por Laura Mendes
Dando continuidade ao repto lançado em Amores Imaginários – ainda que tomando outros contornos –, Dolan adentra-se, novamente, nas tensões entre o real e o imaginado, a obrigação e o sonho. Num registo monumental – e bem mais sério –, o filme desenrola-se no tempo de uma conversa, estendido para o tempo em que se escuta e se vê acontecer a história de uma (meia) vida, em tom confessional, sempre emancipatório.
Laurence e Fred vivem à margem, inconformados com as exigências do mundo, mas ainda assim alinhando-se com a heteronormatividade que os mantém em consonância com a “normalidade” esperada. É a revelação de Laurence como mulher trans que incita a uma verdadeira disrupção, espoletando o questionamento acerca do que é que realmente sustenta uma vivência (conjunta) numa sociedade opressiva. A imaginação já não consegue, com os seus artifícios, sobrepor-se ao real, tornando-o suportável. A imaginação sucumbe, já não nos surge como libertação, mas como doloroso confronto com o desabar da linearidade e simplicidade aparentes.
Laurence Para Sempre não é, como já o disse o próprio Dolan, um drama em torno da transexualidade, do duro processo de mudança de sexo, mas sim sobre duas pessoas presas uma à outra – atentando nas maldições dessa prisão –, que se pertencem mutuamente porque se sentem e percebem, sobre os desafios sociais que têm de ultrapassar, os obstáculos moralistas, os binómios demarcados.
Apesar da (declarada) superficialidade em torno da jornada trans, é notável o respeito por estas pessoas e, sobretudo, pelo ser-se mulher. A mulher parceira, a mulher porvir, as mulheres de feminilidade excêntrica, desafiadora: Laurence, Fred, Mamy e Baby Rose. Nelas, sempre presente a necessidade de libertação face a um mundo opressivo e injusto - nervos, sentimentos e aflições à flor da pele, transpostos para sequências abaladoras, quadros marginais maravilhosos, envoltos em boémia, languidez, sobretudo refúgios para ser-se triste, decadente, face à insaciabilidade de um mundo demasiado limpo e exigente. Utilizando o contexto histórico a seu favor – o filme passa-se no intervalo entre 1989 e 2000 –, Dolan representa a ainda frágil consciência queer, funcionando esta abordagem como um comentário para o espectador contemporâneo – será que mudou muita coisa desde então?
É a partir de oscilações que o filme é construído, localizando a reflexão na relação metamórfica de Laurence e Fred. Opondo-se uma à outra, se Laurence sonha com uma nova vida em conjunto, Fred encontra-se no limbo entre fazer ou não parte, confrontando-se tanto com a opressão da família comum, como com o mundo desonesto e corrompido das aparências, perdendo-se na violência que brota das palavras de revolta que não são ditas. Gritos de raiva que são dirigidos tanto aos receosos que olham furtivamente – aqueles que vemos na sequência inicial –, como à lembrança, à saudade, ao arrependimento e frustração que envolvem uma relação que se vê falhada, mas eternamente querida.
Esta não é uma jornada individual, mas relacional – falamos do amor estrutural, mas irrealizável, aquele que, repudiado pelas regras sociais, é como quimera encantada que resistirá na capacidade de sonhá-lo e recordá-lo.
O falso final feliz, recuperando uma ciclicidade importante para esta história de amor, é tão angustiante como libertador, sabendo nós que a felicidade que se fez no passado diverge daquela que se pode construir no futuro.
Dolan atravessa – e faz-nos atravessar – um mar de amarguras, fazendo-nos pensar acerca do poder da realidade, de como o vai exercendo sobre a maneira como nos conformamos (ou não) com quem somos, como nos construímos nas e das pessoas, acabando por nos ensinar que o destino não é uma entidade omnipotente, antes brutalmente contaminada pelos fatores sociais e políticos que acompanham os amores (im)possíveis.
Laurence e Fred vivem à margem, inconformados com as exigências do mundo, mas ainda assim alinhando-se com a heteronormatividade que os mantém em consonância com a “normalidade” esperada. É a revelação de Laurence como mulher trans que incita a uma verdadeira disrupção, espoletando o questionamento acerca do que é que realmente sustenta uma vivência (conjunta) numa sociedade opressiva. A imaginação já não consegue, com os seus artifícios, sobrepor-se ao real, tornando-o suportável. A imaginação sucumbe, já não nos surge como libertação, mas como doloroso confronto com o desabar da linearidade e simplicidade aparentes.
Laurence Para Sempre não é, como já o disse o próprio Dolan, um drama em torno da transexualidade, do duro processo de mudança de sexo, mas sim sobre duas pessoas presas uma à outra – atentando nas maldições dessa prisão –, que se pertencem mutuamente porque se sentem e percebem, sobre os desafios sociais que têm de ultrapassar, os obstáculos moralistas, os binómios demarcados.
Apesar da (declarada) superficialidade em torno da jornada trans, é notável o respeito por estas pessoas e, sobretudo, pelo ser-se mulher. A mulher parceira, a mulher porvir, as mulheres de feminilidade excêntrica, desafiadora: Laurence, Fred, Mamy e Baby Rose. Nelas, sempre presente a necessidade de libertação face a um mundo opressivo e injusto - nervos, sentimentos e aflições à flor da pele, transpostos para sequências abaladoras, quadros marginais maravilhosos, envoltos em boémia, languidez, sobretudo refúgios para ser-se triste, decadente, face à insaciabilidade de um mundo demasiado limpo e exigente. Utilizando o contexto histórico a seu favor – o filme passa-se no intervalo entre 1989 e 2000 –, Dolan representa a ainda frágil consciência queer, funcionando esta abordagem como um comentário para o espectador contemporâneo – será que mudou muita coisa desde então?
É a partir de oscilações que o filme é construído, localizando a reflexão na relação metamórfica de Laurence e Fred. Opondo-se uma à outra, se Laurence sonha com uma nova vida em conjunto, Fred encontra-se no limbo entre fazer ou não parte, confrontando-se tanto com a opressão da família comum, como com o mundo desonesto e corrompido das aparências, perdendo-se na violência que brota das palavras de revolta que não são ditas. Gritos de raiva que são dirigidos tanto aos receosos que olham furtivamente – aqueles que vemos na sequência inicial –, como à lembrança, à saudade, ao arrependimento e frustração que envolvem uma relação que se vê falhada, mas eternamente querida.
Esta não é uma jornada individual, mas relacional – falamos do amor estrutural, mas irrealizável, aquele que, repudiado pelas regras sociais, é como quimera encantada que resistirá na capacidade de sonhá-lo e recordá-lo.
O falso final feliz, recuperando uma ciclicidade importante para esta história de amor, é tão angustiante como libertador, sabendo nós que a felicidade que se fez no passado diverge daquela que se pode construir no futuro.
Dolan atravessa – e faz-nos atravessar – um mar de amarguras, fazendo-nos pensar acerca do poder da realidade, de como o vai exercendo sobre a maneira como nos conformamos (ou não) com quem somos, como nos construímos nas e das pessoas, acabando por nos ensinar que o destino não é uma entidade omnipotente, antes brutalmente contaminada pelos fatores sociais e políticos que acompanham os amores (im)possíveis.

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