terça-feira, 21 de maio de 2019

Madame De... (1952) de Max Ophüls



por João Bénard da Costa

Ela chamava-se Louise (Danielle Darrieux). Ele chamava-se André (Charles Boyer). De que eram Madame e Monsieur não saberemos nunca. 

É uma das muitas elipses geniais deste filme genial. Os protagonistas não têm apelido, esse apelido de que, na classe social a que pertencem (velha aristocracia francesa), certamente muito se orgulham. Por duas vezes, pelo menos, Max Ophüls, que realizou este filme em 1953, reforçou a elisão. Quando Louise diz como se chama ao Barão Fabrizio Donati (Vittorio de Sica), seu futuro amante, ouvimos distintamente «Madame De», mas o resto perde-se entre o barulho da música e das vozes da festa em que se conhecem. Quando, num grande jantar, cada um tem um cartão no lugar que lhe cabe à mesa, um copo colocado diante do de Louise tapa o apelido, deixando apenas a descoberto Madame De. 

Mesmo os nomes próprios (Louise e André) são pouco usados, já que ambos fazem parte do meio em que a mulher diz sempre vous quando se dirige ao marido e o marido diz sempre vous quando se dirige à mulher. Quando muito, mon cher ou ma chère. São a senhora de e o senhor de. Ela, muito senhora e muito de, ele muito senhor e igualmente muito de. Retratos arquetípicos de uma classe. Mas nunca – que me lembre – uma senhora tanto de, e um senhor tanto de acabaram a história, acabaram o filme e acabaram a vida a serem tanto uma mulher e um homem em toda a profundidade da acepção destas palavras. Max Ophuls disse-o: «A profundidade esconde-se sempre atrás da banalidade.» Pelo menos, no mundo deles, esse mundo de que, com os anos e com a vida, cada vez mais estou convencido de que Madame De... é a suprema expressão. Hoje, penso mesmo o que durante tanto tempo não pensei. Madame De..., penúltimo filme de Ophüls, é um filme melhor do que Lola Montès, último filme dele. 

A história (baseada num romance de Louise de Vilmorin, escritora que Ophüls amava) tece-se em torno de uma «anedota» relativamente conhecida e de que há múltiplas variações (um conto de Maupassant, uma peça de Ramada Curto, um filme de Hitchcock, que me lembre e do pé para a mão). Uma mentira para disfarçar um presente que um Senhor não pode dar a uma Senhora casada sem revelar que ela é menos Senhora e ele é menos Senhor. Em Madame De... o presente são uns magníficos brincos de brilhantes que, como as personagens, se transfiguram de sinal exterior em sinal interior

Eram uma jóia que Monsieur De em tempos dera à mulher. No início do filme (quase no início do filme) esta decide vendê-los para pagar umas contas a mais que quer esconder do marido. Razões fúteis em pessoas fúteis? Já lá vamos. Mas o ourives que os compra (ourives da família) trai o pequeno segredo de Madame e conta a história a Monsieur (ela dissera-lhe que os perdera). Para pequenos delitos, pequenas vinganças. Em segredo, Monsieur De compra os brincos pela segunda vez e oferece-os como cadeau d'adieu a uma namorada ocasional, uma das muitas que tivera e tem. 

A dita namorada parte para Constantinopla. É leve nos costumes e pesada no jogo. Num casino, em noite de má sorte, joga os brincos e perde-os. Voltam para a montra de um ourives. A ele os compra o Barão Fabrizio Donati, diplomata que acaba de ser transferido de Constantinopla para Paris, não conhece ainda nem a Senhora nem o Senhor e, obviamente, ignora a árvore genealógica dos brincos. Só depois, muito depois, se apaixona perdidamente por Madame De, tão perdidamente como ela se apaixona por ele. E, um dia ou uma noite, dá-lhe os brincos, sem sonhar que os devolve à antiga dona, sem ela sonhar como é que os brincos foram parar a Constantinopla. Como pode ela voltar a usá-los? Nada diz a Fabrizio. E ao marido diz que reencontrou os brincos, afinal esquecidos dentro de um par de luvas que há muito não usava. Mais um pequeno delito? Já não o era. E o que ela não sabe é que o marido passa a saber, por causa dessa mentira, quem lhe deu os brincos e porque é que os brincos lhe foram dados. Passa a saber mais: que Madame, que nunca tivera os brincos em especial estimação quando haviam sido apenas um dos muitos presentes dele, lhes dá agora, que são presente doutro – ou do outro – tão grande valor que é capaz de muito para os voltar a usar. Não sabe, ainda, que é capaz de tudo

Para grandes delitos, grandes vinganças. Monsieur De obriga a mulher a dá-los como presente de casamento a uma parente pobre e de quem nem um nem outro gostavam por aí além. E, quando assiste à dádiva, percebe que não arrancou à mulher apenas um prolongamento do corpo. Arrancou-lhe a alma, ao arrancar-lhe o único sinal sagrado do amor sagrado que ela vive, ou de que ela morre, com Fabrizio. 

