quarta-feira, 29 de abril de 2026

Zona de Interesse (2023) de Jonathan Glazer




por Laura Mendes
 
Zona de Interesse é, porventura, o filme deste ciclo que se propõe mais intensamente a discorrer em torno da banalidade do mal, materializando esta ideia de forma quase literal, onde a narrativa deixa de ser prioridade em favor de uma ambiência sensível que requer o nosso olhar atento e crítico. 

Um início aterrador, onde a escuridão é apenas acompanhada de sonoridades premonitórias. A este, sucede uma paisagem idílica, deixando já antever a promiscuidade da felicidade e tranquilidade. Uma estrada na montanha alonga-se pela noite dentro. Finalmente, chegamos a uma casa onde se prolongam as atividades familiares aparentemente banais. 

Timidamente, a casa onde vive esta família alemã – que não é uma qualquer, veremos – vai-se revelando como o lugar que verdadeiramente é: uma casa contígua a um campo de concentração, habitada por vidas contíguas a mortes pelas primeiras premeditadas. 

O quotidiano filmado é impassível como o tempo, e os dias da família Höss sucedem velozmente, entre refeições e histórias para adormecer. Ainda que à primeira vista diluídos uns nos outros, há uma clara demarcação entre os elementos que pertencem aos quadros rotineiros e os que estão à sua margem – se a família parece surgir em primeiro plano, os judeus ocupam, de igual forma, o espaço da mesma, embora sem constituírem uma materialidade própria, sendo os seus corpos como sombras às quais podemos aceder furtivamente, principalmente através das tarefas que realizam. Assim, todas as sequências são transformadas em desafios a nós lançados em torno do saber observar, da capacidade de tomada do olhar sobre tudo o que fica para lá da aparência. A casa mostra-se como espaço privilegiado de construção de identidade, de demonstração de hipocrisia, com laivos de esconderijo impune e desumanizante, subvertendo o ideal do lar enquanto conforto, antes edificando-o como espaço de continuação e questionamento de uma vida exterior e social.

A impercetibilidade da verdade da situação, bem como a normalidade com que os acontecimentos se desenrolam, são apenas suspensas pelos momentos de terror artisticamente formulados, talvez os mais significativos do filme, para nos dar a entender o que não é visível – onde as noites (em branco) adquirem um papel especialmente preponderante, enquanto espaço-tempo de pesadelos, emergindo a consciência como ser vivo e destrutivo.

Vivências aproximadas às nossas, para que nos identifiquemos com a família, sendo o seu o lugar que ocupamos: o filme leva-nos a considerar o que é viver, cabendo-nos decifrar nos gestos e nas palavras as consequências do conformismo quotidiano, o mal que se encerra nos artifícios mundanos.

Sem que vejamos uma única morte ou abuso – porque de que forma, se é que de todo, podem os mesmos ser encenados –, Zona de Interesse causa o maior dos horrores na sua evocação, na personificação da crueldade a eles inerente. A questão da abjeção é assim resolvida, filmando, nunca mostrando, os terrores do holocausto com recurso ao poder da abordagem tanto sugestiva – fazendo um uso devastador do som – como cínica e provocatória.

Transferindo toda a reflexão para o agora e para a relação que mantemos com uma das maiores tragédias da humanidade, Jonathan Glazer aponta-nos diretamente o dedo com a mestria de um olhar frio e perscrutador, deixando-nos desolados perante um retrato íntimo do pior que em nós vive.




domingo, 26 de abril de 2026

444ª sessão: dia 28 de Abril (Terça-Feira), às 21h30


“Zona de Ineteresse” de Jonathan Glazer esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga
 
 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star –Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Na próxima terça-feira, o ciclo encerra com o filme “Zona de Interesse” (2023), do realizador britânico Jonathan Glazer. Baseado no romance de Martin Amis, o filme centra-se na vida quotidiana da família de Rudolf Höss, comandante do campo de concentração de Auschwitz, que vive com a mulher e os filhos numa casa contígua ao campo. O casal é interpretado por Christian Friedel e Sandra Hüller, protagonistas de um elenco que inclui ainda Ralph Herforth, Max Beck e Imogen Kogge.
 
A narrativa e a abordagem visual do filme distinguem-se pela recusa de representação directa da violência, privilegiando antes o fora de campo e o desenho sonoro como elementos centrais. Esta opção constrói uma relação entre o quotidiano e o horror, sublinhando a banalização da violência e a dissociação moral das personagens.
 
Zona de Interesse” estreou no Festival de Cannes, onde conquistou o prestigiado Grande Prémio do Júri. Na 96.ª edição dos Óscares, o filme obteve um total de cinco nomeações, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento Adaptado, tendo vencido nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som. A obra foi igualmente consagrada pela crítica britânica, vencendo o BAFTA de Melhor Filme Britânico, elevando assim o seu estatuto como um dos títulos mais impactantes do cinema contemporâneo.
 
