O CANTO DO CISNE
“Muitos últimos filmes são-no por acaso”, escreveu recentemente Jacques Lourcelles a propósito de A Prairie Home Companion, o último filme realizado por Robert Altman. Se se explorar um pouco a história do cinema, descobre-se que na maior parte dos casos os cineastas tinham vários projectos que queriam levar a cabo depois dos que acabaram por ficar como os seus últimos filmes. Só num punhado de ocasiões é que foram apoiados por um sistema que pede garantias muito difíceis, sempre através de terceiros que assumem os riscos. Produtores ousados, actores cotados ou colegas de profissão que se comprometeram a acabar o filme caso acontecesse o pior. Foi assim que Allan Dwan fez O Mais Perigoso Homem Vivo, aos 73 anos, graças a Benedict Bogeaus. Que Howard Hawks fez Rio Lobo, aos 74, graças a John Wayne. Que John Huston e Altman fizeram os seus últimos filmes, sabendo que o iriam ser, já depois dos oitenta anos, graças a Karel Reisz e Paul Thomas Anderson.
Portanto não se percebe quando alguns desses colegas de profissão, como Quentin Tarantino, que já deviam saber como funciona a indústria e que talvez nunca tenha havido uma altura em que fosse preciso desafiá-la tanto como agora, assumem a voz do dono e dizem coisas como “os realizadores não melhoram à medida que envelhecem. Normalmente os piores filmes nas suas filmografias são aqueles últimos quatro no final.” Pois é precisamente nesse período, em que sabem que estão para ser relegados para segundo plano, em que o sistema os tenta quebrar por erosão e labirintos burocráticos, que eles reúnem todas as forças que têm para acabar as coisas nos próprios termos, com uma vitalidade e uma lucidez invejáveis, normalmente com projectos que à partida nem se diriam ser os mais pessoais. E aí, felizmente, há bastantes mais casos.
O nosso país tem um exemplo cimeiro e sublime que nos permite olhar para isto tudo ainda de outra forma. Manoel de Oliveira, que fez o seu último filme aos 105 anos. No que já pode ser visto como uma passagem de testemunho, em 2008, Clint Eastwood elogiou o cineasta do Porto na cerimónia de entrega da Palma de Ouro de carreira em Cannes, onde fez questão de estar presente, apontando-o como “exemplo a seguir”. E também ele, nonagenário, vai conseguindo realizar filmes regularmente, ainda que o sistema comece a tentar criar atritos desnecessários, negando-lhe a estreia em sala em 2024, primeira e única vez em que um filme realizado por Eastwood não se estreou nos cinemas em Portugal. Mas Juror #2 foi feito mesmo assim e o seu realizador, actualmente com 95 anos, não dá mostras de querer ficar por aí.
Já todos usámos a expressão “canto do cisne”, provavelmente sem saber que se trata de um fenómeno natural, provavelmente associando-o a um lamento ou a uma nostalgia por tempos passados, incutindo-lhe certamente a nossa própria visão sobre a morte, que continua a ser um “país desconhecido”. Mais raro será associarmos a expressão a Platão e a Fédon, diálogo em que Sócrates, com um frasco de veneno na mão, pronto a executar a sentença que lhe foi ditada pelo povo de Atenas, reúne os amigos e os conforta racionalmente, falando-lhes da vida, da morte e dos cisnes, que “tendo cantado a vida inteira, cantam então com mais ímpeto do que alguma vez cantaram, alegrando-se com a ideia de que estão prestes a ir-se embora para o deus que servem.” Que os cisnes e os homens “têm o dom da profecia, e antecipam as coisas boas de outro mundo; pelo que cantam e se exultam mais do que nunca nesse dia.”
Nos próximos meses, então, exploraremos as últimas obras de vários realizadores que trabalharam em Hollywood, mesmo que tenham acabado a carreira noutro sítio. Escolhemos o final dos anos cinquenta como ponto de partida, altura em que os grandes estúdios estavam em crise, começando a olhar para a Europa como tábua de salvação, e veremos as últimas obras de Joseph H. Lewis, Allan Dwan, Leo McCarey, John Ford, Charles Chaplin e André De Toth, num ciclo que se poderá acompanhar entre Braga, Famalicão e Penafiel.
