Mostrar mensagens com a etiqueta 1944. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 1944. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Meet Me in St. Louis (1944) de Vincente Minnelli



por João Palhares

Meet Me in St. Louis é o terceiro filme de Vincente Minnelli, encenador norte-americano tornado realizador no início dos anos quarenta. É também o décimo terceiro filme da famosa Freed Unit, uma equipa de produção formada dentro da MGM pelo produtor e compositor Arthur Freed no rescaldo do enorme sucesso de O Feiticeiro de Oz, também com Judy Garland no papel principal. É a segunda colaboração de Minnelli com Freed, depois de Cabin in the Sky, 1943, e antes de Ziegfeld Follies, 1945, Yolanda e o Vigarista, 1945, Till The Clouds Roll By, 1946, The Pirate, 1948, Um Americano em Paris, 1951, A Roda da Fortuna, 1953, Brigadoon, 1954, Kismet, 1955, Gigi, 1958, e Bells Are Ringing, 1960. Mas, mais importante ainda, Meet Me in St. Louis, conhecido em Portugal como "Não Há Como a Nossa Casa", é a primeira colaboração de Vincente Minnelli com Judy Garland. Apaixonaram-se durante a rodagem, casaram-se, tiveram uma filha que também se tornou famosa, Liza Minnelli, e fizeram juntos mais quatro filmes, o fabuloso The Clock, de 1945, Ziegfeld Follies, Till the Clouds Roll By e The Pirate. 

Meet Me in St. Louis é um filme de Natal, feito como muitos filmes de Hollywood num rodopio e com dramas pessoais e colectivos permanentes. Houve atrasos na produção, ninguém estava satisfeito com o guião e acabou-se a rodagem para lá do previsto e muito para lá do orçamentado. O caso paradigmático, e que é para onde parece confluir tudo quando se fala ou escreve sobre este filme, é a canção Have Yourself a Merry Little Christmas. As letras apresentadas por Hugh Martin e Ralph Blane, na primeira versão, diziam “Have Yourself a Merry Little Christmas / It may be your last / Next year we may all be living in the past,” e tanto Garland, como Minnelli e Tom Drake acharam a canção demasiado deprimente e pediram que se fizessem mudanças, acabando por se substituir o segundo e terceiro versos por “Let your heart be light” e “Next year all our troubles will be out of sight.” Almas em tumulto, portanto, dúvidas constantes no nosso íntimo, saudades do passado e muito receio do futuro por ser o eterno desconhecido. O presente é apenas o posto avançado de onde se tenta em vão ver as duas coisas, o que se perdeu e o que não se sabe se se vai conseguir encontrar. No Natal, tudo isto parece ganhar mais força, e os melhores filmes associados a esta quadra são os que o conseguem problematizar em termos dramáticos e levantar-nos dos mortos, dissuadir-nos da apatia e da depressão com revelações prodigiosas. Eis como a simples angústia de uma criança em não querer mudar de casa se torna a coisa mais urgente do mundo, o problema mais importante a resolver mesmo apesar de nós próprios, numa pequena cidade que provavelmente acharíamos a mais pacata e a mais deprimente do mundo se lá fossemos obrigados a viver. E é resolvido com uma canção, introduzida pelo som duma caixinha de música, com um beijo carinhoso e muito discreto atirado ao coração duma criança, por uma mulher olhada e filmada com o amor que se conseguiu encontrar nas circunstâncias mais contrárias e mais adversas. E um problema muito específico e prático transforma-se numa catarse abrangente e colectiva. Se não fossemos tão cínicos e tão pouco crentes, chamar-lhe-íamos um milagre. Como somos, chamamos-lhe apenas cinema.



quarta-feira, 23 de março de 2016

Phantom Lady (1944) de Robert Siodmak



por José Oliveira

Robert Siodmak (1900 – 1973, Alemanha) teve, à maneira dos seus conterrâneos Fritz Lang ou Detlef Sierck, uma vida riquíssima e complexa, o que lhe permitiu evidentemente percorrer os caminhos e os arrepios de uma arte brutal, as duas em consonância e entrelaçadas como a vida e a morte. Dos palcos revolucionários do teatro alemão para o não menos revolucionário cinema mudo, do périplo europeu seguido do pau-para-toda-a-obra da Hollywood clássica, até aos devidos regressos a casa e à verificação apátrida, de muitos lados olhou e muitos tempos tocou, filmes negros das valetas como épicos geométricos.

Mas Siodmak sempre esteve vidrado na questão da aparência e do fundo, imagem e verdade, máscaras, cópias macabras, espelhos disformes, negros, ilusionistas. Também vidrado, e a palavra parece colar-se bem, a magnetismos e a grandes-planos obsessivos, onde a boneca ou o manequim pode enfeitiçar mais que a sua matriz. Se The Dark Mirror é a apoteose deste universo estonteante e perversamente doentio, o mais horroroso, de puro horror mesmo, será a Phantom Lady de 1944, dois anos antes do filme das irmãs.