Jonathan Glazer, conhecido por uma filmografia reduzida, mas marcada por um estilo próprio, é também autor de filmes como “Sexy Beast” (2000), com Ray Winstone no papel principal, “Birth” (2004), protagonizado por Nicole Kidman e “Under the Skin”(2013) com Scarlett Johansson como protagonista, nos quais explora arranjos narrativos e visuais pouco convencionais.
 
As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 
 
Até terça-feira!
 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Europa Europa (1990) de Agnieszka Holland



por Rute Castro
 
 Agnieszka Holland, nascida na Polónia em 1948, é uma das vozes mais incontornáveis do cinema europeu contemporâneo, reconhecida pela sua capacidade ímpar de explorar as complexidades históricas e as zonas cinzentas da moralidade humana. Em Filhos da Guerra, a realizadora recusa a dicotomia simplista do bem contra o mal, mergulhando o espectador numa das histórias de sobrevivência mais fascinantes e absurdas do século XX. O filme destaca-se por uma ironia trágica profunda: para escapar ao Holocausto, um jovem judeu é forçado a assumir a ideologia, a farda e os maneirismos dos seus próprios carrascos.

O estilo da realizadora neste filme é marcado por um equilíbrio magistral entre o drama histórico sombrio e um tom quase picaresco. Em vez de recorrer apenas à tragédia ininterrupta que caracteriza tantas obras sobre a Segunda Guerra Mundial, Holland utiliza o humor negro e a ironia para sublinhar a total irracionalidade e a falsidade das teorias de pureza racial nazis. A montagem atenta e a fotografia de Jacek Petrycki capturam o tumulto interior de Salomon (interpretado brilhantemente por Marco Hofschneider), cuja existência se converte numa aterradora performance contínua. O seu próprio corpo, marcado pela circuncisão, torna-se o seu maior inimigo e o principal gerador de um suspense quase insuportável, numa sociedade onde a biologia foi transformada em sentença de morte.

A importância deste filme no panorama mundial prende-se com a sua coragem em desconstruir identidades e dogmas impostos. Ao focar-se na odisseia camaleónica de Perel, a cineasta força o público a olhar para o conflito através de uma perspetiva desconcertante, onde as fronteiras entre vítima e membro da máquina opressora se esbatem por uma pura e visceral necessidade de sobrevivência. Filhos da Guerra não só consolidou o prestígio internacional de Holland, como expandiu os limites cinematográficos da representação da guerra, afastando-se do melodrama convencional para oferecer um estudo complexo sobre as máscaras que vestimos perante a loucura coletiva.

A banda sonora, composta pelo conceituado Zbigniew Preisner (frequentemente associado às obras de Krzysztof Kieślowski), é um elemento narrativo por excelência. A música oscila magistralmente entre o lirismo melancólico e o suspense opressivo, sublinhando a fratura interna do protagonista. Além disso, as composições instrumentais de Preisner contrastam de forma violenta com os hinos nacionalistas, tanto soviéticos como alemães, que os jovens são forçados a entoar ao longo do filme. Esta dualidade auditiva evidencia a forma como a música e a cultura foram cooptadas como perigosas ferramentas de propaganda e de lavagem cerebral das massas juvenis.
 
O impacto de Filhos da Guerra foi estrondoso na Europa e nos Estados Unidos, conquistando tanto o público como a crítica especializada. A imprensa destacou a ousadia de Holland em tratar uma temática desta gravidade cruzando elementos de tragédia, comédia de erros e thriller psicológico. Embora tenha gerado alguma controvérsia inicial na Alemanha, que culminou na infame recusa do país em submeter a obra como a sua candidata oficial aos Óscares, o que gerou protestos de figuras de peso em Hollywood, a aclamação internacional provou ser inabalável. Hoje, o filme integra a prestigiada Criterion Collection e é unanimemente considerado um triunfo cinematográfico e um documento essencial sobre a resiliência humana.



 

domingo, 19 de abril de 2026

443ª sessão: dia 21 de Abril (Terça-Feira), às 21h30


“Europa Europa” de Agnieszka Holland, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star – Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a hiper-normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo continua com o filme “Europa Europa” (1990), também conhecido por “Filhos da Guerra”, da realizadora polaca Agnieszka Holland. Baseado na autobiografia de Solomon Perel, o filme acompanha a história de um jovem judeu alemão que, durante a Segunda Guerra Mundial, sobrevive ocultando a sua identidade. Após sucessivas deslocações, acaba por integrar instituições do regime nazi, incluindo a Juventude Hitlerista, vivendo sob constante risco de exposição. O protagonista é interpretado por Marco Hofschneider.

