O Gabinete do Dr. Caligari tem sido visto como o filme-manifesto do cinema expressionista alemão. A história fantástica, os cenários pintados com as suas formas angulosas e desequilibradas, os violentos contrastes de luz e sombra, a carregada maquilhagem dos actores e os seus códigos histriónicos de representação, tudo isso, foi retomado por muitos outros filmes, acabando por dar origem a um estilo que se denominou como “caligaresco”, característico da primeira fase do cinema expressionista, na Alemanha. Na pintura expressionista, as formas não pretendem mimetizar a realidade visível, mas exprimir emoções veementes e, diz-nos Hermann Warm, um dos autores dos cenários onde decorre a acção do filme de hoje, “as películas [cinematográficas] devem ser desenhos aos quais se dá vida”. O filme de Wiene “dá vida”, de uma forma muito gráfica, aos ressentimentos, às ansiedades e aos medos que perpassam a sociedade alemã depois da I Guerra Mundial.
O argumento foi concebido por Hans Janovitz e Carl Mayer que se inspiraram em experiências por si vividas. Janowitz recordava uma noite, onde, deambulando por uma feira em Hamburgo, perseguiu uma jovem muito bela, seguindo o seu riso até um bosque onde se perdeu. Mais tarde, soube que aí tinha ocorrido um crime. E, no funeral da jovem assassinada, pareceu-lhe reconhecer um indivíduo que entreviu, afastando-se do lugar onde ele poderá ter sido cometido. Mayer foi soldado durante a Grande Guerra e, dessa experiência guardou uma memória traumática. Foi submetido a tratamentos psiquiátricos e, no hospital onde esteve internado, travou um dramático duelo mental com os médicos que o trataram.
A guerra havia terminado e os dois alimentavam os mesmos ideais pacifistas e o mesmo ódio aos governos que tinham enviado milhões de jovens para aquela carnificina. Um dia, ambos observaram um espectáculo onde, sob o título “Homem ou máquina?”, se convidavam as pessoas a apreciar as proezas de um homem que, hipnotizado, realizava proezas físicas impressionantes.
Foi das conversas que tiveram e do cruzamento destas histórias que nasceu o guião cinematográfico de O Gabinete do Dr. Caligari. Eric Pommer aceitou produzir o filme e convidou Fritz Lang para o dirigir. Contudo, ele não pôde aceitar por estar a terminar As Aranhas e foi substituído por Robert Wiene, que introduziu uma alteração significativa ao roteiro de Janovitz e Mayer. A história dos crimes cometidos por Cesare sob o mando do Dr. Caligari manteve-se, mas como narrativa fantasiosa de um louco internado num hospício. Essa alteração subvertia a intenção dos autores que conceberam o filme como uma denúncia da capacidade de homens comuns poderem cometer as maiores atrocidades quando submetidos à vontade de autoridades que, sobre eles, dispõem de um poder absoluto. A alusão à ferocidade com que soldados diferentes países se chacinaram durante a I Guerra Mundial, manipulados por governos defensores de interesses que lhe eram estranhos, era evidente no guião inicial, mas ficava esbatida depois das alterações introduzidas por Wiene.
Mayer e Janovitz sugeriram que o desenho dos cenários fosse encomendado a Alfred Kublin, um ilustrador próximo da estética simbolista, mas eles acabaram por ser entregues a Hermann Warm, Walter Rörig e Walter Reiman, mais influenciados pela pintura dos artistas do grupo Die Brücke, como Ernst Kirchner e Karl Schmidt-Rottluff. Os ambientes por si criados sublinham a ideia de Wiene de que tudo aquilo que o filme narra se passa na mente caótica e angustiada de um louco.
No entanto, a ideia original de Janovitz e Mayer não se perdeu inteiramente. Os sinais que denunciam a arrogância dos poderes autoritários continuam presentes, não só na relação do Dr. Caligari com o sonâmbulo, mas também nos altos e estranhos bancos onde se empoleiram os funcionários da Câmara, ou nas escadas que se é obrigado a subir para alcançar o gabinete do director do hospital psiquiátrico.
Apesar das alterações de Wiene ao roteiro inicial, o final do filme não nos impede de compreender as imagens inquietantes da feira, que observamos no seu início, ou do pátio do manicómio, que vemos nas suas sequências finais, como metáforas da sociedade alemã dos anos 20, avassalada pelo delírio que a conduziu à catástrofe alguns anos depois. É, portanto, legítima a leitura de Siegfried Kracauer, que vê em O Gabinete do Sr. Caligari uma premonição da chegada de Hitler ao poder.

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