Mostrar mensagens com a etiqueta 2009. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2009. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Corumbiara (2009) de Vincent Carelli



por Alexandra Barros

Em 1985, houve um massacre de índios na Gleba Corumbiara, no estado brasileiro de Rondônia. Terá sido executado pelos fazendeiros locais, para evitar que as “suas” terras fossem demarcadas pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio) como área protegida. Os ataques terão sido tão bárbaros que ganharam o estatuto de mito e foram esquecidos. Os fazendeiros tentaram apagar as marcas dos crimes e negam sistematicamente que tenham ocorrido. 

O indigenista Marcelo Santos, para evitar a continuidade dos crimes e punir os responsáveis, inicia uma expedição para encontrar sobreviventes e recolher vestígios dos massacres. As autoridades exigem prova visual para reconhecer a existência de indígenas e cabe ao realizador Vincent Carelli, que acompanha Marcelo, captar as imagens da expedição. 

Ao longo de vinte anos, a equipa de Carelli regressa repetidamente a Corumbiara para reunir evidências dos crimes, encontrar/reencontrar os sobreviventes, protegê-los, evitar que os territórios por eles habitados sejam ocupados por fazendeiros e tentar entender o que aconteceu em 1985. 

No entanto, tudo se vem a revelar muito mais complexo do que a ingenuidade com que partiram para o projecto permitiu entrever. Embora inicialmente o projecto fosse essencialmente político e humanitário, ao longo dos anos vai-se transformando num meta-projecto, na história das suas dificuldades e impossibilidades. 

No início, surge a dificuldade de estabelecer contacto entre pessoas que se receiam mutuamente (os indígenas e a equipa de indigenistas) por não conhecerem as intenções uns dos outros e não terem uma linguagem comum. Depois, após o contacto, existem dificuldades de comunicação, dado que as línguas indígenas são desconhecidas. Ao longo dos anos, a equipa de Carelli debate-se com a oposição cerrada dos fazendeiros ao seu trabalho. Os fazendeiros, sempre que podem, negam o acesso aos territórios onde se suspeita que existem indígenas escondidos. Boicotam também o trabalho que a equipa consegue realizar, através de campanhas para desacreditar as provas da existência de tais indígenas recolhidas pela equipa. 

Finalmente, são também problemáticas as dúvidas dos próprios “salvadores” sobre os métodos que utilizam nos “salvamentos”, particularmente quando o contacto é recusado por quem é suposto “ser salvo”. A equipa reflecte sobre a sua abordagem: será legítimo impor a sua presença a quem nitidamente não a deseja? Será legítimo filmar quem não quer ser filmado, mesmo com a melhor das intenções? 

Duas décadas depois do massacre, é finalmente lançado um documentário sem conclusões definitivas. Não há história com princípio, meio e fim. O que se mostra é um puzzle com muitos buracos, seja por ser impossível encontrar algumas das peças, seja por que outras, ao longo dos anos, perderam a sua nitidez. 

O filme, mais do que uma história de sucesso ou de metas alcançadas (descobrir e punir os culpados pelos crimes, por exemplo), é uma história sobre as lacunas da própria história, sobre a incapacidade de atingir os objectivos propostos e sobre as implicações éticas dos métodos utilizados. No entanto, essa aparente fragilidade é uma das grandes forças do filme, levando-o para territórios que ultrapassam o activismo em prol de uma causa específica. 

É também um filme sobre o Brasil (teias de poder, pobreza e estratégias de sobrevivência, ocupação de território, indigenismo, ambientalismo e sustentabilidade, ...) e um filme sobre adversidade e a superação possível, sem mistificação. No fim, não há heróis, há homens que fizeram o melhor que sabiam e que cometeram erros, mesmo tendo as melhores intenções. E é aí que todos nos poderemos identificar. Sem incluir as histórias dos problemas, falhanços, crises e impasses, não haveria filme, não haveria história. Para além de outros pontos de contacto com Cabra Marcado Para Morrer (filme já exibido neste ciclo dedicado ao cinema brasileiro), esta estratégia de composição é talvez o que mais aproxima os dois filmes. Impossibilidades transformadas em possibilidades, fraquezas feitas forças, histórias que afinal são História.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Ruínas (2009) de Manuel Mozos



por Mário Jorge Torres

Portugal revisitado pela noção de perda, substituindo à monumentalidade da História a anonimidade do fragmento irrisório 