Sendo uma coprodução europeia, o filme destacou-se pela forma como aborda a identidade, a sobrevivência e a ambiguidade moral em contexto de guerra. Destaca-se o facto de a narrativa assentar num testemunho real particularmente invulgar, marcado por situações limite e decisões de adaptação contínua.
 
A recepção crítica foi amplamente positiva, que valorizou a capacidade do filme em conjugar diferentes tons narrativos. Europa Europa recebeu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e foi nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Adaptado. Foi ainda distinguido como o Melhor Filme Estrangeiro por prestigiadas associações de crítica, como o National Board of Review e o New York Film Critics Circle, consolidando o seu impacto no circuito internacional.

Agnieszka Holland desenvolveu um percurso marcado por uma forte ligação a temas históricos e políticos, trabalhando entre a Europa e os Estados Unidos. Entre as suas obras mais reconhecidas destacam-se Amarga Colheita (1985), também nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Na Escuridão (2011), e Mr. Jones (2019), centrado na cobertura jornalística da fome na Ucrânia.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ascensão (1977) de Larisa Shepitko



por Laura Mendes
 
Ascensão desloca-nos, num movimento de evasão, para a vastidão das paisagens soviéticas (ocupadas), durante a segunda guerra mundial, onde dois resistentes procuram mantimentos para o seu grupo. Dois homens unidos quase por acaso – Rybak, nomeado pela experiência e destemidez, e Sotnikov, que ao outro se junta mais pela disponibilidade do que pela excelência –, cuja missão, percebemos imediatamente, é essencial à sua sobrevivência, bem como à dos seus parceiros.

A neve amontoa-se criando um horizonte que, situado entre o sublime e o grotesco, está mais próximo deste último graças à sua transformação em campo de batalha. Não apenas o frio e a fome, mas também a planície feita labirinto dificultam a jornada dos dois homens enquanto fugitivos dos alemães que ocupam a região, evidenciando o caráter desolador desta viagem e explorando (narrativa e visualmente) o potencial destrutivo da paisagem natural.

O relento é como um campo minado: Sotnikov é baleado e inicia uma outra viagem (espiritual) marcada por uma tentativa de suicídio, a tempo travada por Rybak. No entanto, a casa onde procuram abrigo, a de uma mulher com três filhos, tampouco demonstra ser um lugar seguro, sendo aí onde os três cúmplices acabam capturados.

A partir desse momento, passamos a conhecer uma realidade mais vasta – a dos condenados. Shepitko é solene na apresentação do seu povo massacrado, incluindo-o na sua mais complexa reflexão em torno da tensão entre a permanência num mundo cruel e a ascensão. Respetivamente representadas por Rybak e Sotnikov, estas são as duas formas-limite de viver uma vida-limite: se Rybak permanece acorrentado ao instinto de sobrevivência e ao esforço material, sem dúvida alicerçados na esperança, Sotnikov incorpora a figura crística do sacrifício, da cedência e, em última instância, desistência de um caminho que sabe não ser capaz de percorrer. 

No limbo entre as duas posições, vemos pessoas comuns – com as quais os dois protagonistas partilham a cela e os seus últimos momentos – com medo e lágrimas nos olhos, impotentes face a forças maiores que os querem dizimados.
 
A última caminhada – e note-se a importância das mesmas ao longo de todo o filme, constituindo deambulações de perigo e de descoberta (interior) –, assemelhando-se a uma procissão, culmina no surgimento das forcas sob o olhar estagnado de quem irá assistir a uma execução. Olhar esse especialmente impactante quando imprimido nos rostos entrecortados de Sotnikov e de um menino que o observa, transformando o momento final num de libertação, mas de reticência quanto à vida porvir, refletindo-se no futuro incerto de uma criança, como tantas outras.

Quem resta é Rybak, e parece ser na imaginação da sua morte que encontra consolo para a confusa culpa que sente, para travar a dolorosa ponderação acerca de quem foi e é. A tentativa falhada de suicídio, motivo transversal na narrativa, é mais um elemento na construção da relação entre a morte e a vida em momentos desumanizantes, os de guerra. 

E a vista de uma porta aberta não consegue apagar o facto de a liberdade ser um engano, de a promessa não passar de uma mentira. A morte enquanto fuga é, sim, a salvação.
 
 
 

domingo, 12 de abril de 2026

442ª sessão: dia 14 de Abril (Terça-Feira), às 21h30



“Ascensão” de Larisa Shepitko, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga 
 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star – Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a hiper-normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo prossegue com o filme Ascensão (Voskhozhdeniye, 1977) da realizadora soviética Larisa Shepitko. Baseado na novela de Vasily Bykov, o filme decorre durante a Segunda Guerra Mundial, acompanhando dois partisans soviéticos em território ocupado pelas forças nazis. Interpretados por Boris Plotnikov e Vladimir Gostyukhin, os protagonistas enfrentam uma situação limite após serem capturados, num percurso centrado em escolhas morais e nas suas consequências.

