domingo, 3 de maio de 2026

445ª sessão: dia 5 de Maio (Terça-Feira), às 21h30


“Astrakan 79” de Catarina Mourão esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 
No mês de maio, o Lucky Star – Cineclube de Braga, promove o cinema contemporâneo feito por realizadores portugueses que, com diferentes linguagens, inquietações e estéticas, tem vindo a renovar o panorama do cinema nacional.
 
Com o título: “Novíssimo Cinema Português”, o ciclo junta filmes diversos que, através da experimentação, do documentário contemplativo ou da ficção, revelam o presente do nosso cinema. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo abre com Astrakan 79 (2023), da realizadora portuguesa Catarina Mourão. Partindo de materiais de arquivo e do testemunho, Astrakan 79 revisita a experiência coletiva, cruzando memória individual e contexto histórico, num trabalho centrado na reconstrução e interpretação do passado. A narrativa centra-se em Martim que recorda, aos 58 anos, a estadia de um ano e meio na União Soviética, em 1979, quando ainda era adolescente. Quarenta anos depois, Martim conta, pela primeira vez neste filme, esta história ao seu filho, a qual foi sempre um tabu de família.

Cineasta e investigadora, Catarina Mourão tem desenvolvido um percurso consistente no documentário português, explorando temas como a memória, o arquivo e a autobiografia. Formada em Direito e em Cinema no Reino Unido, é ainda fundadora da Apordoc e da produtora Laranja Azul. A sua filmografia inclui obras como A Toca do Lobo (2015), apresentada no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, Pelas Sombras (2010), A Minha Aldeia Já Não Mora Aqui (2006), Malmequer (2004) e Desassossego (2002), títulos que têm sido exibidos em diversos festivais internacionais.

Apresentado em circuitos de cinema documental, Astrakan 79 tem sido destacado pela forma como utiliza o arquivo como elemento narrativo, articulando diferentes tempos e perspectivas numa reflexão sobre a memória colectiva e os modos da sua representação. Astrakan 79 foi seleccionado para o Visions du Réel, o IndieLisboa, o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço e o FIDBA, entre outros. O filme foi distinguido com o prémio de Melhor Realização no IndieLisboa e com o Prémio Jean-Loup Passek para Melhor Documentário Português no MDOC, tendo ainda recebido uma menção honrosa no FID Rio.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!
 


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Zona de Interesse (2023) de Jonathan Glazer




por Laura Mendes
 
Zona de Interesse é, porventura, o filme deste ciclo que se propõe mais intensamente a discorrer em torno da banalidade do mal, materializando esta ideia de forma quase literal, onde a narrativa deixa de ser prioridade em favor de uma ambiência sensível que requer o nosso olhar atento e crítico. 

Um início aterrador, onde a escuridão é apenas acompanhada de sonoridades premonitórias. A este, sucede uma paisagem idílica, deixando já antever a promiscuidade da felicidade e tranquilidade. Uma estrada na montanha alonga-se pela noite dentro. Finalmente, chegamos a uma casa onde se prolongam as atividades familiares aparentemente banais. 

Timidamente, a casa onde vive esta família alemã – que não é uma qualquer, veremos – vai-se revelando como o lugar que verdadeiramente é: uma casa contígua a um campo de concentração, habitada por vidas contíguas a mortes pelas primeiras premeditadas. 

O quotidiano filmado é impassível como o tempo, e os dias da família Höss sucedem velozmente, entre refeições e histórias para adormecer. Ainda que à primeira vista diluídos uns nos outros, há uma clara demarcação entre os elementos que pertencem aos quadros rotineiros e os que estão à sua margem – se a família parece surgir em primeiro plano, os judeus ocupam, de igual forma, o espaço da mesma, embora sem constituírem uma materialidade própria, sendo os seus corpos como sombras às quais podemos aceder furtivamente, principalmente através das tarefas que realizam. Assim, todas as sequências são transformadas em desafios a nós lançados em torno do saber observar, da capacidade de tomada do olhar sobre tudo o que fica para lá da aparência. A casa mostra-se como espaço privilegiado de construção de identidade, de demonstração de hipocrisia, com laivos de esconderijo impune e desumanizante, subvertendo o ideal do lar enquanto conforto, antes edificando-o como espaço de continuação e questionamento de uma vida exterior e social.

A impercetibilidade da verdade da situação, bem como a normalidade com que os acontecimentos se desenrolam, são apenas suspensas pelos momentos de terror artisticamente formulados, talvez os mais significativos do filme, para nos dar a entender o que não é visível – onde as noites (em branco) adquirem um papel especialmente preponderante, enquanto espaço-tempo de pesadelos, emergindo a consciência como ser vivo e destrutivo.

Vivências aproximadas às nossas, para que nos identifiquemos com a família, sendo o seu o lugar que ocupamos: o filme leva-nos a considerar o que é viver, cabendo-nos decifrar nos gestos e nas palavras as consequências do conformismo quotidiano, o mal que se encerra nos artifícios mundanos.

Sem que vejamos uma única morte ou abuso – porque de que forma, se é que de todo, podem os mesmos ser encenados –, Zona de Interesse causa o maior dos horrores na sua evocação, na personificação da crueldade a eles inerente. A questão da abjeção é assim resolvida, filmando, nunca mostrando, os terrores do holocausto com recurso ao poder da abordagem tanto sugestiva – fazendo um uso devastador do som – como cínica e provocatória.

Transferindo toda a reflexão para o agora e para a relação que mantemos com uma das maiores tragédias da humanidade, Jonathan Glazer aponta-nos diretamente o dedo com a mestria de um olhar frio e perscrutador, deixando-nos desolados perante um retrato íntimo do pior que em nós vive.




domingo, 26 de abril de 2026

444ª sessão: dia 28 de Abril (Terça-Feira), às 21h30


“Zona de Ineteresse” de Jonathan Glazer esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga
 
 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star –Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Na próxima terça-feira, o ciclo encerra com o filme “Zona de Interesse” (2023), do realizador britânico Jonathan Glazer. Baseado no romance de Martin Amis, o filme centra-se na vida quotidiana da família de Rudolf Höss, comandante do campo de concentração de Auschwitz, que vive com a mulher e os filhos numa casa contígua ao campo. O casal é interpretado por Christian Friedel e Sandra Hüller, protagonistas de um elenco que inclui ainda Ralph Herforth, Max Beck e Imogen Kogge.
 
A narrativa e a abordagem visual do filme distinguem-se pela recusa de representação directa da violência, privilegiando antes o fora de campo e o desenho sonoro como elementos centrais. Esta opção constrói uma relação entre o quotidiano e o horror, sublinhando a banalização da violência e a dissociação moral das personagens.
 
Zona de Interesse” estreou no Festival de Cannes, onde conquistou o prestigiado Grande Prémio do Júri. Na 96.ª edição dos Óscares, o filme obteve um total de cinco nomeações, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento Adaptado, tendo vencido nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som. A obra foi igualmente consagrada pela crítica britânica, vencendo o BAFTA de Melhor Filme Britânico, elevando assim o seu estatuto como um dos títulos mais impactantes do cinema contemporâneo.
 
Jonathan Glazer, conhecido por uma filmografia reduzida, mas marcada por um estilo próprio, é também autor de filmes como “Sexy Beast” (2000), com Ray Winstone no papel principal, “Birth” (2004), protagonizado por Nicole Kidman e “Under the Skin”(2013) com Scarlett Johansson como protagonista, nos quais explora arranjos narrativos e visuais pouco convencionais.
 
