quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

NOSFERATU (1922) de F. W. Murnau




por Alexandra Barros
 
O Nosferatu de Murnau é um dos mais icónicos filmes do movimento artístico do Expressionismo Alemão e do Cinema de Terror. Foi a primeira das várias adaptações para o cinema da obra “Drácula”, do escritor irlandês Bram Stoker, publicada em 1897. Ao longo das décadas seguintes, surgiram muitas outras adaptações, entre as quais: Drácula de Tod Browning (1931), Drácula de Terence Fisher (1958), Nosferatu: o Vampiro da Noite de Werner Herzog (1979) e Drácula de Bram Stoker de Francis Ford Coppola (1992).
 
Porque é que o filme de Murnau foi tão inspirador e ocupa um lugar tão relevante na História do Cinema? Nosferatu evoca questões que, desde tempos imemoriais, intrigam, fascinam ou aterrorizam o Homem e que - tal como os vampiros - continuam a atravessar os tempos: as poderosas forças da Natureza, o sobrenatural e o inexplicável, o destino, o pecado, o acaso, o instinto, o mal, o desejo, o amor. Existem forças naturais (ou sobrenaturais), não compreendidas pela razão humana, que tecem subterraneamente o destino dos homens? O mal existe? O sofrimento é uma consequência do pecado? O que é capaz de perder o Homem? O que é capaz de o salvar? Nenhuma destas questões é levantada de forma explícita. Murnau convoca estes temas através do poder simbólico do cruzamento ou recorrência de imagens, de ambientes que evocam as paisagens interiores das personagens, de uma linguagem visual expressiva.
 
O prólogo anuncia que vamos assistir a uma crónica do Grande Morticínio ocorrido em Wisborg em 1838. As primeiras imagens mostram um jovem casal apaixonado, Hutter e Ellen. Hutter colhe flores no jardim para oferecer a Ellen, mas esta repreende-o ternamente por ter matado umas flores tão bonitas. A bem-aventurança, no entanto, está prestes a terminar. Hutter coloca em marcha os acontecimentos que conduzirão a uma imensa tragédia, atraído pela ideia de ganhar muito dinheiro. Knock, o seu estranho patrão, pede-lhe que vá aos Montes Cárpatos vender, ao conde Orlok[1], a casa defronte da que o próprio Hutter e Ellen habitam. Ao informar Ellen que está de partida para a terra dos fantasmas, Ellen pressente o perigo que envolve a viagem. É com Ellen num estado de grande consternação que Hutter parte. Perto do destino, os habitantes locais tentam demovê-lo de se aproximar do castelo do conde, mas Hutter ignora os avisos. Ridiculariza as crenças dos populares e, num acto da mais absoluta soberba, atira ao chão um livro sobre vampiros, cujo subtítulo é “Fantasmas Terríveis e os Sete Pecados Mortais”. Depois de passar a ponte que os populares se recusam a atravessar, os acontecimentos insólitos começam a suceder-se. Uma carruagem que se desloca a uma velocidade sobrenatural oferece transporte a Hutter.
 
