terça-feira, 11 de agosto de 2026

Silvestre (1981) de João César monteiro



por António Cruz Mendes
 
Em Veredas, seguindo os passos de um casal, que, a pé, percorre caminhos que vão de Trás-os-Montes até ao litoral, João César Monteiro deu-nos a conhecer lendas e contos tradicionais que fazem parte do imaginário popular. Em Silvestre, prossegue esse projecto cujo objectivo será o de tentar responder a uma questão primacial: “o que é ser português?”
 
Para isso, regressa a um passado mítico, fabulosamente medieval. As personagens dão corpo a figuras arquetípicas. O registo cinematográfico é poético e assumidamente não-naturalista. O ritmo é lento, as falas são declamadas e os enquadramentos cenográficos remetem-nos para um espaço teatral. As imagens da cena onde Sílvia nos surge com o dragão e o cavaleiro citam o quadro de Paolo Uccello, São Jorge e o Dragão.
 
A narrativa inspira-se em dois contos tradicionais. Em “A Mão do Finado”, três jovens, deixadas sozinhas em casa pelo seu pai, um mercador, são assediadas por uma quadrilha de ladrões. A mais velha deixa-se enganar por um deles, disfarçado de fidalgo, mas a mais nova desmascarara-o e tranca-lhe as portas da casa. Em “A Donzela vai à guerra”, um fidalgo vê-se impedido de corresponder ao pedido de ajuda militar do seu Rei por não ter nenhum filho varão. Mas uma das suas filhas, disfarçada de homem, apresta-se a defender a honra da família. João César Monteiro conjuga as duas histórias e oferece-lhes um pano de fundo onde, mais uma vez, se fundem o mito e os costumes populares.
 
Obediência e rebeldia são aquilo que está em questão. Numa sociedade patriarcal, Sílvia obedece cegamente à vontade do pai, que pretende casá-la com um lavrador rico, mas boçal. Porém, desobedece-lhe quando franqueia as portas da sua casa a um peregrino, desencadeando com isso uma cadeia de terríveis consequências. Redime-se quando, ultrapassando as limitações impostas pela sua condição feminina, assume a personalidade de Silvestre e se incorpora no exército do rei.
 
O apelo do sexo e a condição feminina estão sempre presentes. Na violação de Susana pelo peregrino, nas conversas dos soldados, até mesmo na cena onde Silvestre se vê constrangido a escolher uma mulher como amante. A submissão da mulher ao homem pode parecer inquestionável, mas a história de Sílvia mostra que não tem de ser assim. Afinal, é uma mulher emancipada aquela que expulsa da sua casa o peregrino violador, que foge da casa do cavaleiro que deveria ter como marido e que, finalmente, pode ter descoberto o amor com o alferes do exército onde se incorporou.
 
Contudo, as cenas finais do filme não permitem uma conclusão simplista, uma mera vitória do Bem sobre o Mal. As últimas palavras do Fidalgo, última figuração do Peregrino e do Cavaleiro, a quem Susana se refere como uma encarnação do Demo, dirigem-se a Sílvia: “Meu amor”. Qual seria, afinal, a razão da sua incansável perseguição?
 
E quando, morto o Peregrino / Cavaleiro / Fidalgo, Susana convida Sílvia para festejar a sua vingança (“Estou a comer. Vem, vem ver a mão, a cara os olhos. Se tardas só achas as ossadas”), esta replica: “Deixa-me. Agora estou sozinha dentro das estrelas”. Silvestre é a vegetação bravia, que nasce sem ser semeada. As experiências por que passou não lhe permitem regressar simplesmente à antiga ordem das coisas.
 
O filme termina ao som do trio de Schubert. Sílvia retira-se da mesa onde se reuniam o Rei e os seus convidados e a sua imagem funde-se com uma visão do céu estrelado
 
 
 

domingo, 9 de agosto de 2026

462ª sessão: dia 10 de Agosto (Terça-feira), às 21h30


“Silvestre” de João César Monteiro, esta segunda com o Lucky Star – Cineclube de Braga no Theatro Circo

O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de agosto a João César Monteiro. Figura central do cinema de autor em Portugal com uma obra marcada pela provocação e por um humor mordaz. Realizador, argumentista e ocasional actor, criou um universo, onde se cruzam referências históricas, literárias, populares, filosóficas e cinematográficas. As sessões deste ciclo ocorrem às segundas-feiras durante o mês de agosto, no Theatro Circo, às 21h30.
 