As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 
 
Até terça-feira!
 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Europa Europa (1990) de Agnieszka Holland



por Rute Castro
 
 Agnieszka Holland, nascida na Polónia em 1948, é uma das vozes mais incontornáveis do cinema europeu contemporâneo, reconhecida pela sua capacidade ímpar de explorar as complexidades históricas e as zonas cinzentas da moralidade humana. Em Filhos da Guerra, a realizadora recusa a dicotomia simplista do bem contra o mal, mergulhando o espectador numa das histórias de sobrevivência mais fascinantes e absurdas do século XX. O filme destaca-se por uma ironia trágica profunda: para escapar ao Holocausto, um jovem judeu é forçado a assumir a ideologia, a farda e os maneirismos dos seus próprios carrascos.

O estilo da realizadora neste filme é marcado por um equilíbrio magistral entre o drama histórico sombrio e um tom quase picaresco. Em vez de recorrer apenas à tragédia ininterrupta que caracteriza tantas obras sobre a Segunda Guerra Mundial, Holland utiliza o humor negro e a ironia para sublinhar a total irracionalidade e a falsidade das teorias de pureza racial nazis. A montagem atenta e a fotografia de Jacek Petrycki capturam o tumulto interior de Salomon (interpretado brilhantemente por Marco Hofschneider), cuja existência se converte numa aterradora performance contínua. O seu próprio corpo, marcado pela circuncisão, torna-se o seu maior inimigo e o principal gerador de um suspense quase insuportável, numa sociedade onde a biologia foi transformada em sentença de morte.

A importância deste filme no panorama mundial prende-se com a sua coragem em desconstruir identidades e dogmas impostos. Ao focar-se na odisseia camaleónica de Perel, a cineasta força o público a olhar para o conflito através de uma perspetiva desconcertante, onde as fronteiras entre vítima e membro da máquina opressora se esbatem por uma pura e visceral necessidade de sobrevivência. Filhos da Guerra não só consolidou o prestígio internacional de Holland, como expandiu os limites cinematográficos da representação da guerra, afastando-se do melodrama convencional para oferecer um estudo complexo sobre as máscaras que vestimos perante a loucura coletiva.

A banda sonora, composta pelo conceituado Zbigniew Preisner (frequentemente associado às obras de Krzysztof Kieślowski), é um elemento narrativo por excelência. A música oscila magistralmente entre o lirismo melancólico e o suspense opressivo, sublinhando a fratura interna do protagonista. Além disso, as composições instrumentais de Preisner contrastam de forma violenta com os hinos nacionalistas, tanto soviéticos como alemães, que os jovens são forçados a entoar ao longo do filme. Esta dualidade auditiva evidencia a forma como a música e a cultura foram cooptadas como perigosas ferramentas de propaganda e de lavagem cerebral das massas juvenis.
 
O impacto de Filhos da Guerra foi estrondoso na Europa e nos Estados Unidos, conquistando tanto o público como a crítica especializada. A imprensa destacou a ousadia de Holland em tratar uma temática desta gravidade cruzando elementos de tragédia, comédia de erros e thriller psicológico. Embora tenha gerado alguma controvérsia inicial na Alemanha, que culminou na infame recusa do país em submeter a obra como a sua candidata oficial aos Óscares, o que gerou protestos de figuras de peso em Hollywood, a aclamação internacional provou ser inabalável. Hoje, o filme integra a prestigiada Criterion Collection e é unanimemente considerado um triunfo cinematográfico e um documento essencial sobre a resiliência humana.



 

domingo, 19 de abril de 2026

443ª sessão: dia 21 de Abril (Terça-Feira), às 21h30


“Europa Europa” de Agnieszka Holland, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star – Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a hiper-normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo continua com o filme “Europa Europa” (1990), também conhecido por “Filhos da Guerra”, da realizadora polaca Agnieszka Holland. Baseado na autobiografia de Solomon Perel, o filme acompanha a história de um jovem judeu alemão que, durante a Segunda Guerra Mundial, sobrevive ocultando a sua identidade. Após sucessivas deslocações, acaba por integrar instituições do regime nazi, incluindo a Juventude Hitlerista, vivendo sob constante risco de exposição. O protagonista é interpretado por Marco Hofschneider.

Sendo uma coprodução europeia, o filme destacou-se pela forma como aborda a identidade, a sobrevivência e a ambiguidade moral em contexto de guerra. Destaca-se o facto de a narrativa assentar num testemunho real particularmente invulgar, marcado por situações limite e decisões de adaptação contínua.
 
A recepção crítica foi amplamente positiva, que valorizou a capacidade do filme em conjugar diferentes tons narrativos. Europa Europa recebeu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e foi nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Adaptado. Foi ainda distinguido como o Melhor Filme Estrangeiro por prestigiadas associações de crítica, como o National Board of Review e o New York Film Critics Circle, consolidando o seu impacto no circuito internacional.

Agnieszka Holland desenvolveu um percurso marcado por uma forte ligação a temas históricos e políticos, trabalhando entre a Europa e os Estados Unidos. Entre as suas obras mais reconhecidas destacam-se Amarga Colheita (1985), também nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, Na Escuridão (2011), e Mr. Jones (2019), centrado na cobertura jornalística da fome na Ucrânia.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ascensão (1977) de Larisa Shepitko



por Laura Mendes
 
Ascensão desloca-nos, num movimento de evasão, para a vastidão das paisagens soviéticas (ocupadas), durante a segunda guerra mundial, onde dois resistentes procuram mantimentos para o seu grupo. Dois homens unidos quase por acaso – Rybak, nomeado pela experiência e destemidez, e Sotnikov, que ao outro se junta mais pela disponibilidade do que pela excelência –, cuja missão, percebemos imediatamente, é essencial à sua sobrevivência, bem como à dos seus parceiros.

A neve amontoa-se criando um horizonte que, situado entre o sublime e o grotesco, está mais próximo deste último graças à sua transformação em campo de batalha. Não apenas o frio e a fome, mas também a planície feita labirinto dificultam a jornada dos dois homens enquanto fugitivos dos alemães que ocupam a região, evidenciando o caráter desolador desta viagem e explorando (narrativa e visualmente) o potencial destrutivo da paisagem natural.

O relento é como um campo minado: Sotnikov é baleado e inicia uma outra viagem (espiritual) marcada por uma tentativa de suicídio, a tempo travada por Rybak. No entanto, a casa onde procuram abrigo, a de uma mulher com três filhos, tampouco demonstra ser um lugar seguro, sendo aí onde os três cúmplices acabam capturados.

A partir desse momento, passamos a conhecer uma realidade mais vasta – a dos condenados. Shepitko é solene na apresentação do seu povo massacrado, incluindo-o na sua mais complexa reflexão em torno da tensão entre a permanência num mundo cruel e a ascensão. Respetivamente representadas por Rybak e Sotnikov, estas são as duas formas-limite de viver uma vida-limite: se Rybak permanece acorrentado ao instinto de sobrevivência e ao esforço material, sem dúvida alicerçados na esperança, Sotnikov incorpora a figura crística do sacrifício, da cedência e, em última instância, desistência de um caminho que sabe não ser capaz de percorrer. 

No limbo entre as duas posições, vemos pessoas comuns – com as quais os dois protagonistas partilham a cela e os seus últimos momentos – com medo e lágrimas nos olhos, impotentes face a forças maiores que os querem dizimados.
 
