por António Cruz Mendes
A filosofia
estoica, tal como é desenvolvida nas obras de Epicteto, Séneca e Marco Aurélio,
particularmente influente no mundo romano, assenta numa concepção do universo
marcada por um forte determinismo: todos os acontecimentos se integram numa
ordem causal necessária e a felicidade depende da nossa capacidade de
distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não podemos controlar,
aceitando este último sem perturbação. Esta ideia encontra um paralelo no
conceito nietzschiano de amor fati, ou «amor ao destino», desenvolvido
em A Gaia Ciência. Para Nietzsche, importa afirmar a vida na sua
totalidade, com tudo aquilo que ela comporta, das alegrias às tristezas, da
beleza à fealdade, sem ressentimento perante o passado, sem permitir que ela
seja envenenada pelo desejo de que a existência possa ocorrer de outra forma. O
amor fati não significa considerar a realidade perfeita ou renunciar à acção,
mas aprender a afirmar a existência tal como ela é, incluindo os seus aspectos
mais dolorosos e contraditórios.
No
filme de Cláudia Varejão, essa ideia de aceitação da vida na sua plenitude está
presente na diversidade das relações amorosas retratadas. Relações que enlaçam
irmãs, casais, famílias ou que se estabelecem entre os animais e os seus donos.
Nesse mundo tão variado, há pessoas que partilham hábitos, gostos, interesses,
e que, de tão próximas que são, acabam por se parecerem. Amor Fati
inicia-se com uma legenda onde se refere a passagem de O Banquete, de Platão, onde Aristófanes afirma a existência de um
ser andrógino primordial que os deuses dividiram em duas metades: “Cada um de
nós não passa de uma face da moeda, divididos, como estamos, em metades. E é a
sua própria metade que cada um infatigavelmente procura. Sempre que um amante
encontra essa mesma metade que lhe pertence, eis que de súbito o assalta uma
estranha impressão de amizade, de parentesco, de amor, a tal ponto que já não
aceita separar-se dela um instante que seja”.
O filme de Cláudia
Varejão resulta de uma pesquisa que teve início nas redes sociais e que levou a
realizadora a percorrer diferentes pontos do país, ao encontro de pares unidos
por vínculos profundos, tão semelhantes entre si e, ao mesmo tempo, tão diferentes
uns dos outros.
As sequências finais – em
que uma mulher idosa se despede da irmã falecida, que a acompanhou ao longo de
toda a vida, enquanto outra mulher dá à luz uma criança – remetem-nos para a
ideia nietzschiana do eterno retorno. Uma vida chega ao fim e,
simultaneamente, uma nova vida começa. Como reagiríamos, então, se um demónio
nos condenasse a reviver, eternamente, todas as experiências da nossa
existência?
Só podíamos ficar-lhe
gratos. O amor fati implica a aceitação e a afirmação da vida na sua
diversidade e totalidade. Talvez seja esse o desafio que o filme nos deixa:
aprender a amar a vida não apesar de tudo o que nela acontece, mas também por
tudo aquilo que a constitui.