Hoje, o ciclo prossegue com “Silvestre” (1981). O filme baseia-se em dois romances tradicionais por-tugueses para recuperar o universo dos contos populares, cuja narrativa confronta as convenções soci-ais e a liberdade individual. A história acompanha a jovem nobre Sílvia, que recusa o destino que lhe é imposto e se vê envolvida numa sucessão de encontros, enganos e provações. Monteiro trabalha a ma-téria popular sem procurar reproduzi-la de forma realista; recorre, antes, a uma encenação assumida-mente artificial, onde a palavra e a composição dos espaços assumem particular importância.

O filme surge numa fase crucial da obra de João César Monteiro, sucedendo a Veredas (1978) – exibido na semana passada. Se em Veredas o realizador partia de lendas, tradições e paisagens portugue-sas, em Silvestre aprofunda esse interesse pelo imaginário popular através de uma construção cine-matográfica mais próxima do conto e da fábula. A literatura, o teatro e a tradição oral tornam-se, assim, matérias para uma linguagem que recusa o naturalismo e evidencia o próprio artifício da representação.

A filmografia de César Monteiro caracteriza-se pela forte relação com a literatura, pela cinefilia e por uma permanente experimentação da linguagem cinematográfica. Depois de Silvestre, realizou À Flor do Mar (1986), o qual será exibido no dia 17 de agosto, e Recordações da Casa Amarela (1989), filme que lhe valeu o Leão de Prata no Festival de Veneza e que marcou uma nova e emblemá-tica fase da sua obra.

As sessões do Lucky Star ocorrem durante o mês de agosto no pequeno auditório do Theatro Circo às segundas-feiras, às 21h30. A entrada custa quatro euros para público geral e dois euros com o cartão quadrilátero. Os sócios do cineclube têm entrada livre, mediante disponibilidade de lugares e reserva antecipada.
 
Até segunda-feira!





sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Veredas (1977) de João César monteiro



por Laura Mendes
 
Veredas é fabricado – utilizando a expressão do seu realizador – num espaço poético, onde a vastidão das paisagens portuguesas não são mais do que a possibilidade infinita de caminho. Um caminho não necessariamente em linha reta (ainda que se adivinhe no mesmo uma viagem que parte de Trás-os-Montes, prolongando-se até ao Alentejo), já que João César Monteiro confunde propositadamente as suas veredas numa mescla de passado, presente e futuro. É, ainda assim, do abraço das mais remotas tradições que partimos, de uma ancestralidade que nos soa perdida mas que incita à busca de um futuro em construção.
 
Surgido num momento da história de Portugal – o pós-25 de abril – em que redefinição é palavra-chave, encontramos neste filme o olhar atento para uma tal identidade que o cineasta quer expandida e múltipla – as referências ao texto de Ésquilo, complementares aos contos tradicionais portugueses, parecem para aí apontar – mas, acima de tudo, reivindicadora e questionadora. Este (novo) cinema de paciência, contemplação e não-linearidade difere em muito da telenovela de que João César Monteiro falava em tom satírico, dando lugar à alucinação e libertação do espectador, ao mesmo tempo direcionando-o para as suas preocupações: o território, as pessoas e as vivências de um Portugal fragmentado, inconsciente.
 
A confluência de signos – tal como o fogo e a água dos quais Benárd da Costa já falava – não nos direciona, contudo, para um significado estático desta história ou do que é o Portugal de Veredas, mas para uma linguagem da absorção e da imanência, que circula num espaço mitológico, em simultâneo convivendo com o do comum, do que labora, com os imaginários populares – que se revelam esquecidos e obscurecidos. Em especial, realçamos o episódio em que Atena conversa com um grupo de mulheres, atribuindo-lhes a soberania de uma nova terra – mitologia e história convergem, em tom de anunciação.
 
No entanto, a passagem de um (não-)tempo para a atualidade concreta (os anos 70 em Portugal), de uma ruralidade distante e nómada para o habitáculo moderno dos donos da terra, traz consigo um claro comentário político em torno da opressão, da diferença estabelecida entre quem trabalha e quem manda trabalhar.
 
Não obstante, a continuidade das etéreas histórias de amor, a permanência da figura íntima do Pai maligno – que depois se abre para a figura abrangente, pública, do Patriarca opressor – transformam este filme num poema trans-histórico, que une vários tempos inomináveis num único, que é o do cinema.
 
