Mostrar mensagens com a etiqueta Fritz Lang. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fritz Lang. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

M - Matou! (1931) de Fritz Lang



Por António Cruz Mendes

Matou! foi o primeiro filme falado realizado por Fritz Lang e é, na opinião de muitos, a sua obra máxima. Tal como O Último dos Homens (ou A Última Gargalhada, na edição brasileira) parte de um episódio realista. Neste caso, uma série de casos de desaparecimento de crianças, noticiado nos jornais.

O medo espalha-se entre a população. As mães fecham as filhas em casa. Os homens entreolham-se: qualquer um pode ser o serial killer. E a polícia desdobra-se, sem êxito, em investigações e rusgas. Os mendigos, as prostitutas, os vigaristas e os ladrões acabam por sofrer as consequências da actividade policial e, por isso, o lumpenproletariat mobiliza-se também para a caça ao assassino. Recorrendo à montagem paralela, Lang mostra-nos como esses dois elementos habitualmente antagónicos vão convergir num propósito comum: a caça ao assassino.  

Entretanto, os espectadores já o conhecem. É um homem torturado, solitário, que age obedecendo a uma voz interior, que apenas se cala no momento em que consuma os seus crimes. Assobia o tema do Peer Gynt quando procura as suas vítimas e é isso que o denuncia a um cego a quem compra um balão para oferecer a Elsie.

Nunca assistimos a uma cena de assassinato. São sinais de ausência que nos informam dos crimes: a caixa de escadas do prédio onde mora Elsie, que será assassinada, vista numa perspectiva abissal pela mãe que a chama para almoçar; o seu lugar vazio à mesa, dominada pela imagem do prato, de um branco resplandecente; o balão abandonado, preso nos fios eléctricos…

Mas seguimos os passos do assassino. Vemo-lo investigando o seu rosto num espelho; examinando uma montra onde poderá comprar os presentes com que pode seduzir uma vítima; descobrindo, aterrado, num ombro a marca M, que o assinala aos olhos dos seus perseguidores; travando uma desesperada luta pela sua vida, no obscuro armazém, onde é julgado por júri implacável formado por representantes do submundo do crime.

A interpretação de Peter Lorre é excepcional, mas será necessário regressar ao cinema mudo para encontrarmos os mais característicos exemplos de interpretações expressionistas: uma representação não naturalista, mas sustentada por gestos e expressões patéticas e exageradas, e em movimentos súbitos e irregulares. Lotte Eisner compara a deformação expressionista dos gestos à dos objectos e cita Rudolf Kurtz que afirma ser “preciso (…) que as fórmulas estabelecidas pelo artista expressionista para a composição do espaço sejam igualmente válidas para as evoluções do corpo humano: deve exprimir-se o passional de uma situação com uma mobilidade intensa e inventar movimentos que ultrapassem a realidade”.

Em O Último dos Homens, vimos como o cinema mudo evoluiu permitindo contar uma história recorrendo apenas a imagens, dispensando os intertítulos ainda presentes em O Gabinete do Dr. Caligari e Nosferatu. Por outro lado, o sonoro introduz uma nova gama de possibilidades expressivas que Fritz Lang explora magistralmente. Por exemplo, nos gritos da mãe que ecoam, chamando por Elsie sem obter qualquer resposta. Afinal, é um cego quem identifica o assassino apenas por que reconhece a música que ele trauteia antes de cometer os seus crimes. 

Como vimos, o argumento inspira-se em acontecimentos noticiados pelos jornais. Mas, como nos diz Sigfried Kracauer (De Hitler a Caligari. Uma interpretação psicológica do cinema alemão), Fritz Lang amplifica-o, dando-lhe uma ressonância maior. O filme esteve para se chamar Os Assassinos Estão entre Nós e este título só foi abandonado porque se temeram represálias dos nazis que, em 1931, se preparavam já para tomar o poder. O produtor foi confrontado com a proibição de utilizar os estúdios Staaken para as filmagens e Lang foi pessoalmente ameaçado por um activista nazi. Nessa altura, diz-nos ele, “alcancei a minha maturidade política”. 

Matou!, questionando-nos sobre as razões da personagem interpretada por Peter Lorre, regressa, afinal, a um tema que já conhecemos de O Gabinete do Dr. Caligari ou de Nosferatu e, de facto, de muitos outros filmes expressionistas alemães: o da pulsão irracional, o desejo de matar que faz dos homens lobos dos homens. Por que é que esse tema é recorrente no cinema alemão da época da República de Weimar? Um eco da matança ocorrida nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial ou uma visão premonitória daquela que virá com a vitória do nazismo?


 
Na substituição da imagem do homem pela da sua sombra, revela-se o lado negro da sua alma. 
 
 

 Lotte Heisner (A Tela demoníaca. As influências de Max Reinhardt e do expressionismo) chama-nos a atenção para a obsessão do cinema expressionista por escadas e ruas esconsas, estreitas e tortuosas… Em Matou!, a mãe de Elsie chama-a de uma escada que parece conduzir a um abismo.
 
