terça-feira, 11 de agosto de 2026

Silvestre (1981) de João César monteiro



por António Cruz Mendes
 
Em Veredas, seguindo os passos de um casal, que, a pé, percorre caminhos que vão de Trás-os-Montes até ao litoral, João César Monteiro deu-nos a conhecer lendas e contos tradicionais que fazem parte do imaginário popular. Em Silvestre, prossegue esse projecto cujo objectivo será o de tentar responder a uma questão primacial: “o que é ser português?”
 
Para isso, regressa a um passado mítico, fabulosamente medieval. As personagens dão corpo a figuras arquetípicas. O registo cinematográfico é poético e assumidamente não-naturalista. O ritmo é lento, as falas são declamadas e os enquadramentos cenográficos remetem-nos para um espaço teatral. As imagens da cena onde Sílvia nos surge com o dragão e o cavaleiro citam o quadro de Paolo Uccello, São Jorge e o Dragão.
 
A narrativa inspira-se em dois contos tradicionais. Em “A Mão do Finado”, três jovens, deixadas sozinhas em casa pelo seu pai, um mercador, são assediadas por uma quadrilha de ladrões. A mais velha deixa-se enganar por um deles, disfarçado de fidalgo, mas a mais nova desmascarara-o e tranca-lhe as portas da casa. Em “A Donzela vai à guerra”, um fidalgo vê-se impedido de corresponder ao pedido de ajuda militar do seu Rei por não ter nenhum filho varão. Mas uma das suas filhas, disfarçada de homem, apresta-se a defender a honra da família. João César Monteiro conjuga as duas histórias e oferece-lhes um pano de fundo onde, mais uma vez, se fundem o mito e os costumes populares.
 
Obediência e rebeldia são aquilo que está em questão. Numa sociedade patriarcal, Sílvia obedece cegamente à vontade do pai, que pretende casá-la com um lavrador rico, mas boçal. Porém, desobedece-lhe quando franqueia as portas da sua casa a um peregrino, desencadeando com isso uma cadeia de terríveis consequências. Redime-se quando, ultrapassando as limitações impostas pela sua condição feminina, assume a personalidade de Silvestre e se incorpora no exército do rei.
 
O apelo do sexo e a condição feminina estão sempre presentes. Na violação de Susana pelo peregrino, nas conversas dos soldados, até mesmo na cena onde Silvestre se vê constrangido a escolher uma mulher como amante. A submissão da mulher ao homem pode parecer inquestionável, mas a história de Sílvia mostra que não tem de ser assim. Afinal, é uma mulher emancipada aquela que expulsa da sua casa o peregrino violador, que foge da casa do cavaleiro que deveria ter como marido e que, finalmente, pode ter descoberto o amor com o alferes do exército onde se incorporou.
 
Contudo, as cenas finais do filme não permitem uma conclusão simplista, uma mera vitória do Bem sobre o Mal. As últimas palavras do Fidalgo, última figuração do Peregrino e do Cavaleiro, a quem Susana se refere como uma encarnação do Demo, dirigem-se a Sílvia: “Meu amor”. Qual seria, afinal, a razão da sua incansável perseguição?
 
E quando, morto o Peregrino / Cavaleiro / Fidalgo, Susana convida Sílvia para festejar a sua vingança (“Estou a comer. Vem, vem ver a mão, a cara os olhos. Se tardas só achas as ossadas”), esta replica: “Deixa-me. Agora estou sozinha dentro das estrelas”. Silvestre é a vegetação bravia, que nasce sem ser semeada. As experiências por que passou não lhe permitem regressar simplesmente à antiga ordem das coisas.
 
O filme termina ao som do trio de Schubert. Sílvia retira-se da mesa onde se reuniam o Rei e os seus convidados e a sua imagem funde-se com uma visão do céu estrelado
 
 
 

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