domingo, 9 de novembro de 2025

422ª sessão: dia 11 de Novembro (Terça-Feira), às 21h30



Esta terça, INTERVENÇÃO DIVINA de Elia Suleiman no Lucky Star – Cineclube de Braga

Durante o mês de novembro, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta o ciclo “Palestina Livre: O Cinema como Resistência”, dedicado a quatro obras fundamentais do cinema palestiniano contemporâneo. De diferentes épocas e gerações, estes filmes partilham uma mesma urgência: a de pensar o território, a memória e a sobrevivência cultural de um povo que resiste através da imagem. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, 11 de novembro, o ciclo prossegue com Intervenção Divina (2002), de Elia Suleiman, um dos filmes mais emblemáticos do cinema palestiniano. Neste filme, Suleiman constrói uma sátira política sobre o dia-à-dia em Jerusalém, Nazaré e Ramallah, sob ocupação israelita. O realizador apresenta episódios fragmentados do quotidiano: controlos militares, vizinhos desconfiados e uma relação de amor impossível entre um homem de Nazaré e uma mulher de Ramallah, separados por um posto militar. Em suma; histórias que revelam o absurdo e o peso da opressão e do conflito. 
 
Intervenção Divina conquistou o Prémio do Júri em Cannes (2002) e o Prémio da Crítica Internacional (FIPRESCI), sendo o primeiro filme palestiniano a ser distinguido com prémios principais neste festival. Reconhecido ainda em Toronto, Chicago e Valladolid, consolidou Suleiman como uma das vozes mais originais do cinema do Médio Oriente. O próprio cineasta, que interpreta uma versão ficcional de si mesmo, inscreve o filme na tradição do burlesco, lembrando Jacques Tati e Buster Keaton, para abordar a alienação e o absurdo do presente.

Nascido em Nazaré em 1960, Elia Suleiman é uma figura central do cinema palestiniano. A sua obra, que inclui: Crónica de um Desaparecimento (1996), O que Resta do Tempo (2009) e O Paraíso, Provavelmente (2019), combina humor, minimalismo formal e crítica política, explorando o exílio e a identidade nacional com uma linguagem visual própria. Com Intervenção Divina, Suleiman propõe um retrato tragicómico da Palestina contemporânea, um território onde a violência e o amor coexistem e onde o gesto poético é, por si só, um gesto político.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça-feira!

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Fertile Memory (1981) de Michel Khleifi



por Jessica Sérgio Ferreiro
 

O ciclo de cinema “Palestina Livre: O Cinema como Resistência” propõe um olhar sobre a vida, a memória e a resistência de um povo através das suas próprias imagens. Maioritariamente através do documentário, mas também da ficção, estes filmes revelam histórias de perda e de pertença, de quotidianos sob ocupação e de gestos que afirmam o direito a existir no seu próprio território. Propomos, assim, um ciclo plural (filmes de 1980 a 2024) de um território sob jugo colonial, onde o cinema se torna espaço de memória, expressão e sobrevivência.

 Realizado em 1980, Fertile Memory é o primeiro filme integralmente rodado na Palestina e um dos marcos inaugurais do cinema palestiniano. O filme foi restaurado e digitalizado pela CINEMATEK da Bélgica em 2023, permitindo a exibição deste, décadas depois da sua estreia. Em Fertile Memory, Michel Khleifi mostra o quotidiano feminino como lugar de resistência. Através de duas histórias paralelas, o realizador compõe um retrato político de um país dividido e de uma identidade em exílio permanente, a partir do retrato de duas mulheres palestinianas de gerações e condições sociais distintas: Farah e Sahar, entrando, ainda, em cena outras mulheres que fazem parte do espaço familiar destas personagens.