“Muitos últimos filmes são-no por acaso”, escreveu recentemente Jacques Lourcelles a propósito de A Prairie Home Companion, o último filme realizado por Robert Altman. Se se explorar um pouco a história do cinema, descobre-se que na maior parte dos casos os cineastas tinham vários projectos que queriam levar a cabo depois dos que acabaram por ficar como os seus últimos filmes. Só num punhado de ocasiões é que foram apoiados por um sistema que pede garantias muito difíceis, sempre através de terceiros que assumem os riscos. Produtores ousados, actores cotados ou colegas de profissão que se comprometeram a acabar o filme caso acontecesse o pior. Foi assim que Allan Dwan fez O Mais Perigoso Homem Vivo, aos 73 anos, graças a Benedict Bogeaus. Que Howard Hawks fez Rio Lobo, aos 74, graças a John Wayne. Que John Huston e Altman fizeram os seus últimos filmes, sabendo que o iriam ser, já depois dos oitenta anos, graças a Karel Reisz e Paul Thomas Anderson.
Portanto não se percebe quando alguns desses colegas de profissão, como Quentin Tarantino, que já deviam saber como funciona a indústria e que talvez nunca tenha havido uma altura em que fosse preciso desafiá-la tanto como agora, assumem a voz do dono e dizem coisas como “os realizadores não melhoram à medida que envelhecem. Normalmente os piores filmes nas suas filmografias são aqueles últimos quatro no final.” Pois é precisamente nesse período, em que sabem que estão para ser relegados para segundo plano, em que o sistema os tenta quebrar por erosão e labirintos burocráticos, que eles reúnem todas as forças que têm para acabar as coisas nos próprios termos, com uma vitalidade e uma lucidez invejáveis, normalmente com projectos que à partida nem se diriam ser os mais pessoais. E aí, felizmente, há bastantes mais casos.
O nosso país tem um exemplo cimeiro e sublime que nos permite olhar para isto tudo ainda de outra forma. Manoel de Oliveira, que fez o seu último filme aos 105 anos. No que já pode ser visto como uma passagem de testemunho, em 2008, Clint Eastwood elogiou o cineasta do Porto na cerimónia de entrega da Palma de Ouro de carreira em Cannes, onde fez questão de estar presente, apontando-o como “exemplo a seguir”. E também ele, nonagenário, vai conseguindo realizar filmes regularmente, ainda que o sistema comece a tentar criar atritos desnecessários, negando-lhe a estreia em sala em 2024, primeira e única vez em que um filme realizado por Eastwood não se estreou nos cinemas em Portugal. Mas Juror #2 foi feito mesmo assim e o seu realizador, actualmente com 95 anos, não dá mostras de querer ficar por aí.
Já todos usámos a expressão “canto do cisne”, provavelmente sem saber que se trata de um fenómeno natural, provavelmente associando-o a um lamento ou a uma nostalgia por tempos passados, incutindo-lhe certamente a nossa própria visão sobre a morte, que continua a ser um “país desconhecido”. Mais raro será associarmos a expressão a Platão e a Fédon, diálogo em que Sócrates, com um frasco de veneno na mão, pronto a executar a sentença que lhe foi ditada pelo povo de Atenas, reúne os amigos e os conforta racionalmente, falando-lhes da vida, da morte e dos cisnes, que “tendo cantado a vida inteira, cantam então com mais ímpeto do que alguma vez cantaram, alegrando-se com a ideia de que estão prestes a ir-se embora para o deus que servem.” Que os cisnes e os homens “têm o dom da profecia, e antecipam as coisas boas de outro mundo; pelo que cantam e se exultam mais do que nunca nesse dia.”
Nos próximos meses, então, exploraremos as últimas obras de vários realizadores que trabalharam em Hollywood, mesmo que tenham acabado a carreira noutro sítio. Escolhemos o final dos anos cinquenta como ponto de partida, altura em que os grandes estúdios estavam em crise, começando a olhar para a Europa como tábua de salvação, e veremos as últimas obras de Joseph H. Lewis, Allan Dwan, Leo McCarey, John Ford, Charles Chaplin e André De Toth, num ciclo que se poderá acompanhar entre Braga, Famalicão e Penafiel.
Lucky Star – Cineclube de Braga / Cineclube de Joane / Clube Objetivo Cinema (Penafiel)

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