quinta-feira, 30 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Mest” de Yermek Shinarbayev


Título original: Mest; De: Yermek Shinarbayev;  Com: János Derzsi, Erika Bók, Mihály Kormos; Género: Drama; Classificação: M/12; Outros dados: Rússia, 1989, Cores, 100 min. 

Sinopse: Revenge é um filme soviético de 1989, dirigido por Ermek Shinarbaev e escrito por Anatoli Kim. Foi exibido na seção Un Certain Regard no Festival de Cannes de 1991. O filme foi restaurado em 2010 pela World Cinema Foundation no Laboratório Cineteca di Bologna / L'Immagine Ritrovata e lançado como Revenge. 

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O trigésimo convidado é o crítico de cinema Carlos Natálio, que escolheu Mest de Yermek Shinarbayev e se justificou deste modo:

"A primeira imagem de Mest [Vingança, 1989] do cazaque Yermek Shinarbayev é o rosto de uma tartaruga que avança, lentamente, para a câmara. Ouvimos um respirar ou uma espécie de suspiro. Virá do animal? Nunca o saberemos. Instantes depois e vemos um soberano da Dinastia coreana Joseon que pergunta ao seu conselheiro porque se move ela (a tartaruga) sempre na mesma direcção. Vai na direcção do mar, de onde provém. O filme acabará no mar, também. E no entremeio há uma história de uma vingança que mais do que servir-se fria, servir-se-á apurada, destilada pelo destino, como se fosse sendo entregue a prestações, como o lento caminhar resiliente da tartaruga. Mas isto registei apenas agora, com o cuidado de um olhar mais pesado. A primeira vez que vi o filme (já não recordo exactamente quando e em que circunstâncias; teria sido na televisão ou já na internet?; no cinema não foi, isso sei) só fiquei com duas coisas. O brilho e um menino sentado.

"O brilho é fácil de explicar. Desde as primeiras imagens que percebemos que esta é uma obra onde a luz do dia explode nos planos. As pessoas desaparecem na luz intensa do dia, o sol a despejar os seus raios do cimo de uma montanha, o trajecto por um corredor que a manhã faz atravessar pela claridade ou a fluorescência que vem como canhão de cada uma das janelas do exterior para o interior. Em concreto lembrava a foice iluminada - recordemos a queda do bloco soviético, o início da independência do Cazaquistão, não mais do que um par de anos depois da estreia do filme - que é o objecto do crime que dá origem à semente do ódio e da vingança. É uma cena de ouro, literalmente, um ouro que encandeia. Encandeia o julgamento, não sabemos porque o professor resolve matar uma das alunas, e encandeia o espaço, com blocos de luz no dourado das palhas do celeiro, que mais parecem objectos sem substância. Uma espécie de sonho terrível que vai-se a ver e acaba mesmo por ser a realidade. Se este é um filme que passa por várias épocas e espaços - o prólogo no século XVII, a Coreia e depois a China de 1915, a ilha Sacalina, nos anos 30 e 40, ilustrando a convulsão histórica que aquela zona teve entre domínio e influências russas, japonesas, chinesas e subjugação coreana - o mesmo acontece com esse brilho. À medida que a vingança parece aproximar-se da sua substância, os reflexos, as cores vão escurecendo, raiando de sangue e dourado, como se o filme fosse fazendo osmose com o crepúsculo e a tragédia sombria.

E depois havia esse menino sentado. Durante muito tempo ali estava, inerte. A mãe ia construir-lhe uma protecção de palha para o abrigar da chuva e do sol. O seu pai não tinha conseguido vingar a morte da sua meia-irmã e este engravida, sob sugestão da sua esposa já velha, uma mulher mais nova. O intuito parece simples e maquiavélico: ter um filho que se destine a ter como propósito de vida realizar os desejos vingativos do pai. Esses planos do menino sentado têm um poder existencial e político. Por um lado, pode alguém crescer à espera de crescer? Inerte, num estado de hibernação até poder cumprir o seu desígnio? Por outro lado, e isso vem no filme de Shinarbayev desde o prólogo, as pessoas e as tartarugas têm missões e enquanto não as cumprem habitam a elipse ou, quando muito, a espera. Ou as duas. Algo que parece trazer nas suas linhas e contra linhas um modelo de cooperação social.

