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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O Tio Boonmee, Que Se Lembra das Suas Vidas Anteriores (2010) de Apichatpong Weerasethakul



por Laura Mendes
 
As florestas e às montanhas é dado um poder mágico, a capacidade de despoletar a lembrança e fazer ressurgir vidas passadas. Natureza que não se limita a acompanhar o humano e a servi-lo, mas que atua enquanto ser vivo, atento e interventivo. O regresso a essa natureza após a morte rejeita a cimentação do corpo e da alma, o seu esquecimento, ou recondução para uma memória volátil e efémera. Ao invés, o corpo e alma mortos são entregues a uma continuidade ampla, e vemos aqui a morte como um prolongamento de consciência, mutável e que perpassa outras formas de vida, imiscuídas numa fauna e flora absorventes.
 
Este lugar misterioso não participa, contudo, de um movimento unilateral. Não é apenas aquele em que surgem os fantasmas de uma mulher e de um homem, não é um ponto de retorno ou de chegada, mas também de partida. É para aqui que Boonmee vai para morrer, tornando a aldeia numa confluência indistinguível de vidas, cujas fronteiras são tão indecifráveis quanto os seus próprios ciclos. A transcendência é trabalhada por Apichatpong de forma natural e terna: o surgimento dos fantasmas não causa comoção desmedida, é aceite quase sem resistência, e as tecnicidades formais destas aparições são momentos de grande importância para a efabulação de um cinema orgânico, como é o do realizador.
 
Edificam-se novas possibilidades familiares, de re(união), reformulando-se um entendimento restritivo do que são a presença e a ausência, ao mesmo tempo desafiando a inevitabilidade da morte. Ainda assim, a tensão inerente ao ser – nomeadamente, o que surge do confronto entre passado e futuro – faz-se sentir de forma ameaçadora, traduzindo-se muitas vezes em angústia, saudade ou melancolia. A princesa ao luar revela as dores e as falhas da carne, da existência material, imaginando, num momento fantástico e surreal de cinema, a reconciliação e o diálogo capazes de brotar de uma relação com a natureza.
 
Na figura de Jen, vemos também a reticência em abraçar o estranho, seja este a vida retirada e refletida numa aldeia ou os imigrantes Laosianos. Apichatpong, no seu registo de realismo mágico, nunca retira a configuração histórica da sua narrativa, também palpável nos momentos finais, onde o monge se move entre a tradição e a espiritualidade, que se começam a confundir com vivências próprias da contemporaneidade (a televisão ou a música pop), enfatizando mais uma vez as múltiplas possibilidades que cabem no tempo de uma vida.
 
Falando de morte, reencarnação e continuidade, Apichatpong reflete, inevitavelmente, sobre o poder das imagens. Este é um cinema de sentidos e compreensão, sem artifícios, que cria a sua própria realidade onde a película, as imagens, a fotografia, ou a projeção são veículos concretos para a descoberta da transcendência, para a preservação do ser contra a corrosão do tempo e para a eternização de sonhos e movimentos existenciais.
 
De ritmo lento, próprio de uma descoberta às escuras, incerta e titubeante, em Tio Boonmee o desconhecido torna-se próximo e íntimo, através de uma natureza ainda incompreensível na sua agência. Ainda que infinitamente bela, não dá tréguas, pois é ao mesmo tempo acidentada, cavernosa e imponente.