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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

AMOR FATI (2020) de Cláudia Varejão



por António Cruz Mendes
 
A filosofia estoica, tal como é desenvolvida nas obras de Epicteto, Séneca e Marco Aurélio, particularmente influente no mundo romano, assenta numa concepção do universo marcada por um forte determinismo: todos os acontecimentos se integram numa ordem causal necessária e a felicidade depende da nossa capacidade de distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não podemos controlar, aceitando este último sem perturbação. Esta ideia encontra um paralelo no conceito nietzschiano de amor fati, ou «amor ao destino», desenvolvido em A Gaia Ciência. Para Nietzsche, importa afirmar a vida na sua totalidade, com tudo aquilo que ela comporta, das alegrias às tristezas, da beleza à fealdade, sem ressentimento perante o passado, sem permitir que ela seja envenenada pelo desejo de que a existência possa ocorrer de outra forma. O amor fati não significa considerar a realidade perfeita ou renunciar à acção, mas aprender a afirmar a existência tal como ela é, incluindo os seus aspectos mais dolorosos e contraditórios.
 
No filme de Cláudia Varejão, essa ideia de aceitação da vida na sua plenitude está presente na diversidade das relações amorosas retratadas. Relações que enlaçam irmãs, casais, famílias ou que se estabelecem entre os animais e os seus donos. Nesse mundo tão variado, há pessoas que partilham hábitos, gostos, interesses, e que, de tão próximas que são, acabam por se parecerem. Amor Fati inicia-se com uma legenda onde se refere a passagem de O Banquete, de Platão, onde Aristófanes afirma a existência de um ser andrógino primordial que os deuses dividiram em duas metades: “Cada um de nós não passa de uma face da moeda, divididos, como estamos, em metades. E é a sua própria metade que cada um infatigavelmente procura. Sempre que um amante encontra essa mesma metade que lhe pertence, eis que de súbito o assalta uma estranha impressão de amizade, de parentesco, de amor, a tal ponto que já não aceita separar-se dela um instante que seja”.
 
O filme de Cláudia Varejão resulta de uma pesquisa que teve início nas redes sociais e que levou a realizadora a percorrer diferentes pontos do país, ao encontro de pares unidos por vínculos profundos, tão semelhantes entre si e, ao mesmo tempo, tão diferentes uns dos outros.
 
As sequências finais – em que uma mulher idosa se despede da irmã falecida, que a acompanhou ao longo de toda a vida, enquanto outra mulher dá à luz uma criança – remetem-nos para a ideia nietzschiana do eterno retorno. Uma vida chega ao fim e, simultaneamente, uma nova vida começa. Como reagiríamos, então, se um demónio nos condenasse a reviver, eternamente, todas as experiências da nossa existência?
 
Só podíamos ficar-lhe gratos. O amor fati implica a aceitação e a afirmação da vida na sua diversidade e totalidade. Talvez seja esse o desafio que o filme nos deixa: aprender a amar a vida não apesar de tudo o que nela acontece, mas também por tudo aquilo que a constitui.