quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O ÚLTIMO DOS HOMENS (1924) de F. W. Murnau



Por António Cruz Mendes
 
Realizado poucos anos depois de O Gabinete do Dr. Caligari e de Nosferatu, O Último dos Homens, exemplifica uma nova vertente do expressionismo alemão. Em vez de acontecimentos fantásticos como aqueles que são narrados naqueles dois filmes, este filme de Murnau baseia-se num vulgar fait-divers: um porteiro de um hotel é destituído das suas funções. Além disso, o filme dispensa os intertítulos a que se recorreu nos filmes citados para sustentar a narrativa. Agora, são suficientes as imagens captadas por uma câmara que não está fixa, mas que se move permitindo aos espectador observar a acção de vários ângulos, proporcionando-lhe uma sensação de ubiquidade.

Entre as personagens do filme não encontramos assassinos demoníacos, mas apenas gente comum. Não vamos sequer chegar a saber o nome das pessoas que protagonizam esta história. Os espaços onde decorre a acção resumem-se à entrada e ao átrio dum hotel, aos seus lavabos e às ruas que conduzem ao bairro onde mora o porteiro. E, no entanto, Murnau encontra num pequeno facto, a perda do uniforme, motivo para a abordagem de um terrível drama humano. Um drama pessoal que, aliás, pode assumir uma dimensão política se o quisermos interpretar como uma metáfora da situação da orgulhosa Alemanha vencida na Guerra. Afinal, o porteiro, com o seu uniforme, assemelha-se a um General.

Este drama exprime-se através de um contraste de luz e sombra: as luzes brilhantes que iluminam o átrio do luxuoso hotel e a triste penumbra que envolve a pobreza das casas do bairro onde mora o porteiro. No entanto, aí ele é um senhor, porque o rico uniforme que ostenta aproxima-o, aos olhos das pobres gentes, da condição da classe dominante e conferem-lhe uma autoridade que todos respeitam. Quando perde o estatuto que a sua farda lhe confere, torna-se igual aos demais e é vítima do escárnio de todos. As trevas descem, então, sobre a sua vida e nessa vitória das sombras sobre a luz está tudo: um sentimento de perda, de decadência, da velhice, uma antevisão da morte.

 
 

A personagem central de O Último dos Homens é um porteiro de um grande hotel, cujo prestígio e dignidade se revela na magnífica farda que exibe.


 

A porta giratória oferece um jogo de espelhos que lhe permite rever-se no exercício da autoridade.com que recebe os mais ilustres hóspedes. Mas a porta giratória é também “a roda da vida”, símbolo das incertezas que marcam a condição humana. Será ela quem está no centro da cena fulcral onde assistimos à substituição do velho pelo novo porteiro do hotel.

 
 

Um dia, o porteiro, envelhecido, teve dificuldade em carregar uma mala mais pesada. É destituído das suas funções e remetido para a limpeza dos lavabos. Na imagem, vemo-lo, amesquinhado, diminuído, deslocado para uma zona marginal e obscura do enquadramento. A superfície luminosa do espelho reflecte, agora, a imagem da sua degradação.

 
 

Escarnecido pelos seus vizinhos…
 

 

… resta-lhe sonhar, embriagado, com a grandeza perdida.

 
 

Provavelmente por pressão dos produtores, a versão original termina com um Happy End. O porteiro recebe uma herança de um antigo cliente, milionário, e vamos encontrá-lo a jantar lautamente à mesa do restaurante do hotel.
 

Diz-nos José Manuel Costa em Cem Dias, Cem Filmes (catálogo de Lisboa 94 – Capital da Cultura), que, em cópias restauradas, esse final foi abandonado. O filme acaba como, talvez, Murnau, gostaria que ele acabasse, com a decadência do velho porteiro. No entanto, no filme que hoje apresentamos, respeita-se o argumento de Carl Mayer e incluem-se aquelas sequências finais.


 

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