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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

FORDLÂNDIA PANACEA (2025) de Susana Sousa Dias e CANTOS DA METAMORFOSE (2024) de Ainá Xisto


por Jessica Sérgio Ferreiro
 
Depois de explorarmos os “corpos perdidos” esculpidos nos objectos de arte do Benim, viajamos até Fordlândia Panacea (2025), de Susana Sousa Dias, obra onde o cinema torna visíveis dimensões silenciadas da História. O filme revela, através da imagem de arquivo e imagens aéreas e travellings horizontais, captadas pela realizadora, uma continuidade indelével entre passado e presente, num território onde, como descreve a sua premissa, “a espectralidade e a vida se entrelaçam”. Se no filme Dahomey, de Mati Diop, testemunhamos as fracturas do colonialismo museológico, aqui confrontamo-nos com a arqueologia colonial, capitalista e extractivista, patente nas ruínas da cidade idealizada por Henry Ford na selva da Amazónia. Dando continuidade às reflexões sobre o passado, a memória e o apagamento – iniciadas na edição de 2024 dos Encontros da Imagem com a exibição da sua prequela, Fordlândia Malaise (2019) –, este novo filme destrói o mito ocidental da “cidade-fantasma”. A obra rompe a narrativa colonial para revelar um território habitado, onde a força indomável da selva resistiu ao extractivismo (praga destruiu a plantação de seringueiras) e onde uma comunidade viva e activa, de cerca de de 1.200 habitantes, resgata esse espaço, transformando as ruínas da história no seu próprio presente, alertando-nos, contudo, que o neocolonialismo prossegue.
 
Embora o projecto do plantio massivo de seringueiras para a produção de borracha de Henry Ford tenha falhado no século passado (1928-1945), a região, localizada nas margens do Rio Tapajós, continua a ser palco de um intenso ciclo de extractivismo predatório global. O garimpo de ouro e a extracção de minerais em grande escala (muitas vezes ilegal) recorre ao uso massivo de mercúrio, o que altera a cor das águas e contamina o rio e o peixe que alimenta a população local. Este ouro é exportado e refinado para bancos e indústrias em países como a Suíça e os Estados Unidos. A exploração de gesso abastece a construção civil nacional, enquanto as extensas plantações de soja avançam sobre a floresta amazónica, utilizando agrotóxicos que poluem a bacia hidrográfica. A soja é exportada através de grandes portos multinacionais (como a Cargill, na vizinha Santarém) para servir de ração animal na China e na Europa.
 
Este ciclo moderno evoca a ironia do título do filme (Panacea): a riqueza da terra é extraída para abastecer o capitalismo internacional, mas não traz progresso nem infraestruturas à cidade, como nos é narrado repetidamente por um habitante da cidade. O capitaloceno segue destruindo a vida. No filme são-nos, ainda, revelados vestígios arqueológicos milenares de civilizações indígenas que estavam escondidos sob as ruínas da fábrica e que Ford construiu estrategicamente para ocultar uma cultura anterior e evitar a protecção do território cobiçado. Hoje, povos nativos da bacia do Tapajós, como os Munduruku e outros grupos locais de Aveiro, continuam a viver na região e lideram a luta contra a destruição ambiental do seu território ancestral. Por fim, o antigo cemitério local, com as suas cruzes de cimento desgastadas pelo rio, serve como memorial visual deste custo humano, abrigando os corpos de milhares de operários brasileiros, caboclos e indígenas que adoeceram e morreram ao tentar erguer a utopia industrial americana.
 
Cantos da Metamorfose Ou Aquela Vez Em Que Eu Encarnei Como Boto (2024) de Ainá Xisto, é um filme experimental e poético que relaciona a experiência da realizadora com a memória ancestral de violência sistémica e arquissecular contra as mulheres, jovens e crianças, transfigurada na imagem folclórica do “boto”. Tradicionalmente associada a histórias de sedução e usada para encobrir ou suavizar relatos de abuso sexual, incestos e gravidezes indesejadas, a figura encantada do boto-cor-de-rosa (parecido com o golfinho) surge aqui despida de romantismo, revelando uma realidade violenta através da narrativa mítica que a realizadora redirecciona para desvelar o trauma. O filme associa o folclore à memória do trauma, à doença (corpo e mente) e à dificuldade de gerar vida, propondo, através da relação com o rio, a natureza e a medicina ancestral indígena, processos de cura e de transformação que se alinham com as cosmologias de coabitação mais-que-humanas.
 
Ao inverter esta narrativa, o Boto deixa de ser o agressor e passa a ser um "portal" para a memória colectiva das meninas e mulheres da Amazónia. A narradora funde-se com a criatura mítica e com a água para digerir a herança violenta do trauma em torno do abuso sexual. Essa dor psicológica manifesta-se fisicamente no corpo da própria realizadora através de uma fístula perianal, um bloqueio físico próximo dos órgãos reprodutores que a impedia de engravidar. A cura proposta no filme ultrapassa os limites da medicina ocidental. Embora a cirurgia física aconteça sob anestesia, funcionando como uma “morte” clínica e uma viagem "abissal" (como um afogamento), a verdadeira regeneração é espiritual, possível através de outra cosmologia cultural. É o curandeiro indígena Pajé Natto Tupinambá quem trata a raiz do problema ao diagnosticar um “útero assustado”, órgão que guardava o medo e o peso histórico de gerações de mulheres. Ao recorrer à medicina tradicional e xamânica para acalmar o útero e reconectar a realizadora com a matéria primordial da terra e da natureza, o ciclo de violência é finalmente quebrado, restabelecendo o seu fluxo vital e criativo. O filme recorre à narração e a uma conversa passada entre a realizadora e avó, através das quais o abuso sexual sofrido é revelado, bem como a sua a relação com a lenda do Boto. Em suma, o cinema surge como o meio através do qual a realizadora processa o seu trauma. Ao libertar-se, convida, no final, os espectadores a quebrarem o silêncio e a procurarem nos outros/as o apoio necessário.
 
Em ambos os filmes, a natureza é retratada não apenas como um território violentado, mas também como uma fonte inesgotável de força, resistência e amor.