por João Palhares
Allan Dwan (1885-1981) foi um dos
grandes pioneiros de Hollywood. Terá realizado pelo menos 420 filmes. Foi
assistente de D.W. Griffith, realizou vários clássicos conhecidos do cinema mudo com Douglas
Fairbanks e Gloria Swanson,
como Robin Hood (1922) ou Manhandled (1924), adaptando-se ao
sonoro e a todas as mudanças de regimes, tecnologias, métodos e contextos de
produção na indústria ao longo dos anos e das décadas, podendo trabalhar numa
pequena comédia intimista como The Inside Story (1948) e,
no ano seguinte,
fazer Sands of Iwo Jima (1949) com John Wayne. Sempre
disse que a comédia era o seu género favorito, mas fez westerns, filmes de
aventuras, policiais, filmes de época, de capa e espada e até musicais.
Em 1954 iniciou uma
colaboração importante com o produtor Benedict
Bogeaus, através da RKO,
mais ou menos com as mesmas equipas, com profissionais valiosos como John
Alton, na fotografia, e Van Polglase, na direcção de arte. Entre os actores com
que trabalhou mais que uma vez nos filmes produzidos por Bogeaus, contam-se
Barbara Stanwyck,
Robert Ryan, John Payne, Rhonda Fleming e Debra Paget. Dez filmes de quatro
géneros, metade dos quais westerns, que reflectem magistralmente os muitos
talentos de Dwan, o eclectismo, a capacidade de adaptação, o sentido de
aventura, o dom de num único plano conseguir resumir todo um género ou esboçar todo o tipo de arquétipos a partir das figuras dos
seus actores. Silver Lode (1954), Passion (1954), Cattle Queen of
Montana (1954), Escape to Burma (1955), Pearl of the South
Pacific (1955), Tennessee's Partner (1955), Slightly
Scarlet (1956), The River's Edge (1957), Enchanted Island
(1958) e... O Mais
Perigoso Homem Vivo (1961), o
ciclo por que Dwan talvez seja hoje mais conhecido e ainda a melhor porta de
entrada para a sua obra, para quem a quiser explorar.
O último filme deste ciclo, que acabou por ser também o último filme de Dwan
(embora tenha tentado levar a cabo pelo menos mais três projectos, dois dos
quais com Bogeaus), é um filme de ficção científica. Terminado em 1958, só foi
lançado em 1961. Produzido de forma independente, foi vendido à Columbia, que
demorou imenso tempo a
estreá-lo. Como
explicou Dwan1, “Bogeaus
disse que era para ser um piloto para uma série de televisão – em dois
episódios – e empregou toda a gente nessa base. Mas quando apresentou as duas
partes aos sindicatos no México, eles disseram, 'Isto é um guião cortado a
meio. É uma história contínua, portanto não é um filme televisivo mas uma
longa-metragem. Por isso não o podem fazer em condições de televisão, com uma
equipa reduzida e tudo a tarifas muito mais reduzidas. Têm que pegar numa
equipa completa e fazê-lo a tarifas de filme completas.' Bom, efectivamente,
era o que aquilo era. Ele tinha simplesmente cortado o guião ao meio e estava a
fazer as duas partes. Muito em breve, os actores aperceberam-se disso e então
caiu-lhe o telhado todo em cima e não se conseguiu safar com o engodo dele. O
que fez disparar completamente o orçamento – triplicou-o; para se
contrabalançar isso, teve de se fazer zás – num instante. O que devia ter sido
rodado em cinco semanas foi feito numa. E tudo em interiores – nada construído.
Os actores não queriam ficar. Tudo o que queriam fazer era ir para casa. E eu
fiquei na posição constrangedora de tentar aguentar aquilo com este cisma a
acontecer à nossa volta. Portanto rangi os dentes e bati-me. E isso não é
divertido. Ninguém queria saber. Portanto foi só pô-lo na caixa e voltar a
casa. Um desajuste do princípio ao fim.”
Também odiava a ficção
científica. Quando Simon
Mizrahi lhe perguntou se era o seu primeiro filme nesse género, o cineasta foi
peremptório, dizendo, “E o último, espero eu! Detesto esse género. O
único elemento aceitável, nesse tema, consistia na ignorância em que se
encontravam os espectadores de que o herói se transformava em homem de aço e se
tornava invulnerável. Confesse que era bastante limitado como tema.”2
E, no
entanto, o filme é uma obra-prima. Não será factor de
somenos querer partir imediatamente em defesa de quem olha desta forma para o
seu trabalho, mas não é mesmo possível reconhecer o filme nestas palavras,
embora elas expliquem talvez certas escolhas, o preto e branco, a intriga
policial, a economia desarmante dos efeitos especiais, o tom operático e
grandiloquente, como se Dwan soubesse instintivamente que a única forma do
espectador aceitar a fantasia delirante do filme era se tudo, as acções das
personagens, as situações em que se encontram, as explicações que dão umas às
outras, as interpretações dos actores, roçasse o delírio. Um homem
indestrutível a ter de lutar pela vida e a não conseguir, precisamente por não
poder ser destruído, contradição fabulosa que se torna o centro do filme. Um
homem de aço é também considerado um homem sem sentimentos, frio, violento,
irreflectido, embora por momentos possa vacilar e preferir a carne que lhe é
oferecida por Debra Paget (momento belíssimo, inusitado, com nuances capazes de
revelar algo sobre a natureza da mulher, a natureza do homem, a natureza do ser
humano e a natureza da máquina). O “mais perigoso homem vivo”, mostra-nos Dwan, pode ser então o mais vulnerável dos homens, apenas à procura de um refúgio e de um mundo que ainda não existe. O desespero palpável do seu grito final, capaz de nos assombrar para a vida,
relaciona-se muito directamente com isso. Homem dos mil e um filmes, Dwan
sempre soube também que há mil e uma razões perfeitamente razoáveis e
compreensíveis para não se fazer o que quer que seja, por não haver tempo, por
não haver dinheiro, por não haver vontade nem paciência, por questões
familiares, por questões de saúde, por questões sindicais, reclamação de
direitos no trabalho, a lista é infindável. Difícil é arranjar um só motivo
para levar as coisas para a frente. Tanto quanto sabemos, foi isso que
aconteceu com aquele que por mero acaso (Dwan viveu quase até aos cem anos,
morreu em 1981) se tornou o seu último filme. “Um desajuste do princípio ao fim.” Aos oitenta anos, quando os Cahiers du Cinéma lhe
perguntaram qual era o seu maior desejo, respondeu sem quaisquer contradições que era “continuar
a fazer filmes, até à minha morte.”
1 in «Allan Dwan: The Last Pioneer», Peter Bogdanovich e Allan Dwan, Prager Publishers, Nova Iorque, 1971.
2 in «Présence du Cinéma» nº 22-23, Outono de 1966.
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