A última caminhada – e note-se a importância das mesmas ao longo de todo o filme, constituindo deambulações de perigo e de descoberta (interior) –, assemelhando-se a uma procissão, culmina no surgimento das forcas sob o olhar estagnado de quem irá assistir a uma execução. Olhar esse especialmente impactante quando imprimido nos rostos entrecortados de Sotnikov e de um menino que o observa, transformando o momento final num de libertação, mas de reticência quanto à vida porvir, refletindo-se no futuro incerto de uma criança, como tantas outras.

Quem resta é Rybak, e parece ser na imaginação da sua morte que encontra consolo para a confusa culpa que sente, para travar a dolorosa ponderação acerca de quem foi e é. A tentativa falhada de suicídio, motivo transversal na narrativa, é mais um elemento na construção da relação entre a morte e a vida em momentos desumanizantes, os de guerra. 

E a vista de uma porta aberta não consegue apagar o facto de a liberdade ser um engano, de a promessa não passar de uma mentira. A morte enquanto fuga é, sim, a salvação.
 
 
 

domingo, 12 de abril de 2026

442ª sessão: dia 14 de Abril (Terça-Feira), às 21h30



“Ascensão” de Larisa Shepitko, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga 
 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star – Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a hiper-normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo prossegue com o filme Ascensão (Voskhozhdeniye, 1977) da realizadora soviética Larisa Shepitko. Baseado na novela de Vasily Bykov, o filme decorre durante a Segunda Guerra Mundial, acompanhando dois partisans soviéticos em território ocupado pelas forças nazis. Interpretados por Boris Plotnikov e Vladimir Gostyukhin, os protagonistas enfrentam uma situação limite após serem capturados, num percurso centrado em escolhas morais e nas suas consequências.

Produzido pelo estúdio Mosfilm, Ascensão foi rodado em condições exigentes, com filmagens em ambientes naturais de inverno, evidenciando uma abordagem formal contida e um uso expressivo da paisagem. Esta opção reforça o foco no conflito interior das personagens, em articulação com o contexto histórico, explorando a experiência da guerra a partir de uma perspetiva centrada no indivíduo e nas suas decisões.

Formada no VGIK, Larisa Shepitko destacou-se num contexto em que a realização cinematográfica era ainda maioritariamente dominada por homens. Embora inserida num contexto como o da União Soviética, que promovia formalmente a participação das mulheres em várias áreas profissionais, o seu reco-nhecimento, dentro e fora do país, destacou-a como uma das poucas cineastas da sua geração a alcançar projeção internacional, consolidando um percurso autoral singular no panorama do cinema soviético e contribuindo, ainda, para a visibilidade de realizadoras no cinema do século XX. Ascensão é frequentemente apontado como o seu filme mais relevante, tendo sido distinguido com o Urso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 1977.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às ter-¡ças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O Ovo da Serpente (1977) de Ingmar Bergman



por António Cruz Mendes
 
O Ovo da Serpente é um filme sombrio. Desde logo, no sentido literal do termo. A maioria das sequências são nocturnas e, mesmo quando é dia, nunca a luz do sol as ilumina. Mas, é-o sobretudo num sentido metafórico. Decorre no ano de 1923, quando na Alemanha reinava a híper-inflacção e toda a gente lutava pela sua sobrevivência sem esperar dias melhores. “Não há futuro. As pessoas perderam o futuro”, diz-nos a dada altura Manuela. Mesmo os momentos de diversão ou os encontros amorosos são patéticos. Caricaturas grotescas do que pode ser a alegria e o amor. E é neste contexto que, como uma sombra que se vai alongando, vai ganhando forma a ameaça nazi.

Enquanto a câmara segue os passos de Abel pelas ruas sujas e enevoadas de Munique, o narrador dá-nos conta desta situação: “3ª Feira, 6 de Novembro. Os jornais estão repletos de medo, ameaças e rumores. Um confronto sangrento entre os partidos extremistas parece inevitável. Apesar de tudo, as pessoas vão trabalhar. A chuva nunca pára e o medo surge, como o vapor, das pedras da rua. Pode ser sentido como um cheiro pungente. Todo o mundo o suporta como um envenenamento interno, como um envenenamento lento sentido apenas como um pulsar, mais rápido, mais lento, ou como um espasmo de náusea”.

As personagens centrais do filme são Abel Rosenberg e a sua cunhada Manuela, ambos antigos artistas de circo. Também eles vivem desesperadamente à sombra da pobreza e do remorso. Manuela culpabiliza-se pelo suicídio de Max, o seu marido, e Abel tem uma vida sem propósito que apenas suporta quando se embebeda. Deus é uma figura ausente, como nos diz o padre a quem Manuela confessa a sua culpa. “Precisamos de nos ajudar uns aos outros, dar uns aos outros o perdão que um Deus distante nos nega”. Abel é a testemunha silenciosa que nos vai conduzir dos bas-fonds da cidade de Munique aos espaços labirínticos da clínica do Doutor Vergerus.

No mundo deliquescente da Alemanha do pós-guerra, duas personagens contraditórias procuram oferecer-lhe uma ordem. Uma “nova ordem”, na perspectiva de Hans Vergerus, um cientista que, usando cobaias humanas, realiza experiências que têm como propósito manipular as emoções dos seus pacientes. Trata-se de explorar os seus limites até às últimas consequências, com a finalidade de os conhecer para poder remover as fragilidades do comportamento humano em prol de uma superior eficiência. Apesar do seu menosprezo pela figura de Hitler, sua clínica prefigura numa dimensão laboratorial a sociedade de controlo totalitário que o nazismo tentará fundar. Ao Inspector Bauer, pelo contrário, cumpre-lhe dar o seu pequeno contributo para restabelecer alguma ordem na República de Weimar, descobrindo o responsável pela misteriosa série de mortes que têm ocorrido em Munique.

Aparentemente, Bauer é o vencedor. Os seus polícias invadem a clínica e Vergerus suicida-se. Entretanto, chegam as notícias de que fracassou o golpe que Hitler preparava em Munique. Porém, como diz Vergerus a Abel, “qualquer um que faça o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como o ovo da serpente. Através da membrana fina pode-se distinguir claramente o réptil já perfeitamente formado”.


 

domingo, 5 de abril de 2026

441ª sessão: dia 7 de Abril (Terça-Feira), às 21h30


“O Ovo da Serpente” de Bergman, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga
 
Para honrar a liberdade durante o mês de Abril, o Lucky Star – Cineclube de Braga programou quatro longas-metragens “Contra a Banalidade do Mal”, cujo título do ciclo é alusivo à obra Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963) de Hannah Arendt.
 
Os filmes seleccionados denunciam os horrores e as consequências do autoritarismo e da guerra. Revisitando a História através do cinema, o ciclo pretende afirmar-se contra a hiper-normalização da violência e da apatia. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o ciclo abre com o filme O Ovo da Serpente (1977) de Ingmar Bergman. Produzido durante o período em que o realizador se encontrava fora da Suécia, o filme decorre na Berlim de 1923, num contexto de crise económica e instabilidade política. Através da figura de Abel Rosenberg, um judeu estrangeiro progressivamente isolado, o filme evidencia um contexto de crise, desagregação social e vulnerabilidade que antecipa formas de exclusão e desumanização mais tarde institucionalizadas pelo regime Nazi.