Finalmente, este é também um filme sobre a poesia. Ou mais em concreto um filme acerca da tentativa da fuga da poesia, da sua vontade em desentranhar-se da injustiça e da crueldade. Como no prólogo vemos, com um poeta do reino a pedir para sair da corte, ao não conseguir lidar com a execução de um lutador que se deixou ganhar pelo príncipe como sinal da sua submissão e foi por isso castigado. Diz o poeta ao soberano: «a injustiça não é um terreno fértil para a poesia». Mas que poesia poderá haver na vingança? A passagem do tempo parece dizer-nos que com ele tudo passa, e que a poesia ganhará ao sangue derramado. Mas este belo filme da nova vaga cazaque, disseminado que é pelo tempo, pelos espaços, pelas épocas, converte a vingança em ironia do destino. Não apaga a vingança, apenas a subjuga a uma enorme roda da vida. Talvez por isso seja fácil de perceber uma ideia que pessoas que se debruçaram sobre este filme sublinham: a humildade que perpassa na nova vaga cazaque, a colectividade de todo o processo criativo, a pouca relevância de um centramento na figura do autor. Ou como diz o poeta: «não existe verdade a ser encontrada que se esconda por detrás da palavra “eu”»."

Amanhã, a escolha de Inês Sapeta Dias

quarta-feira, 29 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “O Cavalo de Turim” de Béla Tarr


Título original: A torinói ló;  De: Béla Tarr; Com: János Derzsi, Erika Bók, Mihály Kormos; Género: Drama; Classificação: M/12; Outros dados: ALE/HUN/SUI/FRA, 2011, Preto e branco, 146 min. 

Sinopse: Turim, 3 de Janeiro de 1889. O filósofo Friedrich Nietzsche sai de casa. Ali perto um camponês luta com a teimosia do seu cavalo, que se recusa a obedecer. O homem perde a paciência e começa a chicotear o animal. Nietzsche aproxima-se e tenta impedir a brutalidade dos golpes com o seu próprio corpo. Naquele momento perde os sentidos e é levado para casa onde permanece em silêncio por dois dias. A partir daquele trágico evento Nietzsche nunca mais recuperará a razão, ficando aos cuidados da sua mãe e irmãs até ao dia da sua morte, a 25 de Agosto de 1900. Partindo deste evento, o filme tenta recriar o percurso do camponês, da sua filha, do velho cavalo doente e a sua existência miserável. (Fonte: PÚBLICO)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo nono convidado é a montadora e professora Cristina Amaral, que escolheu O Cavalo de Turim de Béla Tarr. Sobre esta obra final do realizador húngaro escreveu-nos: 

«O CAVALO DE TURIM – Béla Tarr 

Um cinema raro, com escrita própria, com um tempo particular. Rigoroso, milimetricamente encenado. E, por todos esses motivos, muito arriscado, o que o faz escapar da monotonia e da previsão.

Eu me lembro de quando assisti O CAVALO DE TURIM pela primeira vez.

Deixou-me atordoada. É um filme que nos coloca frente a frente com um fim de mundo real, sombrio, muito próximo de nós – não mais o da ficção científica, não mais o dos blockbusters, ou dos disaster movies.

Austero desde os créditos e o texto inicial. O preto e branco – presente em praticamente toda a sua filmografia (dos que conheço apenas o OUTSIDER é colorido) completa esse mundo onde não há espaço para dispersão. Aqui, a música é palavra, e o vento é música.

Os longos planos-sequência revelam também uma montagem bela e inteligente, a partir de seus movimentos de câmera e enquadramentos primorosos. E cada corte, é uma cortina que se abre para esse mundo interiorizado, monossilábico, e que roda em círculos. E, também mérito dessa mise en scène, não soa repetitivo.

“Mãe, eu sou um tolo.”