"Com estes fragmentos escorei as minhas ruínas" 
T.S. Eliot, "The Waste Land" 

Manuel Mozos ocupa no panorama do actual cinema português um lugar singular: por um lado, o de construtor de arrojadas ficções que inscrevem um olhar renovador na geografia de uma Lisboa proletária, marginal e povoada por oníricos sinais, entre a (im)perfeita completude dessa obra-prima impura e dialéctica que dá pelo nome de um herói desgarrado, Xavier (1992, mas estendendo-se ao longo de anos de difícil produção, para estrear demasiado tarde, de modo a poder entender-se a sua radical importância), o curioso fracasso de uma obra confusa e algo megalómana como ...Quando Troveja (1999) e o recente descentramento de 4 Copas (2008), a traçar uma visão suburbana, quase irreconhecível, do seu mundo de fantasmas vivos, ao encontro do quotidiano moderno; por outro, o de rigoroso documentarista, oscilando entre o brilho incontroverso da "biografia cultural" (José Cardoso Pires - Diário de Bordo, 1998) e o fascínio pela colagem arquivística, mas infinitamente criativa, de pequenas preciosidades históricas: o magnífico Cinema Português? (1997) ou o inventivo Censura: Alguns Cortes (1999), um dos mais transversos e importantes olhares sobre as intrínsecas contradições do Estado Novo. 

Este intróito revela-se fundamental para falar de Ruínas, na medida em que este filme-ensaio funciona na curta obra de Mozos como súmula de todo o seu universo conceptual. Se não vejamos: o filme assume-se como "biografia" subterrânea de um país condenado pelo abandono da memória, transformada em lixo cultural; faz da "collage" modernista o seu método caótico de investigação sobre um passado contraditório e algo desconexo; inscreve nos intervalos de um documentário aleatório e prospectivo o desejo de ficções miniaturais, tendentes a recompor um retrato de meio-corpo de personagens ausentes e perdidas na voragem do tempo: os habitantes anónimos daquele sanatório gigantesco que agride a paisagem da Serra da Estrela, feito esqueleto de uma doença passada, mas perpetuado pela permanência dos seus sinais físicos na paisagem; os actores fantasmáticos daquele Parque Mayer desertificado no centro de uma Lisboa transformada em lixo urbano e transtornada por um progresso sem sentidos; os turistas "mortos" da ribatejana Estalagem Gado Bravo, de que saltaram letras da insígnia identificativa, numa tétrica "natureza morta" povoada por dejectos e por restos quase fossilizados de caveiras de animais; os frescos modernistas de um restaurante em Monsanto, com panorama sobre a capital do Império perdido, como se ainda convidassem a lautos banquetes de tempos que já lá vão e não voltarão nunca mais; as viagens impossíveis de chegada à estação de Barca de Alva, desactivada e inoperante, no coração do Douro Internacional, com carruagens enferrujadas e marcas de uma impotência atávica em operar uma arqueologia da memória; os vestígios desfeitos de uma mina abandonada que sinaliza o impasse de uma produção obsoleta de riquezas miríficas. 

Há riscos neste retrato de um país "arruinado" e inútil (ou inutilizado?) visto a partir da incúria de um património menor? Há e muitos, mas Mozos tem consciência do jogo da (in)glória que desenha, evitando a demagogia fácil das imagens de decadência, como se procurasse ver Portugal pelo lado das inevitáveis "derrotas". O que se torna fascinante é o modo como toma partido, deixando em aberto a perspectiva crítica de cada espectador, embora conduzindo sempre o seu olhar com implacável direccionalidade. Se existe possível rima interna, subjacente a este projecto, ela faz-se com Manoel de Oliveira, como se se tratasse de um contraponto documental a Non, ou a Vã Glória de Mandar: o país revisitado pela noção de perda, substituindo à monumentalidade da História a anonimidade do fragmento irrisório, tornado significativo pela acumulação geográfica de gestos sem saída. Ao Portugal dos Pequenitos que um arquitecto do antigamente construíra para glorificar uma ridícula noção do património imaginário, apõe Mozos um Portugal dos "Grandes", devastado e espectral, monstruoso porque verdadeiro. 

