segunda-feira, 31 de agosto de 2020
173ª sessão: dia 3 de Setembro (Quinta-Feira), às 21h30
quinta-feira, 30 de julho de 2020
El Bruto (1953) de Luis Buñuel
«Há uma relação peculiarmente íntima entre os mexicanos e as suas armas. Um dia vi o realizador Chano Urueta no plateau a realizar uma cena com uma Colt .45 ao cinto.“Nunca se sabe o que é que pode acontecer,” respondeu ele casualmente quando lhe perguntei porque é que precisava de uma arma no estúdio.
Noutra ocasião, quando o sindicato exigiu que a música para Ensayo de un crimen fosse gravada, chegaram trinta músicos ao estúdio num dia muito quente, e quando tiraram os casacos, quase três quartos deles estavam com armas em coldres de ombro.”
O escritor Alfonso Reyes também me contou da altura, no início dos anos 20, em que foi ver Vasconcelos, então Secretário da Educação Pública, para um encontro sobre tradições mexicanas.
“Tirando eu e tu,” disse-lhe Reyes, “toda a gente aqui parece ter uma arma!”
“Fala por ti,” respondeu Vasconcelos calmamente, abrindo o casaco a revelar uma Colt .45.
Este “culto das armas” no México tem incontáveis adeptos, incluindo o grande Diego Rivera, que me lembro de um dia sacar da pistola e apontar indolentemente aos camiões que passavam. Também havia o realizador Emilio “Indio” Fernández, que fez María Candelaria e La perla, e que acabou na prisão por causa do seu vício pela Colt .45. Parece que quando regressou do Festival de Cannes, onde um dos seus filmes tinha vencido o Prémio para Melhor Fotografia, concordou em receber alguns repórteres na quinta dele na Cidade do México. Enquanto eles estavam sentados a falar sobre a cerimónia, Fernández começou de repente a insistir que, na verdade, e em vez do Prémio de Fotografia, tinha sido o Prémio para Melhor Realização. Quando os jornalistas protestaram, Fernández pôs-se de pé num salto e gritou que lhes ia mostrar os papéis para o provar. Assim que deixou a sala, um dos repórteres suspeitou que ele não tinha ido buscar os papéis, mas sim um revólver—e fugiram todos a sete pés assim que Fernández começou a disparar de uma janela do segundo andar. (Um até foi ferido no peito.)
No entanto, a melhor história foi-me contada pelo pintor Siqueiros. Aconteceu perto do final da Revolução Mexicana quando dois oficiais, velhos amigos que tinham estudado juntos na academia militar mas que combateram em lados opostos, descobriram que um deles era prisioneiro e ia ser baleado pelo outro. (Só os oficiais é que eram executados; os soldados normais eram perdoados se concordassem em gritar “Viva” seguido do nome do general vencedor.) À noite, o oficial deixou o prisioneiro sair da cela para poderem beber um copo juntos. Os dois homens abraçaram-se, brindaram, e desataram às lágrimas. Passaram a noite a recordar os velhos tempos e a chorar pelas circunstâncias impiedosas que tinham determinado que um fosse o carrasco do outro.
“Quem é que podia imaginar que um dia te ia ter de matar?” disse um.
“Tens de cumprir o teu dever,” respondeu o outro. “Não há nada que se possa fazer.”
Vencidos pela ironia hedionda da sua situação, ficaram bastante bêbados.
“Ouve, amigo,” disse finalmente o prisioneiro. “Talvez me possas conceder um último desejo? Quero que sejas tu, e apenas tu, o meu carrasco.”
Ainda sentado à mesa, e com os olhos cheios de lágrimas, o oficial vitorioso acenou com a cabeça, sacou da arma, e matou-o no local.»
segunda-feira, 27 de julho de 2020
172ª sessão: dia 30 de Julho (Quinta-Feira), às 21h30
Na sua folha da Cinemateca sobre o filme, João Bénard da Costa diz-nos que "filmado em Março de 1952, em 18 dias, El Bruto (com Gran Casino, La hija del engaño, Una Mujer sin Amor, La Ilusión viaja en tranvia e El Rio y la Muerte) faz parte do lote de seis filmes só distribuídos na Europa em 66 e geralmente considerados menores, ou, como Buñuel gostava de os classificar "alimentares". Faz parte também do lote de filmes de que Buñuel sempre disse muito mal.
Até Quinta-Feira!
sexta-feira, 24 de julho de 2020
Una mujer sin amor (1952) de Luis Buñuel
por Alexandra Barros
quarta-feira, 22 de julho de 2020
171ª sessão: dia 23 de Julho (Quinta-Feira), às 21h30
No seu livro sobre Luis Buñuel, Bill Krohn escreve que "La hija del engaño foi feito tão rápido que Buñuel estava limitado a rodar apenas certos ângulos porque o cenário não tinha sido terminado, mas para Una mujer sin amor (1951), baseado no romance de Guy de Maupassant, Pierre et Jean, ele tinha cenários bastante elaborados. Mais tarde chamou a este o seu pior filme, indicando que tinha altas esperanças para ele, que foram provavelmente as que Maupassant expressa na sua introdução: mostrar como se ama, como se odeia e luta em cada meio social, e as lutas dos interesses burgueses - interesses de dinheiro, família e política.