Descrito em off, o pranto de Nietzsche, abraçado ao cavalo é, com certeza o ato mais humano dentro do filme – é o sofrimento da poesia diante da dureza e da estupidez.

Além disso, apenas um fiapo de vida para nos apoiar, que é passagem dos ciganos pela casa, rápida, fugaz, mas transgressora. E agressiva também. O resto é uma morte que se deixa acontecer.

O CAVALO DE TURIM é quase premonitório desses tempos que vivemos agora, em que estamos confinados, onde a doença e a morte são os perigos que nos rondam de perto, à espreita do lado de fora das nossas casas.

É visionário, preciso, rigoroso. Traz dor, beleza, e a vida escapando com o vento inexorável. A natureza não nos perdoa.

Um cinema que nos obriga a repensar o mundo, nossa forma de viver, e a buscar urgentemente uma nova humanidade.»

Amanhã, a escolha de Carlos Natálio.

terça-feira, 28 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Pouco a Pouco” de Jean Rouch


Título original: Petit à Petit; De: Jean Rouch; Com: Damouré Zika, Lam Ibrahim Dia, Illo Gaoudel; Género: Comédia; Classificação: M/12; Outros dados: Níger / França, 1969, Cores, 95 min.

Sinopse: PETIT À PETIT é um exemplo extremo da noção de “antropologia compartilhada”, que foi tão cara a Rouch. Retomando ao seu modo a ideia das clássicas Lettres Persanes, de Montesquieu, Rouch conta a história de um habitante do Níger, cuja empresa vai construir o primeiro prédio de Niamey e vem a Paris ver como vivem as pessoas nas “casas de andares”. Isto é pretexto para uma divertida excursão de antropologia invertida, em que o africano observa com surpresa os estranhos hábitos dos parisienses, numa crítica implícita ao modo como os antropólogos franceses estudam os seus compatriotas. O filme também é um retrato dos espíritos da Paris dos primeiros anos do período pós-68. (Fonte: Cinemateca Portuguesa)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo oitavo convidado é a montadora Patricia Saramago, que escolheu Pouco a Pouco de Jean Rouch, justificando-se assim: «O orgulho do Sul do mundo. Para vermos de maneira diferente coisas a que estamos demasiado habituados.»

Em 1968, quando se estava a preparar para rodar Petit à Petit, Jean Rouch escreveu aos Cahiers du Cinéma que “o filme vai ser improvisado durante a rodagem, naturalmente. O que se segue, são as grandes linhas da história, desenvolvida com os intérpretes ao longo de passeios pela África negra, e com o “herói”, Damouré Zika, durante a sua primeira estadia em Paris.

“Tudo começa portanto nesta pequena aldeia do Níger, Ayorou, onde vivem os três inseparáveis: Illo, o pescador, Lam, o pastor, Damouré, o «galante». Depois de terem sido iniciados às regras elementares do comércio, como vimos em Jaguar, criaram eles próprios uma sociedade anónima, comissionada para vender os peixes deles, o gado, e vários outros produtos. Essa sociedade chama-se «Pouco a pouco», em memória da loja onde fizeram a sua aprendizagem no Gana, «Pouco a pouco, o pássaro faz o seu chapéu», o que significava que, pouco a pouco, o pássaro conseguia adquirir o turbante do chefe.”

Amanhã, a escolha de Cristina Amaral.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “O Castelo Branco” de Johan van der Keuken


Título original: Het Witte Kastee;  De: Johan van der Keuken; Género: Documentário; Classificação: M/12; Outros dados: Holanda, 1973, Cor e Preto e Branco, 78 min. 

Sinopse: Misturando imagens da meca do turismo espanhol, Formentera, de um centro comunitário em Columbus, Ohio, e de fábricas na Holanda, o filme ilustra nitidamente as vidas fragmentadas e alienadas que a economia de mercado produz e retrata friamente o que Van der Keuken viu como ‘uma correia transportadora [que] atravessa o mundo’. 

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo sétimo convidado é o realizador belga Mieriën Coppens, que escolheu O Castelo Branco de Johan van der Keuken. 