Haverá quem conteste que esta negatividade passa por alguma pretensão poética, uma poética pobre, contraditada (mas também acentuada) pelo certeiro recurso à textualidade de Ruy Belo, por exemplo, um poeta da "habitação" e do território. Uma coisa não podemos negar: estamos perante uma corajosa frontalidade, perante a nossa incapacidade de lidar com a pequena História de nós, com o terror de termos de escorar a nossa realidade entre ruínas. E regressamos, para concluir, a T. S. Eliot, citado, como na epígrafe, da tradução portuguesa de Maria Amélia Neto: "Penso que estamos na viela dos ratos/Onde os mortos perderam os seus ossos". 

in «Terra sem vida», Público, 31 de Março de 2010.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Aldina Duarte - Princesa Prometida (2009) de Manuel Mozos



por Nuno Pacheco

No palco da Culturgest, hoje, vai estrear "Mulheres ao Espelho". Na tela do IndieLisboa, dia 26, vai ser protagonista do documentário Princesa Prometida, de Manuel Mozos. E em 2010 Olga Roriz vai levar os seus fados à cena. 

É quase uma ironia, mas aconteceu assim: Aldina Duarte entrou no mundo do fado por causa de um documentário que não chegou a ser feito. Agora, já fadista, foi ela mesma objecto de um, realizado por Manuel Mozos e programado para estrear no IndieLisboa (dia 26, às 21h45, na sala 1 do São Jorge). 

Porquê Mozos? Aldina cantara já um fado no seu filme Xavier, em 1991, e foi com ele que foi pela primeira vez a uma casa de fados, em 1993, com o objectivo de preparar entrevistas com Beatriz da Conceição, Celeste Rodrigues e Fernando Maurício (que entretanto morreu). Encantou-se de tal modo ao ouvir cantar Beatriz da Conceição que se tornou, ela própria, fadista. Quanto aos documentários, que seriam realizados por Jorge Silva Melo, não chegaram a ser feitos. E foi Aldina quem veio a figurar num, Princesa Prometida, assinado por Mozos. 

"Para mim é muito estranho, porque não fiz nada para que isto acontecesse. A Maria João Seixas, que ainda não conhecia pessoalmente, foi apresentar uma das quintas-feiras de leitura, no Porto, no Teatro Campo Alegre. A primeira parte era dedicada à poesia da Maria do Rosário Pedreira (eu não a conhecia mas já era fã, tinha ouvido as duas letras que ela escreveu para o último disco do Carlos do Carmo) e na segunda parte ia eu cantar fados, porque me convidaram." 

Dada a coincidência, Aldina pediu a Rosário Pedreira que lhe escrevesse então uma letra para ela estrear lá, o que veio a acontecer (foi "O amor não se desata", que entrou depois no disco Mulheres ao Espelho). Mas o pretexto para o filme veio depois. "Num jantar, estávamos a falar sobre política e eu não fui politicamente correcta. A Maria João Seixas achou extraordinário e disse que se tivesse um programa de entrevistas me entrevistava naquela altura. Porque, disse ela, a minha vibração infantil-adolescente com a minha idade era uma coisa rara." 

Passados três meses, apareceu-lhe com a ideia do documentário, já com tudo tratado. Como fio condutor haveria uma noite de fados no Palácio Fronteira e uma entrevista com Aldina, que foi feita em casa dela, na Madragoa ("Foi a primeira vez que abri assim a minha casa, porque era a pessoas minhas amigas. Mas fez-me impressão e não quero voltar a fazê-lo"). 