A narrativa centra-se em Abel Rosenberg, interpretado por David Carradine, um artista judeu-americano que permanece na cidade após a morte do irmão. A personagem estabelece uma relação com Manuela, interpretada por Liv Ullmann, num enredo que acompanha a progressiva deterioração das suas condições de vida. Desesperado por sobreviver na cidade ainda devastada pela guerra, Abel aceita um emprego na clínica do professor Veregus. Aí, descobre a terrível verdade por detrás do trabalho do professor, estranhamente benevolente, e desvenda o mistério arrepiante que levou o seu irmão ao suicídio. 

O elenco inclui ainda Gert Fröbe e Heinz Bennent. Rodado em língua inglesa e com financiamento internacional, distingue-se no conjunto da obra de Bergman pelo contexto de produção e pela aborda-gem histórica directa. O Ovo da Serpente integrou a seleção oficial em competição no Festival de Cannes, em 1977. A receção crítica à época foi desigual, tendo o filme vindo a ser posteriormente reavaliado no contexto da filmografia do realizador.


As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!
 


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Matthias & Maxime (2019) de Xavier Dolan



por Estela Cosme

Matthias e Maxime é um filme que nos causa bastante estranheza e bastante familiaridade simultaneamente. Ao mesmo tempo que é uma história sobre amizade e amor juvenil, é também um retrato de jovens adultos que se encaixam numa vida ainda em construção, onde cada episódio é monumental e banal ao mesmo tempo. Onde tudo parece efémero, mas profundamente marcante, e sabemos perfeitamente que o que acontece irá moldar as personagens de forma irreversível. É por isso um filme de contradições, mas também do que existe entre elas e por causa delas.


A história gira à volta de um grupo de amigos de infância que agora são jovens adultos, obrigados a definir o seu presente pelas suas ambições profissionais. No entanto, as suas amizades deixam-nos prendidos à sua adolescência e à forma grosseira e reactiva de viver e de agir a que estão tão habituados, sendo o grupo o único elemento familiar num mundo caótico e temível, a sua única rede de segurança. 


Mas este é um grupo de homens concentrados em si próprios, onde existe uma masculinidade não só dominante, mas também agressiva. Tudo o que ousa "furar" esta bolha é retratado de forma negativa, e as personagens femininas não escapam às críticas e ao desdém das personagens principais. Vemos a irmã de Rivette a ser gozada e repetidamente desvalorizada como artista. A mãe de Maxime é apenas violenta e manipuladora, um dos vários motivos que leva Maxime a querer sair do país (vemos outra relação de mãe e filho turbulenta noutro filme de Xavier Dolan, Eu Matei a Minha Mãe). Até Matthias encara a mãe de forma negativa, apesar de como espectadores não nos serem apresentados motivos. E é no meio desta virilidade bem marcante e do caos que ela traz que descobrimos que existe uma espécie de história de amor, e essa história não é perfeita, tal como as suas personagens. 

Matthias e Maxime conhecem-se desde a infância mas há algo entre eles que os une de uma forma que não une os outros amigos. Quando são emboscados para aparecer numa curta-metragem da irmã de Rivette, eles descobrem que têm que se beijar em frente à câmara, levando o grupo de amigos a relembrar que isso já tinha acontecido na secundária. Um lapso devido ao efeito de drogas, segundo Matthias. Mas ao longo do filme descobrimos que a verdade é bem mais complexa, e apesar de viverem as suas vidas como homens heterossexuais, há uma paixão silenciosa por explorar entre ambos. O beijo entre eles causa uma grave crise existencial, que mexe profundamente com os dois, e que põe em causa não só a sua amizade, mas também o grupo de amigos, as suas respectivas relações amorosas, e a eventual partida de Maxime para a Austrália. 

Para as personagens principais, chegou o momento de lidar com o que já não podem mais adiar. O inevitável surge no pior momento, exacerbado pelo sofrimento das mudanças, o caos do dia-a-dia e a pressão da despedida. A repressão da sua homossexualidade tem consequências nefastas, como é óbvio, e o amor que existe entre os dois nem é saudável nem é minimamente tangível. O que vemos neste amor tem pouco de carinho e de lealdade, é o amor de uma amizade agridoce que se foi azedando com o tempo, com sentimentos por definir e uma atração mal interpretada por ambas as partes. Não sabem o porquê desse puxão magnético que os une, o que os leva a afastar-se cada vez mais. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, agora há uma contagem decrescente até ao momento em que se devem separar de vez. O amor entre eles tem então os dias contados, e tudo o que se diga e se faz conta muito, para o bem e para o mal. E como vemos ao longo do filme, é sobretudo para o mal. 


Mas o filme não só lida com a frustração de um amor por realizar. Lida também com a esperança de que ele eventualmente seja realizado e correspondido. Mas se esse é um amor pelo qual devemos nutrir, isso já fica a cargo de cada espectador. Para muitos, talvez a aridez da Austrália pareça bem mais acolhedora.



domingo, 29 de março de 2026

440ª sessão: dia 31 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Matthias & Maxime”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga
 
Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, encerra-se a retrospectiva dedicada a Xavier Dolan com a exibição de Matthias & Maxime (2019), um filme centrado nas relações de amizade e nos processos de redefinição afectiva na vida adulta.
 
A narrativa acompanha Matthias e Maxime, amigos de longa data que integram um grupo próximo e coeso. A dinâmica entre ambos altera-se quando aceitam participar num filme estudantil, no qual partilham um beijo em cena. Este episódio desencadeia uma série de questionamentos que irão afectar a forma como cada um se relaciona consigo próprio e com o outro, colocando em causa equilíbrios até então estabelecidos.

Interpretado por Gabriel D'Almeida Freitas e pelo próprio Xavier Dolan, o filme conta ainda com a participação de Anne Dorval, colaboradora habitual do realizador. O elenco contribui para a construção de um registo próximo do quotidiano, assente em diálogos naturais e numa atenção particular aos gestos e às hesitações das personagens. Rodado maioritariamente no Quebeque, Matthias & Maxime apresenta uma abordagem formal mais contida em comparação com obras anteriores de Dolan, privilegiando a observação das interações entre personagens e a construção progressiva de tensão emocional. 

O filme estreou no Festival de Cannes de 2019, integrando a competição oficial, e marcou o regresso de Xavier Dolan a um registo mais centrado nas relações interpessoais. A obra foi também exibida em diversos festivais internacionais. Com Matthias & Maxime, Xavier Dolan propõe um retrato das am-biguidades do desejo e da dificuldade em nomear os afectos, explorando os momentos de transição em que a amizade e o amor deixam de ser categorias estáveis.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!


quarta-feira, 25 de março de 2026

Mommy (2014) de Xavier Dolan



por Jessica Sérgio Ferreiro
 
Mommy é um drama familiar e psicológico, centrado na relação “disfuncional” entre mãe (Diane ou Die) e filho (Steve), cujos mundos interiores são tão complexos como a relação entre ambos. Se no seu primeiro filme, Dolan tentava simbolicamente “matar” a mãe (Eu Matei a Minha Mãe, 2010), em Mommy a morte do pai leva Steve a tentar protegê-la. Ao procurar ocupar o lugar vago da figura paterna, a sua conduta revela um profundo complexo edipiano. Para além disso, Steve é um jovem de comportamentos erráticos, cujo lugar na sociedade parece inexistente ou interdito, empurrando-o para as margens do sistema (facto que Dolan pretende criticar com este filme).
 
