por Laura Mendes
Zona de Interesse é, porventura, o filme deste ciclo que se propõe mais intensamente a discorrer em torno da banalidade do mal, materializando esta ideia de forma quase literal, onde a narrativa deixa de ser prioridade em favor de uma ambiência sensível que requer o nosso olhar atento e crítico.
Um início aterrador, onde a escuridão é apenas acompanhada de sonoridades premonitórias. A este, sucede uma paisagem idílica, deixando já antever a promiscuidade da felicidade e tranquilidade. Uma estrada na montanha alonga-se pela noite dentro. Finalmente, chegamos a uma casa onde se prolongam as atividades familiares aparentemente banais.
Timidamente, a casa onde vive esta família alemã – que não é uma qualquer, veremos – vai-se revelando como o lugar que verdadeiramente é: uma casa contígua a um campo de concentração, habitada por vidas contíguas a mortes pelas primeiras premeditadas.
O quotidiano filmado é impassível como o tempo, e os dias da família Höss sucedem velozmente, entre refeições e histórias para adormecer. Ainda que à primeira vista diluídos uns nos outros, há uma clara demarcação entre os elementos que pertencem aos quadros rotineiros e os que estão à sua margem – se a família parece surgir em primeiro plano, os judeus ocupam, de igual forma, o espaço da mesma, embora sem constituírem uma materialidade própria, sendo os seus corpos como sombras às quais podemos aceder furtivamente, principalmente através das tarefas que realizam. Assim, todas as sequências são transformadas em desafios a nós lançados em torno do saber observar, da capacidade de tomada do olhar sobre tudo o que fica para lá da aparência. A casa mostra-se como espaço privilegiado de construção de identidade, de demonstração de hipocrisia, com laivos de esconderijo impune e desumanizante, subvertendo o ideal do lar enquanto conforto, antes edificando-o como espaço de continuação e questionamento de uma vida exterior e social.
A impercetibilidade da verdade da situação, bem como a normalidade com que os acontecimentos se desenrolam, são apenas suspensas pelos momentos de terror artisticamente formulados, talvez os mais significativos do filme, para nos dar a entender o que não é visível – onde as noites (em branco) adquirem um papel especialmente preponderante, enquanto espaço-tempo de pesadelos, emergindo a consciência como ser vivo e destrutivo.
Vivências aproximadas às nossas, para que nos identifiquemos com a família, sendo o seu o lugar que ocupamos: o filme leva-nos a considerar o que é viver, cabendo-nos decifrar nos gestos e nas palavras as consequências do conformismo quotidiano, o mal que se encerra nos artifícios mundanos.
Sem que vejamos uma única morte ou abuso – porque de que forma, se é que de todo, podem os mesmos ser encenados –, Zona de Interesse causa o maior dos horrores na sua evocação, na personificação da crueldade a eles inerente. A questão da abjeção é assim resolvida, filmando, nunca mostrando, os terrores do holocausto com recurso ao poder da abordagem tanto sugestiva – fazendo um uso devastador do som – como cínica e provocatória.
Transferindo toda a reflexão para o agora e para a relação que mantemos com uma das maiores tragédias da humanidade, Jonathan Glazer aponta-nos diretamente o dedo com a mestria de um olhar frio e perscrutador, deixando-nos desolados perante um retrato íntimo do pior que em nós vive.
Um início aterrador, onde a escuridão é apenas acompanhada de sonoridades premonitórias. A este, sucede uma paisagem idílica, deixando já antever a promiscuidade da felicidade e tranquilidade. Uma estrada na montanha alonga-se pela noite dentro. Finalmente, chegamos a uma casa onde se prolongam as atividades familiares aparentemente banais.
Timidamente, a casa onde vive esta família alemã – que não é uma qualquer, veremos – vai-se revelando como o lugar que verdadeiramente é: uma casa contígua a um campo de concentração, habitada por vidas contíguas a mortes pelas primeiras premeditadas.
O quotidiano filmado é impassível como o tempo, e os dias da família Höss sucedem velozmente, entre refeições e histórias para adormecer. Ainda que à primeira vista diluídos uns nos outros, há uma clara demarcação entre os elementos que pertencem aos quadros rotineiros e os que estão à sua margem – se a família parece surgir em primeiro plano, os judeus ocupam, de igual forma, o espaço da mesma, embora sem constituírem uma materialidade própria, sendo os seus corpos como sombras às quais podemos aceder furtivamente, principalmente através das tarefas que realizam. Assim, todas as sequências são transformadas em desafios a nós lançados em torno do saber observar, da capacidade de tomada do olhar sobre tudo o que fica para lá da aparência. A casa mostra-se como espaço privilegiado de construção de identidade, de demonstração de hipocrisia, com laivos de esconderijo impune e desumanizante, subvertendo o ideal do lar enquanto conforto, antes edificando-o como espaço de continuação e questionamento de uma vida exterior e social.
A impercetibilidade da verdade da situação, bem como a normalidade com que os acontecimentos se desenrolam, são apenas suspensas pelos momentos de terror artisticamente formulados, talvez os mais significativos do filme, para nos dar a entender o que não é visível – onde as noites (em branco) adquirem um papel especialmente preponderante, enquanto espaço-tempo de pesadelos, emergindo a consciência como ser vivo e destrutivo.
Vivências aproximadas às nossas, para que nos identifiquemos com a família, sendo o seu o lugar que ocupamos: o filme leva-nos a considerar o que é viver, cabendo-nos decifrar nos gestos e nas palavras as consequências do conformismo quotidiano, o mal que se encerra nos artifícios mundanos.
Sem que vejamos uma única morte ou abuso – porque de que forma, se é que de todo, podem os mesmos ser encenados –, Zona de Interesse causa o maior dos horrores na sua evocação, na personificação da crueldade a eles inerente. A questão da abjeção é assim resolvida, filmando, nunca mostrando, os terrores do holocausto com recurso ao poder da abordagem tanto sugestiva – fazendo um uso devastador do som – como cínica e provocatória.
Transferindo toda a reflexão para o agora e para a relação que mantemos com uma das maiores tragédias da humanidade, Jonathan Glazer aponta-nos diretamente o dedo com a mestria de um olhar frio e perscrutador, deixando-nos desolados perante um retrato íntimo do pior que em nós vive.

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