Os claros e os escuros invertem-se[2] suscitando a sensação de que o mundo se “avariou”. A porta do castelo abre-se sozinha. Orlok desliza de um ponto para outro do espaço instantaneamente. Se o amor é cego, a ganância também parece ser pois nenhum destes inauditos factos impede Hutter de tentar levar a cabo a sua missão. Ao apresentar ao conde a planta da casa que é suposto vender-lhe, Hutter deixa deslizar, inadvertidamente, para junto dos documentos, uma fotografia de Ellen. O acaso acaba por escancarar a caixa de Pandora que a visita de Hutter entreabrira. “A sua esposa tem um pescoço adorável.” De imediato o conde decide comprar a casa proposta. Entre o conde e Ellen estabelece-se um elo insondável, semelhante ao misterioso “spooky action at a distance”[3] de Einstein. O casal perfeito, Hutter e Ellen, transforma-se num enigmático triângulo amoroso. Quando a sombra predadora de Orlok se projecta sobre Hutter, Ellen pressente o ataque e chama Hutter. No entanto, é Orlok quem se vira “para ela”, parecendo responder ao chamamento. Orlok embarca num navio para ir ao encontro de Ellen, acompanhado por caixões carregados de terra (e ratos), justificando com propósitos científicos a estranha “bagagem”. Hutter, por seu lado, regressa a Wisborg por terra, cavalgando ao longo de rios, atravessando florestas e ribeiros. Nos portos onde atraca, o navio que transporta Orlok deixa a peste e a morte. No próprio navio também. Imagens do rebentar violento das ondas do mar reforçam a ideia do combate entre forças desiguais que decorre a bordo. Entretanto, em Wisborg, o professor Bulwer, que estuda os segredos da natureza e os seus princípios unificadores, dá uma aula sobre relações bióticas, particularmente, a predação. Uma planta carnívora atrai um insecto para o seu interior, de onde já não sairá, “abraçado” pelas folhas da planta, que se fecham lentamente sobre ele. Um pólipo aquático transparente e quase etéreo atrai para a sua “mão” aberta um organismo. Este é imediatamente envolvido pelos “dedos” tentaculares do pólipo, o qual se fecha num novelo onde atacante e vítima se tornam indistinguíveis. Numa cela da prisão, onde Knock enlouquecido foi encarcerado, o comportamento de uma aranha na sua teia assemelha-se ao pólipo do professor. Apesar dos seus métodos “vampíricos”, estes seres vivos não personificam o mal. Apenas a luta pela sobrevivência.
 
Quando o navio está prestes a atracar em Wisborg, Knock sente a presença de Nosferatu: “O mestre está próximo”. Na mesma altura, Ellen em transe, lança os braços para a frente para receber o seu amor: “Ele está a chegar. Tenho que ir ter com ele.” Não sabemos se os braços se estendem para Hutter ou Orlok.
 
Orlok instala-se na propriedade que comprou e vigia Ellen da sua janela. Murnau, que em diversas alturas, utiliza o ambiente para reflectir o estado interior das personagens, mostra Orlok enquadrado por um enxadrezado de grades. Orlok, preso nas grades da paixão e do desejo, mais do que um predador, torna-se presa. Ellen, por sua vez, assiste a partir da sua janela, ao desfile ininterrupto de caixões de concidadãos dizimados pela peste que o navio-fantasma espalhou. Para salvar Hutter e a cidade, Ellen oferece-se sacrificialmente. Abre a janela e estende os braços para a casa que tem atraído de forma obsessiva o seu olhar. Orlok responde ao chamamento. A narrativa visual do encontro de Ellen e Nosferatu, com o seu fabuloso uso de sombras, é lendária. É a sombra de Nosferatu, com garras alongadíssimas, que vemos subir as escadas, em direção ao quarto de Ellen. Sentindo a sua presença, Ellen leva a mão ao coração e cai sobre a cama. Onde esteve a mão de Ellen, vemos agora a sombra negra dos dedos longos de Nosferatu enleando o seu coração. Só o cantar do galo quebra o encantamento em que o sangue de Ellen mergulha Nosferatu. Os primeiros raios de sol, porém, entram já pela janela e desferem o golpe fatal. É Nosferatu quem, agora, espelhando o gesto de Ellen, leva a mão ao próprio coração, após o que se desfaz numa nuvem de fumo. Com Nosferatu, extingue-se também a peste, mas não o sofrimento. O amor e altruísmo de Ellen salvam Hutter e a cidade, mas ela morre nos braços do marido, acrescentando à colossal tragédia, a que os actos dele (ou do destino?) conduziram, um terrível golpe final.
 
 
[1] Nesta adaptação não autorizada da obra de Bram Stoker, Drácula chama-se Orlok.
[2] O negativo do filme é usado para obter esta inversão entre luz e escuridão, criando uma atmosfera irreal. 
[3] Em português, a tradução mais comum da expressão usada por Einstein para caracterizar o entrelaçamento quântico é “ação fantasmagórica à distância”.
 
 
 
 

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