Van der Keuken disse em entrevista a Bérénice Reynaud que «o aspecto simbólico do meu trabalho nem sempre é percebido pelo espectador. Eu passo por símbolos para voltar a uma percepção mais intensa, mais descritiva e talvez mais difícil do Real. Há uma multiplicidade de níveis, porque eu não me posso colocar num nível puramente materialista. O aspecto material/materialista das coisas é como uma ferramenta para perceber o que está a acontecer no mundo. Também há um aspecto especulativo, que não posso recusar totalmente, mesmo que não deva fazer “demais” com isso, e mantê-lo sempre na sua justa perspectiva. Ao mesmo tempo, fico muito ansioso, bem, com a perfeição, i.e., gostava de ser capaz de mostrar algo com clareza absoluta. No entanto, estou perfeitamente ciente de que sou um cineasta a trabalhar com a aproximação... Sim, pode-se dizer que há um elemento lúdico no meu trabalho, que o cinema é um “brinquedo de construção” para mim, mas, ao mesmo tempo, há coisas que são tão reais e tão poderosas que não podem ser dominadas. Daí entrarmos no reino da aproximação. Não posso aceitar o plano angular perfeito de campo/contra-campo como a “verdade” de um filme. Há uma parte de mim que desespera por nunca ser capaz de “dizer a coisa certa.”» 

Mieriën Coppens deixou-nos o seguinte poema: 

Local de convalescença, perto da água. 
Isolado, um chão. 
Tantos motivos. 
Tantos laços mútuos. 
O quadro ilegível. 
O futuro.” 

Amanhã, a escolha de Patrícia Saramago.

domingo, 26 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Cidade nas Trevas” de Fritz Lang


Título original: While the City Sleeps; De: Fritz Lang; Com: Dana Andrews, Rhonda Fleming, George Sanders, Ida Lupino, Vincent Price, Thomas Mitchell; Género: Drama, Film noir; Classificação: M/16; Outros dados: EUA, 1956, Preto e Branco, 100 min. 

Sinopse: Outro dos filmes favoritos de Lang. Adaptação de um romance de Charles Einstein que, por sua vez, teve como uma das inspiração o filme de Lang "Man Hunt". Lang retoma o tema do assassino "compulsivo" que desenvolvera em M, mas coloca-o no centro da disputa pela direcção de um jornal por um grupo de candidatos. (Fonte: Cinemateca Portuguesa)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo sexto convidado é o realizador, actor e encenador Jorge Silva Melo, que escolheu Cidade nas Trevas de Fritz Lang, dizendo-nos que “precisamos de uma imprensa livre, precisamos de si, não podemos viver nesta corrupção, neste mundo sem luz. Para Lang tudo era tremendo - e ameaçador o final que parece feliz. Temos de ouvir Puccini logo a seguir: nessun dorma!” 