Como é habitual em Dolan, as mulheres ocupam o centro da narrativa, representando um universo feminino multifacetado e elevando mulheres cujas aparências são frequentemente alvo de escrutínio e preconceito social. Diane é uma mulher resiliente que luta incansavelmente pelo bem-estar do filho e pela estabilidade material da família. Em contraste, a vizinha Kyla surge como uma mulher constrangida ou sufocada pelos seus papéis domésticos de mãe e esposa, uma personagem cuja voz (literal e metaforicamente) se solta à medida que se integra na dinâmica vibrante e caótica de Die e Steve. Ao contrário de Diane, Kyla é contida e inibida. Professora em licença sabática, ela emerge do seu isolamento, tanto físico como mental, ao assumir a educação de Steve, reencontrando a alegria no seu papel de professora. Kyla personifica a esperança e a capacidade de transformar o mundo através da empatia (ecoando o discurso final de Diane), dedicando-se a resgatar Steve das margens da sociedade para que ele alcance o futuro que ambiciona (E não será essa a missão maior do professor?).

O filme pode, ainda, ser analisado a partir da articulação entre a forma e a narrativa, ou seja, aqui a dramaturgia constrói-se também através do formato. O uso do formato de imagem 1:1 (nada convencional) funciona como um dispositivo de restrição do campo visual, concentrando a atenção do espectador nas personagens e forçando, assim, uma relação de proximidade com estas. A encenação e composição é centrada no sujeito, repleta de close-up e planos de pormenor, onde o tempo é subjectivo e o espaço deixa de ser neutro, para reflectir os estados emocionais das personagens e as condições sociais que as afectam. Este enquadramento constrangedor e asfixiante traduz, assim, a opressão sentida pelos personagens.

Quando chegamos exactamente a meio do filme, a variação do formato introduz uma ruptura no sistema visual do filme que pode ser lida como um momento de suspensão da norma narrativa, remetendo para uma ideia de cinema como experiência sensorial, em que a forma também produz significado. A expansão do ecrã não traduz apenas um estado psicológico, materializa, também, no próprio dispositivo cinematográfico, a possibilidade de abertura e projecção, existindo, assim, uma relação dialéctica entre forma e conteúdo.

Este momento pode também ser lido à luz da teoria da “imagem-afecção” de Gilles Deleuze[1], na medida em que a forma deixa de representar uma acção para se tornar expressão directa de um estado emocional. A variação do formato não é apenas um efeito estilístico, mas uma intervenção no próprio dispositivo que reorganiza a relação entre imagem, corpo e espaço. Aliás, é o próprio Steve que expande, com as mãos, a primeira sequência para o formato 1.85:1, maior que o 16:9 (acontece duas vezes no filme), quebrando, ainda, a “quarta parede”. A “quarta parede” refere-se ao momento em que uma personagem ficcional interage directamente com o dispositivo cinematográfico, rompendo com o carácter ilusório do próprio cinema (quando, por exemplo, o personagem olha directamente para a objectiva e fala com os espectadores). Em Mommy, o gesto tem significado: Steve abre o campo visual num gesto libertador, momento da história em que, finalmente, as três personagens encontram fôlego. 

O uso da música também é crucial na interrupção da narrativa linear, aproximando-se também da lógica de “imagem-afecção”, proposta por Deleuze, onde o foco recai na intensidade emocional mais do que na causalidade da acção. Estas sequências funcionam como “blocos sensoriais”, nos quais o tempo narrativo é suspenso para dar lugar a uma experiência mais imediata e subjectiva.

Por outro lado, a relação entre Diane e Steve inscreve-se numa tensão entre esfera privada e regulação social e institucional. A referência à lei fictícia S-14, que permite a institucionalização de jovens considerados “problemáticos” e cuja tutela passa exclusivamente a ser do estado ou da instituição, sugere uma leitura do filme a partir do conceito de biopolítica[2]  (gestão e controlo/adestramento dos corpos), tal como discutidos por Michel Foucault, e cuja crítica aos mecanismos de exclusão social, sabemos ter sido, também, intenção do realizador. Neste contexto, o espaço doméstico surge simultaneamente como lugar de protecção e de conflito, evidenciando os limites das estruturas familiares (e das relações Humanas reais) face a sistemas normativos mais amplos e excludentes. Assim, Mommy pode ser pensado como um objecto que articula forma e política: a estilização não funciona como ornamento, mas como modo de produzir sentido, colocando o espectador perante uma experiência que é simultaneamente emocional, estética e crítica.

O filme estreou no Festival de Cannes de 2014, onde recebeu o Prémio do Júri, partilhado com Adieu au langage de Jean-Luc Godard. Ao longo do circuito internacional, Mommy foi amplamente distinguido, incluindo o Prémio César e Melhor Filme Estrangeiro, e representou o Canadá na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional. A obra integrou ainda a programação de diversos festivais e consolidou o reconhecimento de Xavier Dolan a nível internacional.
 
[1]  Ver: Deleuze, G. (1985). A imagem-tempo. Editora Brasiliense
[2]  Ver: Foulcault, M. (2003 [1997]): Society must be defended: Lectures at the Collège de France, 1975-76. New York: Picador.
 
 
 

domingo, 22 de março de 2026

439ª sessão: dia 24 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Mommy”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Na próxima terça-feira, exibe-se Mommy (2014), de Xavier Dolan, uma das obras mais reconhecidas do realizador canadiano e um momento central do seu percurso cinematográfico. 
 
O filme acompanha Diane, uma mãe viúva que assume a guarda do filho adolescente, Steve, um jovem impulsivo e com comportamen-tos instáveis. A relação entre ambos, marcada por afecto e conflito, ganha um novo equilíbrio com a entrada de Kyla, uma vizinha que estabelece uma ligação próxima com a família. A partir deste núcleo, o filme desenvolve um retrato das dinâmicas familiares, da fragilidade emocional e das dificuldades de integração social.

Interpretado por Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon e Suzanne Clément, o filme assenta na intensida-de das interpretações e na proximidade entre câmara e personagens. Do ponto de vista formal, Mommy destaca-se pelo uso de um formato de imagem quadrado (1:1), que limita o campo visual e reforça a sensação de confinamento das personagens. Este dispositivo é pontualmente interrompido, criando momentos de expansão que acompanham o estado emocional das figuras em cena. A realização mantém ainda elementos recorrentes no cinema de Dolan, como o uso expressivo da música e a construção visual estilizada.

O filme estreou no Festival de Cannes de 2014, onde recebeu o Prémio do Júri, partilhado com Adieu au langage de Jean-Luc Godard. Ao longo do circuito internacional, Mommy foi amplamente distinguido, incluindo o Prémio César e Melhor Filme Estrangeiro, e representou o Canadá na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional. A obra integrou ainda a programação de diversos festivais e consolidou o reconhecimento de Xavier Dolan a nível internacional.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!
 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Laurence para Sempre (2012) de Xavier Dolan



por Laura Mendes
 
Dando continuidade ao repto lançado em Amores Imaginários – ainda que tomando outros contornos –, Dolan adentra-se, novamente, nas tensões entre o real e o imaginado, a obrigação e o sonho. Num registo monumental – e bem mais sério –, o filme desenrola-se no tempo de uma conversa, estendido para o tempo em que se escuta e se vê acontecer a história de uma (meia) vida, em tom confessional, sempre emancipatório. 

