por António Cruz Mendes
Na Folha de Sala de Os quatrocentos golpes, Jessica Ferreiro dizia que Antoine Doinel,
então uma criança, era “um corpo em fuga. Numa passagem do filme de hoje,
Collette, vislumbra Antoine Doinel a descer as escadas do edifício do tribunal,
fugindo aos repórteres que cobriam o primeiro caso de divórcio amigável em
França, e comenta: “Ah! Antoine sempre a correr! Esse não mudou muito”.
Duvido que, no seu conjunto, a série
de filmes de Truffaut que segue a vida de Antoine Doinel de criança até à idade
adulta caiba naquilo que se designa como um bildunsgroman.
Nestes “romances de formação” (que têm em Os
Anos de Aprendizagem de Wielhelm Meister, de Goethe, o seu paradigma e em A Montanha Magica, de Thomas Mann, um
exemplo extraordinário), a personagem principal, no curso de várias
experiências, vai evoluindo de um estado de inocência juvenil para um estado de
maturidade mais reflectida. Ora, Antoine Doinel repete uma vez e outra os
mesmos passos. O seu colega da tipografia onde agora trabalha como revisor de
provas sublinha-o: “Gostas sempre do mesmo tipo de raparigas, de certeza que a
nova é parecida com a antiga, só gostas de raparigas bem-educadas”. Ao que
Antoine responde: “Bem-educadas ou não, eu não me apaixono por uma rapariga em
particular, mas apaixono-me por toda a família, gosto do pai, da mãe, gosto de
raparigas com pais gentis”.
Almeja, afinal, a segurança, a
segurança e o conforto, de uma família burguesa, aquilo que lhe terá faltado em
criança. E, por isso, culpa a sua mãe que trocou o seu pai por sucessivos
amantes. Porém, uma vez alcançado esse propósito, Antoine sabota-o perdendo-se
em fantasias românticas. O amor em fuga
dá-nos conta das suas aventuras amorosas, um tanto patéticas, através de uma
extensa série de flash back que nos
remetem para os anteriores filmes da série, um recurso que dividiu a opinião
dos críticos e suscitou dúvidas ao próprio Truffaut.
O seu romance Les salades de l’amour, é também, como nota Christine, um ajuste de
contas com esse passado e, nomeadamente, com o papel nele desempenhado pela sua
mãe. Mas, o reencontro com o padrasto, dá-nos uma outra pista para as suas
desventuras. Na opinião do senhor Lucien, Antoine, afinal, é muito parecido com
ela. E, na sequência da visita ao cemitério onde ela repousa ao lado de uma das
suas heroínas, Marguerite Gautier, a cortesã do romance de Alexandre Dumas “A Dama
das Camélias” (e que inspirou a Violeta da ópera de Verdi “La Traviata”) a
imagem da sua fotografia e a do rosto de Antoine quase se fundem numa só.
Enfim, a ruptura com Sabine e o seu
reencontro no comboio com Colette faz-nos crer que as “saladas do amor” de
Antoine se hão-de repetir ad aeternum.
Mas, no final, a recambolesca história da fotografia rasgada reaproxima-os.
Será que, finalmente, a vida amorosa de Antoine Doinel conhecerá um happy end?

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