No seu Dicionário do Cinema, Jacques Lourcelles diz-nos que é o “penúltimo filme americano de Lang. Um dos pontos mais altos da sua carreira; na nossa opinião, o seu melhor filme. Baseado num romance, mas sobretudo baseado em relatos de notícias variadas recortadas de jornais e que ele tinha o hábito – mantido até ao fim da sua vida, embora já não trabalhasse mais - de coleccionar, Lang escreveu o guião minuciosamente com Casey Robinson e será um dos mais sofisticados da sua carreira. A preparação não menos minuciosa da rodagem e que permitiu manter, sendo o orçamento do filme bastante razoável, os intérpretes prestigiosos reunidos no conjunto (George Sanders, Ida Lupino, Thomas Mitchell, Rhonda Fleming, etc) só quatro ou cinco dias cada um, quando temos a impressão de os ver presentes ao longo de toda a intriga. (Só a Dana Andrews foi concedido um número de dias ligeiramente superior.) A ambição do filme é imensa, a perfeição do seu estilo, cujos elementos desdenham dar nas vistas, sóbria e eficaz. Lang quer dar a ver um panorama bastante vasto da sociedade americana, fundada aos seus olhos na competição e no crime. Como a competição e o crime se tornaram indissoluvelmente ligados, é este o seu tema, a partir do qual surgem as características do seu estilo, obedecendo todas a uma estética da necessidade que nenhum outro cineasta levou tão longe. Criador solitário e exigente, Lang não está totalmente à parte da corrente americana mais inovadora. While the City Sleeps integra e até interioriza de alguma maneira a revolução trazida no ano anterior ao relato policial por Kiss Me Deadly. Doravante já não há bons nem maus nos enredos. A ferocidade da competição trouxe todas as personalidades ao mesmo nível, o grau zero da moral e da consideração pelos outros. Se examinarmos à lupa (é o que faz o filme) o comportamento de cada uma das personagens envolvidas na acção, vemos ou que eles não têm ideia nenhuma do que lhes poderia servir de moral, ou então – e ainda é pior – que eles sacrificam à sua ambição quaisquer escrúpulos que pudessem ter, comportamento considerado como normal na sociedade em que estão inseridas. A partir daí, o criminoso que os jornalistas procuram com tanto ardor para conseguir um cargo torna-se não só a sua presa, mas também o seu reflexo. Às vezes é mais digno de piedade do que eles. Lang leva aqui a um grau de perfeição absoluta a sua arte das ligações necessárias ou mesmo fatais entre as sequências. Seja por um elemento de diálogo, por um elemento visual, por uma personagem ou pelo efeito de uma causa dramática específica, as sequências encadeiam-se umas às outras a um ritmo e a uma progressão lógica que parece obedecer a alguma fatalidade, que na verdade não é senão a consequência das acções cruzadas de cada um dos protagonistas ocupados em suplantar, a usar ou a destruir o próximo – grande teia de aranha onde por fim todos se encontram presos. Requinte supremo da mise en scène: aquelas divisórias de vidro que, dentro dos escritórios do jornal, separam as personagens permitindo-as verem-se umas às outras e dão à história a possibilidade de executar várias sequências frontais, ligadas numa interacção permanente. Este entrelaçado magistral é visto na luz soberba de uma chapa metálica rasgada a bisturi. Depois de muitos avatares e metamorfoses, redesenhados através da experiência e do estilo de um cineasta meticuloso e genial, o microcosmos expressionista reaparece aqui – talvez pela última vez – lavado de todas as suas histórias, dotado de uma pureza expressiva cuja abstracção e concentração fascinam. É um pequeno pedaço de inferno onde as criaturas estão ocupadas, achando-se livres e activas, sob o olhar de um cineasta que não procura outra coisa senão ver bem e dar bem a ver a realidade, mas mantendo o ponto de vista de Sirius sobre todas as coisas.” 

Amanhã, a escolha de Mieriën Coppens.

sábado, 25 de abril de 2020

O sonho de um mundo novo. O “Êxodo” de Schoenberg segundo Straub-Huillet.



por Carlos Fernandes

Schoenberg iniciou a escrita do libreto desta ópera quando já se expectava a possibilidade de um novo “Êxodo” na Europa. A partir de 1920 as manifestações anti-semitas eram tão descaradas que ele próprio, unicamente por ser judeu, foi obrigado a abandonar o hotel onde vivia numa pequena aldeia perto de Salzburgo. 

Afundado nesse presente, o compositor e libretista mergulha nos fundamentos de uma história tão remota, quanto transcendental, transportando-a para a contemporaneidade na estrutura de um texto excepcionalmente vinculado a uma partitura matematicamente pura – o serialismo dos 12 tons. 

Embora incompleta, esta ópera, foi simultaneamente a obra-prima do século XX para uns e uma coisa inacabada para outros. Mas para Straub e Huillet estava lá o material rigoroso e necessário que lhes permitiu ver nesta ópera um filme. 

E Jean-Marie Straub e Danièle Huillet fizeram uma vez mais um trabalho magnífico. Trabalharam no guião entre 1959 e 70, e filmaram entre 73 e 74 no deserto de Louxor, no vale do Nilo e no anfiteatro italiano Alba Fucens, com som directo sob fundo da Orquestra de Viena pré-gravada. 

