domingo, 20 de setembro de 2026

469 ª sessão: dia 22 de Setembro (terça-feira), às 21h30



Sans Soleil de Chris Marker esta terça, com o Lucky Star – Cineclube de Braga

O Lucky Star – Cineclube de Braga dedica o mês de setembro e outubro ao tema lançado pelos Encontros da Imagem. Intitulado “Territórios do Real e do Imaginário: O Cinema como Comunidade Imaginada”; o ciclo contempla oito filmes, cujas exibições acontecem às terças-feiras, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, às 21h30. O tema deste ano foca-se na “comunidade imaginada”, mas sob uma perspectiva não antropocêntrica, abraçando outras cosmologias culturais e alargando-se a outros seres sencientes e não sencientes.

Hoje, o ciclo arranca com “Sans Soleil” (1983), de Chris Marker, uma das obras fundamentais do cinema-ensaio. Esta sessão tem o apoio da Alliance Française Guimarães/Braga.
 
Nascido em 1921, Marker trabalhou como escritor e crítico, colaborando na revista Cahiers du Cinéma, antes de se dedicar à realização. A sua carreira desenvolveu-se a partir dos anos 50 no documentário, fotografia, escrita e nas novas tecnologias. Colaborou com Alain Resnais em “As Estátuas Também Morrem” (1953), participou no colectivo “Longe do Vietname” (1967). Na sua filmografia destacam-se ainda: “Carta da Sibéria” (1958), “La Jetée” (1962), “Le Joli Mai” (1963) e “O Fundo do Ar é Vermelho” (1977).

Sans Soleil” percorre geografias como o Japão, Europa, Estados Unidos e África Ocidental e inclui filmagens clandestinas de Sarah Maldoror da Guiné-Bissau (1974), durante a independência contra Portugal, material destinado a um filme sobre Amílcar Cabral.
 
Realizado numa transição de ordens políticas e tecnológicas, o filme regista a época pós-colonial e em crescente globalização, onde se esbatem as fronteiras geográficas, culturais e temporais. Televisão, cinema, fotografia e tecnologias electrónicas medeiam a realidade através da imagem. Marker interroga essa transformação através de uma montagem que aproxima lugares e tempos distintos, tornando a fragmentação um tema e característica formal da obra.

Apresentado no Festival Internacional de Cinema de Berlim, no Fórum do Novo Cinema, Sans Soleil recebeu uma menção honrosa do Prémio OCIC, sendo ainda distinguido, no mesmo ano, com o Sutherland Trophy do British Film Institute e o Prémio da Crítica Internacional no Festival de Cinema de Londres.

As sessões do Lucky Star ocorrem no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva às terças-feiras às 21h30. A entrada custa um euro para estudantes, dois euros para utentes da biblioteca e três euros para o público em geral. Os sócios do cineclube têm entrada livre.

Até terça-feira!
 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

467ª e 468 ª sessão: dia 18 de Setembro (sexta-feira) e 19 de Setembro (sábado), às 21h30


O Fora de Portas continua em Setembro, com o Lucky Star – Cineclube de Braga


 

Nos dias 18 e 19 de Setembro, o Lucky Star – Cineclube de Braga leva o cinema para Fora de Portas com duas sessões ao ar livre em diferentes freguesias do concelho. Na sexta-feira 18, no Monte de Nossa Senhora da Consolação, em Nogueiró, será exibido “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, de Steven Spielberg, em parceria com a Universidade do Minho, no âmbito do Festival Recomeço. No dia seguinte, na freguesia São Pedro e São Mamede d'Este, será apresentado “El Sur” (1983), de Víctor Erice.

Realizado por Steven Spielberg a partir de um argumento seu, “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” (Close Encounters of the Third Kind, 1977) acompanha Roy Neary, um electricista cuja vida é alterada depois de testemunhar um fenómeno inexplicável. Roy desenvolve uma obsessão por compreender o que viu, enquanto várias testemunhas são atraídas para um acontecimento que ultrapassa a compreensão humana.

O filme conta com Richard Dreyfuss, Melinda Dillon, Teri Garr e François Truffaut, no papel do inves-tigador Claude Lacombe. A música de John Williams e os efeitos visuais, supervisionados por Douglas Trumbull, são elementos fundamentais na construção da obra.

Aclamado pela crítica, o filme recebeu oito nomeações aos Óscares, incluindo a de Melhor Realizador e a de Melhor Banda Sonora. Foi dis-tinguido com o Óscar de Melhor Fotografia, atribuído a Vilmos Zsigmond, e o Prémio Especial pelos efeitos sonoros. A obra foi também reconhecida pelos BAFTA, pelos Globos de Ouro e pelo Saturn Awards, consolidando a sua importância no cinema de ficção científica da década de 1970.



  

No dia 19, “El Sur”, de Víctor Erice (adaptado do romance homónimo de Adelaida García Morales), retrata uma Espanha dividida do pós-guerra. O filme acompanha Estrella, desde a infância até à adolescência, e a relação com o pai, Agustín, um médico e radiestesista cuja personalidade permanece parcialmente inacessível à filha. Através das recordações de Estrella, o passado do pai e a existência de um “Sul” vão adquirindo uma dimensão quase mítica.