Farah, cuja família foi expropriada após a ocupação israelita, é uma viúva, já idosa, obrigada a trabalhar numa fábrica após a perda das suas terras. As suas memórias do passado e as lembranças da perda coexistem com a rotina, refortalecendo a sua obstinação em resistir às pressões israelitas para que “troque”, ou melhor, abandone a sua casa familiar. Sahar, por sua vez, é escritora e professora em Ramallah, confrontada com as limitações impostas pela ocupação e com as tensões próprias do seu tempo, onde tradição, moral e emancipação se entrecruzam em permanente conflito.

Estas duas personagens femininas (uma ancorada no passado, outra projetada no futuro), impelem-nos a reflectir sobre o tempo e o espaço, a memória e o corpo presente como territórios de resistência sob ocupação colonial, revelando, ainda, as tensões entre género, classe e identidade. Em suma, através destas duas figuras, Khleifi aborda simultaneamente a condição feminina e a experiência coletiva da ocupação. Ambas enfrentam opressões múltiplas: a violência externa do poder israelita, a rigidez patriarcal da sociedade e os conflitos interiores de quem procura resistir e existir com dignidade.

O realizador alterna entre o registo documental e a encenação, explorando o modo como o quotidiano (descascar legumes, apanhar o autocarro, cuidar da casa e dos mais novos, cantar) se transforma num acto cultural e de resistência. As imagens tornam-se, assim, um espaço de inscrição e preservação da memória. Através da imagem, o filme regista as práticas, a tradição oral e a cultura material de um povo, visíveis no quotidiano, nos espaços domésticos das personagens, nas arquitectura dos bairros, afirmando a existência da Palestina, da sua história e da sua cultura. Apesar da diversidade religiosa e social que o compõe, é na sua heterogeneidade e nas diversas práticas culturais que o povo palestiniano se reconhece e existe.

A narrativa é fragmentária, composta por planos longos, por gestos e silêncios. O filme avança entre o documental e o encenado, privilegiando a imagética. A câmara detém-se nos rostos, nas mãos, nos campos, nas casas; observa o quotidiano devagar para poder gravá-lo na memória. A ausência de narração imposta permite que as imagens falem por si, revelando um povo cuja vida continua, apesar do cerco e da violência. Cada gesto quotidiano, demarca a presença palestiniana, uma cultura. Em cada prática, a história de um povo, situado em legítimo território. Os objetos que decoram a casa, os retratos dos familiares (alguns desaparecidos, outros exilados), as hortas cultivadas, os pratos cozinhados em grupo, as relações de vizinhança, os instrumentos musicais que acompanham as canções tradicionais, a palavra escrita e declamada por Sahar, são as provas da presença palestiniana, em contraposição à “Lei dos Ausentes”, ditada e imposta pelo governo israelita, que legitima a expulsão dos palestinianos das suas casas e terras.

Mais do que provar a existência e legitimidade de um povo, Khleifi restitui humanidade e “normalidade” à Palestina, filmando-a de dentro, a partir dos espaços domésticos e seus quotidianos. As mulheres são personagens principais, tidas aqui como depositárias da memória e da terra. O título Fertile Memory (Memória Fértil) é tanto uma alusão à fertilidade agrícola quanto à capacidade do pensamento e da memória gerar um futuro. Como referido por Stoffel Debuysere[1], o próprio Khleifi disse que o filme foi feito “para as mulheres da Palestina, e através delas, para a Palestina”. Mais do que um retrato, é um gesto de restituição: dar corpo e voz àqueles que a História tende a marginalizar. Debuysere relembra, ainda, a dimensão ficcionada e utópica que Edward Said denotou ao analisar Fertile Memory: a imagem de Farah a pisar novamente a sua terra, com os braços abertos, é um momento de reconciliação imaginária entre o indivíduo e o território, uma ligação que a ocupação tenta apagar, mas que o cinema reinscreve. Ao centrar-se no olhar feminino e na terra como símbolos da identidade palestiniana, Khleifi inaugura uma nova fase do cinema do país: um cinema da diversidade e da experiência vivida, que rejeita a imagem homogénea e/ou convencionada da nação e expõe as suas contradições e conflitos internos.