A prima distante não guarda os brincos por muito tempo. Troca-os por dinheiro, que lhe faz bem mais falta. E Madame De compra-os ao mesmo ourives pela terceira vez, para os usar até à morte e para os pôr aos pés da Virgem na fria madrugada em que Fabrizio e Monsieur De se batem em duelo. Fabrizio morre, Madame De morre («Elle meurt», diz a criada, em francês de Mossuet). E a última imagem do filme são os brincos junto à Virgem, na penumbra de uma igreja. Como há 40 anos escreveu Pedro Tamen: «Os brincos, mantendo do princípio ao fim a missão de sinal que lhes compete, vão sendo sinal de várias realidades cada vez mais expurgadas (…) de leviandade passam à doação.» E compara o papel deles no filme ao do coche de La Carozza d'Oro

Estou a exagerar e transformo velhas histórias de cornos de cornos de cornos numa meditação sobre o sagrado? Quem só conheça a história, pode temer que sim. Quem viu o filme, sabe que não. Os brincos que vimos no princípio, escolhidos entre tantas outras jóias de que Madame De em off (ainda não a conhecemos) vai dizendo lugares-comuns como «Antes morrer do que ficar sem eles», «É impossível desfazer-me disto», são e não são os mesmos brincos de que, no final, só se separa para morrer, ou para que Deus não deixe morrer o homem que amou mais do que a vida. 

Como Madame De e Monsieur De não são (e são) as mesmas pessoas que eram no início. No início, vemo-los imóveis, tal como, neles mesmos, a classe os imobilizou. Madame De, depois de a ouvirmos a apreciar casacos de peles e leques de madrepérola, vemo-la, pela primeira vez, num espelho de prata, com a cara levemente coberta por um véu. Monsieur De, antes de o vermos em carne e osso, vemo-lo objectivado, imóvel na farda de gala, no grande quadro que está por cima do fogão. A um e outro somos introduzidos, como se fossem objectos de um décor. Pessoas que não têm dentro, só têm fora. 

Monsieur De tem as suas aventuras, nada platónicas, mas nada perturbadoras da «felicidade» do casal. Madame De desperta paixões todas as noites, paixões que ficam platónicas, porque ela sabe tão bem desencadeá-las como dominá-las. Amam-se? Como dirá, depois, Monsieur De, o amor entre eles só superficialmente é superficial. Só as pessoas frívolas julgam frívola a frivolidade. 

Mas – de repente – e é mesmo de repente – entra no filme Fabrizio Donati. E, ao contrário dos outros, o «objecto imprevisto», o homem que traz os brincos de volta, sem saber o que traz nem o que volta, não nos é mostrado imóvel. Gesticula muito, fala muito alto, protesta, em Constantinopla, contra contrariedades insignificantes. No final, tudo será ao contrário: Monsieur e Madame De agitam-se cada vez mais e é Fabrizio quem se imobiliza, incapaz de qualquer gesto contra a morte que sabe ser o único termo para quem destruiu um equilíbrio ancestral. 

Fabrizio, que foi o único que obteve os brincos por acaso, é o autor dos gestos que tudo determinam. E o filme passa de comédia a tragédia na sequência genial (um baile) em que Madame De, depois de ter mentido ao marido, quando lhe diz que achara os brincos «perdidos», mente a Fabrizio quando lhe conta outra história para explicar que pode usar os brincos, sem pôr em causa nem a honra dela nem a honra do marido. «Un mensonge?» pergunta, cúmplice e envaidecido, Fabrizio. «Ça sera notre mensonge», responde-lhe Madame De. Mas, como já sabemos, não é. Pelo contrário. É a primeira mentira de Madame De a Fabrizio, a mentira que não pode compartilhar com ninguém, nem com o marido nem com o amante. A mentira que a faz ficar sozinha. A mentira que faz ficar todos sozinhos. 

A partir dela, a solidão invade o filme. Monsieur De a tentar desesperadamente fingir que não se passou nada e que Fabrizio não será mais do que o último cri de coeur de Madame. Fabrizio, a descobrir que o papel de «marido enganado» lhe coube mais a ele do que a Monsieur e a não o perdoar a ela. E Madame De a saber que perdeu para sempre um e outro e sobretudo que se perdeu a si própria e ao lugar dominante num mundo que julgara representação e descobre destino. Por isso, a sequência mais pasmosa do filme é aquela em que, sozinha na praia deserta, onde tenta esquecer Fabrizio, a vemos vestida de preto, caminhando de lá para cá e de cá para lá, amortalhada nos seus leves véus, com as ondas ao fundo a quebrarem-se contra as rochas. 

O duelo final é a última representação, pois que Monsieur De não desafia o rival por causa da mulher, mas o provoca por um gratuito pretexto político, que exige essa reparação. Mas, com a câmara rente ao solo a seguir os passos do juiz, nenhum deles representa quando se enfrentam. Nem representa Madame De que nada impede – nem o medo do escândalo, nem a doença, nem o medo da morte – de correr para junto dos dois homens, sabendo que a qualquer deles não chegará nunca mais. E nem precisa de ver quem caiu, para morrer, depois do primeiro tiro, suspensa do segundo que não se ouve, não houve e nunca haverá. 

«Le malheur s'invente» dissera-lhe, a certa altura, Monsieur De, quando lhe pede para ter cuidado. Mas inventa-se tanto como o bonheur que até aí fingiram viver. Basta um acaso para mudar um no outro. E se é possível dar cabo da invenção da felicidade, ninguém nunca conseguiu inventar remédio contra a invenção da infelicidade. 

«Le hasard n'a d'extraordinaire que le fait d'être normal.» Tudo cabe nisso. E é realmente extraordinário. 

Não me tirem este filme. Não me tirem deste filme. 

in «Os Filmes da Minha Vida», 2º Volume, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2007, pp. 179-184.

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