O concerto foi gravado em Dezembro de 2007 e as filmagens consumiram uma semana de Fevereiro de 2008. Além disso, ela tinha que escolher os percursos e as pessoas que queria integrar no filme. "Escolhi só duas: uma que tem a ver com a minha vida pessoal, que é a minha mãe; e outra ligada ao meu trabalho, o Jorge Silva Melo, que é a pessoa com quem eu acho que aprendi mais profissionalmente." 

A conversa com Silva Melo decorre no Largo do Carmo, numa feira de livros usados, enquanto a conversa com a mãe decorre no Jardim Tropical, junto a uma árvore enorme. "Sempre achei que aquela árvore era a minha mãe. Pelas raízes tão visíveis, tão fortes." 

Do cinema mudo a Olga Roriz 

Olhar-se no ecrã ou na tela é coisa que lhe faz impressão. "Eu tenho sempre medo destas coisas porque não me quero tornar bizarra. Não quero tornar-me, eu, Aldina, mais importante do que o meu trabalho. Há pessoas que adoram as minhas entrevistas mas não gostam do meu trabalho, por exemplo." 

Já viu o filme três vezes, mas nunca sozinha. Não é capaz. Aquilo que deu origem ao documentário, o encontro no Porto com Rosário Pedreira e Maria João Seixas, em Junho de 2007, foi também aquilo que deu origem ao disco "Mulheres ao Espelho", gravado em Dezembro de 2007, lançado em 2008 e que só agora vai estrear na Culturgest (dia 22, às 21h30). É do disco o fado escolhido para titular o filme, "Princesa prometida", onde Aldina escreveu: "Espelho meu que aconteceu/ do que é teu e do que é meu/ já não temos a certeza." 

Toda a história do filme, aliás, diz Aldina, "anda à volta da temática do disco." Do filme, Aldina espera que quem o vir retenha o essencial: "Que vale a pena tentarmos negociar as nossas revoltas com os nossos amores; que independentemente da nossa origem vale a pena manter sempre a consciência de classe, mas acreditando e fazendo o que está na nossa mão para melhorar a nossa vida e as dos que nos rodeiam; que a cultura e o conhecimento podem ser salvação para muitos males." 

Do disco, ao pô-lo em palco, deixará de fora os fados que não são criação sua, excepto um, "Não vou, não vou", de Lucília do Carmo. "Porque define todos os meus medos e toda a minha coragem." E abrirá a noite com "Lírio Quebrado", do seu primeiro disco, que tem a ver com os tempos em que trabalhou na Cinemateca e se apaixonou pelo cinema mudo. 

Com o espectáculo e o filme em estreia quase simultânea, vai já somando novos fados que lhe chegam. Amélia Muge prometeu-lhe um, Manuel João Vieira já fez dois (só música), Paulo de Carvalho gravou-lhe um original e José Mário Branco ofereceu-lhe, pela primeira vez, um fado seu, novo, com letra de Manuela de Freitas, "Apenas o Vento". "Eles sabem que eu adoro o vento. É das coisas que mais me acalma, como tudo o que é bravo, como o mar. Sou tão inquieta e tão agitada interiormente que é preciso algo mais forte para eu relativizar as coisas. Uma espécie de vassoura." 

Ela não planeia, mas as coisas vão acontecendo. Anteontem cantou nos Açores com António Zambujo (está a escrever para o novo disco dele); voltará ao Porto para cantar no Campo Alegre; em Junho, cantará no Castelo de São Jorge, em Lisboa, ao lado de Maria do Rosário Pedreira, Manuel Paulo e Nancy Vieira; já tem convites para cantar na "Festa do Avante!" e no Teatro Azul de Almada. "E em 2010 vai realizar-se o sonho da minha vida." Disse ao Jorge Salavisa que gostava muito que alguém da área do bailado desse corpo aos fados de "Mulheres ao Espelho". Esse alguém já existe e chama-se Olga Roriz. O espectáculo, "Aldina por Olga Roriz", estreia-se em Julho de 2010.

in jornal «Público», 16 de Abril de 2009