Laurence e Fred vivem à margem, inconformados com as exigências do mundo, mas ainda assim alinhando-se com a heteronormatividade que os mantém em consonância com a “normalidade” esperada. É a revelação de Laurence como mulher trans que incita a uma verdadeira disrupção, espoletando o questionamento acerca do que é que realmente sustenta uma vivência (conjunta) numa sociedade opressiva. A imaginação já não consegue, com os seus artifícios, sobrepor-se ao real, tornando-o suportável. A imaginação sucumbe, já não nos surge como libertação, mas como doloroso confronto com o desabar da linearidade e simplicidade aparentes.

Laurence Para Sempre não é, como já o disse o próprio Dolan, um drama em torno da transexualidade, do duro processo de mudança de sexo, mas sim sobre duas pessoas presas uma à outra – atentando nas maldições dessa prisão –, que se pertencem mutuamente porque se sentem e percebem, sobre os desafios sociais que têm de ultrapassar, os obstáculos moralistas, os binómios demarcados. 

Apesar da (declarada) superficialidade em torno da jornada trans, é notável o respeito por estas pessoas e, sobretudo, pelo ser-se mulher. A mulher parceira, a mulher porvir, as mulheres de feminilidade excêntrica, desafiadora: Laurence, Fred, Mamy e Baby Rose. Nelas, sempre presente a necessidade de libertação face a um mundo opressivo e injusto - nervos, sentimentos e aflições à flor da pele, transpostos para sequências abaladoras, quadros marginais maravilhosos, envoltos em boémia, languidez, sobretudo refúgios para ser-se triste, decadente, face à insaciabilidade de um mundo demasiado limpo e exigente. Utilizando o contexto histórico a seu favor – o filme passa-se no intervalo entre 1989 e 2000 –, Dolan representa a ainda frágil consciência queer, funcionando esta abordagem como um comentário para o espectador contemporâneo – será que mudou muita coisa desde então?

É a partir de oscilações que o filme é construído, localizando a reflexão na relação metamórfica de Laurence e Fred. Opondo-se uma à outra, se Laurence sonha com uma nova vida em conjunto, Fred encontra-se no limbo entre fazer ou não parte, confrontando-se tanto com a opressão da família comum, como com o mundo desonesto e corrompido das aparências, perdendo-se na violência que brota das palavras de revolta que não são ditas. Gritos de raiva que são dirigidos tanto aos receosos que olham furtivamente – aqueles que vemos na sequência inicial –, como à lembrança, à saudade, ao arrependimento e frustração que envolvem uma relação que se vê falhada, mas eternamente querida. 

Esta não é uma jornada individual, mas relacional – falamos do amor estrutural, mas irrealizável, aquele que, repudiado pelas regras sociais, é como quimera encantada que resistirá na capacidade de sonhá-lo e recordá-lo.

O falso final feliz, recuperando uma ciclicidade importante para esta história de amor, é tão angustiante como libertador, sabendo nós que a felicidade que se fez no passado diverge daquela que se pode construir no futuro.

Dolan atravessa – e faz-nos atravessar – um mar de amarguras, fazendo-nos pensar acerca do poder da realidade, de como o vai exercendo sobre a maneira como nos conformamos (ou não) com quem somos, como nos construímos nas e das pessoas, acabando por nos ensinar que o destino não é uma entidade omnipotente, antes brutalmente contaminada pelos fatores sociais e políticos que acompanham os amores (im)possíveis.
 
 
 
 

domingo, 15 de março de 2026

438ª sessão: dia 17 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Laurence para Sempre”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, será exibido Laurence para Sempre (2012), terceira longa-metragem de Xavier Dolan. Após o reconhecimento obtido com Eu Matei a Minha Mãe (2009) e Amores Imaginários (2010), Dolan regressa com uma obra de maior escala narrativa, centrada numa história de amor.

O filme acompanha Laurence, professor de literatura que, no início da década de 1990, revela à companheira Fred o desejo de viver plenamente a sua identidade como mulher. A partir desse momento, a relação entre ambos é colocada à prova pelas dificuldades da transição, pelas reacções do meio social e pelas tensões que atravessam a vida quotidiana. Ao longo de quase uma década, o filme acompanha o percurso de Laurence e Fred, explorando os limites do relacionamento e da liberdade individual.

O elenco é liderado por Melvil Poupaud, no papel de Laurence, e Suzanne Clément, cuja interpretação de Fred foi destacada pela crítica. Participam ainda Nathalie Baye e Monia Chokri, colaboradora habitual do realizador. Rodado em Montreal, o filme evidencia o estilo visual característico de Dolan, marcado por sequências em câmara lenta e uma banda sonora que atravessa diferentes épocas, reforçando a dimensão emocional da história.

Laurence Anyways
estreou no Festival de Cannes de 2012, na secção Un Certain Regard, onde Suzanne Clément recebeu o prémio de Melhor Atriz e o filme foi distinguido com a Queer Palm. A obra viria ainda a receber o prémio de Melhor Filme Canadiano no Toronto International Film Festival, além de integrar a programação de diversos festivais internacionais, entre os quais o BFI London Film Festival e o AFI Fest, consolidando a projecção internacional do realizador.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça!
 


quarta-feira, 11 de março de 2026

Amores Imaginários (2010) de Xavier Dolan




por Laura Mendes
 
Amores Imaginários é uma ode às fantasias da juventude - aquelas onde nos entregamos aos amores não correspondidos, incapazes de os largar, mantendo-os sempre apetecíveis e fascinantes. Uma ode que desvela o que subjaz aos desamores e às ilusões que nos acometem e desvariam: os loucos ideais pelos quais somos tentados, o conceito do ser(-se) amado que ultrapassa a pessoa que pode ser amada - como o dizem no próprio filme -, colocando a falha como elemento imprescindível nas relações que mantemos com os outros, na maneira como crescemos. 

Um filme que explora a complexidade do fenómeno da atração, o seu funcionamento enquanto ponto de partida para uma série de desavenças que colocam frente a frente (res)sentimento, paixão e desilusão, trabalhando o amor romântico ora como uma quimera íntima, ora como um duelo de onde sairá um vencedor e um vencido, até mesmo como um acontecimento tanto impossível como inimaginável.

Repleto de metáforas e devaneios visuais - as escondidas na montanha, o saborear dos marshmallows - evidencia a beleza inerente aos jogos entre Marie, Francis e Nicolas: os dois primeiros, impotentes face aos encantos do último, um Adónis de carne e osso, recusam expressar desejos indizíveis sempre latentes, que ocupam o seu quotidiano, preferindo uma luta lenta e inquietante, mas cativante, necessária à conquista daquele coração.

As tensões entre hetero e homossexualidade, entre amores frustrados e bem-sucedidos, surgem-nos clarificadas e racionalizadas nas sequências intervalares e confessionais, enquanto se materializam de forma brutal e carnal nas dinâmicas do triângulo amoroso, criando um díptico que confronta não só reflexão e ação, mas também realidade e ilusão.

A narrativa, de simplicidade primitiva, ganha contornos mais interessantes com os pormenores que evocam o onírico e o utópico, a transcendência - pensemos nas sequências onde a câmara lenta nos guia em fabulosas danças de cores, ídolos do cinema, paixões irrevogáveis -, unindo-se, num abraço delicioso, à forma que adota através da via do olhar encantado, rendido. 

Queremos que a fantasia se perpetue. É, no entanto, com a destruição do lugar idílico onde o amor poderia florescer sem impedimentos que o filme penetra nas dificuldades do sonho. Rivalidade e desejo, fantasmas de amores passados e futuros compõem uma viagem de frustração que demonstra a força do amor e da sexualidade, mas também o seu lado mais negro e profundo, adensado pela revelação das dores dos corpos queer, dos ciclos de rejeição, da revolta contra uma solidão aparentemente inescapável.

