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quarta-feira, 15 de junho de 2022

La femme du boulanger (1938) de Marcel Pagnol



por António Cruz Mendes

Será pecado rirmo-nos das desgraças dos outros? É o que fazem muitos das pessoas que habitam o pequeno povoado perante a fuga da mulher do padeiro, mas não as podemos condenar. Afinal, nós próprios, os espectadores, não conseguimos seguir a sua história sem fazermos o mesmo. Aimable (o nome, por si só, define a personagem) é simultaneamente patético e risível e em todo o filme de Pagnol a tragédia e a comédia andam de braço dado. 

Aimable está no centro do filme, tudo gira à sua volta. Mas, através dele, conhecemos uma série de personagens que talvez seja injusto definir como secundárias (o padre, o marquês, o professor, a solteirona…) porque todas elas são imprescindíveis para compor o quadro que ele nos quer oferecer. Logo nas primeiras sequências do filme, ficamos a sabê-lo: novas e antigas tricas separam essas pessoas, desconfiam umas das outras e muitas não se falam. A vinda do padeiro (o seu antecessor enforcou-se, não se sabe porquê) desperta uma curiosidade comum. Afinal, se “nem só de pão vive o homem”, sem ele não se pode viver. E vai aproximá-los também a fuga da padeira, primeiro como pretexto para uma galhofa colectiva, depois como movimento de solidariedade geral, pois o padeiro, deprimido, já não consegue trabalhar. Na “luta pelo pão”, vai-se forjando uma comunidade solidária a qual não falta sequer um pequeno “exército” que parte numa missão “patriótica”. Os vizinhos fazem as pazes e o padre, enviado para resgatar a pecadora, atravessa os pântanos às cavalitas do professor agnóstico. 

O filme tem várias sequências notáveis, mas vou referir apenas algumas. É excelente a do sermão, onde, o campo-contracampo nos permite observar as reações de Aimable às palavras do padre (que, no filme, é quase sempre tratado como um filisteu), que o levam a abandonar, destroçado, a igreja. 
 
A da bebedeira, quando o padeiro, desfeitas todas as mentiras que ele conta a si mesmo e aos outros para justificar a ausência da mulher, resolve esvaziar uma garrafa de Pernod, onde ele ri, canta, interpela o marquês, o padre e o pescador, e diz coisas que obrigam à retirada das crianças que assistem, para acabar a chorar e a adormecer recordando-se do cheiro dos cabelos e dos braços de Aurelie – é de antologia. 

Também é magnífica aquela onde o pescador, convidado a contar o que sabe do paradeiro de Aurélie, inicia a sua história por uma lírica e longa digressão acerca das suas impressões sobre o nascer do dia e da sua pescaria, mantendo o seu auditório em suspense, até que o padeiro, exasperado, se atira à sua garganta. 

Finalmente, a sequência final, com o regresso de Aurélie, recebida com um pão em forma de coração e admoestada por “ter ido ver a mãe sem avisar”, e da Pomponette, a gata do padeiro, que tinha fugido de casa para viver uma aventura e, que agora, regressava à companhia do gato Pompon que, ela tinha abandonado, porque tinha frio e fome. 

No fim, Aurélie volta acender o forno que estava apagado desde que a última fornada se queimou.



sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Merlusse (1935) de Marcel Pagnol



por Jacques Lourcelles

Inédito em Portugal, 1935 – França (65’) ● Prod. Films Marcel Pagnol ● Real. MARCEL PAGNOL ● Gui. Marcel Pagnol ● Fot. A. Assouad ● Mús. Vincent Scotto ● Int. Henri Poupon (Merlusse), André Pollack (o director), Thommeray (o censor), André Robert (o supervisor geral), A. Rossi (o porteiro), Annie Toinon (Nathalie), Jean Castan (Galubert), o pequeno Jacques (Villepontoux), Rellys (o bedel), Rellys, filho (Bézuquet). 

No liceu de Marselha, vinte alunos internos não saem para as festas de Natal. O supervisor Blanchard, último a chegar ao liceu, é encarregado do estudo da noite nesse 24 de Dezembro. Só com um olho como resultado de uma ferida de guerra, feio, aparentemente violento e em todo o caso severo, ele aterroriza os alunos. Eles chamam-no de Merlusse, porque tem a reputação de cheirar a bacalhau*. A pedido do censor e para ajudar um colega chamado à cabeceira da sua mãe doente, ele supervisiona o refeitório e depois o dormitório. Na manhã do dia seguinte, dia de Natal, todos os alunos têm a surpresa de encontrar um presente ao pé das suas camas. Atribuíndo-o imediatamente à generosidade escondida do supervisor, as crianças reúnem-se para dar cada uma ao mestre um objecto precioso que Blanchard vai encontrar nos seus sapatos. «A quem devo agradecer?» pergunta ele ao mais velho dos alunos – «Ao Pai Natal. Ele não vem muitas vezes ao dormitório. Mas quando se dá ao trabalho, vem para toda a gente». O director vai criticar esta iniciativa não regulamentar, mas anunciará ao mesmo tempo a Merlusse a sua nova promoção. 

*Bacalhau em francês é “morue”. 

► Se tivéssemos de designar apenas um filme para demonstrar o génio de Pagnol, o seu método, o seu conhecimento íntimo dos meios e das possibilidades do cinema e a riqueza e a universalidade das suas personagens, podíamos escolher este Merlusse, obra totalmente original a meio caminho entre a média-metragem e a verdadeira longa-metragem. Quanto ao método, ele é claro: o autor investe num lugar real (o liceu de Marselha) que, de certa forma, e como a Provença das suas obras mais célebres, vai contar ainda mais que as personagens; uma pequena equipa enfia-se no local modificando-o o mínimo possível e, no interior desse espaço onde a verdade já exala por todo o lado, Pagnol filma um pequeno drama, verdadeiro condensado de paixões humanas descritas num idioma admirável e sóbrio. Merlusse fornece a prova dos nove do génio de Pagnol porque este filme sem estrelas, sem sol e em que as personagens estão aprisionadas, extirpadas do seu ambiente natural (e do que é geralmente chamado de universo de Pagnol), dispensa a mesma emoção, atinge a mesma força que Angèle ou La fille du puisatier e surpreende o espectador com as mesmas interpretações poéticas, variadas e precisas dos actores. Merlusse também é um filme sobre a fealdade, a diferença, a crueldade e o abandono, tudo coisas de que o cinema não falava de bom grado na altura em que Pagnol o escreveu. Por fim, o filme obedece à tradição do conto de Natal que quer que os acontecimentos evocados a desenrolar-se durante essa noite encantada modifiquem de forma positiva a vida das personagens da história, sobretudo quando elas estão desamparadas e tristes. 

BIBLIO.: argumento e diálogos in «La Petite Illustration» (1935). Em volumes pela Fasquelle (1936). Nas «OEuvres dramatiques» (Gallimard, 1954). Nas «OEuvres complètes» (Éditions de Provence, tomo III, 1967, Club de l'Honnête Homme, tomo IV, 1970). Também nas Éditions Pastorelly, 1974 e Presses Pocket. Prefácio soberbo consagrado a Henry Poupon, recuperado no volume «Confidences» (Julliard, 1981, Presses Pocket, 1983). Descontente com o som, Pagnol rodou o filme duas vezes (Natal de 34, Verão de 35). 

in «Dictionnaire du Cinéma – Les Films», Robert Laffont, Paris, 1992.