Um ecossistema em si, que vive do diálogo que cria consigo próprio, mais do que com qualquer outro elemento ou significado alheio, Veredas tece uma possibilidade de história(s) por contar, coloca em cena os interstícios do oculto português, alinhando-o com a emergência de novos tempos. O seu final, que não deixa de lado a provocação, fala-nos da perpetuidade, de uma eterna irresolução e, por consequência, procura: um nascimento em branco, uma vereda sem destino, será sempre o que nos espera.
 
 
 

domingo, 2 de agosto de 2026

461ª sessão: dia 3 de Agosto (Terça-feira), às 21h30


“Veredas” de João César Monteiro, esta segunda com o Lucky Star – Cineclube de Braga no Theatro Circo

O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de agosto a João César Monteiro. Figura central do cinema de autor em Portugal com uma obra marcada pela provocação e por um humor mordaz. Realizador, argumentista e ocasional actor, criou um universo, onde se cruzam referências históricas, literárias, populares, filosóficas e cinematográficas. As sessões deste ciclo ocorrem às segundas-feiras durante o mês de agosto, no Theatro Circo, às 21h30.

Hoje, o ciclo abre com “Veredas” (1977) no Theatro Circo. Inspirado em contos, lendas e tradições populares, percorre diferentes paisagens do Norte do país, cruzando literatura, religiosidade e imaginá-rio popular. Unindo a ficção à evocação etnográfica, Monteiro propõe uma reflexão sobre a memória e a identidade cultural portuguesa, transformando a paisagem num espaço onde coexistem mito, história e tradição. César Monteiro interpreta um frade e chefe de salteadores, visto como um primeiro esboço do seu alter-ego João de Deus.

Apesar de não ter recebido prémios na época, “Veredas” (1977) é um marco histórico no cinema portu-guês pela sua abordagem pioneira à antropologia visual e à docuficção, rompendo com o imaginário rural do Estado Novo. Estreado no Festival da Figueira da Foz, o filme ganhou recentemente o estatuto de obra de culto internacional após ser exibido numa retrospetiva no MoMA, em Nova Iorque.

Na sexta-feira, dia 6, às 21h30, o ciclo Fora de Portas leva à Praça Dr. António Losa o filme “O Anjo da Rua” (Street Angel, 1928), de Frank Borzage, numa sessão ao ar livre de entrada gratuita. Produzido nos úl-timos anos do cinema mudo, o filme acompanha Angela, uma jovem que, após fugir de casa, encontra em Gino, um pintor, a possibilidade de uma nova vida. 

Frank Borzage (1894–1962) foi um dos grandes realizadores do cinema clássico americano e o primei-ro vencedor do Óscar de Melhor Realização (pelo filme Sétimo Céu). O Anjo da Rua foi um dos títulos que valeu a Janet Gaynor o histórico primeiro Óscar de Melhor Atriz, tendo o filme sido também no-meado para Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte.

As sessões do Lucky Star ocorrem durante o mês de agosto no pequeno auditório do Theatro Circo às segundas-feiras, às 21h30. A entrada custa quatro euros para público geral e dois euros com o cartão quadrilátero. Os sócios do cineclube têm entrada livre, mediante disponibilidade de lugares e reserva antecipada.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Amor em Fuga (1979) de François Truffaut



por António Cruz Mendes
 
Na Folha de Sala de Os quatrocentos golpes, Jessica Ferreiro dizia que Antoine Doinel, então uma criança, era “um corpo em fuga. Numa passagem do filme de hoje, Collette, vislumbra Antoine Doinel a descer as escadas do edifício do tribunal, fugindo aos repórteres que cobriam o primeiro caso de divórcio amigável em França, e comenta: “Ah! Antoine sempre a correr! Esse não mudou muito”.
 
Duvido que, no seu conjunto, a série de filmes de Truffaut que segue a vida de Antoine Doinel de criança até à idade adulta caiba naquilo que se designa como um bildunsgroman. Nestes “romances de formação” (que têm em Os Anos de Aprendizagem de Wielhelm Meister, de Goethe, o seu paradigma e em A Montanha Magica, de Thomas Mann, um exemplo extraordinário), a personagem principal, no curso de várias experiências, vai evoluindo de um estado de inocência juvenil para um estado de maturidade mais reflectida. Ora, Antoine Doinel repete uma vez e outra os mesmos passos. O seu colega da tipografia onde agora trabalha como revisor de provas sublinha-o: “Gostas sempre do mesmo tipo de raparigas, de certeza que a nova é parecida com a antiga, só gostas de raparigas bem-educadas”. Ao que Antoine responde: “Bem-educadas ou não, eu não me apaixono por uma rapariga em particular, mas apaixono-me por toda a família, gosto do pai, da mãe, gosto de raparigas com pais gentis”.
 