Com a criatividade e a sensualidade de sempre, Dolan reinventa o derrotismo, transformando-o numa reivindicação de amizade, num propulsor de excitação, de novos começos, de vida a acontecer.




domingo, 8 de março de 2026

437ª sessão: dia 10 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Amores Imaginários”, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Com apenas vinte anos, Dolan afirmou-se como um dos grandes prodígios do cinema contemporâneo. Realizador, argumentista e actor, construiu uma obra pessoal, marcada por uma estética vibrante e jovial, mas também por uma intensidade e profundidade dramática rara com pontuações musicadas. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, exibe-se Amores Imaginários (2010), segunda longa-metragem de Xavier Dolan que confirma o talento precoce do cineasta que se revelara no ano anterior com Eu Matei a Minha Mãe (2009), exibido na semana passada. Neste segundo filme, o realizador retrata as inseguranças da juventude, o amor não correspondido e a obsessão amorosa.

A história acompanha Francis e Marie, dois amigos inseparáveis que vivem em Montreal, cuja relação se altera quando conhecem Nicolas, um jovem que rapidamente desperta o fascínio de ambos. Convencidos de que são o verdadeiro objecto de desejo dele, instala-se uma rivalidade entre Francis e Marie. Através deste triângulo amoroso, Dolan explora as projecções românticas e a forma como o amor, ou a ideia que fazemos do amor ou o idealizamos, pode distorcer a percepção da realidade.

Tal como no seu filme de estreia, o realizador assume múltiplas funções: escreve o argumento, realiza e interpreta uma das personagens principais, Francis. A seu lado surge Monia Chokri, que dá vida a Marie, e Niels Schneider, no papel de Nicolas, cuja ambiguidade alimenta a tensão emocional do trio. O elenco é ainda pontuado por pequenas participações e testemunhos que surgem como comentários irónicos sobre experiências amorosas, reforçando o tom simultaneamente romântico e mordaz do filme.

Rodado em Montreal (Canadá), Amores Imaginários apresenta uma estética marcada pela câmara lenta, pelo guarda-roupa meticulosamente escolhido e por uma banda sonora ecléctica que cruza pop com referências retro — traços que se tornariam característicos do cinema de Xavier Dolan. O filme estreou no Festival de Cannes de 2010, na secção Un Certain Regard.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!


quinta-feira, 5 de março de 2026

Eu Matei a Minha Mãe (2009) de Xavier Dolan



por António Cruz Mendes
 
Comecemos pelo fim. Na última sequência de imagens de Eu matei a minha mãe, vemos Hubert Minel em criança, a brincar, feliz, ao lado da sua mãe. Acham-se naquilo a que ele mais tarde chamará “o seu reino”, o paraíso perdido dos seus amores infantis, o lugar onde, mais tarde, se refugiará quando fugiu do colégio onde os pais o matricularam como aluno interno.

Antes disso, depois de violentamente agredido pelos seus colegas, vítima de uma provável manifestação homofóbica, refugia-se no seu quarto, mergulhado na penumbra. Vemo-lo despido, de costas, sentado à sua secretária. Apenas a luz ténue de um pequeno candeeiro de mesa ilumina a cena. Escreve. No que está a pensar? Numa onírica sequência de imagens, Hubert, já um jovem adulto, persegue a mãe, ainda jovem e vestida de noiva. Essas imagens, muito belas, tingidas pela cor outonal da floresta onde a cena decorre, têm uma conotação sexual bastante explícita. E é o horror que isso desperta nele que explica a relação tensa, violenta, que, na sua adolescência, ele vai desenvolver com ela.

Evidentemente, a atitude de menosprezo, muitas vezes raiando o ódio, que ele faz questão de evidenciar a propósito dos seus gostos e dos seus costumes, reflecte a diferença cultural que os separa, bem como a necessidade, própria da adolescência, de afirmação da sua própria identidade, da sua diferença. Mas, no caso de Hubert, ela funciona, antes de tudo, como o escudo com que ele se defende de um amor proibido.

Hubert está presente em quase todas as cenas. Naquelas que nos contam a sua história, nos seus monólogos interiores, filmados a preto e branco, ou nos flashback que nos remetem para a sua infância, apresentados sob a forma de filmagens, supostamente realizadas pelo seu pai, num registo muito espontâneo e despretensioso. 

Todo o filme se resume ao seu drama interior. As outras personagens, inclusive a da sua mãe, para quem as fúrias de Hubert parecem ser apenas um incómodo mais ou menos difícil de suportar, se apagam diante dele. Têm uma espessura psicológica e uma relevância muito pequena. Pouco ficamos a saber do seu namorado, Antonin, ou da sua professora, Julie Coutier, com quem Hubert mantém uma relação que, também ela, está proscrita pelas convenções sociais. Menos ainda ficamos a saber algo acerca do seu pai. O filme resume-se a Hubert e à forma como se debate com a relação de amor-ódio que mantém com a sua mãe.

Eu matei a minha mãe é primeira longa-metragem de Xavier Dolan. Ele próprio encarna a personagem de Hubert e o seu filme, não sendo uma obra autobiográfica, reflecte experiências de vida do realizador. Não é por acaso que, tanto ele como a sua personagem, são homossexuais. Tal como no caso de Hubert, os pais de Xavier Dolan divorciaram-se quando ele era ainda criança e também ele manteve, depois disso, uma relação problemática com a sua mãe. E, tal como, no filme, podemos interpretar as tentativas literárias e artísticas de Hubert como uma tentativa de sublimação dos seus recalcamentos, o mesmo se poderá dizer acerca de Dolan, que ultrapassou um historial de rebeldia e de violência, que o levou a ser expulso de várias escolas, dedicando-se ao cinema.

O roteiro de Eu matei a minha mãe foi escrito quando ele tinha dezasseis anos e o filme, multipremiado premiado no festival de Cannes, realizou-o quando tinha vinte. Foi o primeiro passo da sua carreira como realizador. Uma obra ainda muito pouco conhecida em Portugal que, agora o Lucky Star – Cineclube de Braga se propõe divulgar com a realização deste ciclo de filmes de Xavier Dolan.
 


A presença recorrente da imagem de Hubert em grande plano sublinha o facto do filme se centrar quase exclusivamente numa reflexão sobre o seu drama interior.
 
 
 
 

domingo, 1 de março de 2026

436ª sessão: dia 3 de Março (Terça-Feira), às 21h30


“Eu Matei a Minha Mãe” de Xavier Dolan, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Para Março, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta uma retrospectiva dedicada ao realizador canadiano Xavier Dolan. Como é habitual, as sessões decorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.

Na próxima terça-feira, o cineclube abre o ciclo com “Eu Matei a Minha Mãe” (J’ai tué ma mère, 2009), primeira longa-metragem de Xavier Dolan, realizada quando o cineasta canadiano tinha apenas 20 anos.
 
O filme acompanha Hubert, um adolescente de 17 anos que vive uma relação marcada por conflito permanente com a mãe. Entre confrontos e tentativas falhadas de aproximação, a narrativa centra-se na dificuldade de comunicação entre ambos, abordando temas como autonomia, identidade e afirmação pessoal. Em paralelo, Hubert procura afirmar a sua individualidade, incluindo a vivência da sua orientação sexual.