"Rosario Granados é a protagonista como Rosario, a bela mulher de Carlos Montero (Julio Villareal), um antiquário que é, também ele, um bocado como uma antiguidade. Quando o filho Miguel (Xavier Loya) foge de casa, um engenheiro elegante, Julio Mistral (Tito Junco), trá-lo de volta. Julio torna-se o amante de Rosario mas ela recusa-se a partir com ele. Anos mais tarde, Miguel e o irmão Carlos, Jr. (Joaquín Cordero) tornam-se inimigos quando Julio morre numa terra longínqua e deixa a sua fortuna a Carlos, Jr. Consumido de inveja, Miguel descobre que Carlos, Jr. era o filho de Julio. Depois da morte de Carlos, Rosario diz aos filhos que viveu uma vida sem amor pelo bem deles. Reconciliado com ela e com o irmão, Miguel parte para uma terra distante."
Na sua folha da Cinemateca sobre o filme, João Bénard da Costa escreveu que "de todos os filmes de Buñuel (ou, pelo menos, dos que assinou) Una Mujer Sin Amor, segunda produção de 1951 (cf. ficha sobre La Hija del Engaño) e segundo filme produzido por Kogan (a inolvidável Susana foi o primeiro), é sem dúvida o menos conhecido e o menos comentado. Foi a única obra de Buñuel que não teve distribuição comercial fora do México (nem sequer em 1966, quando, como noutras fichas já disse, se trouxeram à Europa todos os seus filmes mexicanos que em devido tempo não ultrapassaram as fronteiras do país de origem).
"Até aos anos 80, as suas apresentações públicas fora do México, limitaram-se a retrospectivas em Cinematecas e festivais. Só nesta década, a partir de uma cópia conservada, (o negativo ardeu no incêndio da Cinemateca Mexicana em 1982) o filme foi mais divulgado.
"Graças a Deus, diria Buñuel em dias de invocar o Altíssimo para tais coisas. Porque mais ainda do que outros "filhos" mal-amados, sempre disse "cobras e lagartos" desta obra, «sem dúvida o meu pior filme», escreveu nas memórias. Dessa opinião parecem comungar os comentadores que o viram. La Colina e Turrent na tão citada entrevista, dizem-lhe «é o único dos seus filmes em que não encontrámos nada que se salvasse». E Buñuel responde: «Nem eu»."
Na mesma folha, há uma longa citação de um comentário de Agustina Bessa-Luís ao filme, publicado no Diário de Notícias a 19 de Fevereiro de 1990, em que a escritora confessa que "eu sou uma espectadora atenta, se não obrigada, de Buñuel, não me corresse nas veias um pouco daquele sangue judeo-mourisco que se deleita no melodrama. O filme, que ele repudia abertamente, Uma Mulher Sem Amor, passou na televisão para um público desinteressado e que decerto não aluga material de vídeo para perder tempo com aquelas histórias soníferas da burguesia. Buñuel não quis, ou não pôde, retirar Maupassant de cena. É dele a narrativa, e permanece dele a denúncia da hipocrisia quase fútil que desliza como água corrente ao longo dum enredo apresentado, e duma cenografia sem recursos. A figura da mulher, que Maupassant considera sempre objecto de desejo e insuportável quanto ao resto, está admiravelmente descrita. Ela não é nada para complexidades e aventuras, quer as coisas como estão e aspira a uma situação que instaure a hipocrisia como vacina contra a realidade. "Toda a merda do estúpido sentimentalismo" que Buñuel usa nos filmes finge ser uma lição moral e deixa perceber a perversidade que a cultura não aniquila nem vence. Esse homem que bebia o seu dry martini, reflectindo amargamente sobre as vantagens da cultura e do dinheiro! Mas o dinheiro e a cultura estão, na sociedade estabelecida (e não há outra), como compensação do Eros impossível. É nos supostos maus filmes de Buñuel que se verifica a "heroicidade" do dinheiro como uma resistência à desordem infernal do desejo humano. O marido de Rosário sabe que não a pode conservar senão produzindo nela o estado de culpa e chamando-a à obrigação do adultério. Para isso serve-se do primeiro recém-chegado como duma inspiração. Tudo é precipitado mas não sem arte; simula chegar tarde, quando chega, grita de longe a avisar, para dar tempo a que tudo se organize a favor da inocência aparente. A aparência é o que conta; os sentimentos jogam nesse sentido. São fórmulas, pequenas e complicadas vias do que é conveniente, justo e saudável. Rosário é uma "chata", aquela a que na permanência da vida doméstica os homens acabam por ajudar-se. Sempre de cara torta, sempre a defender o filho que, por sua vez, se torna mimalho e ressentido, ela personifica a esposa jovem e bonita que se julga mal empregada com o marido mais velho e homem de negócios inveterado. Os negócios estão na mente dele como uma esponja que absorve o medo das paixões e das suas consequências funestas. É preferível sacrificar a honra e ceder a essa engrenagem que permite uma felicidade óbvia, aplaudida pela comunidade."
Até Quinta!
domingo, 19 de julho de 2020
La hija del engaño (1951) de Luis Buñuel
por Alexandra Barros






