sábado, 17 de setembro de 2016

27ª sessão: dia 20 de Setembro (Terça-Feira), às 21h30


A nossa próxima sessão é Summer of '42, filme sobre o crescimento e a perda da inocência de um rapaz na Ilha do Nantucket, que foi também de onde Gordon Pym e Ishmael partiram para as suas aventuras e se tornaram homens em mares revoltosos. Decorrido nos anos 40, mostra ainda as feridas de um país em guerra infligidas em quem fica para trás e sofre em completa solidão. Tudo isto pelos olhos de adolescentes confusos e curiosos que só adultos e recordando é que conseguem dar algum sentido ao que se passou nesse Verão de quarenta e dois.

Para nos apresentar o filme teremos Cauby Monteiro, crítico de cinema, tradutor e colaborador da revista FOCO, que nos gravou um vídeo especialmente para esta sessão.

O realizador de Summer of '42, Robert Mulligan, começou a sua carreira na televisão, realizando episódios de Suspense, Studio One e da aclamada série Playhouse 90, onde trabalharam também John Frankenheimer, Sidney Lumet e Arthur Penn antes de enveredarem pelo cinema. Mulligan nasceu no Bronx e demorou algum tempo a decidir sobre que carreira queria seguir. Como o próprio explicou ao Columbia Daily Spectator, nos anos 70, "demorei tempo a apalpar o terreno. Primeiro pensei que ia ser escritor, depois pintor, depois jornalista, padre. Mantive um diário quando era miúdo, escrevi contos, esse tipo de coisas. Nunca falei disso a ninguém, não mostrei a ninguém, não do mundo de que vim. Bom, talvez tenha mostrado à minha mãe. Mas ninguém da minha família estava no mundo do entretenimento. Iam ver filmes, ouviam a rádio, mas o meu pai nunca passou da escola primária, a minha mãe nunca acabou o liceu.

"Costumava ler muito quando era miúdo. De livros de banda-desenhada a livros livros. Devia ter à volta de doze, treze. A minha tia tinha uma colecção que tenho a certeza que veio de uma oferta de livros qualquer, porque ninguém da minha família lia mesmo. Era uma colecção de Dickens: tudo o que ele escreveu. Li tudo, não sei quantas vezes. Estou convencido de que se Charles Dickens estivesse vivo e de saúde e a viver em Los Angeles, seria o melhor produtor-realizador-argumentista de filmes de sempre. Eu acho que se alguém quer mesmo aprender como contar uma história em imagens, deve ler Dickens. Pelo menos uma ou duas vezes por ano."

Em entrevista ao Film Journal International, durante a rodagem do seu belíssimo último filme, The Man in the Moon, em 1991, Mulligan confessou que quando começou a fazer filmes "era penosamente ingénuo. Não posso falar pelos outros, mas eu era muito convencido, inacreditavelmente confiante, sem munição suficiente no cinto para o justificar. Mas avancei despreocupadamente. Era muito jovem. Queria fazer 32 takes no primeiro dia, e fiz. Estava preparado. Não perdia tempo. Conseguia uma cena em dois ou três takes e, se não conseguisse, então alguma coisa estava mal. Havia aquele sentido de energia, lá. Acho que todos os tipos da TV o tinham. A frase de Paul Newman sobre Sidney (Lumet), de que realiza como se estivesse estacionado em segunda fila, acho que nos descreve a todos. Eu gosto de trabalhar rápido. Gosto de ensaios, montes deles. Quanto mais ensaios tem um actor, mais seguro se torna. Não acredito em actores que se poupam para a luz vermelha. Quero experimentar a interpretação para que saibamos se a cena funciona. Se um actor é como um mergulhador a saltar de uma prancha de mergulho, não quero que ele me diga que consegue fazer o salto mas não o vamos ensaiar. Eu digo que se consegue mergulhar melhor quando se sabe para onde vai. O argumento com que confronto esse tipo de actores é: E as surpresas que podem acontecer quando se sabe para onde se vai? O que é que pode acontecer numa cena além do que é bem comum e óbvio? Eu acho que todos os realizadores de que estivemos a falar tiveram o mesmo sentido de preparação, a capacidade para se sentarem com um actor e o ouvirem a falar sobre o que quer fazer. Mas não falemos demais. Vamo-nos levantar e fazê-lo."

No volume dos realizadores do Dictionnaire du Cinéma, Jean Tulard descreve Mulligan como "uma personalidade sensível e inteligente cuja obra força a estima. Os heróis de Mulligan, já o dissemos, são a maior parte das vezes solitários, desfasados que não se conseguem integrar na sociedade (Steve McQueen em Errando pelo Caminho, o Índio de Emboscada na Sombra, o gangster de The Nickel Ride ou ainda o jovem jogador de baseball de Vencendo o Medo). Mulligan retrata as suas personagens em semi-tons. A sua delicadeza de toque permite-lhe expressar tudo, especialmente no comovente e justamente célebre Summer of '42. Baralhou as cartas uma só vez, criando um clima de violência e de terror pouco habitual nele: inspirando-se num romance de Tom Tryon, assina O Outro, história de dois irmãos gémeos, em que um representa o mal e o outro o bem; um está morto, o outro sobreviveu. Mas qual ? Opondo a doçura das paisagens ao carácter traumático da acção, ligando o imaginário ao real num jogo de interacção encantador, cria um clima de horror inexplicável e de mistério não dissipado, que deixa bem para trás todos os filmes de terror. Os seus últimos filmes decepcionaram e permanecem inéditos em França. Clara's Heart, no entanto, passou na televisão."

Até Terça-Feira!

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