quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O Mais Perigoso Homem Vivo (1961) de Allan Dwan



por João Palhares
 
Allan Dwan (1885-1981) foi um dos grandes pioneiros de Hollywood. Terá realizado pelo menos 420 filmes. Foi assistente de D.W. Griffith, realizou vários clássicos conhecidos do cinema mudo com Douglas Fairbanks e Gloria Swanson, como Robin Hood (1922) ou Manhandled (1924), adaptando-se ao sonoro e a todas as mudanças de regimes, tecnologias, métodos e contextos de produção na indústria ao longo dos anos e das décadas, podendo trabalhar numa pequena comédia intimista como The Inside Story (1948) e, no ano seguinte, fazer Sands of Iwo Jima (1949) com John Wayne. Sempre disse que a comédia era o seu género favorito, mas fez westerns, filmes de aventuras, policiais, filmes de época, de capa e espada e até musicais.
 
Em 1954 iniciou uma colaboração importante com o produtor Benedict Bogeaus, através da RKO, mais ou menos com as mesmas equipas, com profissionais valiosos como John Alton, na fotografia, e Van Polglase, na direcção de arte. Entre os actores com que trabalhou mais que uma vez nos filmes produzidos por Bogeaus, contam-se Barbara Stanwyck, Robert Ryan, John Payne, Rhonda Fleming e Debra Paget. Dez filmes de quatro géneros, metade dos quais westerns, que reflectem magistralmente os muitos talentos de Dwan, o eclectismo, a capacidade de adaptação, o sentido de aventura, o dom de num único plano conseguir resumir todo um género ou esboçar todo o tipo de arquétipos a partir das figuras dos seus actores. Silver Lode (1954), Passion (1954), Cattle Queen of Montana (1954), Escape to Burma (1955), Pearl of the South Pacific (1955), Tennessee's Partner (1955), Slightly Scarlet (1956), The River's Edge (1957), Enchanted Island (1958) e... O Mais Perigoso Homem Vivo (1961), o ciclo por que Dwan talvez seja hoje mais conhecido e ainda a melhor porta de entrada para a sua obra, para quem a quiser explorar.
 
O último filme deste ciclo, que acabou por ser também o último filme de Dwan (embora tenha tentado levar a cabo pelo menos mais três projectos, dois dos quais com Bogeaus), é um filme de ficção científica. Terminado em 1958, só foi lançado em 1961. Produzido de forma independente, foi vendido à Columbia, que demorou imenso tempo a estreá-lo. Como explicou Dwan1, “Bogeaus disse que era para ser um piloto para uma série de televisão – em dois episódios – e empregou toda a gente nessa base. Mas quando apresentou as duas partes aos sindicatos no México, eles disseram, 'Isto é um guião cortado a meio. É uma história contínua, portanto não é um filme televisivo mas uma longa-metragem. Por isso não o podem fazer em condições de televisão, com uma equipa reduzida e tudo a tarifas muito mais reduzidas. Têm que pegar numa equipa completa e fazê-lo a tarifas de filme completas.' Bom, efectivamente, era o que aquilo era. Ele tinha simplesmente cortado o guião ao meio e estava a fazer as duas partes. Muito em breve, os actores aperceberam-se disso e então caiu-lhe o telhado todo em cima e não se conseguiu safar com o engodo dele. O que fez disparar completamente o orçamento – triplicou-o; para se contrabalançar isso, teve de se fazer zás – num instante. O que devia ter sido rodado em cinco semanas foi feito numa. E tudo em interiores – nada construído. Os actores não queriam ficar. Tudo o que queriam fazer era ir para casa. E eu fiquei na posição constrangedora de tentar aguentar aquilo com este cisma a acontecer à nossa volta. Portanto rangi os dentes e bati-me. E isso não é divertido. Ninguém queria saber. Portanto foi só pô-lo na caixa e voltar a casa. Um desajuste do princípio ao fim.”
 
Também odiava a ficção científica. Quando Simon Mizrahi lhe perguntou se era o seu primeiro filme nesse género, o cineasta foi peremptório, dizendo, “E o último, espero eu! Detesto esse género. O único elemento aceitável, nesse tema, consistia na ignorância em que se encontravam os espectadores de que o herói se transformava em homem de aço e se tornava invulnerável. Confesse que era bastante limitado como tema.”2
 
E, no entanto, o filme é uma obra-prima. Não será factor de somenos querer partir imediatamente em defesa de quem olha desta forma para o seu trabalho, mas não é mesmo possível reconhecer o filme nestas palavras, embora elas expliquem talvez certas escolhas, o preto e branco, a intriga policial, a economia desarmante dos efeitos especiais, o tom operático e grandiloquente, como se Dwan soubesse instintivamente que a única forma do espectador aceitar a fantasia delirante do filme era se tudo, as acções das personagens, as situações em que se encontram, as explicações que dão umas às outras, as interpretações dos actores, roçasse o delírio. Um homem indestrutível a ter de lutar pela vida e a não conseguir, precisamente por não poder ser destruído, contradição fabulosa que se torna o centro do filme. Um homem de aço é também considerado um homem sem sentimentos, frio, violento, irreflectido, embora por momentos possa vacilar e preferir a carne que lhe é oferecida por Debra Paget (momento belíssimo, inusitado, com nuances capazes de revelar algo sobre a natureza da mulher, a natureza do homem, a natureza do ser humano e a natureza da máquina). O “mais perigoso homem vivo”, mostra-nos Dwan, pode ser então o mais vulnerável dos homens, apenas à procura de um refúgio e de um mundo que ainda não existe. O desespero palpável do seu grito final, capaz de nos assombrar para a vida, relaciona-se muito directamente com isso. Homem dos mil e um filmes, Dwan sempre soube também que há mil e uma razões perfeitamente razoáveis e compreensíveis para não se fazer o que quer que seja, por não haver tempo, por não haver dinheiro, por não haver vontade nem paciência, por questões familiares, por questões de saúde, por questões sindicais, reclamação de direitos no trabalho, a lista é infindável. Difícil é arranjar um só motivo para levar as coisas para a frente. Tanto quanto sabemos, foi isso que aconteceu com aquele que por mero acaso (Dwan viveu quase até aos cem anos, morreu em 1981) se tornou o seu último filme. “Um desajuste do princípio ao fim.” Aos oitenta anos, quando os Cahiers du Cinéma lhe perguntaram qual era o seu maior desejo, respondeu sem quaisquer contradições que era “continuar a fazer filmes, até à minha morte.”


1    in «Allan Dwan: The Last Pioneer», Peter Bogdanovich e Allan Dwan, Prager Publishers, Nova Iorque, 1971.

2             in «Présence du Cinéma» nº 22-23, Outono de 1966.

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