terça-feira, 18 de agosto de 2026

À Flor do Mar (1986) de João César Monteiro



por Jessica Sérgio Ferreiro
 
Em Veredas e Silvestre, exibidos nas duas primeiras semanas de agosto, João César Monteiro dedica-se ao “interior” (geografia) e ao “anterior” (tempo), como João Bénard da Costa já tinha identificado na sua análise para a Revista Foco. Se, nestes dois primeiros filmes do ciclo, encontramos narrativas que mesclam fábulas, lendas e textos clássicos, contendo pontuações subversivas e interjeições “proto-feministas” (cujos diálogos contaram com a mão de Maria Velho da Costa) num contexto do passado histórico conservador, em À Flor do Mar o cenário muda. Aqui, o espaço de acção deixa de ser masculino para se tornar feminino, num cenário contemporâneo de uma Algarve soalheiro e já turístico.
 
A protagonista, a bela e jovem viúva italiana Laura Rossellini (Laura Morante), passa o verão na casa de férias da família, no Algarve, com os filhos pequenos e as cunhadas, Sara (Manuela de Freitas) e Rosa (Teresa Villaverde), esta última ainda com traços de adolescente. A quietude daquela paisagem familiar, envolvida pelo calor dourado e pelo azul-claro que emolduram a vivenda alva, é perturbada quando Laura decide acolher um misterioso náufrago ferido: Robert Jordan (Philip Spinelli), um agente americano cujo nome remete directamente para a personagem de Hemingway em Por Quem os Sinos Dobram (1940). Em simultâneo, a agitação instala-se na região através das notícias da rádio, que relatam o assassinato do dirigente da Organização de Libertação da Palestina, Issam Sartawi – evento verídico ocorrido num hotel de Albufeira, em 1983. Assim, o espaço idílico e protegido do reduto familiar acaba por ser conspurcado por esta dupla ameaça externa.
 
O apelido da protagonista, Laura Rossellini, remete-nos directamente para o realizador italiano Roberto Rossellini – associação reforçada pelo facto de o seu filho se chamar Roberto. Torna-se, assim, inevitável referir o cineasta e o seu célebre Viagem em Itália (1954) e estabelecer uma relação directa com esta obra de João César Monteiro. Naquele filme, acompanhamos o confronto do tédio e da alienação de um casal da alta burguesia, protegido pelo seu privilégio, com a realidade popular, pulsante e crua do mundo exterior. Em À Flor do Mar, deparamo-nos exactamente com a mesma bolha burguesa aborrecida e estival: um isolamento dourado que tenta ignorar o Algarve envolvente e, acima de tudo, o estado violento da política global, materializado no homicídio verídico do líder palestiniano. É a figura do “estrangeiro”, o náufrago ferido, quem vem furar essa bolha, rasgar a aparente intransponibilidade desse refúgio familiar. Já no último terço do filme, esta “filiação cinéfila” é explicitada durante o jantar que junta o agente americano, Sara e Laura. Quando Sara recorre ao provérbio “todos os caminhos vão dar a Roma”, Laura responde prontamente: “Roma, cidade aberta”, uma alusão directa à obra-prima, de 1945, de Rossellini. O paralelismo conceptual é implacável: tal como a Roma da Segunda Guerra Mundial, após declarar o seu estatuto de “cidade aberta”, se encontrava na realidade ainda invadida e ocupada pelos nazis, também aquela moradia descobre que a sua insularidade é frágil e permeável. A casa desarmou-se; tornou-se ela própria uma cidade aberta, vulnerável e totalmente exposta à realidade do mundo exterior (explícita na cena em que entram abruptamente na casa de férias homens armados, em plena luz do dia).
 
Contudo, a narrativa desenrola-se, maioritariamente, de forma subtil, no compasso vagaroso e contemplativo do idílio burguês. O estrangeiro é tido como uma figura atraente e exótica, exercendo sobre Laura Rossellini uma sedução latente, “à flor da pele”. Com enorme contenção, a protagonista resiste a esse impulso, sacrificando o seu desejo para preservar a paz e a aparente pureza da casa familiar. Esta atmosfera de candura e melancolia é esteticamente sublimada pela cadência meditativa da música de Bach e, sobretudo, pela direcção de fotografia de Acácio de Almeida, cujo trabalho luminoso e poético evoca a textura de quadros vivos, estabelecendo uma ponte directa com o falecido marido de Laura, que era pintor. Além da poesia cinematográfica, a música complementa a narrativa, como, por exemplo, o trecho de Così fan tutte, de Mozart, que aponta para o cinismo moral e o fracasso perante a tentação, antecipando o colapso iminente desta cidadela. Instala-se, no final, a ironia trágica que amarra a narrativa à ópera Norma de Vincenzo Bellini, referência explícita feita no início do filme. Poder-se-ia deduzir que Sara (Manuela de Freitas) é Norma, devido à sua postura estoica, protectora e severa, assumindo o papel da sacerdotisa vestal, aludido na cena em que esta irrompe na sala de jantar vestida como Maria Callas no papel de Norma. Tal como na ópera, o amante desvia o seu interesse para a jovem noviça, também em À Flor do Mar o náufrago Robert Jordan acaba por consumar o clímax dramático-erótico ao desviar o seu foco para Rosa (Teresa Villaverde), a cunhada jovem e cândida[1]. Ao oferecer-se e ser tomada pelo estrangeiro, rompe-se em definitivo o cerco protector e a alvura que aquela casa reflectia na sua superfície. A ilusão do refúgio cerrado e intocável naufraga e desmorona-se por dentro (se bem que já estivesse em ruínas e em luto), “liberta-se” nas suas camadas profundas, é uma “cidade aberta”: a imunidade burguesa foi corrompida (ou já o era) e exposta, restando às personagens aprender a habitar a melancólica felicidade que lhes sobra, como sentenciado no final do filme.
 
Por fim, o título da obra de João César Monteiro revela subliminarmente a trama: remete para a célebre nau quinhentista Flor do Mar, a majestosa embarcação que naufragou em 1511, submersa nas profundezas do mar insondável, juntamente com o maior tesouro do império português e procurados ao longo de séculos. Como aquele barco soçobrado, a moradia algarvia converte-se no espelho contemporâneo desse mesmo destino marítimo: uma redoma dourada que afunda e desaparece face à incontornável violência da realidade.


[1] A análise cinematográfica e ensaística estabelece frequentemente uma relaçao directa entre a intrusão deste náufrago e o filme Teorema (1968), de Pier Paolo Pasolini. Em ambas as obras, um estrangeiro enigmático infiltra-se num microcosmo burguês, seduzindo os seus membros e provocando o colapso irreversível das suas estruturas morais e familiares. Contudo, a crítica tende a sublinhar que João César Monteiro opera uma variação mais positiva e poética do que o realizador italiano.

 

Folha de Sala

 

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