Almeja, afinal, a segurança, a segurança e o conforto, de uma família burguesa, aquilo que lhe terá faltado em criança. E, por isso, culpa a sua mãe que trocou o seu pai por sucessivos amantes. Porém, uma vez alcançado esse propósito, Antoine sabota-o perdendo-se em fantasias românticas. O amor em fuga dá-nos conta das suas aventuras amorosas, um tanto patéticas, através de uma extensa série de flash back que nos remetem para os anteriores filmes da série, um recurso que dividiu a opinião dos críticos e suscitou dúvidas ao próprio Truffaut.
 
O seu romance Les salades de l’amour, é também, como nota Christine, um ajuste de contas com esse passado e, nomeadamente, com o papel nele desempenhado pela sua mãe. Mas, o reencontro com o padrasto, dá-nos uma outra pista para as suas desventuras. Na opinião do senhor Lucien, Antoine, afinal, é muito parecido com ela. E, na sequência da visita ao cemitério onde ela repousa ao lado de uma das suas heroínas, Marguerite Gautier, a cortesã do romance de Alexandre Dumas “A Dama das Camélias” (e que inspirou a Violeta da ópera de Verdi “La Traviata”) a imagem da sua fotografia e a do rosto de Antoine quase se fundem numa só.
 
Enfim, a ruptura com Sabine e o seu reencontro no comboio com Colette faz-nos crer que as “saladas do amor” de Antoine se hão-de repetir ad aeternum. Mas, no final, a recambolesca história da fotografia rasgada reaproxima-os. Será que, finalmente, a vida amorosa de Antoine Doinel conhecerá um happy end?
 

domingo, 26 de julho de 2026

460ª sessão: dia 28 de Julho (Terça-feira), às 21h30


O desfecho da pentalogia Antoine Doinel de Truffaut, esta terça-feira no Lucky Star – Cineclube de Braga


O Lucky Star – Cineclube de Braga dedicou o mês de julho ao realizador francês François Truffaut, figura central da Nouvelle Vague, com o ciclo “A pentalogia Antoine Doinel”. Composta pelas cinco obras que acompanham a famosa personagem, a mostra encerra esta terça na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30, com a exibição do último filme.
 
A programação de julho contemplou ainda duas sessões gratuitas de cinema ao ar livre que continuará em agosto. As sessões do Fora de Portas ocorrem às 21h30 em locais emblemáticos do concelho de Braga e têm entrada gratuita.

Na próxima terça-feira, o ciclo encerra com “O Amor em Fuga” (L’Amour en fuite, 1979), último filme da série Antoine Doinel. Vinte anos depois de “Os Quatrocentos Golpes” (1959), François Truffaut despede-se da personagem interpretada por Jean-Pierre Léaud ao longo de cinco filmes.
 
Em “O Amor em Fuga”, Antoine, agora divorciado de Christine, reencontra figuras do seu passado enquanto inicia uma nova relação amorosa. Recorrendo a imagens dos capítulos anteriores, Truffaut constrói uma narrativa nostálgica, tornando a série num exercício de revisitação cinematográfica. O filme encerra um dos projectos mais singulares do cinema moderno, acompanhando o crescimento simultâneo da personagem, do actor e do realizador ao longo de duas décadas.

O Amor em Fuga” volta a reunir Jean-Pierre Léaud no papel de Antoine Doinel, Claude Jade como Christine Darbon e Marie-France Pisier como Colette — personagem que, após uma breve aparição em “Beijos Roubados” (1968), regressa agora para assumir um papel central na narrativa. Através de sequências de arquivo e flashbacks, reaparece também a personagem de René Bigey (Patrick Auffay), o amigo de infância de Antoine em “Os Quatrocentos Golpes”. Esta evocação de diferentes figuras do passado reforça a continuidade da narrativa construída por Truffaut.
 
Produzido pela Les Films du Carrosse, produtora fundada por Truffaut, o filme reúne diversas sequências dos capítulos precedentes, fazendo da montagem um elemento central da narrativa e conferindo ao desfecho da pentalogia um carácter retrospectivo e autobiográfico.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.
 
Até terça!