Produzido pelo estúdio Mosfilm, Ascensão foi rodado em condições exigentes, com filmagens em ambientes naturais de inverno, evidenciando uma abordagem formal contida e um uso expressivo da paisagem. Esta opção reforça o foco no conflito interior das personagens, em articulação com o contexto histórico, explorando a experiência da guerra a partir de uma perspetiva centrada no indivíduo e nas suas decisões.

Formada no VGIK, Larisa Shepitko destacou-se num contexto em que a realização cinematográfica era ainda maioritariamente dominada por homens. Embora inserida num contexto como o da União Soviética, que promovia formalmente a participação das mulheres em várias áreas profissionais, o seu reco-nhecimento, dentro e fora do país, destacou-a como uma das poucas cineastas da sua geração a alcançar projeção internacional, consolidando um percurso autoral singular no panorama do cinema soviético e contribuindo, ainda, para a visibilidade de realizadoras no cinema do século XX. Ascensão é frequentemente apontado como o seu filme mais relevante, tendo sido distinguido com o Urso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 1977.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-¡ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Ovo da Serpente (1977) de Ingmar Bergman



por António Cruz Mendes
 
O Ovo da Serpente é um filme sombrio. Desde logo, no sentido literal do termo. A maioria das sequências são nocturnas e, mesmo quando é dia, nunca a luz do sol as ilumina. Mas, é-o sobretudo num sentido metafórico. Decorre no ano de 1923, quando na Alemanha reinava a híper-inflacção e toda a gente lutava pela sua sobrevivência sem esperar dias melhores. “Não há futuro. As pessoas perderam o futuro”, diz-nos a dada altura Manuela. Mesmo os momentos de diversão ou os encontros amorosos são patéticos. Caricaturas grotescas do que pode ser a alegria e o amor. E é neste contexto que, como uma sombra que se vai alongando, vai ganhando forma a ameaça nazi.

Enquanto a câmara segue os passos de Abel pelas ruas sujas e enevoadas de Munique, o narrador dá-nos conta desta situação: “3ª Feira, 6 de Novembro. Os jornais estão repletos de medo, ameaças e rumores. Um confronto sangrento entre os partidos extremistas parece inevitável. Apesar de tudo, as pessoas vão trabalhar. A chuva nunca pára e o medo surge, como o vapor, das pedras da rua. Pode ser sentido como um cheiro pungente. Todo o mundo o suporta como um envenenamento interno, como um envenenamento lento sentido apenas como um pulsar, mais rápido, mais lento, ou como um espasmo de náusea”.

As personagens centrais do filme são Abel Rosenberg e a sua cunhada Manuela, ambos antigos artistas de circo. Também eles vivem desesperadamente à sombra da pobreza e do remorso. Manuela culpabiliza-se pelo suicídio de Max, o seu marido, e Abel tem uma vida sem propósito que apenas suporta quando se embebeda. Deus é uma figura ausente, como nos diz o padre a quem Manuela confessa a sua culpa. “Precisamos de nos ajudar uns aos outros, dar uns aos outros o perdão que um Deus distante nos nega”. Abel é a testemunha silenciosa que nos vai conduzir dos bas-fonds da cidade de Munique aos espaços labirínticos da clínica do Doutor Vergerus.

No mundo deliquescente da Alemanha do pós-guerra, duas personagens contraditórias procuram oferecer-lhe uma ordem. Uma “nova ordem”, na perspectiva de Hans Vergerus, um cientista que, usando cobaias humanas, realiza experiências que têm como propósito manipular as emoções dos seus pacientes. Trata-se de explorar os seus limites até às últimas consequências, com a finalidade de os conhecer para poder remover as fragilidades do comportamento humano em prol de uma superior eficiência. Apesar do seu menosprezo pela figura de Hitler, sua clínica prefigura numa dimensão laboratorial a sociedade de controlo totalitário que o nazismo tentará fundar. Ao Inspector Bauer, pelo contrário, cumpre-lhe dar o seu pequeno contributo para restabelecer alguma ordem na República de Weimar, descobrindo o responsável pela misteriosa série de mortes que têm ocorrido em Munique.

Aparentemente, Bauer é o vencedor. Os seus polícias invadem a clínica e Vergerus suicida-se. Entretanto, chegam as notícias de que fracassou o golpe que Hitler preparava em Munique. Porém, como diz Vergerus a Abel, “qualquer um que faça o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como o ovo da serpente. Através da membrana fina pode-se distinguir claramente o réptil já perfeitamente formado”.