quarta-feira, 1 de julho de 2026

ANIKI-BÓBÓ (1942) de Manoel de Oliveira



por António Cruz Mendes


Manoel de Oliveira estreou-se como realizador de cinema em 1931 com o documentário Douro, Faina Fluvial. Onze anos depois, com Aniki Bóbó, a sua primeira longa-metragem, regressou ao cenário da zona ribeirinha do Porto, mas, desta vez, para nos contar uma história de rivalidades, amores e ciúmes protagonizada por crianças. O filme, que agora exibimos numa cópia restaurada, tornou-se um clássico do cinema português. Contudo, quando se estreou, o público não lhe deu atenção e a crítica próxima do regime salazarista considerou-o “subversivo”. Manoel de Oliveira só voltaria a filmar em 1963, quando realizou o Auto da Primavera.

Com a excepção dos actores que interpretam o lojista e o professor, todos as outras personagens do filme são representadas por crianças e populares que facilmente se reconhecem nas figuras que encarnam. Em 1992, o Público reuniu algumas das pessoas que foram os miúdos filmados por Manoel de Oliveira. Horácio Silva, o “Carlitos”, recorda que, quando teve que chorar, lhe sugeriram que usasse um limão. Não foi preciso, concentrou-se e chorou de verdade. E contam-nos também que as cenas de luta se prolongavam por vezes, a sério, depois do realizador dizer “Corta!”.

Porém, estes exemplos de autenticidade não nos permitem ignorar o cuidado meticuloso do realizador com os enquadramentos de cada cena. Aliás, uma das mais emblemáticas sequências do filme, a cena do telhado, ao qual Carlitos sobe para entregar a boneca à Teresinha, não foi filmada num cenário natural, mas cuidadosamente encenada nos estúdios da Tóbis, em Lisboa. Outra sequência famosa que transcende uma estética estritamente naturalista é a do sonho do Carlitos, atormentado por imagens que denotam o seu sentimento de culpa e o medo de ser acusado do roubo da boneca.

A Loja das Tentações e a escola são espaços onde reina a autoridade dos adultos. Mas, na rua e no rio, os miúdos estão em liberdade e lançam-se à descoberta daquilo que a vida lhes pode oferecer. Desde logo, as brincadeiras: o lançamento de um papagaio de papel, o jogo do pião, os mergulhos no rio… Mas, também, a descoberta dos primeiros amores e conflitos, das primeiras desilusões e injustiças.

No seu livro sobre o filme de Manoel de Oliveira, Manuel António Pina diz-nos que Aniki Bóbó, embora protagonizado por crianças, não é um filme infantil, mas “uma reprodução do mundo real dos homens, reduzindo-o, no entanto, à sua mais funda e descarnada estrutura: Bem e Mal, justiça e injustiça, esperança e medo, felicidade e infelicidade, desejo e morte, amor e ódio”. Comentando o seu próprio filme, Manoel de Oliveira confirma-o: em Aniki Bóbó filmei “os adultos quando eram crianças”.

 

 


“Segue sempre por bom caminho”, lê-se na sacola de pano que Carlitos leva para a escola. Mas, que caminho seria esse? Poderia ele resistir ao desejo de conquistar o amor da Teresinha e ao apelo da boneca da Loja das Tentações? Na imagem, o rio Douro surge como o pano de fundo da sua história.