por Estela Cosme
Matthias e Maxime é um filme que nos causa bastante estranheza e bastante familiaridade simultaneamente. Ao mesmo tempo que é uma história sobre amizade e amor juvenil, é também um retrato de jovens adultos que se encaixam numa vida ainda em construção, onde cada episódio é monumental e banal ao mesmo tempo. Onde tudo parece efémero, mas profundamente marcante, e sabemos perfeitamente que o que acontece irá moldar as personagens de forma irreversível. É por isso um filme de contradições, mas também do que existe entre elas e por causa delas.
A história gira à volta de um grupo de amigos de infância que agora são jovens adultos, obrigados a definir o seu presente pelas suas ambições profissionais. No entanto, as suas amizades deixam-nos prendidos à sua adolescência e à forma grosseira e reactiva de viver e de agir a que estão tão habituados, sendo o grupo o único elemento familiar num mundo caótico e temível, a sua única rede de segurança.
Mas este é um grupo de homens concentrados em si próprios, onde existe uma masculinidade não só dominante, mas também agressiva. Tudo o que ousa "furar" esta bolha é retratado de forma negativa, e as personagens femininas não escapam às críticas e ao desdém das personagens principais. Vemos a irmã de Rivette a ser gozada e repetidamente desvalorizada como artista. A mãe de Maxime é apenas violenta e manipuladora, um dos vários motivos que leva Maxime a querer sair do país (vemos outra relação de mãe e filho turbulenta noutro filme de Xavier Dolan, Eu Matei a Minha Mãe). Até Matthias encara a mãe de forma negativa, apesar de como espectadores não nos serem apresentados motivos. E é no meio desta virilidade bem marcante e do caos que ela traz que descobrimos que existe uma espécie de história de amor, e essa história não é perfeita, tal como as suas personagens.
Matthias e Maxime conhecem-se desde a infância mas há algo entre eles que os une de uma forma que não une os outros amigos. Quando são emboscados para aparecer numa curta-metragem da irmã de Rivette, eles descobrem que têm que se beijar em frente à câmara, levando o grupo de amigos a relembrar que isso já tinha acontecido na secundária. Um lapso devido ao efeito de drogas, segundo Matthias. Mas ao longo do filme descobrimos que a verdade é bem mais complexa, e apesar de viverem as suas vidas como homens heterossexuais, há uma paixão silenciosa por explorar entre ambos. O beijo entre eles causa uma grave crise existencial, que mexe profundamente com os dois, e que põe em causa não só a sua amizade, mas também o grupo de amigos, as suas respectivas relações amorosas, e a eventual partida de Maxime para a Austrália.
Para as personagens principais, chegou o momento de lidar com o que já não podem mais adiar. O inevitável surge no pior momento, exacerbado pelo sofrimento das mudanças, o caos do dia-a-dia e a pressão da despedida. A repressão da sua homossexualidade tem consequências nefastas, como é óbvio, e o amor que existe entre os dois nem é saudável nem é minimamente tangível. O que vemos neste amor tem pouco de carinho e de lealdade, é o amor de uma amizade agridoce que se foi azedando com o tempo, com sentimentos por definir e uma atração mal interpretada por ambas as partes. Não sabem o porquê desse puxão magnético que os une, o que os leva a afastar-se cada vez mais. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, agora há uma contagem decrescente até ao momento em que se devem separar de vez. O amor entre eles tem então os dias contados, e tudo o que se diga e se faz conta muito, para o bem e para o mal. E como vemos ao longo do filme, é sobretudo para o mal.
Mas o filme não só lida com a frustração de um amor por realizar. Lida também com a esperança de que ele eventualmente seja realizado e correspondido. Mas se esse é um amor pelo qual devemos nutrir, isso já fica a cargo de cada espectador. Para muitos, talvez a aridez da Austrália pareça bem mais acolhedora.
A história gira à volta de um grupo de amigos de infância que agora são jovens adultos, obrigados a definir o seu presente pelas suas ambições profissionais. No entanto, as suas amizades deixam-nos prendidos à sua adolescência e à forma grosseira e reactiva de viver e de agir a que estão tão habituados, sendo o grupo o único elemento familiar num mundo caótico e temível, a sua única rede de segurança.
Mas este é um grupo de homens concentrados em si próprios, onde existe uma masculinidade não só dominante, mas também agressiva. Tudo o que ousa "furar" esta bolha é retratado de forma negativa, e as personagens femininas não escapam às críticas e ao desdém das personagens principais. Vemos a irmã de Rivette a ser gozada e repetidamente desvalorizada como artista. A mãe de Maxime é apenas violenta e manipuladora, um dos vários motivos que leva Maxime a querer sair do país (vemos outra relação de mãe e filho turbulenta noutro filme de Xavier Dolan, Eu Matei a Minha Mãe). Até Matthias encara a mãe de forma negativa, apesar de como espectadores não nos serem apresentados motivos. E é no meio desta virilidade bem marcante e do caos que ela traz que descobrimos que existe uma espécie de história de amor, e essa história não é perfeita, tal como as suas personagens.
Matthias e Maxime conhecem-se desde a infância mas há algo entre eles que os une de uma forma que não une os outros amigos. Quando são emboscados para aparecer numa curta-metragem da irmã de Rivette, eles descobrem que têm que se beijar em frente à câmara, levando o grupo de amigos a relembrar que isso já tinha acontecido na secundária. Um lapso devido ao efeito de drogas, segundo Matthias. Mas ao longo do filme descobrimos que a verdade é bem mais complexa, e apesar de viverem as suas vidas como homens heterossexuais, há uma paixão silenciosa por explorar entre ambos. O beijo entre eles causa uma grave crise existencial, que mexe profundamente com os dois, e que põe em causa não só a sua amizade, mas também o grupo de amigos, as suas respectivas relações amorosas, e a eventual partida de Maxime para a Austrália.
Para as personagens principais, chegou o momento de lidar com o que já não podem mais adiar. O inevitável surge no pior momento, exacerbado pelo sofrimento das mudanças, o caos do dia-a-dia e a pressão da despedida. A repressão da sua homossexualidade tem consequências nefastas, como é óbvio, e o amor que existe entre os dois nem é saudável nem é minimamente tangível. O que vemos neste amor tem pouco de carinho e de lealdade, é o amor de uma amizade agridoce que se foi azedando com o tempo, com sentimentos por definir e uma atração mal interpretada por ambas as partes. Não sabem o porquê desse puxão magnético que os une, o que os leva a afastar-se cada vez mais. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, agora há uma contagem decrescente até ao momento em que se devem separar de vez. O amor entre eles tem então os dias contados, e tudo o que se diga e se faz conta muito, para o bem e para o mal. E como vemos ao longo do filme, é sobretudo para o mal.
Mas o filme não só lida com a frustração de um amor por realizar. Lida também com a esperança de que ele eventualmente seja realizado e correspondido. Mas se esse é um amor pelo qual devemos nutrir, isso já fica a cargo de cada espectador. Para muitos, talvez a aridez da Austrália pareça bem mais acolhedora.

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