terça-feira, 17 de dezembro de 2019

157ª sessão: dia 19 de Dezembro (Quinta-Feira), às 21h30


Para este Natal, escolhemos um filme de Roberto Rossellini que, mesmo não se passando na quadra -  como tem sido a regra nas nossas selecções -, foi planeado para estrear durante a época natalícia de 1950, pelo próprio realizador. A anteceder o filme, e como homenagem ao grande amigo Zé Lopes, exibiremos a curta-metragem Dá-me uma Gotinha de Água, de 2013. Será assim a nossa próxima sessão.

Em entrevista a Éric Rohmer e Jacques Rivette, em 1954, e dissertando sobre a liberdade sem freios do cristianismo, Rossellini diz que "quando se fala em liberdade, a primeira coisa que se acrescenta é: «a liberdade, sim, mas com uns certos limites». Não, até recusamos a liberdade abstracta porque é um sonho que seria demasiado belo. É por isso que encontro uma força imensa no cristianismo: porque a liberdade é absoluta, é verdadeiramente absoluta, na minha opinião.

"É um facto que nos dias que correm os homens querem ser livres para acreditar numa verdade que lhes é imposta; já não existem homens que procurem a sua própria verdade; é isto que me parece extraordinariamente paradoxal. Basta-lhes dizer com o dedo estendido à frente do nariz: isto é a verdade, para que se tornem perfeitamente felizes; querem acreditar, seguem-vos, são capazes do que quer que seja para conseguir acreditar nessa verdade. Mas nunca fizeram o mais pequeno esforço para a descobrir. É uma coisa que sempre se passou assim ao longo da história; o mundo deu passos em frente quando quando houve verdadeira liberdade. Esta liberdade apareceu muito raramente na História e no entanto sempre se falou de liberdade."

No capítulo dedicado ao filme da nossa próxima sessão, dentro do monumental livro que escreveu sobre Rossellini, Tag Gallagher informa que «o próximo filme de Rossellini tinha rodagem marcada para 17 de Janeiro de 1950 (o aniversário de Marcellina). Contrariamente a Stromboli terra di Dio, que tinha sido preparado no último momento, Francesco giullare di Dio (O Santo dos Pobrezinhos) andava a ser planeado há anos. Era "o filme que Roberto continuou a amar mais do que qualquer outro que tenha feito", observou Marcellina depois da morte de Rossellini [nota: Faldini & Fofi, I:205]. O espírito de Francesco paira sobre Stromboli, o filme anterior, e Europa 51, o filme seguinte.

«Roberto tinha exposto as suas ideias sobre Francisco de Assis a Jenia Reissar em Abril de 1948. “Rossellini explicou,” relatou ela a Selznick, aparentemente insensível às lisonjas de Roberto, “que é a história de um homem que é não-católico, que renunciou à riqueza pela pobreza para provar a si próprio e aos outros que o bem estar e a paz de espírito não se devem à riqueza, e são uma qualidade interior de que tanto os ricos como os pobres podem desfrutar... São Francisco foi seguido no seu exílio voluntário do mundo pela sua antiga amante, que renunciou ao seu grande amor por ele e se tornou sua seguidora fiel.” [nota: Selznick Archives: Reissar to Selznick, 21 de Abril de 1948.]

«“Paz de espírito” era um tema constante, mesmo que obscuro, para Roberto nos anos que se seguiram à morte de Romano. Tinha sido essa a busca de Karin em Stromboli e a de Edmund em Deutschland. No Outono de 1948, quando Roberto encontrou Morlion pela primeira vez, tinha confessado o seu orgulho em ter posto a sequência dos monges em Paisà “para mostrar a capacidade da fé em Deus para gerar a aceitação serena do sofrimento.” Isto foram lisonjas preparadas para Morlion, mas honestas. Os personagens de Rossellini iam ser os mesmos monges que tinha usado em Paisà e a mensagem de Rossellini ia ser a mesma também. Pretendia “fazer um filme em que São Francisco e Santa Clara, apesar das suas capacidades sobre-humanas para renunciar a tudo e se darem aos outros, se comportassem como indivíduos comuns—tal como os partidários de Paisà ou as personagens de Roma, Cidade Aberta, pessoas normais que tinham enfrentado a morte com singeleza, não porque tivessem uma vocação para o heroísmo mas apenas por quererem continuar humanos. Permanecer fiéis, mesmo a custo da própria vida, a certos valores que tinham interiorizado de forma profunda sem alguma vez se terem perguntado de forma explícita sobre eles.”[nota: Arosio, “Il figliol,” p. 306.]»

Já Jacques Lourcelles, no Dictionnaire, escreve que "usando ainda alguns princípios do neo-realismo (os cenários naturais, o som directo, pouco habitual em Itália, e os intérpretes não profissionais misturados com alguns raros profissionais), Rossellini quer exprimir pela própria forma, pela carne do seu filme, a mensagem franciscana. O despojamento e a austeridade frequentemente luminosa da imagem só existem para gerar uma jubilação e um êxtase plástico que são a modesta pedra que o cineasta pretende trazer para a construção (para a descoberta) da «felicidade perfeita». A arte de Rossellini nunca deixou de surpreender, até mesmo de chocar, porque por mais encarnada que fosse, também era a menos formalista. A sua mensagem final consiste em poucas palavras: não é o filme, mas a mensagem que conta; a obra é nada, é a realidade que é tudo. Esta mensagem é também o culminar do neo-realismo."

Até Quinta!

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