Estreado no Festival de Cannes de 1983, foi nomea-do para a Palma de Ouro. Recebeu o Hugo de Ouro de Melhor Filme no Festival de Chicago, o prémio de Melhor Filme em Óbidos e distinções em Espanha, incluindo o prémio de Melhor Filme nos prémios Sant Jordi.


O ciclo Fora de Portas tem o apoio da Câmara Municipal de Braga e da Faz Cultura. As sessões ocorrem em locais emblemáticos do concelho e a entrada é livre.

 

 

 

Até sexta e sábado! 



quarta-feira, 2 de setembro de 2026

As Bodas de Deus (1992) de João César Monteiro



por Laura Mendes
 
Que caminho tortuoso até à graça é este, traçado por João de Deus? O cosmo, que ao início     vemos, parece anunciar apaz eordem divinas– ou será antes o caosprimitivoa estabelecer-se? Talvez ambos. Num frenético e satírico conto de acaso e redenção,ou quase,a linearidade dá lugar ao imprevisto, ao jogo do mundo cujas variáveis testam os limites da fé e da vontade dohomem.
 
Vagabundo, deambulador, pateticamente infantil nos modos, depravado nas ideias, reencontramos João de Deus no seu habitat natural: a rua. Iniciamos o ciclo de milagres e maldições que irá atormentar os dias do nosso protagonista, revelando profundas contradições e ironias nas relações humanas de um quotidiano efabulado mas não distante de nós, bem como nos ritos religiosos que deste fazem parte.
 
Um mensageiro de deus interceta João com uma mala cheia de dólares, num acordo misterioso que faz do seu recetor profeta – que razão haverá para esta tão generosa dádiva? Esta questão surgirá mais vezes ainda – a par do vínculo entre deus e capital, espírito e matéria –, já que as relações causa-efeito raramente remetem para um sentido final e unívoco, uma explicação concreta: afinal de contas, trata-se de diligência divina, inquestionável e inacessível, aqui feita tão abstrata quanto absurda e risível. Quase em simultâneo, João apressa-se a salvar uma jovem aflita na água, qual chamamento, mais uma vez nos surgindo este elemento multiforme, que perpassa todos os filmes deste ciclo, aqui enquanto significante intimamente ligado à mulher, entre perigo e bonança, pecado e purgação, sedução e amor.
 
A relação obsessiva que João de Deus mantém com as mulheres que a vida se lhe apresenta, já a conhecemos. Desta vez, porém, Joana é entregue às freiras, sem, no entanto, deixar de lado a provocação de um banquete farto deixado intocado, de uma irmã exalando fumo de tabaco e proferindo blasfémias. As boas ações não se distinguem tão facilmente das más, e se de um lado espreita deus, do outro estará certamente o diabo à espera da sua vez.
 
Feito Barão pois não será por se tratar de dinheiro divino que deverá ser enclausurado religiosamente –, a personagem de João César Monteiro é então visitada na sua propriedade por um casal ilustre, seus convidados, dos quais uma mulher que será por ele conquistada a fim de se tornar sua noiva, bela Elena, reminiscente da mitologia grega. Mais do que isso, é ela prémio de jogo de cartas, o que não só adensa a sugestão da invencibilidade e inevitabilidade da justiça de deus, independentemente da sua forma, como precisamente esta se manifesta no seu contexto mais mundano o vício –, num golpe satírico que ataca a fragilidade da dicotomia sagrado-profano.
 
Tudo parecia correr bem, porém, os embrulhos desta femme fatale posta a descoberto colocarão João de Deus, uma vez mais, à mercê do infortúnio. Derrotado por conspirações políticas (fruto dos surreais acontecimentos da brilhante cena no Teatro de São Carlos), tanques de guerra camuflados e um regresso à casa amarela, a lei e o poder acabam por encarregar-se de encaminhar João de Deus para um final decrépito, para uma condição desconhecida que se revela a sua grande tragédia. 
 
O reencontro final com Joana, após a prisão, em tom de recompensa, não participa, contudo, de um merecido final feliz após uma viagem de aprendizagem. Tanto herói como vilão, nem vítima nem culpado, sem arrependimentos ou reconsiderações pois, tal como nos disse no começo do filme, esta não é propriamente uma comédia penitenciária, não é do bem e do mal que João se ocupa, mas antes de um desvelamento dos impulsos humanos, da imprevisibilidade que neles mora, ao mesmo tempo quebrando tradições e convenções sociais: do amor, preserva-se a abordagem perversa e abjeta que já tem vindo a ser desenvolvida nesta trilogia; do casamento, o desencantamento; da religião, os paradoxos. 
 
Contracenando a blasfémia e o sacrilégio com a reflexão filosófica, o testemunho atento, e até romântico, de uma vida que, sem dúvida, é também exercício experimental autobiográfico, João César Monteiro refaz a redenção aos olhos do absurdo. Reivindicando para si a proposta de Pickpocket, de Robert Bresson a última frase d´As Bodas para este remete –, dá à jornada de crescimento espiritual construída pelo cineasta francês uma camada satírica, com a recusa de ação, o abraço da negação, transformando não só o mundo, mas o cinema, à sua imagem. Porque é sempre essa uma sua preocupação: pensar o cinema, (re)escrevendo Portugal nessa história.