Porque se esta história de contornos policiais tipicamente William Irish parece atar no seu término todas as pontas, a sua narrativa, que só se pode considerar frágil ou inverosímil do mesmo modo que o nosso quotidiano terráqueo é logicamente (ou ilogicamente) diabólico, o que mais ressalta à vista e à contorção cerebral é a luz, essa luz perturbantemente desenhada ou sonhada que o tal criminoso afirma que lhe fere os olhos.

Jack Marlow é um pobre coitado que depois de uma discussão com a mulher se decide entregar aos whiskeys num balcão qualquer, onde vai encontrar um elemento do sexo oposto mais triste do que ele. Olhares para aqui, para ali, oferendas, descompromissos, e estão dentro de um táxi para um musical qualquer. Não trocam nomes nem moradas. Parece a perdição costumeira, mais vai sê-la noutro sentido. Vão à sua vida e Jack é acusado de estrangular a esposa que deixou só.

Desaparece o primeiro véu fantasmático sem identidade e entra em campo o segundo, a pasmosa Carol que trabalha para ele, essa carnal irrealidade perigosa que vai levar ao suicídio e ao céu antes do inferno quem ela decide perseguir ou apontar olhos. Apaixona-se pelo patrão que está prestes a quinar e para o resgatar entra em correspondência directa com a abusadora da demência.

Dois fantasmas que se intrometem à normalidade, que a entrecruzam, a vilipendiam, se tocam a dado momento e se materializam, para aparecer o inspector do crime e o próprio criminoso, que descobrimos antes do filme dobrar a metade. Nada de carpinteirados guiões ou golpes baixos dos criativos…reflexos e mais reflexos e os protagonistas ou artistas principais vão-se sucedendo, desmultiplicando, fundindo, desaparecendo, para uma nossa emancipadora interactividade.

Cena crucial, se de uma espiral ou de uma escada em caracol se pode sacar uma singularidade ou relevo, é aquela em que inspector e culpado se encontram fechados no camarim da artista do chapéu salvador. Chapéu gêmeo, mais uma vez. A paranóia do suposto louco começa a borbulhar, as mãos a tremer, a autoridade a disparar pontadas tais como “Não é o aspecto do homem que conta, é como funciona a sua mente”, ou “Qualquer dia conseguimos educar a mente como o corpo”, e claro que o outro, o negativo, começa a entrar em parafuso, a flipar, entre o Santo e o Demónio também ali posto em causa, de um espectro ao outro.

Foi um momento tão pungente como o da dança e lascívia que Carol teve com o baterista antes do colapso deste, e que desfaz desde logo as dúvidas a quem pensava estar na presença do milionésimo suspense "last minute rescue" afinado por um qualquer Griffith evoluído. Intriga, género, possivelmente laivos de estilo, tudo isso só se mostra não ainda para um estudo sobre a luz ou o branco e preto e as cinzas, antes para o seu melindre, transfiguração, modelagem, a consciência de que cientificamente e mentalmente é dela que dependemos, que nos salvámos, caímos ou nos entregámos… Milhentas combinações, possibilidades, impossibilidades, efemeridades, casualidades, intempéries.

E lá está, a mestria de Siodmak e a sua rodagem nesta vida retiram toda e qualquer ganga e gordura que uma empresa destas pediria, os produtores exigiriam, etc., esses erros habituais de se confundir uma prática formal de luzes, sombras e matéria, e factor humano, assim como na construção de uma casa importa em primeiro a força dos alicerces, com lições e teses sociológicas, tipológicas, psicológicas, medicinais, ciências estanques ou, na mesma medida, esoterismos, espiritualidades de pacotilha, masturbações.

Alucinatórias imagens que emanam do real ou da mente? Sem respostas, apesar do "happy end". Concreto e abstracto respiram no mesmo ar, como os vivos calcam as terras de mortos. Assim como o Vasco Santana nota alma num candeeiro da via pública e lhe pede lume, e o factor álcool conta ou não conta, assim como o zé-ninguém se apaixonou pelo fruto-proibido pois numa certa discoteca uma merdosa bola berrante o iluminou e o desvelou defronte dela no momento certíssimo, tal como a imagem cruel e persistente pode manter no manicómio o pobre desgraçado que inocentemente a vislumbrou, todos os protagonistas de Phantom Lady e todos os do lado de cá da tela demoníaca, vão depender de intensidades, ângulos, sorte dessa coisa fugidia, impalpável, fatal. Nada mais que luz. Uns tocam-na vezes sem conta e são felizes, outros queimam-se nela, alguns nem a sentem ou pressentem.

E é somente a luz que retira a importância a recentes debates e releituras de tão sublimes reflexos: trate-se ou não do "film noir" no seu esplendor americano, seja ou não o expressionismo ou o caligarismo alemão a deitar as suas garras aos géneros e aos códigos em voga, ousem-se finos objectivismos ou neo-objectivismos a provar, o filme que hoje veremos no nosso Cineclube está tão perdido como vários dos percursos e almejos dos protagonistas, tão desejante como os seus corpos convulsos e ressumados e queimados, almas no suplício eterno da tentação, unidades que se interpenetram como todas as linhas, camadas, texturas ou atmosferas a experimentar. No mesmo organismo e salvaguardando a essencial contradição, o gelo. De onde a teoria cai por terra.