A leitura do filme à luz da teoria da necropolítica de Achille Mbembe[2] permite compreender o modo como Khleifi traduz, em termos visuais, as políticas da vida e da morte que estruturam o quotidiano palestiniano. Mbembe define a necropolítica como o poder soberano de decidir quem pode viver e quem deve morrer, um poder que, no contexto colonial e de ocupação, se manifesta na gestão da violência, no confinamento e na precarização da vida através de biopolíticas que, algumas de forma mais subtil e outras de forma mais violenta, pretendem gerir as populações.

Em Fertile Memory, a ocupação não é mostrada através de combates ou confrontos, mas pela administração/gestão (biopolítica) da existência: perda de terra, o acesso aos terrenos para a agriculturas e recursos essenciais, ausência de mobilidade, o arame farpado que acompanha os checkpoints, a lenta erosão da liberdade. A necropolítica aparece aqui como uma força invisível que organiza, ou perturba, o quotidiano e molda o tempo das personagens. No entanto, Khleifi responde a essa política da morte com imagens de vida. O simples acto de cuidar, trabalhar ou lembrar adquire uma dimensão política. Através do cinema, Khleifi reivindica, através da imagem, o direito de existir e de ser visto fora da lógica da violência. Assim, Fertile Memory não é apenas um testemunho histórico, é uma contra-imagem à necropolítica: um filme que faz da sobrevivência um acto de resistência  da memória uma forma de vida. 

 

[1] www.avilafilm.be/en/film/fertile-memory

[2] Mbembe, Achille (2019 [2016]). Necropolitics. Duke University Press.

 

 

Folha de Sala 

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

421ª sessão: dia 4 de Novembro (Terça-Feira), às 21h30


Esta terça, “Fertile Memory” de Michel Khleifi no Lucky Star – Cineclube de Braga

Durante o mês de novembro, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta o ciclo “Palestina Livre: O Cinema como Resistência”, dedicado a quatro obras fundamentais do cinema palestiniano contemporâneo. De diferentes épocas e gerações, estes filmes partilham uma mesma urgência: a de pensar o território, a memória e a sobrevivência cultural de um povo que resiste através da imagem. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, 4 de Novembro, o Lucky Star – Cineclube de Braga inaugura o ciclo com a exibição de Fertile Memory (1981) ou Memória Fértil, de Michel Khleifi, o primeiro filme inteiramente rodado na Palestina. 
 
Através do registo documental e da construção ficcional, Khleifi filma o quotidiano de duas mulheres de gerações distintas (uma viúva e uma escritora) que vivem sob a ocupação israelita. Farah, viúva, luta pela posse das suas terras confiscadas e Sahar, escritora, procura afirmar-se num meio patriarcal. Assim, Khleifi revela neste filme como o político se inscreve no íntimo e no corpo.

Realizado com poucos recursos, o filme destacou-se pela sua força poética e pelo olhar humanista que rompe com a visão estereotipada da Palestina como mero cenário de conflito. Ao filmar o gesto quotidiano sob uma perspectiva feminina, Khleifi inaugura uma estética que alia resistência e sensibilidade, tornando a memória um verdadeiro território de afirmação.

Michel Khleifi, nascido em Nazaré em 1950, é um dos nomes fundadores do cinema palestiniano moderno. Estudou cinema na Bélgica, onde se radicou, e foi a partir dessa distância que encontrou o espaço para revisitar a sua terra natal com um olhar de quem observa e recorda. O seu trabalho influenciou toda uma geração de cineastas palestinianos e árabes, entre eles Elia Suleiman e Annemarie Jacir.

