quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O Anjo Azul (1930) de Josef von Sternberg



por Laura Mendes
 
Neste último filme do ciclo Expressionismo Alemão, recuperam-se os cenários angulares e os jogos de sombras de O Gabinete do Dr. Caligari, juntando-os ao retrato quase realista de vidas banais, já explorado em O Último dos Homens

O ídolo é identificado, de imediato, nas cenas iniciais: Lola exuberante no cartaz matinal, inspirando até a senhora que o limpa; Lola fascinante em pequenos postais que circulam, de mão em mão, entre colegas de escola, na sala de aula.

O ambiente desta última é rígido, habitado por masculinidades que simultaneamente oprimem e são oprimidas, refletidas nos alunos e no ilustre professor Immanuel, cético e crítico das imagens de Lola que vê habitar, não só nas brincadeiras, mas nas mentes daqueles que tenta educar.  É aqui que O Anjo Azul surge especialmente interessante, sobretudo pela exploração dos desejos escondidos e pela consequente destruição de hierarquias que nos dividem, demonstrando a transversalidade das fragilidades de cada um.

Immanuel vai cedendo progressivamente ao imaginário burlesco protagonizado pela encantadora Lola – audaz e imperdoável, remetendo para figuras femininas suas sucessoras, nomeadamente Sally Bowles em Cabaret, de Bob Fosse –, ciente de que o mesmo é sintomático de uma palpável decadência social. Ainda assim, acaba incontrolavelmente atraído pelo caráter espontâneo e inebriante de Lola, provando as incongruências da atração e o desespero de um homem que não havia, até então, encontrado um rumo suficientemente satisfatório. 

O repentino abandono dos velhos costumes para abrir portas à frivolidade do cabaré é uma premissa inteligentemente proposta, podendo ser pensada como desconstrução de estruturas disciplinares inflexíveis: estas, relacionadas com as patriarcais, estão evidentes na necessidade sentida por Immanuel de exercer um poder controlador e violento no seio da sua vida íntima, acabando vítima do seu próprio comportamento. As repercussões deste último na vida individual e coletiva pintam o quadro de uma sociedade do espetáculo, fascinada pelo torpor que faz esquecer, aliviando efemeramente a carga de uma vida miserável. 

Ainda que a representação estereotipada da mulher sugira o seu papel enquanto pecado material que conduz o homem à desgraça, o filme não parece louvar nenhuma das posições, inicialmente antagónicas, do par protagonista – tanto Immanuel como Lola se deixam encantar pelas aparências de uma vida repleta de dinheiro e sensualidade, que acaba por se revela uma quimera inatingível, transformada em frieza e solidão. 

O fim de Immanuel é fruto de uma sociedade que implode para ver outrem desabar; do ímpeto, em última instância narcisístico, de consumo e entretenimento desenfreados, onde aquilo que, nos outros, aparente e honradamente desprezamos, é, na verdade, o que em nós mais tentamos camuflar e conter. 
Uma chamada de atenção que reverbera na atualidade: e não deixemos que surja como presságio, à imagem do velho palhaço triste que espreita durante todo o filme, esperando o seu futuro companheiro de palco. 




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