sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Veredas (1977) de João César monteiro



por Laura Mendes
 
Veredas é fabricado – utilizando a expressão do seu realizador – num espaço poético, onde a vastidão das paisagens portuguesas não são mais do que a possibilidade infinita de caminho. Um caminho não necessariamente em linha reta (ainda que se adivinhe no mesmo uma viagem que parte de Trás-os-Montes, prolongando-se até ao Alentejo), já que João César Monteiro confunde propositadamente as suas veredas numa mescla de passado, presente e futuro. É, ainda assim, do abraço das mais remotas tradições que partimos, de uma ancestralidade que nos soa perdida mas que incita à busca de um futuro em construção.
 
Surgido num momento da história de Portugal – o pós-25 de abril – em que redefinição é palavra-chave, encontramos neste filme o olhar atento para uma tal identidade que o cineasta quer expandida e múltipla – as referências ao texto de Ésquilo, complementares aos contos tradicionais portugueses, parecem para aí apontar – mas, acima de tudo, reivindicadora e questionadora. Este (novo) cinema de paciência, contemplação e não-linearidade difere em muito da telenovela de que João César Monteiro falava em tom satírico, dando lugar à alucinação e libertação do espectador, ao mesmo tempo direcionando-o para as suas preocupações: o território, as pessoas e as vivências de um Portugal fragmentado, inconsciente.
 
A confluência de signos – tal como o fogo e a água dos quais Benárd da Costa já falava – não nos direciona, contudo, para um significado estático desta história ou do que é o Portugal de Veredas, mas para uma linguagem da absorção e da imanência, que circula num espaço mitológico, em simultâneo convivendo com o do comum, do que labora, com os imaginários populares – que se revelam esquecidos e obscurecidos. Em especial, realçamos o episódio em que Atena conversa com um grupo de mulheres, atribuindo-lhes a soberania de uma nova terra – mitologia e história convergem, em tom de anunciação.
 
No entanto, a passagem de um (não-)tempo para a atualidade concreta (os anos 70 em Portugal), de uma ruralidade distante e nómada para o habitáculo moderno dos donos da terra, traz consigo um claro comentário político em torno da opressão, da diferença estabelecida entre quem trabalha e quem manda trabalhar.
 
Não obstante, a continuidade das etéreas histórias de amor, a permanência da figura íntima do Pai maligno – que depois se abre para a figura abrangente, pública, do Patriarca opressor – transformam este filme num poema trans-histórico, que une vários tempos inomináveis num único, que é o do cinema.
 
Um ecossistema em si, que vive do diálogo que cria consigo próprio, mais do que com qualquer outro elemento ou significado alheio, Veredas tece uma possibilidade de história(s) por contar, coloca em cena os interstícios do oculto português, alinhando-o com a emergência de novos tempos. O seu final, que não deixa de lado a provocação, fala-nos da perpetuidade, de uma eterna irresolução e, por consequência, procura: um nascimento em branco, uma vereda sem destino, será sempre o que nos espera.
 
 
 

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