por Laura Mendes
Em Sans Soleil, a imagem efabulada substitui a memória; o cinema,
tal como Chris Marker o concebeu, toma o lugar da História. Cartas
vindas de toda a parte refazem um mundo que se aproxima, mas cujas fronteiras
estão ainda separadas pelo tempo, pelo
esquecimento, pela tragédia. Uma subjetividade múltipla – que se nos revela
tanto por intermédio de uma narradora feminina como através das imagens que
capta e manipula –, entendemos Sandor Krasna como uma figura
alienígena, inidentificável, que nos fala do passado com a melancolia de uma
ainda fresca derrota, mas que nos deixa espreitar o futuro
assente numa esperança em constante mutação, mostrando-nos possibilidades de reconfiguração do que é viver, lembrar,
observar.
Ao mesmo tempo que surge esse presságio de um novo mundo
total, onde as imagens são aliadas contra as narrativas dominantes
(ocidentais), contra o marasmo pós-colonial, Krasna desvela os desconhecidos
povos embrenhados no quotidiano, os pequenos ritos e olhares de vidas
invisíveis e anónimas. Ritmos, expressões, dádivas do dia-a-dia – a
banalidade, como lhe chama – são os pilares desta
construção imaginária que submete o mundo às suas próprias ordens, procurando
nas mais pequenas coisas os resquícios do que já foi, as
ligações extintas que urge retraçar, re-compreender. Japão, Cabo Verde, Guiné-Bissau, aceleração tecnológica e
resistência mísera, a montagem que une estes lugares revela a antítese transformada
em consciência visual, a experiência transformada em mapa mental cinemático, até que surge
a autonomia do olhar, a edificação de uma (contra-)identidade
mundial onde o retrato do poder é transformado na reivindicação do retrato
pessoal, partilhado com o coletivo, dando a conhecer a
fragmentação aos dois inerente.
A propositada mistura que envolve esta conceção de
viagem-documento acaba a refletir a condição
pós-moderna de não pertença, de dúvida, dado o confronto com verdades estilhaçadas. Ainda
assim, estamos perante, simultaneamente, uma utopia de libertação, neste
exercício de expressão que, ao sê-lo, na sua forma e matéria, constitui já a esperança e o trabalho de luta
contra a marcha veloz de uma História cada vez mais difícil de agarrar e apreender. A ferida profunda deixada
pela derrota dos movimentos revolucionários dos anos 60 subjaz a este filme, porque se é
verdade que o tom místico de Sans Soleil remete para uma
complexidade transcendente e, por vezes, incompreensível, também o é que as
causas de um mundo inflamado, dividido e opressor não são apontadas ao vazio,
mas às
mãos dissimuladas e implacáveis que regem o consumo, a aceleração, o crescimento desmedido.
As imagens experimentais, proféticas, possíveis de
encontrar na Zona, e creditadas a Hayao Yamaneko, recusam a
pretensa ideia de uma realidade clara, compreensível enquanto verdade, a mesma
ideia que os media perpetuam e disseminam. Longos momentos são dedicados
à televisão, ao fascínio luminoso que provoca e atrai, à capacidade de moldar não só tudo o que a rodeia, mas a mente de
quem consome os seus frutos. O cinema, no entanto, e
nomeadamente o cinema autoral, alia-se aqui ao potencial subversivo da tecnologia, à possibilidade de mistura e colagem que
rejeita uma universalidade linear, antes priorizando o olhar atento, transtemporal, de
exploração e desafio.
É, por fim, aqui que
descobrimos a força ativa da memória, manipulada para ser feita palpável e
alucinante, sequência de vida
em imagens, em que o tempo do mundo se alinha com o tempo do cinema, início e
fim indistinguíveis.

Sem comentários:
Enviar um comentário