casas. A casa é uma imagem e um tema recorrente para os dois artistas. A dada altura ouvimos a poeta dizer que um exterior das casas “é tão importante como o interior” porque ela precisa de ir à janela. E muitas vezes esta obra se debruça sobre janelas invisíveis para ver a cidade ensolarada, mas na qual Sophia sofria por não ver o mar, nem “o mudar das luas”. Aqui não há a luz do meio-dia mas sempre a do alvorecer ou do sol posto, Manuel Mozos rasgou nestes dias uma janela para Sophia respirar de novo, ela que um dia escreveu: “Ressurgiremos onde as palavras são o nome das coisas”. 

in jornal Observador, 26 de Outubro de 2019

Crescei e Multiplicai-vos (2000) de Manuel Mozos



por Miguel Gomes

Adaptado de um conto homónimo de Urbano Tavares Rodrigues, Crescei e Multiplicai-vos é a única curta-metragem ficcional de Manuel Mozos à data. A matriz neo-realista do texto original, uma abordagem mais complexa de um caso de incesto entre dois irmãos adolescentes num ambiente socio-económico degradado, é transposta para o filme com uma visível resistência do cineasta. De algum modo, essa é simultaneamente a força e a fraqueza do filme. Mozos não acredita nesta ficção e manifesta-o de uma forma tão ostensiva que a validade do projecto fica remetida à resposta de uma questão que só o espectador pode dar: será consequente tentar respeitar as linhas gerais do conto num argumento cinematográfico e, depois, filmar contra o próprio argumento? 

A uma primeira visão, estamos apenas perante uma péssima ilustração de uma narrativa extremamente simples. Planos gerais do bairro da Musgueira introduzem-nos o espaço (físico e social), depois é apresentado o casal (nesta versão não tão jovem como no conto) que se desloca à igreja, seguido do encontro com o padre que enuncia o conflito dramático – pretendem-se casar mas o padre compreende que se tratam de irmãos e, chocado, não o consente. O final é deixado em suspenso, com o percurso do padre pelo interior do bairro até se aproximar da casa dos irmãos e levantar os olhos para o céu. Ora, esta é uma péssima ilustração porque segundo os parâmetros convencionais de qualquer teledramático que se preze, falta a espessura psicológica às personagens, sente-se uma rigidez extrema na interpretação dos actores e na planificação do filme e ainda, para culminar, regista-se um emprego absurdo da música que oferece um complemento extra de ridículo à ficção. E, se nos ficássemos por aqui, não restariam dúvidas que Crescei e Multiplicai-vos se tratava de um indesmentível “turkey”, momento de absoluta inépcia cinematográfica. 

Se fosse o primeiro filme realizado por Manuel Mozos, certamente o ia colocar em apuros. Como não é, e já não pode existir inocência possível para quem conhecer a obra anterior, passamos directamente para um segundo nível de leitura, mais crível embora não menos tortuoso. E se Crescei e Multiplicai-vos fosse um pequeno apontamento paródico de releitura das convenções dos telefilmes e seriados televisivos de âmbito social? Então, teriam que se inverter as premissas de análise, revertendo o que julgávamos simplesmente ridículo numa (masoquista, é certo) experimentação de humor “trash”. Por exemplo, a apresentação da menina atirando a flor em direcção ao céu surgiria como paródia aos mais descabelados genéricos de telenovelas mexicanas. E a rigidez dos corpos dos actores imitada pelo próprio dispositivo formal, alternando primariamente planos do casal e do padre à medida que cada um fala, desmonta-se através da exposição da sua auto-consciência, algures entre Manoel de Oliveira (não estaremos muito longe de algumas cenas de Party) e Takeshi Kitano. Trata-se de uma rigidez de filme burlesco, essa mesmo que sempre explorou a desadequação entre os corpos e o mundo, entre as personagens e a ficção. No fundo, estas personagens paralisadas não estão distantes das várias estátuas que pontuam em fundo na igreja ou da gravura do Cristo na casa dos irmãos. A rigidez das leis – humanas ou divinas – fica assim paradoxalmente bem mais posta em causa do que se tivesse havido um tratamento tradicional e conforme da narrativa. 

Trata-se, contudo, de um jogo perigoso, este com que Manuel Mozos se diverte e pune simultaneamente. Por um lado porque está no limite da auto-complacência, é um exercício de estilo malandreco a brincar às escondidas consigo próprio. Por outro, porque estará sempre a meio caminho entre a primeira e a segunda leitura – mesmo que o autor mantenha que esta é uma versão provisória, destinada a passagem televisiva –, é um filme que habita um desconfortável limbo entre o embaraço e a provocação, o respeito e a irrisão, os arremedos de (má) consciência e o desejo de frivolidade.

in «Manuel Mozos - Um Ponto de Vista», Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira, 2001