 
 
O assassino de M examina-se ao espelho: Quem és tu? O tema do duplo é recorrente no cinema expressionista. Beckert, gordo e algo efeminado, parece-nos incapaz de cometer qualquer crime. Uma vizinha descreve-o à polícia como uma pessoa tranquila e correcta. Mas, tal como a Cesare, o sonâmbulo de O Gabinete do Dr. Caligari, uma força irresistível compele-o ao assassínio.
 
 

 É no reflexo de um vidro que o protagonista de M descobre a marca que o denuncia como o “vampiro de Dusseldorf”.
 
 

 Esmagado pelo plano picado, o assassino luta pela sua vida, apresentando-se como uma vítima de uma vontade que o transcende e subjuga.
 
 

Mas ladrões, assassinos e vigaristas formam um júri implacável. A lâmpada que ilumina a cena está suspensa numa estrutura em forma de forca.
 
 
 
 Só a intervenção, à última hora da polícia, impedirá o julgamento popular. 
 
 
 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

While the City Sleeps (1956) de Fritz Lang


por João Palhares

Sabe-se que Fritz Lang, tal como Alfred Hitchcock (e não é a única coisa que os aproxima), coleccionava recortes de jornais como forma de inspiração e busca de material e temas para os seus filmes. Quando Peter Bogdanovich, no seu livro de entrevistas ao realizador austríaco (Fritz Lang in America) lhe perguntou porque é que gostava de trabalhar a partir de jornais, Lang respondeu-lhe que “Eu penso que os filmes são não apenas a arte deste século, mas, para impôr uma palavra de Abraham Lincoln, a arte ‘do povo, para o povo, pelo povo.’ Foi inventada mesmo na altura certa – quando as pessoas estavam prontas para uma arte das massas. (Sabe, por acaso, o que é que fazia mesmo propaganda ao modo de vida americano? Filmes americanos. Goebbels percebeu o enorme poder dos filmes como propaganda, e eu temo que mesmo hoje as pessoas não saibam que meio de propaganda tremendo os filmes podem ser.) Mas de qualquer maneira, onde é que vamos buscar o nosso conhecimento da vida? Aos factos, não à ficção. Naturalmente, podem-se aprender uma data de coisas em romances e em peças, mas é sempre visto através dos olhos doutro homem. Não se esqueça que nesses dias não havia televisão: hoje quando há um motim, nós vêmo-lo; Pelo Vietname, podemos ver o que é uma guerra na selva. Antes disso, as actualidades levavam bastante tempo a chegar aos cinemas, e só os jornais é que eram notícia fresca. 

“Um realizador devia saber tudo. Um realizador devia-se sentir em casa num bordel – o que é muito fácil – mas também se devia sentir em casa na Bolsa – o que já é um bocado mais difícil. Devia saber como se comporta o duque de Edimburgo, como se comporta um trabalhador e como se comporta um gangster. Agora, eu diria que é impossível aprender isto tudo por experiência. Mas a melhor coisa a seguir a isso é ler jornais – mesmo se não forem objectivos, pode-se aprender a separar as coisas objectivas das subjectivas.” 

Não é fácil saber se o que se passa em While the City Sleeps é tudo verdade, se é mesmo um documento dos processos e dos canais do chamado quarto poder, que não temos capacidade para o julgar. O que é verdade é que tem essa ambição e pinta um quadro imenso da nossa sociedade, de uma enorme abrangência e que se pode comparar, por exemplo, ao que Otto Preminger fez poucos anos depois em Advise & Consent e The Cardinal ou o que fez Jean- Claude Brisseau em Choses Secrètes, de 2002. Quatro filmes sobre o poder a uma grande escala e que testemunham o interesse do cinema no que Jean-Luc Godard chamou de “os grandes temas”, na investigação e na compreensão do presente, da teia complexa dos processos e instituições que nos rodeiam e nos regem e que, afinal, conhecemos apenas pela rama. Em tempos de especializações nada mais salutar do que almejar ao impossível e tentar compreender o mundo por inteiro. 

Mas o filme de Lang não quer saber só disso e ainda bem. Precisa de mostrar o que faz o mundo ao interior do homem, de perguntar se não o corrói por dentro e se não o transforma. Se o olhar de um pivot de telejornal quando vê o trinco da porta da namorada não é igual ao de um assassino a fazer o mesmo quando entrega as compras a uma mulher que não conhece e, a seguir, a mata. Se essa cena serve para a personagem de Dana Andrews descobrir como é que essa primeira morte aconteceu, o relevo dado ao olhar de Andrews não pode ser inocente. Como nada é inocente neste filme tão perverso e que vai fundo na tão difícil missão de saber o que vai na cabeça dos homens quando caem nas ciladas da ambição. Talvez seja essa a mais difícil das missões.