Apresentado em vários festivais internacionais, tal como Cannes e de Gent, entre outros, Fertile Memory foi amplamente reconhecido pela crítica e hoje é considerado um marco histórico do cinema político e feminista do Médio Oriente. Em 2023, o filme foi restaurado e digitalizado pela Cinematek da Bélgica, permitindo o regresso às salas desta obra seminal, cuja actualidade permanece urgente.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!


quinta-feira, 30 de outubro de 2025

As Fado Bicha (2024) de Justine Lemahieu


por Estela Cosme
 
À primeira vista, nada sobre o fado é revolucionário. Intrinsecamente apelidado de tradição centenária, é difícil de imaginá-lo fora das casas de fados habituais, sem as convenções predefinidas que o acompanham, sem as amarras que o atam ao passado. Até que um dia o fado seguiu-se com a palavra “bicha”, e as nossas suposições foram postas em causa. Tudo graças ao poder e ao talento do duo Fado Bicha (ou As Fado Bicha), composto por Lila Fadista e João Caçador, cujo projeto demonstra que o revolucionário tem sempre origem no tradicional, pois só depois de olhar ao que já existe é que podemos criar algo novo. E por muito que possa incomodar aos mais conservadores, o que brilha tem sempre o seu lugar na ribalta (e no "zeitgeist" cultural português).
 
Mas o que este grupo tem de revolucionário não é só consequência dos elementos visuais arrojados, embora estes dissolvam a tradicional binariedade de género. Para além de cantarem sobre histórias e experiências da comunidade LGBTQIA+, o revolucionário existe também devido à vulnerabilidade que tanto João como Lila incutem àquilo que tocam e cantam. Porque não existe algo mais vulnerável que a verdade, coisa que o duo transmite com clareza e com compromisso sempre que pisam os palcos. O documentário As Fado Bicha vai ainda mais longe e mostra-nos que essa veracidade existe porque é o espelho da honestidade a que assistimos nos camarins. Quer se estejam a maquilhar a si próprios, ou a maquilhar-se um ao outro, Lila e João demonstram uma franqueza que só se poderia capturar num novo tipo de fado. E por isso o tiveram que reinventar.
 
Este novo fado pode não agradar aos saudosistas e aos tradicionalistas. A mudança é inimiga da preservação, mas só com ela é que pode haver uma evolução do género musical e da nossa cultura. “Não há mudança sem desconforto” afirma João Caçador no documentário, defendendo que o trabalho da banda é necessário para que o fado evolua para novas formas de se expressar, e para ter novas coisas que expressar também.
 
A música não existe num vácuo e deve moldar-se aos ventos de mudança que existem na sociedade portuguesa. Abrir as portas do fado a questões emergentes de identidade, de sexualidade e de expressão não só enriquece o género como traz um novo público que o quer ouvir e aplaudir. Num mundo em que nos encostam à parede para sermos quem querem que nós sejamos e não quem realmente somos, o fado não é só destino e passado. O fado é ação e mudança também. E se algo está mal, muda-se. 
 
 
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Tornar-se Um Homem na Idade Média (2022) de Isadora Neves Marques



por António Cruz Mendes
 
O que é “natural”? O tema do filme de Isadora Neves Marques é introduzido pelas imagens da perplexidade de André face a um pedaço de carne produzida a partir das células estaminais de um mamífero. Para que esse bife existisse, nenhum animal foi morto. Mas, pode-se comer? É essa carne “natural”?
 
André deseja ser pai, mas os seus espermatozoides não se revelam suficientemente “competentes” para engravidar Mirene, e Vicente quer ser mãe de um filho de Carl. No caso das situações abordadas pelo filme, os “papéis” tradicionalmente atribuídos aos homens e às mulheres, habitualmente representados pelos símbolos não parecem adequados. Um homem pode não poder ser pai e uma mulher pode não ter um útero. Porém, esses “papéis”, o da paternidade e o da maternidade, podem ser assumidos à revelia das noções tradicionais de sexo e de género.
 
