quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O Corno do Centeio (2023) de Jaione Camborda



Por António Cruz Mendes
 
 
O Corno do Centeio é um filme feito por mulheres sobre mulheres. Pela realizadora, pela Jaione Camborda, e também pela actriz, Janet Novás, com uma interpretação soberba da personagem principal do filme. As personagens masculinas têm um papel bastante irrelevante na sua narrativa. É de mulheres, do seu corpo, da sua condição, dos laços de solidariedade que entre elas se entretecem, aquilo de que o filme trata.
 
A acção decorre em 1971 e o seu contexto é o de uma comunidade piscatória na ilha de Arousa, na Galiza. A sequência inicial dá-nos as imagens e os sons de um parto. Grandes planos da mulher que vai dar à luz, do seu rosto contorcido pela dor, do seu corpo suado e dos gestos de conforto da parteira que a assiste. A sequência final é também a do nascimento de uma criança. Nas últimas imagens do filme, vemos Maria encostando ao seu rosto, emocionada, a cabeça do seu filho recém-nascido. Desta forma, e num sentido metafórico, o filme apresenta-se como uma celebração da vida e do papel da mulher na sua criação.
 
As sequências que vemos depois do parto inicial mostram-nos momentos de festa. Há música, danças, alegria. E é ainda do desejo e da vida que nos falam as imagens da mão de Maria, os seus dedos agarrando a terra, no clímax de uma relação sexual.
 
Mas, neste filme de luzes e sombras, no cerne da narrativa, está a morte de uma adolescente, presumivelmente ocorrida na sequência de um aborto. Entre o momento do aborto e o da sua morte, há um lapso temporal que o filme não documenta, mas todos sabemos que, antes da legalização da IVG, eram muito frequentes os casos de morte devidos a abortos praticados sem condições sanitárias. Luísa apela à parteira que a ajude a abortar, de outra forma fá-lo-á sozinha. Numa sequência belíssima (nunca será de mais encarecer a qualidade da luz e da fotografia de Rui Poças), vemos Maria, uma pequena mancha vermelha, perdida no vasto mar amarelo de um campo de centeio. Mais tarde, oferecerá a Luísa a beberagem que lhe provocará o aborto. Sabe-se que do corno ou esporão-do-centeio, um fungo que parasita cereais, se pode extrair uma substância que provoca contracções musculares e afecta o útero. Sabe-se também que o seu uso pode ser muito perigoso para a saúde. Assim, o corno do centeio, que dá o título ao filme de Jaione Camborda tem também, neste contexto, uma dimensão simbólica: nele se concretiza o tempo em que uma legislação conservadora, suportada por convicções de ordem religiosa que nem todos partilham, obrigava muitas mulheres a escolherem entre uma gravidez indesejada e o risco de morte.
 
Perseguida pela Justiça franquista, Maria atravessará uma fronteira percorrendo as passagens que são cenários do contrabando de mercearias com que se combate a pobreza. Também ela transporta consigo uma nova vida, que crescerá em lugares diferentes daqueles onde se encontravam as suas raízes.
 
O Corno do Centeio recebeu a Concha de Ouro atribuída ao melhor filme do Festival do prestigiado festival de San Sebatián. Depois das suas 71 edições, Jaione Camborda foi a primeira realizadora espanhola a receber esse prémio.
 
 
 
 
No grande plano do olhar inocente e suplicante de Luísa
 
 
 
 
 
 
e no plano de geral do campo de centeio onde Maria procura o corno, condensa-se o drama das mulheres que arriscam a vida para interromper uma gravidez indesejada. 
 
 
 
 

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