Interpretado pelo próprio Xavier Dolan. o filme foi desenvolvido a partir de um argumento parcialmente inspirado nas experiências pessoais do realizador. O elenco inclui ainda Suzanne Clément, no papel da professora e Patricia Tulasne, que interpreta a diretora da escola. A presença de Anne Dorval (mãe de Hubert), na sua primeira colaboração com Dolan, marcou o início de uma parceria artística que se prolongaria em vários filmes posteriores do realizador.

Produzido com um orçamento reduzido e financiado em parte com fundos públicos do Quebeque, o projecto começou a ser escrito quando Dolan ainda era adolescente. A rodagem decorreu em Montreal, privilegiando espaços interiores e centrada no trabalho de actor.

O filme estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, em 2009, onde recebeu três dis-tinções, incluindo o Art Cinema Award. Ao longo do circuito internacional, foi exibido em vários festivais e conquistou mais de vinte prémios, afirmando Xavier Dolan como uma das revelações do cinema contemporâneo.

Primeiro capítulo de uma filmografia que rapidamente ganharia projeção internacional, Eu Matei a Minha Mãe permanece uma obra central no percurso do realizador, pelo modo como expõe a complexidade das relações familiares e o processo de construção da identidade na adolescência.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça!


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Deuses de Pedra (2025) de Iván Castiñeiras Gallego



por Jessica Ferreiro
 
O cineclube encerra o ciclo de cinema galego, em parceria com o Festival Convergências, com mais um documentário que ainda não estreou no circuito comercial: Deuses de Pedra (2025), de Iván Castiñeiras Gallego, que se construiu ao longo de 15 anos de filmagens entre a Galiza e Portugal. O filme observa o quotidiano e as transformações de uma comunidade rural da “raia seca”, uma das fronteiras mais antigas da Europa, e cujo tracejado é, também, uma linha imaginária que incorpora memórias antigas e planos futuros.

Rodado em Trás-os-Montes, com foco na aldeia de Moimenta da Raia (Vinhais) e na zona de Manzalvos, na Galiza, estende-se ainda a outras localidades fronteiriças como Ousilhão, Vila Boa de Ousilhão, Carvalhas, Casares e Mofreita. O documentário regista práticas e rituais locais, incluindo os a matança do porco ou, ainda, os caretos de Ousilhão.

A preto e branco, as práticas ancestrais, a cultura material, tal como as ferramentas de trabalho e outros utensílios do dia-à-dia, são exibidas como relíquias. As práticas e partilhas, tal como a da merenda tradicional nas montanhas, que tanto podem ser portuguesas como galegas, romanas, celtas e mouras, o relato das histórias comuns em torno do contrabando que transpõem a fronteira vigiada e de “arame farpado”, mas também as mãos que descascam o fruto plantado e colhido da terra ou, ainda, os movimentos que moldam o pão, representam cada gesto que desenham uma paisagem geográfica marcada pela sua história e cultura. Homens e mulheres, um dia ancestrais, atravessam estes lugares, deixando os seus passos como vestígios ou rochas antigas, tornando-se Deuses de Pedra, indeléveis.

As filmagens a preto e branco dão lugar às imagens a cores que nos remetem para o tempo presente e para as mudanças inevitáveis que transformaram a aldeia ao longo de 15 anos: a desertificação, resultado da emigração, o encerramento da escola, bem como as prática e gostos partilhados pelos mais jovens, reflectidos na música ou na dança. Contudo, não existe perda, alguns pretendem voltar, outros escrevem cartas aos seus entes queridos que estão emigrados e muitos regressam para as festas de verão, sem nunca sentirem que perderam as suas raízes. Mariana, que se vê crescer ao longo do filme, dos 3/4 aos 18 anos, decide, no final, deixar a aldeia e emigrar, provavelmente juntar-se ao seu irmão em Valência (Espanha). Apesar da tristeza sentida em deixar a sua terra e a sua mãe, sabemo-la ciente de que a vida é “uma aventura” e que é feita de idas e voltas. Os “Deuses de Pedra” retornam sempre ou talvez nunca se ausentem do seu templo, como as grandes e antigas pedras que compõem a paisagem e testemunhas as histórias dos homens que acolhem.

Assim, através do registo documental e de um olhar etnográfico, Deuses de Pedra convida o espectador a reflectir sobre a maneira como a história e a geografia moldam a vida das pessoas, explorando a fronteira não como barreira, mas como espaço vivo de memórias, escolhas e continuidades.

Coproduzido entre Espanha, França e Portugal, o filme foi rodado em formato 16 mm e envolveu colaborações de equipas técnicas portuguesas, espanholas e francesas, incluindo o design de som e música de Miguel Moraes Cabral e a edição de Antonio Trullén Funcia. A obra estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdão (IFFR) 2025, na secção Bright Future, e passou por diversos festivais internacionais, como o Thessaloniki International Documentary Festival e o Porto/Post/Doc 2025. No festival Play-Doc (Tui), recebeu uma distinção na competição galega por retratar a transformação de um território e as suas gentes. 
 
 
 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

435ª sessão: dia 24 de Fevereiro (Terça-Feira), às 21h30


“Deuses de pedra” de Ivan Castiñeiras Gallego, esta terça no Lucky Star – Cineclube de Braga

Até ao final de fevereiro, o Lucky Star – Cineclube de Braga apresenta um ciclo de cinema dedicado à Galiza, em parceria com o Festival Convergências, na sua XII edição. Como é habitual, as sessões ocorrem às terças-feiras na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30.
 
Na próxma terça-feira, o cineclube encerra o ciclo com mais um documentário que ainda não estreou no circuito comercial: Deuses de Pedra” (2025), de Iván Castiñeiras Gallego, que se construiu ao longo de 15 anos de filmagens entre a Galiza e Portugal.
 
O filme observa o quotidiano e as transformações de uma comunidade rural da “raia seca”, uma das fronteiras mais antigas da Europa, articulando memória, tradição e identidade. A narrativa acompanha Mariana, ao longo de 15 anos filmagem, que aos 17 anos decide deixar a aldeia e emigrar.

Rodado em Trás-os-Montes, com foco na aldeia de Moimenta da Raia (Vinhais) e na zona de Manzalvos, na Galiza, estende-se ainda a outras localidades fronteiriças como Ousilhão, Vila Boa de Ousilhão, Carvalhas, Casares e Mofreita. O documentário regista práticas e rituais locais, incluindo os Caretos de Ousilhão, a matança do porco, o ciclo do pão e a chega de bois. Coproduzido entre Espanha, França e Portugal, o filme foi rodado em formato 16 mm e envolve colaborações de equipas técnicas portuguesas, espanholas e francesas, incluindo o design de som e música de Miguel Moraes Cabral e a edição de Antonio Trullén Funcia. 

A obra estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdão (IFFR) 2025, na secção Bright Future, e passou por diversos festivais internacionais, como o Thessaloniki International Documentary Festival e o Porto/Post/Doc 2025. No festival Play-Doc (Tui), recebeu uma distinção na com-petição galega por retratar a transformação de um território e as suas gentes.

Com uma proposta formal que cruza observação directa e olhar etnográfico, Deuses de Pedra convida o espectador a refletir sobre a maneira como a história e a geografia moldam a vida das pessoas, explorando a fronteira não como barreira, mas como espaço vivo de memórias, escolhas e continuidades.

As sessões regulares do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre. 

Até terça-feira!