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Domicílio Conjugal (1970) de François Truffaut



por Laura Mendes


 
Domicílio Conjugal dá continuidade à comédia social e de costumes que Truffaut tem vindo a explorar na série Antoine Doinel, desde Beijos Roubados, evidenciando o seu interesse pelo que existe de estranho e incomum na comicidade do quotidiano. Tomando partido do potencial satírico do casal – sem deixar de priorizar, como veremos, a paixão e sedução que se deixam antever na sequência inicial, onde seguimos as pernas de Claude Jade (Christine) – é também na profundidade dos conflitos possíveis que o cineasta nos situa, sem deixar de os aligeirar, com um toque de entretenimento.
 
Tal como ouvimos dizer um velho conhecido, música e mulheres burguesas sempre foram do agrado de Doinel: e ei-lo agora casado com Christine, violinista que já conhecemos e à qual pouco teremos a apontar, visto que a vida dos dois, numa possível primeira parte deste filme, se desenrola sem preocupações. Sempre escapando às fórmulas pelas quais todos à sua volta se parecem reger, o nosso protagonista deambula entre conversas com vizinhos e uma busca química pelo Vermelho Absoluto: sintomas tanto da sua idiossincrasia como da sua tendência para o falhanço.
 
E é exatamente após o murchar de umas flores às suas mãos que a vida do casal inicia uma viagem atribulada. O surgimento de uma mulher de outro mundo – essa quimera que se vem a revelar mais uma alucinação masculina circunstancial (como o parecem ser todas as paixões de Antoine) do que uma evidência constatável faz com que o mesmo se perca não se sabe bem em quê: fuga da convenção familiar, do aborrecimento do trabalho, apesar de afirmar, entre gestos aparatosos, que nunca se sente aborrecido? Mais do que isso, é esta uma aventura que nos fala da fortuitidade e fugacidade das aparências, como também o demonstra o misterioso Le pseudo étrangleur, que atravessa quase todo o filme, até o seu segredo ser revelado através de um programa de televisão, lembrando que tendemos a permitir que a nossa imaginação contamine o mundo real, sem nos apercebermos de que o mesmo já lá está antes de o pensarmos.
 
Antoine Doinel, sonhador implacável, cuja inocência noutros filmes, notada aqui, se dilui num escapismo inevitável e numa maturidade alheada, é incapaz de uma formação unívoca, de traçar um caminho em linha reta. Mas não nos enganemos com a sua singularidade: espreitando para o vizinho do lado, talvez encontremos nele uma versão de nós mais fiel que a nossa própria. É para isto que nos atenta o final, recuperando as palavras do homem que interpela Christine nos últimos minutos de Beijos Roubados: para a universalidade da vida, a circularidade das suas peripécias, que não se reduzem a uma só vivência.

 

Folha de Sala 

 

domingo, 19 de julho de 2026

459ª sessão: dia 21 de Julho (Terça-feira), às 21h30


Domicílio Conjugal de Truffaut, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de julho ao realizador francês François Truffaut, figura central da Nouvelle Vague, com o ciclo “A pentalogia Antoine Doinel”. A mostra reúne as cinco obras que acompanham a famosa personagem interpretada por Jean-Pierre Léaud. As exibições acontecem semanalmente às terças-feiras, às 21h30 na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.
 
A programação de julho contempla ainda três sessões gratuitas de cinema ao ar livre “Fora de Portas” que ocorrem em lugares icónicos do concelho.

Hoje, o ciclo continua com “Domicílio Conjugal” (Domicile conjugal, 1970), quarto capítulo da série centrada em Antoine Doinel, personagem interpretada por Jean-Pierre Léaud ao longo de vinte anos. Depois de “Beijos Roubados” (1968), encontramos agora Antoine casado com Christine Darbon e prestes a ser pai. Enquanto tenta conciliar a vida familiar com uma sucessão de empregos improváveis, inicia uma relação extraconjugal que põe à prova a harmonia do casal.
 
Cruzando comédia e drama sentimental, Truffaut retrata o amadurecimento de Doinel, através das contradições da vida conjugal. Longe de apresentar um retrato idealizado do casamento, “Domicílio Conjugal” explora o encanto e o de-sencanto que o quotidiano incita. 

François Truffaut (1932–1984) foi uma das figuras centrais da Nouvelle Vague francesa. Crítico dos Cahiers du Cinéma antes de se dedicar à realização, defendeu, sob a influência de André Bazin, um cinema de autor livre de convenções. A série Antoine Doinel permanece um dos projectos mais singu-lares da história do cinema, acompanhando a mesma personagem, interpretada pelo mesmo actor, entre 1959 e 1979.
 