A habitual associação de sexo e género foi há muito tempo questionada por Simone de Beauvoir que, fiel ao princípio da filosofia existencialista que nos diz que “a experiência precede a essência”, afirmou, em O Segundo Sexo, que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Beauvoir inspirou a chamada “2ª onda” dos movimentos feministas, defendendo que a mulher, não possui uma essência determinada pela biologia, mas está “condenada à liberdade”. Poderá sempre aceitar ou recusar o papel que lhe foi prescrito pelas ideias dominantes na sociedade onde nasceu. Só por “má-fé” se pode escusar da responsabilidade de decidir acerca da sua própria vida. No filme, nem Carl, nem Mirene se revelam particularmente interessados em tornarem-se pai ou mãe. Aceitam essa possibilidade apenas por decidirem aceder à vontade dos seus companheiros.
 
O caso de Vicente é diferente e remete-nos para as ideias de Judith Butller acerca de sexo e género. A filósofa americana recusa a distinção entre uma ideia de sexo, que nos remete para o corpo, e uma ideia de género, que nos envia para normas e papéis sociais, ideia que se encontra ainda presente em Simone de Beauvoir, e considera que também o sexo é uma realidade ambígua, fluída e susceptível de variações. Demonstram-no os exemplos de pessoas transgénero, transsexuais ou não-binárias. Ou seja, também a definição de sexo, no entender de Judith Butller, não é neutra, mas resulta de um discurso ideológico que pode e deve ser desconstruído.
 
Todas estas questões perpassam em Tornar-se homem na Idade Média. Há uma obra da artista norte-americana Barbara Kruger onde se lê: “Your body is a battleground”. Essa batalha é travada entre diferentes sujeitos políticos e culturais. Vicente, Carl, André e Mirene enfrentam-na de forma lúcida e autodeterminada. Porém, não o fazem com alegria. Um sentimento de melancolia atravessa todo o filme, que termina com imagens de um mar revolto que se estende até ao infinito. 
 
 
 

domingo, 26 de outubro de 2025

420ª sessão: dia 28 de Outubro (Terça-Feira), às 21h30


Esta terça, cinema duplo no Lucky Star – Cineclube de Braga e os Encontros da Imagem

De 23 de setembro até ao final de outubro, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta, em parceria com os Encontros da Imagem, um ciclo de oito filmes com sessões às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. Sob o tema Manifestação de Interesse, a edição de 2025 abre espaço à diversidade de linguagens visuais, explorando as transformações sociais, a memória e noções de identidade. Neste espírito, o cineclube junta-se ao programa com uma seleção que dialoga directamente com a proposta do festival. 

Na próxima terça, 28 de outubro, às 21h30, o Cineclube de Braga propõe dois olhares singulares sobre o corpo, a identidade e as formas de resistência contemporânea. Tornar-se Um Homem na Idade Média, de Isadora Neves Marques, e As Fado Bicha, de Justine Lemahieu, aproximam-se no modo como interrogam a norma e as fronteiras do género, transformando o cinema num espaço de reflexão e de liberdade. Justine Lemahieu estará presente na sessão.

Em Tornar-se um Homem na Idade Média, a trama segue dois casais: Mirene e André, Carl e Vicente; que enfrentam desafios relacionados com a fertilidade e o desejo de gerar um filho biológico. O filme reflete sobre a reprodução, a parentalidade e a tecnologia, questionando os limites entre o natural e o artificial. 

Já em As Fado Bicha, Justine Lemahieu segue o duo Lila Tiago e João Caçador, que reconfigura o universo tradicional do fado a partir de uma perspetiva queer e feminista. O documentário acompanha o percurso artístico e pessoal da banda, mostrando como a sua performance subverte convenções e dá voz a novas formas de expressão. Ao cruzar entrevistas, ensaios e atuações, Lemahieu revela o poder do fado como território de resistência e reinvenção. 

Tornar‑se um Homem na Idade Média participou no International Film Festival Rotterdam em 2022, onde foi premiado. O filme As Fado Bicha integrou a Selecção Oficial no IndieLisboa e no Festival Internacional de Cinema Queer Porto. Ambos os filmes, apesar de distintos nas formas, afirmam o cinema como espaço de transformação, onde o corpo e a arte se tornam instrumentos de emancipação e de criação de novas narrativas possíveis.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça-feira!