Tiveram um cuidado extremo com todos os aspectos que pudessem dramatizar deliberadamente a história, construindo um trabalho de câmara com movimentos rigorosos e planos formais em contraponto visual à complexa partitura de Schoenberg. 

A magnitude da abordagem no conflito entre a espiritualidade interior de Moisés e a capacidade de Aarão de comunicar com as massas (a primeira dupla liderança da história), bem como a proeza dos “milagres necessários” que Aarão concebe para convencer o povo a seguir Moisés até a terra prometida, são configurações dignas de reverência. 

Por fim, a fidelidade ao texto e a tudo – o terceiro acto, que tinha ficado por escrever, surge como um recital sublime apoiado em notas do próprio Schoenberg. 

O combate à opressão e o sonho de um mundo novo. 

É importante que as coisas mexam.

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Moisés e Aarão” de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub


Título original: Moses und Aron; De: Danièle Huillet, Jean-Marie Straub; Com: Günter Reich, Louis Devos; Género: Drama, Musical; Classificação: M/12; Outros dados: Alemanha, 1974, Cores, 105 min. 

Sinopse: "Schoenberg é o músico que melhor conhecemos a seguir a Bach", segundo diz Straub. Na sua adaptação da ópera bíblica inacabada do compositor vienense, Straub e Huillet mantiveram-se fieis aos princípios do seu cinema: som directo, cantores ao invés de actores dobrados, "imagens que não bloqueiem a imaginação do espectador", numa atitude diametralmente oposta à do tradicional "filme de ópera". (Fonte: Cinemateca Portuguesa)

Link (1. Clicar em "Link"; 2. Clicar onde diz "fazer download" e o filme começa a descarregar. No fim clicar em salvar; 3. Para verem os filmes usem o VLC, ou então o RVMB Player. Encontram facilmente no google. Também podem usar o Windows Media Player, mas vão ter de actualizar codecs.)

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga, o My Two Thousand Movies e a Comuna associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias, 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo quinto convidado é Carlos Fernandes, que escolheu Moisés e Aarão de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. 

Em entrevista aos Cahiers du Cinéma, em 1975, Straub disse que a ideia para o filme partiu “da primeira representação cénica na Alemanha, que teve lugar em Berlim em 1959. Foi dirigida por Hermann Scherchen. Musicalmente, era a melhor, tirando a que Rosbaud tinha dirigido em concerto. A primeira execução teve lugar em 1952, um ano depois da morte de Schoenberg. A primeira execução cénica teve lugar em Zurique, já não sei muito bem em que ano. A primeira cénica na Alemanha, foi em Berlim, em 1959. Vi-a uma noite por acaso. Eu nunca ia à ópera: não sei porque é que lá entrei. Sem dúvida porque me interessava em Schoenberg, sem o conhecer bem. Musicalmente, era boa, um bocado pior que Rosbaud, mas boa. Em termos cénicos, achei a coisa terrível e tive vontade de fazer um filme que fosse exactamente o contrário. Ainda assim, em termos cénicos, é o que se fez de melhor até agora, incluindo este ano, uma vez que há uma epidemia (para o centenário do nascimento de Schoenberg) de execuções parcial ou totalmente terríveis. Depois dessa noite, telefonei à Danièle, em Paris. Era a primeira vez que lhe telefonava. Não tínhamos dinheiro. Nessa altura vivia entre Berlim Ocidental e a Alemanha Oriental, porque havia bastantes coisas a acontecer no Berliner Ensemble e porque estávamos à procura de documentos para o Bach (a maior parte estava na R.D.A.). A Danièle fez uma cena terrível mas apanhou o comboio nocturno e veio ver isso imediatamente. Voltei a vê-la uma segunda vez. Portanto o projecto remonta a 1959. De facto, esse teria sido o segundo filme que íamos fazer, sendo o primeiro projecto o Bach de 1954!”

Amanhã, a escolha de Jorge Silva Melo.