Inspirada em episódios da juventude de Truffaut, a pentalogia cruza autobiografia e ficção, permitindo observar simultaneamente a evolução de Antoine Doinel, de Jean-Pierre Léaud e do próprio cinema do realizador. O sucesso comercial e crítico de “Domicílio Conjugal” acentuou o reconhecimento internacional da obra de Truffaut. O filme integra uma fase particularmente fértil da sua carreira, marcada também por obras marcantes como “As Duas Inglesas e o Continente” (1971) e “A Noite Americana” (1973).

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça-feira!


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Beijos Roubados (1968) de François Truffaut



por António Cruz Mendes


 
François Truffaut é um dos expoentes da Nouvelle Vague, surgida nos finais dos anos 50. Enquanto crítico dos “Cahiers du Cinema”, execrava os filmes do “cinema de qualidade” francês (Delanoy, Cayatte, etc.), que considerava literário e rotineiro, e apreciava os filmes americanos da série B, realizados com baixos orçamentos. Como realizador, vai dispensar as filmagens em estúdio para filmar “na rua”, com câmaras portáteis, o pulsar de uma cidade, o dia-a-dia de pessoas comuns. Tal como os outros realizadores que deram corpo a esse movimento, Truffaut recusa sujeitar-se a convenções e faz questão de afirmar a sua particular marca autoral.

Como é que estes propósitos se revelam na série de filmes que acompanham durante 20 anos a vida de Antoine Doinel? Aquilo que distingue o seu “realismo”, é a elegância com que neles se entretece a comédia e a tragédia, a forma como a tristeza se insinua entre peripécias aparentemente cómicas, a feição muito “tchekoviana” como as dores de crescimento de Antoine Doinel, as suas angústias existenciais, nos vão sendo reveladas em sotto voce.

Na sequência final de Os quatrocentos golpes, a câmara, num longo travelling, acompanha a fuga de Antoine Doinel do instituto correcional. Segue-o na sua corrida ofegante e acaba por se fixar num grande plano do seu rosto, que se volta para a câmara e nos encara. É o rosto de uma criança crescida que procura, sem o encontrar, o seu lugar no mundo. Essa busca continua em Os beijos roubados.

A acção decorre nos tempos conturbados do Maio de 68. Em Paris, erguem-se barricadas, as universidades estão encerradas e as fábricas em greve, mas nada disso se vê neste filme. Apenas nos diálogos há breves alusões àquilo que então fazia as manchetes dos noticiários. Em vez disso, o trabalho de Antoine Doinel numa agência de detectives introduz-nos no mundo dos pequenos dramas quotidianos e o filme aparenta ser uma comédia ligeira que encontra os seus temas numa crónica de acontecimentos banais, na vida comum com as suas rotinas e anedotas.

Antoine Doinel não é de forma alguma um enragé, mas um jovem gentil e mesmo (e de uma forma um tanto cómica) muito sério e cerimonioso. Contudo, na sua inquietude, no seu espírito sonhador, na sua dificuldade em ajustar-se às convenções e práticas sociais, o “espírito de 68” não deixa de estar presente.

Em Os quatrocentos golpes, tinha 13 anos, agora terá mais uns sete. Em Antoine e Colette, Antoine Doinel, então com 17, vive uma primeira paixão, mas o seu amor não é correspondido. Em Os beijos roubados, conhece Christine. Os seus modos delicados e o seu ar um pouco perdido suscitam a atitude protectora dos pais da namorada. Depois de um percurso de abandono, incertezas e fracassos, Antoine anseia pela segurança de um lar burguês. Christine, que simpatiza com ele, seria a porta de entrada nesse porto seguro. Mas, eis que entra em cena a deslumbrante Mme. Tabard…

A amizade ou a paixão? A simplicidade ou o glamour? A segurança ou a aventura? Christine ou Fabienne? O dilema de Antoine Doinel é explicitado na cena trágico-cómica diante do espelho. Um tubo pneumático transportará através dos subterrâneos de Paris a sua decisão. Depois, Mme. Tabart mostrar-lhe-á como se pode resolver a quadratura do círculo. O seu casamento com Christine será o tema do próximo filme. Mas, em Os beijos roubados, quem lhe faz uma promessa de amor eterno não é Antoine Doinel, mas um louco.